Há 20 anos, em Lisboa, almoçava com o
percussionista sueco Kjell Nordeson (na cidade para o “Jazz em Agosto”) e a
conversa foi parar ao free jazz:
“Parecendo que não, é uma restrição como outra qualquer. E trata-se de uma
pequeníssima parte daquilo que fazemos [no AALY Trio]. Eu percebo que as
pessoas caracterizem a nossa música dessa maneira; no caso, até, pelas ligações
que estabelecemos com o repertório do [Albert] Ayler e do [Don] Cherry. Mas somos
inspirados por tantas coisas mais. Quer dizer, como é que este peixe se chama?
[Referia-se a um besugo grelhado] Está incrível! Se o concerto correr bem, o
Mats [Gustafsson] vai falar mais deste peixe do que de free jazz.” Logo a seguir, recordava o seu trabalho com companhias
de teatro e dança, em Estocolmo, e atava as pontas soltas: “Se ao menos
falassem de um concerto nosso como normalmente se fala de um bailado, por
exemplo. Isso é que era!” De certo modo, é o que me traz à memória o que agora
faz integrado neste Larry Ochs-Aram Shelton Quartet, em que nunca se exime às responsabilidades
coreográficas que nesta música há e em que tudo aquilo em que toca se mexe. Será
uma forma de fazer referência à deriva continental a que o quarteto alude,
embora, aqui, se pareça querer antes descrever as consequências num objecto
fixo do movimento contínuo dos seus agentes: o que impacta uma sessão de
gravação com Ochs, Shelton, Nordeson e Mark Dresser em julho de 2013, e outra, precisamente
cinco anos depois, com Scott Walton a substituir Dresser e numa altura em que Shelton
havia trocado São Francisco por Copenhaga. Dito isto, e face ao que se escuta
em “Continental Drift”, não será preciso muito para lembrar essoutro errante quarteto
singularmente marcado pela ideia de migração: o de Dave Holland, em “Conference
of the Birds” (1973) – Ochs (saxofone tenor e sopranino) e Shelton (saxofone
alto) a negociar com o ar, como faziam então Anthony Braxton e Sam Rivers;
Kjell a estudar a superfície terrestre, como Barry Altschul; Dresser e Walton a
traçar as rotas. Tão celífluo, tão telúrico – a dança da vida a dar-se a par
com a dos continentes, exatamente como deveria ser.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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29 de agosto de 2020
30 de março de 2019
Larry Ochs, Nels Cline, Gerald Cleaver “What Is To Be Done” (Clean Feed, 2019)
Cem
anos antes da Clean Feed ter sido criada, era Lenine que coçava a cabeça: “A
questão ‘Que fazer?’ tem-se posto com particular acuidade”, concluía o bolchevique
nas páginas do jornal “Iskra”. Como é óbvio, não falava de jazz. Mas, a certa
altura, os detratores da chancela portuguesa suspeitavam que os seus fundadores
se referissem ao jazz tradicional exatamente como Lenine se havia referido ao
czarismo: “Temos estado a falar de uma preparação sistemática, metódica, mas
não quisemos de modo algum dizer com isso que a autocracia não possa cair senão
na sequência de um assalto organizado. É muito mais provável que ela caia sob o
choque de uma explosão espontânea.” Bom, no que diz respeito ao jazz enquanto
peça de museu, isto foi mais uma implosão do que outra coisa qualquer. Com
ironia, é o que traz à memória a Clean Feed neste vitriólico “What is to be
Done’, a sua quingentésima edição que, por sinal, num encarnadinho
profundamente soviético, lembra também o que um dia escreveu Bill Shoemaker a
propósito da rutura na arte: “A mudança é muitas vezes um disfarce artificioso
para continuidades mais profundas.”
A citação tem um ponto: é que, aqui, mesmo
sem o pretender, o trio de Ochs, Cline e Cleaver evoca uma época em que o jazz
mais predatório, o funk mais esquálido e o rock mais bacilar foram improváveis
companheiros de borga, em que se diria que o genoma do jazz ficou de tal forma comprometido
que só a ciência forense o podia identificar. Mas, nesse particular, Chuck
Berry é que tinha razão. Em 1980, quando a fanzine
“Jet Lag” o pôs a ouvir Sex Pistols, Clash, Ramones e Talking Heads, disse
assim: “Não é nada que não tenha ouvido antes. Isto parece precisamente o tipo
de jam que o BB ou o Muddy pudessem
fazer nos bastidores do antigo Anfiteatro Internacional, em Chicago.” Nem de
propósito, chamou-se no wave à lamela
em que se guardou o material genético deste “What is to be Done”. Uma
caracterização inspirada em Claude Chabrol, que, quando lhe perguntaram a razão
de os seus filmes divergirem tanto dos da Nouvelle Vague, e embora Krishna o
tivesse afirmado antes, respondeu: “Não há vagas, só o oceano”. Salpicado pelo
Ornette de “Of Human Feelings”, pelos Lounge Lizards, pelos Contortions e por aqueles
discos de inícios de 80 de gente como James “Blood” Ulmer, Material ou Elliott
Sharp, agora, é este trio que o vem recordar. Que fazer? Dar aos braços, claro.
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