Há 20 anos, quando se estreou com “Who is It?”, Laubrock
espelhava a reação de amantes de jazz do mundo inteiro à menção do seu nome. Na
altura, fazia uma versão de ‘Com Açúcar, Com Afeto’, de Chico Buarque, mas,
hoje, dada a importância que adquiriu no circuito internacional e os projetos
em que se vê envolvida, só mesmo Tom Rainey, o marido, para cantar “Com açúcar,
com afeto/ Fiz seu doce predileto/ Pra você parar em casa/ Qual o quê!” O que
explica a necessidade de tocarem em conjunto (Rainey é baterista), como na última
edição do Jazz em Agosto. São situações em que é normal projetar-se a sombra da
intimidade, com o reconhecimento mútuo que isso implica, embora, por vezes, se
pareça antes convocar as igualmente previsíveis infidelidades que tamanha
proximidade gera. Takase, que também costuma dar concertos com o marido (o
pianista Alexander Von Schlippenbach), sabe bem o que é ter de lidar com estas
continuidades e descontinuidades e com as diferenças que os membros de um casal
têm de aceitar um no outro – com tudo o que o dueto habitualmente promete e o
muito que na sua prática fica por cumprir. Em estúdio, o desafio será
contrariar a sensação com que se fica, ao vivo, aqui e ali, sempre que dois músicos
se reúnem, buscam um espaço comum, expõem e empurram reciprocamente para fora das
respetivas zonas de conforto, acusam o desgaste, contabilizam perdas e acabam a
conhecer-se profundamente e a estranhar-se em partes iguais. Talvez por se considerarem
integrantes de algo maior e mais complexo do que aquilo que regra geral ata e
desata as pessoas umas às outras, Laubrock e Takase não caem nessa armadilha e,
ao invés, vinhetas como ‘Dark Clouds’, ‘Sunken Forest’ ou ‘Carving Water’
assemelham-se a instantâneos de paisagens e de lugares mais ou menos
imaginários, que, como dizia Clarice Lispector, em “Água Viva”, são
“simplesmente já”. Nem por acaso, o último tema do disco, que tanto fala à
História do jazz, chama-se ‘Luftspiegelung’, uma palavra alemã para miragem.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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1 de fevereiro de 2020
3 de agosto de 2019
Agenda: Jazz em Agosto
Pinta-se o cartaz do Jazz em Agosto com as cores do
PREC, conquanto se troque o R da revolução pelo da resistência – só falta no
elenco a banda de “Palavras ao Vento” e na banca da livraria o “Resistir é
Preciso”, de Alípio de Freitas. “[Resistir] É um libelo contra a opressão como
forma de vida política, contra o silêncio das mordaças, contra todos os
processos de aviltamento do homem, contra a corrupção ideológica erigida em
serviço à comunidade”, dizia o autor. Agora, fortificando com trincheiras anfiteatros
e auditórios, e porque alvitra o festival que “o jazz sempre teve na sua raiz a
semente da contestação e da mudança”, põem-se aí bandos de desalinhados a
conjugar o verbo à sua maneira. Sosseguem os espíritos, Pacheco Pereira não terá de
ir de propósito à Gulbenkian recolher materiais para a Ephemera – aqui, como é
óbvio, e independentemente de filiações partidárias, privilegia-se sobretudo uma
música que intervém musicalmente (que não só politicamente) e em cujo sistema
sanguíneo circulam células de sedição desde a nascença. Atente-se ao que há uns
anos disse Daniel Rosenboom sobre esses seus Burning Ghosts [na foto] que tocam hoje às 21h30
no Anfiteatro ao Ar Livre: “Face aos males que nos atingem, criar arte – e música
expressionista em particular – pode parecer um modo muito abstrato de reagir. E
longe de mim sugerir que a nossa música representa uma ação efetiva contra a
violência policial, a discriminação ou a desigualdade – mas sinceramente acredito
que pode levar à reflexão. E se o nosso público identificar esses gatilhos, então,
ficará a um passo de lidar com questões muito complicadas.” Claro está, desde
que consiga sobreviver à câmara de tortura sonora a que Rosenboom, Jake
Vossler, Richard Giddens e Aaron McLendon o submete e em que torna palpáveis os
