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7 de março de 2015

Djessou Mory Kanté “River Strings: Maninka Guitar” (Sterns, 2014)



Eric Charry, autor de “Mande Music”, uma influente antologia obviamente consagrada à música mandinga, introduz deste modo o subcapítulo em que toma por tema os principais estilos de expressão à guitarra da era moderna: “A divisão administrativa da pátria mandinga entre Mali e Guiné gerou importantes ramificações nas formas de guitarrear dos dois países.” Libertando-o do fardo da geopolítica e mais ainda do da etnomusicologia, cedo se percebe ao que se refere: de modo a obter o favor e o patrocínio dos ricos e poderosos, quando se separaram os membros da federação da África Ocidental Francesa, os músicos do lado maliano tiveram de rumar para norte, fronte ao vento, em direção a Bamako, sujeitando-se àquele som de espanta-espíritos em que nas corás ecoavam os alaúdes do Sahel; já os que deram por si em território guineense desviaram-se para sudoeste, cortando o meridiano e a savana até Conacri e navegando pelas ondulantes melodias do balafon. O que, simplificando, explica a preferência de uns pela escala pentatónica e de outros pela escala maior. Ou seja, para melhor situar a peleja, comparada com aquelas melancólicas e ocres ruminações que Ali Farka Touré esboçava bem para lá de Tombuctu, por exemplo, esta guitarra de Djessou Mory Kanté, de caráter jovial e convivial, é aqui pintada com os tons do hino à alegria. Nada que, em finais dos anos 90, na Popular African Music, de Günter Gretz, não tivesse já deixado patente em “Guitare Sèche”, a sua primeira edição em nome próprio após uma mão-cheia de gravações com Kanté Manfila, o mais famoso dos seus irmãos. Mas, também, algo que se explica apenas pela data desta sua passagem pelo estúdio de Salif Keita, seu principal empregador: maio de 2012, antes da epidemia do ébola. Isto é, os dois anos e meio que a Sterns demorou a lançar este disco serviram para o transformar numa improvável missa por uma Guiné largada no patíbulo.

25 de outubro de 2014

Les Ambassadeurs du Motel de Bamako (Sterns, 2014)



Foi uma espécie de propedêutica para tempos de paz, o melhor da produção dos Ambassadeurs. Captada entre 1975 e 1977, cá está a cartilha do pão, habitação, saúde e educação, mas aqui se encontra, também, muito daquilo que ultrapassa panegíricos encargos da praxe: num momento em que se procurava identidade nacional, apresentava-se um quadro referencial marcado por multietnicidade e pluriculturalismo; quando se estimulava o orgulho pátrio, promoviam-se valores comuns a toda a África Ocidental; numa conjuntura em que se impunha a apologia política, e sob influência direta do tenente Tiékoro Bagayoko, patrono da banda e mandante no regime de Moussa Traoré, abordava-se a problemática da emigração e falava-se na obrigação de transparência no exercício de cargos públicos. A música, essa, não era menos transgressora. Isto é, o palco do bar do Motel de Bamako não era só a expressão da doutrina governamental de incentivo às artes sob o folclórico signo da ‘autenticidade’. Pelo contrário, mantendo uma disposição mandinga, estes embaixadores – Salif Keita, Manfila Kanté, Idrissa Soumaoro, Osmane Dia, “Vieux” Sissoko, Kélétigui Diabaté ou Amadou Bagayoko, malianos, guineenses e senegaleses – faziam incursões na tradição afro-cubana e na chanson, emulavam as bandas inglesas no seu processo de aculturação do r&b, invocavam o nacionalismo afro-americano e levavam a que os seus ouvintes descobrissem as múltiplas dimensões da sua própria música através da música dos outros. Este verão, reuniram-se os sobreviventes para concertos na Europa enquanto no Mali desaparecia tudo aquilo pelo que pugnaram.