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29 de agosto de 2020

Larry Ochs-Aram Shelton Quartet “Continental Drift” (Clean Feed, 2020)

Há 20 anos, em Lisboa, almoçava com o percussionista sueco Kjell Nordeson (na cidade para o “Jazz em Agosto”) e a conversa foi parar ao free jazz: “Parecendo que não, é uma restrição como outra qualquer. E trata-se de uma pequeníssima parte daquilo que fazemos [no AALY Trio]. Eu percebo que as pessoas caracterizem a nossa música dessa maneira; no caso, até, pelas ligações que estabelecemos com o repertório do [Albert] Ayler e do [Don] Cherry. Mas somos inspirados por tantas coisas mais. Quer dizer, como é que este peixe se chama? [Referia-se a um besugo grelhado] Está incrível! Se o concerto correr bem, o Mats [Gustafsson] vai falar mais deste peixe do que de free jazz.” Logo a seguir, recordava o seu trabalho com companhias de teatro e dança, em Estocolmo, e atava as pontas soltas: “Se ao menos falassem de um concerto nosso como normalmente se fala de um bailado, por exemplo. Isso é que era!” De certo modo, é o que me traz à memória o que agora faz integrado neste Larry Ochs-Aram Shelton Quartet, em que nunca se exime às responsabilidades coreográficas que nesta música há e em que tudo aquilo em que toca se mexe. Será uma forma de fazer referência à deriva continental a que o quarteto alude, embora, aqui, se pareça querer antes descrever as consequências num objecto fixo do movimento contínuo dos seus agentes: o que impacta uma sessão de gravação com Ochs, Shelton, Nordeson e Mark Dresser em julho de 2013, e outra, precisamente cinco anos depois, com Scott Walton a substituir Dresser e numa altura em que Shelton havia trocado São Francisco por Copenhaga. Dito isto, e face ao que se escuta em “Continental Drift”, não será preciso muito para lembrar essoutro errante quarteto singularmente marcado pela ideia de migração: o de Dave Holland, em “Conference of the Birds” (1973) – Ochs (saxofone tenor e sopranino) e Shelton (saxofone alto) a negociar com o ar, como faziam então Anthony Braxton e Sam Rivers; Kjell a estudar a superfície terrestre, como Barry Altschul; Dresser e Walton a traçar as rotas. Tão celífluo, tão telúrico – a dança da vida a dar-se a par com a dos continentes, exatamente como deveria ser.

30 de março de 2019

Larry Ochs, Nels Cline, Gerald Cleaver “What Is To Be Done” (Clean Feed, 2019)

Cem anos antes da Clean Feed ter sido criada, era Lenine que coçava a cabeça: “A questão ‘Que fazer?’ tem-se posto com particular acuidade”, concluía o bolchevique nas páginas do jornal “Iskra”. Como é óbvio, não falava de jazz. Mas, a certa altura, os detratores da chancela portuguesa suspeitavam que os seus fundadores se referissem ao jazz tradicional exatamente como Lenine se havia referido ao czarismo: “Temos estado a falar de uma preparação sistemática, metódica, mas não quisemos de modo algum dizer com isso que a autocracia não possa cair senão na sequência de um assalto organizado. É muito mais provável que ela caia sob o choque de uma explosão espontânea.” Bom, no que diz respeito ao jazz enquanto peça de museu, isto foi mais uma implosão do que outra coisa qualquer. Com ironia, é o que traz à memória a Clean Feed neste vitriólico “What is to be Done’, a sua quingentésima edição que, por sinal, num encarnadinho profundamente soviético, lembra também o que um dia escreveu Bill Shoemaker a propósito da rutura na arte: “A mudança é muitas vezes um disfarce artificioso para continuidades mais profundas.” 

A citação tem um ponto: é que, aqui, mesmo sem o pretender, o trio de Ochs, Cline e Cleaver evoca uma época em que o jazz mais predatório, o funk mais esquálido e o rock mais bacilar foram improváveis companheiros de borga, em que se diria que o genoma do jazz ficou de tal forma comprometido que só a ciência forense o podia identificar. Mas, nesse particular, Chuck Berry é que tinha razão. Em 1980, quando a fanzine “Jet Lag” o pôs a ouvir Sex Pistols, Clash, Ramones e Talking Heads, disse assim: “Não é nada que não tenha ouvido antes. Isto parece precisamente o tipo de jam que o BB ou o Muddy pudessem fazer nos bastidores do antigo Anfiteatro Internacional, em Chicago.” Nem de propósito, chamou-se no wave à lamela em que se guardou o material genético deste “What is to be Done”. Uma caracterização inspirada em Claude Chabrol, que, quando lhe perguntaram a razão de os seus filmes divergirem tanto dos da Nouvelle Vague, e embora Krishna o tivesse afirmado antes, respondeu: “Não há vagas, só o oceano”. Salpicado pelo Ornette de “Of Human Feelings”, pelos Lounge Lizards, pelos Contortions e por aqueles discos de inícios de 80 de gente como James “Blood” Ulmer, Material ou Elliott Sharp, agora, é este trio que o vem recordar. Que fazer? Dar aos braços, claro.