“Stefaniensaal, Graz”. Para colecionadores, isto
lê-se como um feitiço. Aliás, aplicado à digressão europeia de novembro de 1962
de John Coltrane, McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones, em disco, é tal e
qual como tropeçar em “Olympia, Paris”, “Konserthuset, Stockholm”, “Kulttuuritalo,
Helsinki”, “Falkonercentret, Copenhagen”, locais privilegiados para a
experiência do sagrado, quer se comungue ou não na igreja de São John William
Coltrane. Durante anos, a coberto da noite, e em edições mais ou menos
cuidadas, foram chegando ao mercado registos com origem nos arquivos dos
organismos de radiodifusão responsáveis pela transmissão de cada um destes
concertos – e, em casa, agarrados às telefonias, como no “Orfeu” (1950), de
Jean Cocteau, imagina-se ouvintes do mundo inteiro a exclamar: “Mas de onde é
que isto vem? Nenhuma estação emite coisas destas. De certeza que me estão
destinadas!” Aliás, logo após a morte de Coltrane, em 1967, e no caso de uma
eventual retransmissão, estes ouvintes transformavam-se todos numa
espécie de caça-fantasmas, como o sueco Friedrich Jürgenson, autor, na década
de 60, de livros insólitos como “Transmissões de Voz com Defuntos” ou “Contacto
por Rádio e Microfone com os Mortos”. Como o engenheiro de som Rudy Van Gelder,
que sugeriu o título a Coltrane, por ele não parar quieto em palco, viam-se na
obrigação de fazer como no lado B de “Live at the Village Vanguard” e de se pôr
a ‘Chasin’ the Trane’. Também aqui, nesta “License of original tapes from ORF
Steiermark, Graz”, se dá por dificuldades de captação. Como não? Coltrane
lidava com materiais que começavam a pensar pela própria cabeça, a conquistar forma
definitiva, a aprender a coexistir com os outros mas a ganhar autonomia,
aparentemente instantâneos mas profundamente cerimoniais, algo descontínuos e
ocasionalmente anacrónicos mas nem por isso menos imediatos. Estava a levar o
jazz da adolescência para a idade adulta e, em ‘Autumn Leaves’ ou ‘Impressions’,
a dar vazão às suas dores de crescimento.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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25 de janeiro de 2020
13 de julho de 2019
Jordi Soley “Jazz Images by Francis Wolff” (Elemental, 2019)
Dizer que há algo indefinido nas sessões de gravação de uma música
acentuadamente indeterminada roça o truísmo. Art Hodes, um pianista e articulista
um pouco esquecido que se associa ao Plistoceno da Blue Note, tentou fazê-lo,
em finais de 60, quando a editora lhe tirava da arca frigorífica umas idas a
estúdio que há 25 anos submetia ao frio: “Entravas e davas logo de caras com
uns enormes sacos cheios de comida. Ou seja, depois de começarmos a tocar nem
tínhamos que tornar a sair do edifício. O Alfred pendurava o chapéu no
bengaleiro da sala de controlo e o Frank punha-se a tirar fotografias por todo
o lado. Passado um bocado habituavas-te a tê-lo ao colo. As fotos eram ótimas!”
Ainda que a pretexto de escrever exatamente sobre ambas, Art, como é óbvio, não
faz menção à arte, nem sequer à técnica – o que lhe interessa é sintetizar as
múltiplas formas de as encarar de uma perspetiva mais humana, pessoal. Na
melhor aceção possível do termo, dir-se-ia ter ficado para sempre contagiado
pelo amadorismo da situação – aliás, quem lesse a sua descrição seria levado a
concluir que Alfred e Frank eram pai e filho.
Referia-se naturalmente a Alfred Lion e Francis Wolff,
responsáveis máximos da Blue Note, velhos colegas de liceu na Berlim dos anos
20, loucos por jazz e reunidos em Nova Iorque pelo destino e pela obrigação de fugir
ao nazismo. Verdade seja dita, até Wolff hesitava quando levado a refletir
sobre as mais distintas qualidades da editora: “O jazz havia ganho embalo
suficiente para que uma experiência destas pudesse resultar. A princípio não juntávamos
mais de meia dúzia de clientes, mas, pouco a pouco, o nosso modo nada
comercialista de fazer as coisas foi dando que falar. Acabámos por criar um
estilo, embora tenha alguma dificuldade em identificá-lo. Recordo-me que as
pessoas diziam que eu e o Alfred só gravávamos aquilo de que gostávamos. Lá
isso era verdade. Se posso acrescentar mais duas palavras, diria que gravávamos
com sentimento” (in “The Blue Note
Label”, de Michel Ruppli e Michael Cuscuna). Claro que o mesmo se pode dizer da
sua fotografia, em particular desde que em 1995 foi lançado “The Blue Note
Years: The Jazz Photography of Francis Wolff” e se pôde apreciar o que fez sem
o despudor da funcionalidade.
