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1 de fevereiro de 2020

Ingrid Laubrock + Aki Takase “Kasumi” (Intakt, 2019)

Há 20 anos, quando se estreou com “Who is It?”, Laubrock espelhava a reação de amantes de jazz do mundo inteiro à menção do seu nome. Na altura, fazia uma versão de ‘Com Açúcar, Com Afeto’, de Chico Buarque, mas, hoje, dada a importância que adquiriu no circuito internacional e os projetos em que se vê envolvida, só mesmo Tom Rainey, o marido, para cantar “Com açúcar, com afeto/ Fiz seu doce predileto/ Pra você parar em casa/ Qual o quê!” O que explica a necessidade de tocarem em conjunto (Rainey é baterista), como na última edição do Jazz em Agosto. São situações em que é normal projetar-se a sombra da intimidade, com o reconhecimento mútuo que isso implica, embora, por vezes, se pareça antes convocar as igualmente previsíveis infidelidades que tamanha proximidade gera. Takase, que também costuma dar concertos com o marido (o pianista Alexander Von Schlippenbach), sabe bem o que é ter de lidar com estas continuidades e descontinuidades e com as diferenças que os membros de um casal têm de aceitar um no outro – com tudo o que o dueto habitualmente promete e o muito que na sua prática fica por cumprir. Em estúdio, o desafio será contrariar a sensação com que se fica, ao vivo, aqui e ali, sempre que dois músicos se reúnem, buscam um espaço comum, expõem e empurram reciprocamente para fora das respetivas zonas de conforto, acusam o desgaste, contabilizam perdas e acabam a conhecer-se profundamente e a estranhar-se em partes iguais. Talvez por se considerarem integrantes de algo maior e mais complexo do que aquilo que regra geral ata e desata as pessoas umas às outras, Laubrock e Takase não caem nessa armadilha e, ao invés, vinhetas como ‘Dark Clouds’, ‘Sunken Forest’ ou ‘Carving Water’ assemelham-se a instantâneos de paisagens e de lugares mais ou menos imaginários, que, como dizia Clarice Lispector, em “Água Viva”, são “simplesmente já”. Nem por acaso, o último tema do disco, que tanto fala à História do jazz, chama-se ‘Luftspiegelung’, uma palavra alemã para miragem.