seus piores pesadelos – talvez o ponto seja esse. Antes (18h30), no Auditório
2, com mais subtileza e menos premeditação, tocam Ingrid Laubrock e Tom Rainey
– aliás, a respeito de uma data do duo, e após lhe ter sido perguntado o que esperar
de um concerto seu, Laubrock respondeu: “Idealmente nada em particular, pois ao
improvisarmos tentamos pôr em relevo o elemento da surpresa.” Semelhante
desafetação deverá apoderar-se amanhã de Abdul Moimême (Sala Polivalente, 17h)
e do quarteto de Ricardo Toscano, Rodrigo Pinheiro, Miguel Mira e Gabriel
Ferrandini (Auditório 2, 18h30), gente que trata da emancipação mais ao nível
do indivíduo que do coletivo, que é precisamente, e por sua vez, o objeto da
flautista e compositora Nicole Mitchell: à noite (21h30), à frente de um
octeto, ao colocar em cena as contrastantes forças de “Mandorla Awakening II”, dramatizará
um alerta muito simples, que é o de que a atual tendência para a homogeneização
nas sociedades ocidentais mais não é do que uma forma de colonizar a cultura de
todo o mundo e de conceder automaticamente um estatuto marginal a toda e
qualquer minoria que ouse articular a sua própria diferença. Pois, de outra
coisa não trata o trio Abacaxi (de Julien Desprez, Jean-François Riffaud e Max
Andrzejewski, que se apresenta quinta, às 18h30, no Auditório 2), o sexteto
Freaks (liderado por Théo Ceccaldi, toca também dia 8, às 21h30, no Anfiteatro
ao Ar Livre), o duo de percussão de Joey Baron e Robyn Schulkowsky (sexta,
18h30, Auditório 2) e o estelar sexteto Triple Double, com Tomas Fujiwara,
Gerald Cleaver, Mary Halvorson, Brandon Seabrook, Ralph Alessi e Taylor Ho
Bynum (sexta, 21h30, Anfiteatro ao Ar Livre). O festival termina no dia 11.
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11 de março de 2017
Mary Halvorson Octet “Away With You” (Firehouse 12, 2016)
Com Mary
Halvorson as coisas nunca são bem o que parecem. Num tratado humorístico acerca
da origem das espécies criativas norte-americanas poder-se-ia, até, falar de um
carácter ambígeno na sua produção: Mary vem de Brookline, no Massachusetts,
embora dê mostras de proceder de estirpes artísticas naturais de Brooklyn, em
Nova Iorque. Ou seja, entre muitas outras coisas, e à primeira vista, sobressai
na sua música uma adesão simultânea a duas condições radicalmente diferentes:
uma que se vê obrigada à formalidade e outra que tudo deve à coloquialidade.
Prolongando a analogia, e generalizando, diga-se por exemplo que Brookline,
rodeada de universidades, é a área com mais doutorados per capita dos EUA, enquanto Brooklyn, um dos epicentros da arte de
rua, se destaca por albergar aquele tipo de coletivos que desafiam preceitos
académicos. Na prática de Mary, porém, nenhuma tendência prevalece. Pelo
contrário, consideram-se cada vez mais aspectos e variáveis dos dois campos: há
composições que se assemelham a charadas musicais e que no entanto saltam da
partitura como forças da natureza; há improvisações de ímpeto inquebrantável
que se revelam francamente lúcidas no contexto da expressão de grupo. Isto é,
todos os elementos se envolvem e, contudo, nenhum se deixa absorver
inteiramente pelo outro. Talvez seja de família: o pai de Mary é arquiteto
paisagista.
Mas nada é assim tão simples. E menos ainda este “Away With You”, o
melhor disco da guitarrista até ao momento e aquele em que se encontra a gerir
mais forças contrastantes: as de um septeto, que se imagina a ansiar por estes
temas, a sentir-se fascinado por eles, a desejá-los e a ter consciência que não
está inteiramente preparado para os possuir (Susan Alcorn na guitarra pedal steel, Jonathan Finlayson à trompete,
Jon Irabagon no saxofone alto, Ingrid Laubrock em tenor, Jacob Garchik ao
trombone, John Hébert no baixo e Ches Smith à bateria). Ouvi-los é como olhar
para o grafismo da capa e pensar: que ilustração é aquela? Serpentinas ou
línguas de fogo, cobras ou fitas de cetim? Talvez seja isso tudo ao mesmo
tempo.