Wolff fotografava para si – e basta voltar à frase de Hodes,
relativa a um período em que não se produziam LP, para se compreender que era assim
muito antes de se terem avolumado os requerimentos do gabinete gráfico da
editora. Mas logo que se tornou imperativo acompanhar as necessidades da indústria
– planear capas, publicitar catálogos, promover artistas – Wolff e Lion não
tiveram dúvidas: “Para eles, era da maior importância colocar os músicos com
proeminência nos discos, embora os distribuidores estivessem sempre a chateá-los
com a conversa de que venderiam mais com miúdas giras nas capas”, dizia Ruth
Lion, a viúva de Alfred, em “The Cover Art of Blue Note Records”. Desse modo, Wolff
ganhava instantaneamente galerista, conquanto limitado a retalhistas interessados
em receber álbuns de Art Blakey, Clifford Brown, Donald Byrd, Dexter Gordon,
Grant Green, Lee Morgan, Jimmy Smith, Wayne Shorter, Bud Powell, Thelonious
Monk, Horace Silver, Sonny Rollins, Herbie Hancock [na foto] ou Sonny Clark [na segunda foto], nomes que se vêem agora nas
páginas deste “Jazz Images” e nas capas de duas novas séries de discos – uma em
LP, outra em CD. Observando-as, o que salta à memória é o chiaroscuro de Caravaggio ou os quadros à luz da vela de Georges de
La Tour, exemplos tirados da história da pintura em que se frustrava toda a
premeditação que pode haver no retrato e que Wolff aplicava a esta gente, do
mais digno que pode haver e no entanto sujeita a tantas atribulações, capaz de
mergulhar na treva da sua própria vida e, em transe, de lá sacar uma centelha a
derramar luz sobre a dos demais. Wolff captou-a para a eternidade.
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14 de julho de 2018
John Coltrane “Both Directions At Once: The Lost Album” (Impulse, 2018)
Tudo
é tão excecional em John Coltrane que até o título deste seu “álbum perdido”
aponta ao paradoxo. Ou, pelo menos, a certos escritos de Deleuze e Guattari em
que se namora uma categoria temporal que simultaneamente “recua e avança em
duas direções, (…) rumo ao futuro e rumo ao passado”, objeto eterno, diziam os
filósofos, de uma dupla pergunta: “O que irá acontecer? O que acaba de
acontecer?” Uma espécie de síntese definitiva para o que implica explorar este
prodigioso “Both Directions at Once”. É o que digo a Ravi Coltrane, pelo
telefone, há coisa de três semanas, ao falarmos sobre o disco. “Completamente. A
minha primeira reação ao escutar esta música foi exatamente essa: o que acaba
de acontecer? E é nessa perspetiva que interpreto o título, embora o contexto
da sua formulação original permita outras leituras, claro”, comenta o filho de
John e Alice Coltrane, coprodutor da presente edição. Ravi refere-se a uma
conversa entre o seu pai e Wayne Shorter, em finais de 50, quando discutiam
música descontraidamente e ensaiavam sem compromisso. Conforme se pode ler em
“Footprints: The Life and Work of Wayne Shorter”, de Michelle Mercer, “eles diziam
que gostariam de conseguir falar de trás para a frente, de começar uma frase a
meio e de a completar seguindo em duas direções ao mesmo tempo.” Menos que para
o cerne da linguística, para não dizer, já, da lógica ou da estética, Ravi
transfere o sentido da asserção para o da cronologia: “Quem comparar o que aqui
está com aquilo que o meu pai vinha de fazer em quarteto [quiçá com o
referencial “My Favorite Things” em mente] e principalmente com o que viria a
fazer de seguida [digamos, em “A Love Supreme”] encontra a peça que faltava no
seu puzzle.”
No
mercado, em 1962-63 há mais discos de John Coltrane do que sardinhas no Santo
António. Para sua consternação, tinham os respetivos contratos expirado, a
Prestige lança “Dakar”, “Stardust”, “Standard Coltrane” e “Kenny Burrell &
John Coltrane” (a partir de sessões de 1957 e 1958) e a Atlantic atrasa a
chegada aos escaparates de “Olé Coltrane” e da compilação “Coltrane Plays the
Blues”. Sem demora, para a Impulse, prepara “Africa/Brass”, “Coltrane” e,
quando aspirava a navegá-las todas, que não messianicamente a andar sobre elas,
um controverso divisor de águas: “Live! At the Village Vanguard”. Em termos editoriais,
sem culpa sua, é um período marcado pelo oportunismo, com o público incapaz de
perceber se o que ouve é fruto da virtude ou do vício, se face à tradição Coltrane
é devoto ou descrente – polémica que levou a “Down Beat” a publicar em abril de
1962 um artigo a que chamou “John Coltrane e Eric Dolphy respondem aos críticos
de jazz”. Não admira que o seu produtor na Impulse, Bob Thiele, tenha nas suas
memórias admitido que discos como “Duke Ellington & John Coltrane”,
“Ballads” e “John Coltrane with Johnny Hartman” (igualmente de 1963) eram também
consequência de críticas negativas: “Decidimos pôr este pessoal na linha de uma
vez por todas e provar que o John era um artista completo.” Isto é, que podia
dar um cunho pessoal a material mais acessível e relativamente canónico. Ravi ri-se
à invocação da frase: “É um pensamento perfeitamente capaz de ter passado pela
cabeça de Thiele, mas o meu pai não apreciou menos cada uma dessas suas conceções
por isso. Aliás, nem este álbum perdido resulta da energia despendida em torno
desses discos.” De facto, se há coisa de que John Coltrane não se podia queixar
era de que a Impulse não acompanhava o seu poder de gerar uma música
significativa atrás da outra: antes do ano terminar viria a gravar “Impressions”,
“Live at Birdland” e “Newport ‘63”.
