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23 de maio de 2020

Last Dream of the Morning “Crucial Anatomy” (Trost, 2020) & Steve Beresford & John Butcher “Old Paradise Airs” (Iluso, 2020)

Last Dream of the Morning – é como se chama o extraordinário trio de John Butcher, John Edwards e Mark Sanders. Se o levássemos à letra, aqui, seria como se os sons do sudeste asiático nos sufocassem os sentidos ao acordar e nos sentássemos na cama subitamente cintados pelo suor, cercados de incenso, siderados pelo lasso ziziar das cigarras longe das cidades – saxofone, contrabaixo e bateria as únicas formas reconhecíveis entre as sombras e as fumaças. Trata-se, em rigor, de pôr em cena a atávica etiqueta do ritual que há na música, com os seus gestos sagrados e aquela mediúnica capacidade de, ao vivo, em concerto, atribuir expressão concreta à imanência pura do momento presente. Como poucos, mas como todos os outros, os discos de John Butcher fazem questão de nos lembrar que são apenas instantâneos abruptamente subtraídos à realidade, uma receita para o medo que a nossa impermanência nos mete. 



Durante o confinamento, como se estivesse a exercer uma espécie de prerrogativa qualquer, dei por mim a revisitar “The Geometry of Sentiment” (2007) e “Resonant Spaces” (2008), registos dele a solo, alguns dos quais em locais insólitos, lembretes de que a intimidade é frequentemente governada por circunstâncias que fogem ao nosso controlo – e quando me fez “Crucial Anatomy” e “Old Paradise Airs” chegar às mãos, foi como se me tivesse lido a mente. Como de costume, dá-se por Butcher a escalpelar os subsistemas da linguagem em ambos, a esforçar-se não só para ter o que dizer mas, sobretudo, em ter como o dizer, enquanto, primeiro, se encontra num templo zen, a aprender a separar querer e crer, e, depois, com Beresford, e a língua feita em lava, se vê mergulhado numa câmara magmática. Nos dois, o mistério de estar num e noutro sítio sem se perder em lugar nenhum.

3 de março de 2018

Keiji Haino/John Butcher “Light Never Bright Enough” (Otoroku, 2017)


De âmbito praticamente sinfónico no que inclui de mais elevado, este “Light Never Bright Enough” não abdica da víscera da intimidade. Ou seja, nesta atuação gravada ao vivo a 9 de julho de 2016 no Cafe Oto, em Londres, Haino e Butcher, figuras habitualmente isoladas naqueles recitais em que se dão tensas autópsias ao solilóquio, aplicam-se a gerar enzimas capazes de catalisar o que um e outro possuem de mais indigesto. O resultado – embora se trate de uma característica algo anatemática no contexto da improvisação livre – é profundamente narrativo, com Butcher, de repente, a deixar-se atrair por aqueles acordes convulsos que Haino torce à guitarra como um caça-tempestades das Grandes Planícies vai atrás de uma nuvem escura. Como é óbvio, alguém que os escutasse sem os ver teria dificuldade em conciliar som e imagem, o que, de certo modo, em certas mentes, os reduziria a peões da arte conceptual – mas na verdade há uma crueza tão táctil naquilo que fazem, que, com franqueza, o mais estranho é Haino não ter ficado com os seus longos cabelos eriçados em virtude da muita eletricidade que à sua volta acumulou. 

Como se costuma lembrar, teria a seu lado alguém equipado a escalpelar o fenómeno ao pormenor: Butcher doutorou-se em Física antes de se dedicar a tempo inteiro à música e supõe-se que alguma da sua curiosidade por partículas elementares se terá transferido de uma disciplina à outra. Por sinal, será dos poucos com propriedade para reconhecer o carácter infinitesimal daquilo que faz em palco, o que, por sua vez, o tornará particularmente sensível às circunstâncias únicas de cada concerto. Ouvi-lo com Haino implica imaginá-lo a lidar com um conjunto inusitado de restrições: uma delas, porventura a mais inesperada mas também a mais desarmante, dá-se quando, de súbito, o japonês tranca num pedal em contínua repetição um desfigurado espectro tonal, larga a guitarra e se põe a soprar num género de charamela chinesa – a seu lado, após uma pausa para pensar, Butcher fecha os olhos, respira fundo e aceita compor com a aparição um hino a vidas passadas. E, aí, ficam um só.

22 de outubro de 2016

John Butcher & Stale Liavik Solberg “So Beautiful, It Starts To Rain” (Clean Feed, 2016)