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6 de abril de 2013
Kris Davis “Capricorn Climber” (Clean Feed, 2013)
Na sua “Oxford History of Western
Music”, Richard Taruskin recorre à metáfora do icebergue para aludir à informação
que, perdida na voragem dos séculos, se vai desprendendo da superfície, afundando-se
pelas profundezas rumo ao esquecimento. Uma prática por si referida é a dos
tratados de instrução técnico-musical, que indicavam aos instrumentistas como adornar
melodias, bordar sequências de acordes, matizar tons, acentuar dinâmicas,
introduzir variações, ou seja, interpretar tudo o que as partituras raramente preservam.
Taruskin não o diz, mas, na literatura, foi Hemingway que postulou uma ‘teoria
do icebergue’ para delinear o processo que permite que os factos concretos
flutuem acima da linha de água enquanto a sua simbólica infraestrutura se
edifica longe da vista. Entre um autor e outro, é de improvisação – como um
princípio que ilude qualquer categorização dogmática – que se fala. E a
pianista Kris Davis, neste sétimo disco da Clean Feed com a sua marca –
contando com o quarteto RIDD, o trio SKM, o grupo Paradoxical Frog e “Novela”,
o álbum de Tony Malaby que orquestrou –, nunca esteve tão próxima de ilustrar estas
ideias. Numa invulgar combinação – acompanhada por Mat Maneri na violeta,
Trevor Dunn ao contrabaixo e pelo casal Ingrid Laubrock, em saxofone tenor, e
Tom Rainey, à bateria – cada uma das suas peças, tão geométrica e
matematicamente concebidas quão etérea e hesitantemente esboçadas, navega entre
o que se compreende e o que apenas se pressente, num espaço de invenção ora
evidente, ora submerso, retalhado por uma sinuosidade linguística e por um
discurso vacilante e solipsista, mas também por um assertivo fluxo de intenções
e um sistemático jorro de valência coloquial. Parte “Viola in My Life”, se Morton
Feldman a tivesse criado para quinteto de jazz, parte, lá está, a comunhão com
o desconhecido.
2 de março de 2013
Paradoxical Frog “Union” (Clean Feed, 2012)
O espécime parecia um provocatório
oximoro e, de facto, a audição, em 2010, do ensaio inaugural desta banda com filiação
nominal na pseudis paradoxa – a rã que encolhe consideravelmente
à medida que se vai tornando adulta, isto é, cujas crias são maiores do que os
progenitores – confirmava uma inquietante tese empenhada em contrariar alguns
dos princípios formais e idiomáticos associados à prática da música
improvisada. Numa ocasional concatenação de vozes – solos, duos e trios em
extensões tímbricas à primeira vista extemporâneas – que privilegiava uma
coalescência mais textural do que melódica, a pianista Kris Davis, a
saxofonista Ingrid Laubrock e o multi-instrumentista Tyshawn Sorey,
predominantemente na bateria, teciam ondulantes e elípticos padrões, como uma
anfíbia criatura enredando limos ao sabor da maré. E em composições
discriminatórias, conseguiam também produzir a ilusão de que todos os seus
constituintes, inclusivamente os contingentes a uma ação parcialmente
indeterminada, eram essenciais. Deste “Union” pode, no mínimo, dizer-se que é
ainda mais escrupuloso em seguir esse caminho que não só questiona a morfologia
típica do trio de jazz como sugere algo que apenas este trio de jazz poderia criar.
Uníssonos anunciativos, contrapontos pacientes, harmonias oblíquas, inesperadas
dinâmicas, enfim, um conjunto de estratégias que geram estruturas
enciclopédicas, informadas mais por um espírito de vanguarda do que
propriamente por determinada escola, focando-se em raras tangentes – intervalos
comuns em Thelonious Monk e Morton Feldman ou técnicas semelhantes em Anthony
Braxton e Luciano Berio são o tipo de insensatas proposições que inspiram – de
densidade variável que ocorrem num espaço de pura invenção e intriga, volátil e
evanescente, preciso e espontâneo, pleno de possibilidades.
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