“O
meu pai foi imensamente prolífico”, anui Ravi. “O que não quer dizer que se
prestarmos bem atenção a cada um dos seus discos, em retrospetiva, eles não nos
pareçam absolutamente necessários – de modo quase inequívoco, diria. Mas se me
perguntassem se precisaríamos mesmo de ouvir mais da sua música captada em 63,
eu provavelmente diria que… Bom, eu diria sempre que sim, pois sou parte
interessada, mas deixe-me colocar as coisas de outra maneira. Se me
perguntassem que música de 63 do meu pai eu mais desejaria ouvir, seria, sem
margem de dúvida, a desta mítica sessão, com o quarteto clássico [com McCoy
Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones] no mais alto grau das suas capacidades
expressivas.” Como tantos outros, parte interessada ou não, Ravi sabia há muito
da existência desta sessão gravada a 6 de março de 1963 – no diário do seu
estúdio, por sinal, Rudy Van Gelder tê-la-á diligentemente anotado. Mas a
verdade é que o seu conteúdo havia sido dado por perdido desde inícios de 70, por
aí, quando a ABC, que detinha participações maioritárias na Impulse, se pôs a cortar
em custos de armazém. Então, ao que tudo indica, a ordem foi para que se
descartasse toda e qualquer bobina considerada supérflua, uma atitude coerente
com um dos fundamentos da indústria fonográfica: não vale a pena malhar em
ferro frio. “O meu pai avançava tão depressa que muitas vezes era a Impulse que
tinha de correr atrás dele. Basta contar o número de vezes que foi a estúdio e
ver o manancial de informação que deixou. Com efeito, quando se destruíram as
bobinas originais ele já estava morto há uma boa meia dúzia de anos.”
Inclusivamente, na altura, relembro-lhe eu, a Impulse mantinha na gaveta álbuns
inteiros do quarteto, como “Transition”, “Sun Ship” ou “First Meditations”,
editados, apenas, entre 1970 e 1977. “Precisamente. Não faltavam registos. E
convém não esquecermos que se havia instalado a noção de que a música do meu
pai teria de certa forma transcendido o foro do quarteto, passado para outra
dimensão.” Vendo assim as coisas, este “Both Directions at Once” estará para a
fase intermédia da sua carreira como “Stellar Regions”, descoberto em 1994,
está para a fase final. “Fomos abençoados”, conclui Ravi.
Com
frequência, após cada sessão, Coltrane saía do estúdio de Van Gelder com bobinas
debaixo do braço – cópias em bruto de cada take,
que levava para casa para ouvir e eventualmente considerar para edição. Com
cada matriz devidamente identificada pelo seu engenheiro de som e salvaguardada
no arquivo da sua editora, John, uma vez terminado cada projeto, passava
adiante e não lhes atribuía importância, a ponto de as ter deixado para trás com
outros objetos pessoais quando se separou de Naima, a sua primeira mulher. Nunca
se soube ao certo em que consistia esse espólio familiar, mas em fevereiro de
2005 deu-se um vislumbre dos seus principais atributos quando a leiloeira
Guernsey’s anunciou um “Jazz Auction” que, de Coltrane, incluía saxofones, vídeos
caseiros, partituras manuscritas, cartas e um lote com 35 bobinas. Alertada, a
Verve, que controla atualmente a atividade da Impulse, logo solicitou a remoção
dos fonogramas – afinal, alegava, provinham da época em que Coltrane gravava em
exclusivo para a marca, e a sua propriedade jamais havia sido transferida. O
caso não era difícil de provar, e a Guernsey’s foi forçada a admitir a
ilegitimidade da venda pública das bobinas, que prontamente retirou do
catálogo. “Desde aí temos todos trabalhado em conjunto”, sublinha Ravi. “Os
herdeiros de Naima, do meu pai e a Verve. E a última reedição de ‘A Love
Supreme’, em 2015, incluía como bónus a versão em sexteto de ‘Acknowledgement’ com
proveniência nesse acervo. Mas descobrir um álbum na íntegra foi um milagre.”
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