Butcher grasna, grunhe, guincha, grita e gorjeia. Berra, brama, bale e buzina. Trina, trila e trissa. Acompanha-o Stale Solberg, percussionista norueguês que tanto quanto o britânico ao saxofone põe em cena um ecossistema mal se senta à bateria. Escutam-se peles, pratos e potes. Sinos, chapas e chocalhos. E perde-se a conta ao arsenal de baquetas de que dispõe, não obstante preferir com frequência a intimidade de roçar as pontas dos dedos húmidos pelas membranas da tarola ou do timbalão. Ouvindo-o, salta à memória o que Butcher dizia acerca de bateristas, numa entrevista publicada há 15 anos na “Paris Transatlantic”: “Evitei-os durante muito tempo. Não me interessava trabalhar com aquele tipo de propulsão. Toquei com o Paul Lovens, que operava de um modo mais espetral, mas foi o John Stevens que me levou a ter novamente interesse pela bateria. Sem a condicionar, ele dava um belíssimo impulso à música, deixando-a muito transparente. E isso deve-se ao instrumento que usava, em que era tudo miniaturizado, sem grande sustentação.” Claro que, desde então, Butcher encontrou o que procurava. E há discos que o comprovam, como “Concentric” (com Paal Nilssen-Love) ou “Daylight” (com Mark Sanders). Registos, como este, em que a arte triunfa sempre sobre a técnica. Um considerando, aliás, em que se dá pelo seu moralismo. Num ensaio incluído numa antologia dedicada à improvisação (“Aspekte der Freien Improvisation in der Musik”, 2011), escreveu assim: “De certeza que não teríamos a ousadia de descrever como ‘técnicas estendidas’ o recurso ao feedback de Jimi Hendrix, os ataques percussivos de Son House com o slide ou aquele oitavar que o volume de sopro excedentário de Albert Ayler permitia.” Não… O que não impede que se caracterize a manipulação das frequências fundamentais dos tons que Butcher faz ao saxofone, por exemplo, exatamente dessa maneira. Tudo, porque – e é aí que residirá a beleza a que este título alude – insiste em fazer música que ultrapassa a própria imaginação.

15 de outubro de 2016

Agenda: Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra & SeixalJazz



Agustí Fernández* (na foto) senta-se ao piano de cauda por convenção, mas o concerto começa apenas quando se torna a pôr de pé. Ignora o teclado e estende a cabeça sob a tampa como quem espreita pela boca de uma gruta para ver se lá consegue entrar. Alto, magro, calvo, com o busto inclinado para a frente, lembra o “Homem que Caminha”, de Giacometti. Apoia-se sobre o braço esquerdo e estende para o lado a mão direita, que sacode como se estivesse dormente e que abre e fecha de forma praticamente fisioterapêutica. Às apalpadelas num conjunto de peças soltas, pega, enfim, num bloco de madeira e começa a percuti-lo no interior do piano. Com a outra mão agarra numa medalha de bronze e arrasta-a com força sobre as suas cordas, como a professora que arranha o quadro da sala de aulas com as unhas para chamar a atenção dos alunos. Na assistência, há seguramente quem o situe antes entre a figura do cirurgião e a do mecânico, por exemplo, que só depois de pegarem no bisturi ou na chave de fendas é que dão conta da dimensão do estrago. Agustí possui um interesse anatómico pelo instrumento que toca, cujos constituintes esgravata e arrebunha e ofende repetidamente. E há algo vagamente desumano na maneira em que dele se aproxima e se afasta, em que anda à sua volta e lhe explora o flanco. Traz à memória um jogador de snooker a circundar a mesa e a calcular a tacada correta. Quando finalmente passa os dedos pelas teclas apanha a plateia de surpresa: é que, durante uma fração de segundo, escutar um piano a ser tocado de dentro para fora, sem intervenção dos martelos, foi a coisa mais natural do mundo.

Isto passou-se há oito dias, no Barreiro, no âmbito do Out.Fest, e é provável que se repita já na próxima quinta-feira, dia 20, pelas 19h, no Convento São Francisco, em Coimbra, um dos palcos da 14ª edição dos Encontros Internacionais de Jazz da cidade. Com o espanhol planeiam estar Hugo Antunes, Roger Turner e John Butcher, nomes que têm em comum essa fascinante capacidade de virar o jazz do avesso. Curiosamente, logo após essa atuação, será como as suas costuras nunca tivessem estado à mostra quando, às 22h, o quinteto de Sandro Norton tirar as medidas a Gary Burton e a Maria João. Na mesma noite, destaque-se ainda o encontro de Eve Risser com Marcelo dos Reis (23h30, Salão Brazil). Na sexta-feira o festival ficará menos católico ao receber Mette Henriette (Igreja de São Francisco, 19h) e a Orquestra Nomade (Salão Brazil, 22h30) e no sábado estará mesmo ímpio, com o trio de Marc Ribot.

Quase a atingir a maioridade está o SeixalJazz, na 17ª edição. Arranca dia 21, com a apregoada “estreia em Portugal continental” do quinteto de Dino Saluzzi (os concertos são sempre às 22h, no Fórum Cultural). Há alguma ostentação no anúncio, que podia referir que o argentino já tocou no país com outras formações, e há uma citação de Jean-Jacques Rousseau que vinha a calhar (até porque o mesmo quinteto toca três dias antes na Casa da Música), mas trata-se de um conjunto que conseguiu manter a sua inocência tão intacta que nada se ganha em esmiuçar o assunto. Vinda de Coimbra, também Henriette tem queda para o angelismo (dia 22). O festival prossegue com o quinteto de Gonçalo Marques (26), com o fantástico Grand Valis, de Hugo Carvalhais (27), e com o quarteto de Ricardo Toscano (28). Encerra com um recital a solo de Colin Stetson (29) que contrariará todas as expetativas da sua condição.

* Declaração de interesse: no verão de 2008 sugeri a Agustí Fernández que gravasse um disco inspirado pela música espanhola para piano do século XX, enviando-lhe, para o efeito, um par de CDR com cerca de 40 peças de Albeniz, Granados, Falla, Guridi, Mompou, Blancafort, Turina, Gerhard ou Garbizu. Esse disco acabou por ser produzido com o título de "El laberint de la memòria" e editado pela Mbari em meados de 2011. Está já esgotado.