Eric Charry, autor de “Mande
Music”, uma influente antologia obviamente consagrada à música mandinga,
introduz deste modo o subcapítulo em que toma por tema os principais estilos de
expressão à guitarra da era moderna: “A divisão administrativa da pátria
mandinga entre Mali e Guiné gerou importantes ramificações nas formas de
guitarrear dos dois países.” Libertando-o do fardo da geopolítica e mais ainda
do da etnomusicologia, cedo se percebe ao que se refere: de modo a obter o
favor e o patrocínio dos ricos e poderosos, quando se separaram os membros da
federação da África Ocidental Francesa, os músicos do lado maliano tiveram de
rumar para norte, fronte ao vento, em direção a Bamako, sujeitando-se àquele
som de espanta-espíritos em que nas corás ecoavam os alaúdes do Sahel; já os
que deram por si em território guineense desviaram-se para sudoeste, cortando o
meridiano e a savana até Conacri e navegando pelas ondulantes melodias do balafon. O que, simplificando, explica a
preferência de uns pela escala pentatónica e de outros pela escala maior. Ou
seja, para melhor situar a peleja, comparada com aquelas melancólicas e ocres ruminações
que Ali Farka Touré esboçava bem para lá de Tombuctu, por exemplo, esta
guitarra de Djessou Mory Kanté, de caráter jovial e convivial, é aqui pintada
com os tons do hino à alegria. Nada que, em finais dos anos 90, na Popular
African Music, de Günter Gretz, não tivesse já deixado patente em “Guitare Sèche”,
a sua primeira edição em nome próprio após uma mão-cheia de gravações com Kanté
Manfila, o mais famoso dos seus irmãos. Mas, também, algo que se explica apenas
pela data desta sua passagem pelo estúdio de Salif Keita, seu principal
empregador: maio de 2012, antes da epidemia do ébola. Isto é, os dois anos e
meio que a Sterns demorou a lançar este disco serviram para o transformar numa improvável
missa por uma Guiné largada no patíbulo.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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7 de março de 2015
25 de outubro de 2014
Les Ambassadeurs du Motel de Bamako (Sterns, 2014)
Foi
uma espécie de propedêutica para tempos de paz, o melhor da produção dos
Ambassadeurs. Captada entre 1975 e 1977, cá está a cartilha do pão, habitação,
saúde e educação, mas aqui se encontra, também, muito daquilo que ultrapassa panegíricos
encargos da praxe: num momento em que se procurava identidade nacional,
apresentava-se um quadro referencial marcado por multietnicidade e
pluriculturalismo; quando se estimulava o orgulho pátrio, promoviam-se valores
comuns a toda a África Ocidental; numa conjuntura em que se impunha a apologia
política, e sob influência direta do tenente Tiékoro Bagayoko, patrono da banda
e mandante no regime de Moussa Traoré, abordava-se a problemática da emigração
e falava-se na obrigação de transparência no exercício de cargos públicos. A música,
essa, não era menos transgressora. Isto é, o palco do bar do Motel de Bamako não
era só a expressão da doutrina governamental de incentivo às artes sob o
folclórico signo da ‘autenticidade’. Pelo contrário, mantendo uma disposição
mandinga, estes embaixadores – Salif Keita, Manfila Kanté, Idrissa Soumaoro,
Osmane Dia, “Vieux” Sissoko, Kélétigui Diabaté ou Amadou Bagayoko, malianos, guineenses
e senegaleses – faziam incursões na tradição afro-cubana e na chanson, emulavam as bandas inglesas no
seu processo de aculturação do r&b, invocavam o nacionalismo afro-americano
e levavam a que os seus ouvintes descobrissem as múltiplas dimensões da sua
própria música através da música dos outros. Este verão, reuniram-se os
sobreviventes para concertos na Europa enquanto no Mali desaparecia tudo aquilo
pelo que pugnaram.
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