Na
última “Sound American”, publicação de que é editor, Nate Wooley discorre sobre
hábitos de audição e conta a seguinte história: “Os meus pais compraram-me a
minha primeira aparelhagem tinha eu doze anos: gira-discos, rádio e leitor de
cassetes embutidos num armário com revestimento a imitar carvalho e duas
colunas que eram praticamente do meu tamanho. A lágrima de nostalgia que me
corre pela face à sua lembrança dirá mais sobre mim do que alguma vez poderá
dizer o texto que se segue.” Agora, que edita uma gravação inspirada por LP que
nessa altura repetidamente escutou – o homónimo inicial mais “Black Codes” e “J
Mood”, todos de Wynton Marsalis –, percebe-se que a sua evocação serve ainda para
que se ponha a suspirar por esse lugar e tempo remotos. Isto é, porque Wooley é
o primeiro a reconhecer o manifesto antagonismo de Marsalis face à música que
cria, este novo álbum do seu quinteto com Josh Sinton, Matt Moran, Eivind Opsvik
e Harris Eisenstadt “não é uma homenagem”, “não é um comentário pós-moderno”,
“não é irónico”, “nem é uma afirmação sociopolítica”. Daí notas de apresentação
que de tanto tresandarem ao divã de um psicoterapeuta trazem à ideia o começo de
“O Homem Que Confundiu a Mulher com Um Chapéu”, de Oliver Sacks: “A palavra predileta
da neurologia é défice: perda da fala, perda da linguagem, perda da memória, perda
da destreza, perda da identidade (...).” Também Wooley diz tudo aquilo que o
seu disco não é. Mas a que se resume, então? Quiçá à confirmação de que não se
volta a ter doze anos nem a ver o mundo bem daquela maneira – e à reação a esse
sentimento.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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21 de novembro de 2015
28 de setembro de 2013
Nate Wooley Sextet “(Sit In) The Throne of Friendship” (Clean Feed, 2013)
Zeloso curador na eminente “Databaseof Recorded American Music” e inspirado editor e redator na trimestral “SoundAmerican”, Nate Wooley vasculha habilmente nesse espaço em que se arquivam as vanguardas
norte-americanas. Quer isto dizer que, contrariamente à opinião comum, que
deprecia aspetos hereditários em manifestações artísticas de singular
configuração – e, durante anos, Wooley foi tido como um xamane do insólito –, o
trompetista cumpre os requisitos para que se entenda a sua ação à luz de um,
quiçá subterrâneo, contínuo cultural, no qual, por entre um número excecional
de forças expressivas, cabe, naturalmente, essa que se pratica numa jurisdição
invulgarmente atenta aos direitos de sucessão e se apelida de jazz. Seria,
aliás, presunçoso e injusto considerar que a sua produção – ao lado da de
análogos instrumentistas como Peter Evans, Greg Kelley, Franz Hautzinger ou
Axel Dörner, invariavelmente coadunados na estirpe de Bill Dixon – se gerava, qual
erva-daninha, espontânea e invasoramente. Dir-se-á que o quinteto – agora, com
o ingresso do tubista Dan Peck, expandido para sexteto – há dois anos
responsável por “(Put Your) Hands Together” se formou para dar resposta a esta
questão, ainda que salvaguardando uma premissa essencial: afiançar que cada um
dos seus agentes não se aliena no conjunto de vínculos históricos que possa reivindicar.
Ou seja, Wooley, Peck, Josh Sinton (saxofone barítono e clarinete baixo), Matt
Moran (vibrafone), Eivind Opsvik (contrabaixo) e Harris Eisenstadt (bateria)
promovem aqui – numa sessão que tem como único senão uma escrita nem sempre à
altura dos acontecimentos – uma genial abstração do pendor relacional no jazz
contemporâneo, evocando simultaneamente as mais extáticas e elegantes
características que procedem da sua fundação enquanto linguagem. Um caso sério.
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