3 de agosto de 2019

Agenda: Jazz em Agosto

Pinta-se o cartaz do Jazz em Agosto com as cores do PREC, conquanto se troque o R da revolução pelo da resistência – só falta no elenco a banda de “Palavras ao Vento” e na banca da livraria o “Resistir é Preciso”, de Alípio de Freitas. “[Resistir] É um libelo contra a opressão como forma de vida política, contra o silêncio das mordaças, contra todos os processos de aviltamento do homem, contra a corrupção ideológica erigida em serviço à comunidade”, dizia o autor. Agora, fortificando com trincheiras anfiteatros e auditórios, e porque alvitra o festival que “o jazz sempre teve na sua raiz a semente da contestação e da mudança”, põem-se aí bandos de desalinhados a conjugar o verbo à sua maneira. Sosseguem os espíritos, Pacheco Pereira não terá de ir de propósito à Gulbenkian recolher materiais para a Ephemera – aqui, como é óbvio, e independentemente de filiações partidárias, privilegia-se sobretudo uma música que intervém musicalmente (que não só politicamente) e em cujo sistema sanguíneo circulam células de sedição desde a nascença. Atente-se ao que há uns anos disse Daniel Rosenboom sobre esses seus Burning Ghosts [na foto] que tocam hoje às 21h30 no Anfiteatro ao Ar Livre: “Face aos males que nos atingem, criar arte – e música expressionista em particular – pode parecer um modo muito abstrato de reagir. E longe de mim sugerir que a nossa música representa uma ação efetiva contra a violência policial, a discriminação ou a desigualdade – mas sinceramente acredito que pode levar à reflexão. E se o nosso público identificar esses gatilhos, então, ficará a um passo de lidar com questões muito complicadas.” Claro está, desde que consiga sobreviver à câmara de tortura sonora a que Rosenboom, Jake Vossler, Richard Giddens e Aaron McLendon o submete e em que torna palpáveis os seus piores pesadelos – talvez o ponto seja esse. Antes (18h30), no Auditório 2, com mais subtileza e menos premeditação, tocam Ingrid Laubrock e Tom Rainey – aliás, a respeito de uma data do duo, e após lhe ter sido perguntado o que esperar de um concerto seu, Laubrock respondeu: “Idealmente nada em particular, pois ao improvisarmos tentamos pôr em relevo o elemento da surpresa.” Semelhante desafetação deverá apoderar-se amanhã de Abdul Moimême (Sala Polivalente, 17h) e do quarteto de Ricardo Toscano, Rodrigo Pinheiro, Miguel Mira e Gabriel Ferrandini (Auditório 2, 18h30), gente que trata da emancipação mais ao nível do indivíduo que do coletivo, que é precisamente, e por sua vez, o objeto da flautista e compositora Nicole Mitchell: à noite (21h30), à frente de um octeto, ao colocar em cena as contrastantes forças de “Mandorla Awakening II”, dramatizará um alerta muito simples, que é o de que a atual tendência para a homogeneização nas sociedades ocidentais mais não é do que uma forma de colonizar a cultura de todo o mundo e de conceder automaticamente um estatuto marginal a toda e qualquer minoria que ouse articular a sua própria diferença. Pois, de outra coisa não trata o trio Abacaxi (de Julien Desprez, Jean-François Riffaud e Max Andrzejewski, que se apresenta quinta, às 18h30, no Auditório 2), o sexteto Freaks (liderado por Théo Ceccaldi, toca também dia 8, às 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre), o duo de percussão de Joey Baron e Robyn Schulkowsky (sexta, 18h30, Auditório 2) e o estelar sexteto Triple Double, com Tomas Fujiwara, Gerald Cleaver, Mary Halvorson, Brandon Seabrook, Ralph Alessi e Taylor Ho Bynum (sexta, 21h30, Anfiteatro ao Ar Livre). O festival termina no dia 11.

11 de março de 2017

Mary Halvorson Octet “Away With You” (Firehouse 12, 2016)



Com Mary Halvorson as coisas nunca são bem o que parecem. Num tratado humorístico acerca da origem das espécies criativas norte-americanas poder-se-ia, até, falar de um carácter ambígeno na sua produção: Mary vem de Brookline, no Massachusetts, embora dê mostras de proceder de estirpes artísticas naturais de Brooklyn, em Nova Iorque. Ou seja, entre muitas outras coisas, e à primeira vista, sobressai na sua música uma adesão simultânea a duas condições radicalmente diferentes: uma que se vê obrigada à formalidade e outra que tudo deve à coloquialidade. Prolongando a analogia, e generalizando, diga-se por exemplo que Brookline, rodeada de universidades, é a área com mais doutorados per capita dos EUA, enquanto Brooklyn, um dos epicentros da arte de rua, se destaca por albergar aquele tipo de coletivos que desafiam preceitos académicos. Na prática de Mary, porém, nenhuma tendência prevalece. Pelo contrário, consideram-se cada vez mais aspectos e variáveis dos dois campos: há composições que se assemelham a charadas musicais e que no entanto saltam da partitura como forças da natureza; há improvisações de ímpeto inquebrantável que se revelam francamente lúcidas no contexto da expressão de grupo. Isto é, todos os elementos se envolvem e, contudo, nenhum se deixa absorver inteiramente pelo outro. Talvez seja de família: o pai de Mary é arquiteto paisagista.

Mas nada é assim tão simples. E menos ainda este “Away With You”, o melhor disco da guitarrista até ao momento e aquele em que se encontra a gerir mais forças contrastantes: as de um septeto, que se imagina a ansiar por estes temas, a sentir-se fascinado por eles, a desejá-los e a ter consciência que não está inteiramente preparado para os possuir (Susan Alcorn na guitarra pedal steel, Jonathan Finlayson à trompete, Jon Irabagon no saxofone alto, Ingrid Laubrock em tenor, Jacob Garchik ao trombone, John Hébert no baixo e Ches Smith à bateria). Ouvi-los é como olhar para o grafismo da capa e pensar: que ilustração é aquela? Serpentinas ou línguas de fogo, cobras ou fitas de cetim? Talvez seja isso tudo ao mesmo tempo.

6 de abril de 2013

Kris Davis “Capricorn Climber” (Clean Feed, 2013)



Na sua “Oxford History of Western Music”, Richard Taruskin recorre à metáfora do icebergue para aludir à informação que, perdida na voragem dos séculos, se vai desprendendo da superfície, afundando-se pelas profundezas rumo ao esquecimento. Uma prática por si referida é a dos tratados de instrução técnico-musical, que indicavam aos instrumentistas como adornar melodias, bordar sequências de acordes, matizar tons, acentuar dinâmicas, introduzir variações, ou seja, interpretar tudo o que as partituras raramente preservam. Taruskin não o diz, mas, na literatura, foi Hemingway que postulou uma ‘teoria do icebergue’ para delinear o processo que permite que os factos concretos flutuem acima da linha de água enquanto a sua simbólica infraestrutura se edifica longe da vista. Entre um autor e outro, é de improvisação – como um princípio que ilude qualquer categorização dogmática – que se fala. E a pianista Kris Davis, neste sétimo disco da Clean Feed com a sua marca – contando com o quarteto RIDD, o trio SKM, o grupo Paradoxical Frog e “Novela”, o álbum de Tony Malaby que orquestrou –, nunca esteve tão próxima de ilustrar estas ideias. Numa invulgar combinação – acompanhada por Mat Maneri na violeta, Trevor Dunn ao contrabaixo e pelo casal Ingrid Laubrock, em saxofone tenor, e Tom Rainey, à bateria – cada uma das suas peças, tão geométrica e matematicamente concebidas quão etérea e hesitantemente esboçadas, navega entre o que se compreende e o que apenas se pressente, num espaço de invenção ora evidente, ora submerso, retalhado por uma sinuosidade linguística e por um discurso vacilante e solipsista, mas também por um assertivo fluxo de intenções e um sistemático jorro de valência coloquial. Parte “Viola in My Life”, se Morton Feldman a tivesse criado para quinteto de jazz, parte, lá está, a comunhão com o desconhecido.

2 de março de 2013

Paradoxical Frog “Union” (Clean Feed, 2012)



O espécime parecia um provocatório oximoro e, de facto, a audição, em 2010, do ensaio inaugural desta banda com filiação nominal na pseudis paradoxa – a rã que encolhe consideravelmente à medida que se vai tornando adulta, isto é, cujas crias são maiores do que os progenitores – confirmava uma inquietante tese empenhada em contrariar alguns dos princípios formais e idiomáticos associados à prática da música improvisada. Numa ocasional concatenação de vozes – solos, duos e trios em extensões tímbricas à primeira vista extemporâneas – que privilegiava uma coalescência mais textural do que melódica, a pianista Kris Davis, a saxofonista Ingrid Laubrock e o multi-instrumentista Tyshawn Sorey, predominantemente na bateria, teciam ondulantes e elípticos padrões, como uma anfíbia criatura enredando limos ao sabor da maré. E em composições discriminatórias, conseguiam também produzir a ilusão de que todos os seus constituintes, inclusivamente os contingentes a uma ação parcialmente indeterminada, eram essenciais. Deste “Union” pode, no mínimo, dizer-se que é ainda mais escrupuloso em seguir esse caminho que não só questiona a morfologia típica do trio de jazz como sugere algo que apenas este trio de jazz poderia criar. Uníssonos anunciativos, contrapontos pacientes, harmonias oblíquas, inesperadas dinâmicas, enfim, um conjunto de estratégias que geram estruturas enciclopédicas, informadas mais por um espírito de vanguarda do que propriamente por determinada escola, focando-se em raras tangentes – intervalos comuns em Thelonious Monk e Morton Feldman ou técnicas semelhantes em Anthony Braxton e Luciano Berio são o tipo de insensatas proposições que inspiram – de densidade variável que ocorrem num espaço de pura invenção e intriga, volátil e evanescente, preciso e espontâneo, pleno de possibilidades.