Mostrar mensagens com a etiqueta Rumi. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rumi. Mostrar todas as mensagens

1 de novembro de 2019

Agenda: Guimarães Jazz


No ano passado, era tudo sobre o espaço – com a organização do festival vimaranense atenta no aeroporto Francisco Sá Carneiro aos horários de chegada de voos provenientes dos “Estados Unidos, Brasil, Israel, Alemanha, Áustria…”. Este ano, ao que parece, a preocupação é o tempo: “Em 2019, e já na sua 28ª edição, o Guimarães Jazz cumpre mais uma etapa de um percurso de quase três décadas de divulgação do jazz de todas as épocas”, lê-se na sua apresentação. Realmente, mais referências à quarta dimensão, numa única frase, só em ‘Oração ao Tempo’, de Caetano: “E quando eu tiver saído/ Para fora do teu círculo/ Tempo, tempo, tempo, tempo/ Não serei nem terás sido/ Tempo, tempo [etc].” E, já que, de todos quanto programa, é o mais avançado em idade, começa de modo apropriado, com Charles Lloyd – logo ele, que passou grande parte da carreira a bater o pé ao maniqueísmo, e que sempre que tocava ‘Tales of Rumi’ (1997), por exemplo, aproveitava, como dizia o poeta, para sugerir que “Cem mil anos e sessenta minutos são uma coisa só”, que para aqueles que se deixam absorver pela verdade não há princípio nem fim, só a “graça do presente” (talvez por isso lhe seja tão fácil tocar num grupo como este, os Kindred Spirits, em que a presença do guitarrista Marvin Sewell traz à memória a altura em que Lloyd esteve ao serviço de gente como Howlin’ Wolf ou B. B. King).

Rumi falou também acerca de uma categoria de pessoas que se deixa consumir pelo mundo material em virtude da sua profunda ignorância e imensa falta de consideração – Donald Trump será uma delas, diz Antonio Sánchez, que, de acordo com o seu mais recente álbum, subirá a palco de hoje a oito dias para traçar “Lines in the Sand” (no CD, em alusão à vil articulação do presidente norte-americano, dá-se por um tema chamado ‘Bad Hombres y Mujeres’). Sánchez dirige-se àqueles que vêem o seu tempo na terra das oportunidades a esgotar-se – e o jazz chama a atenção para coisas destas desde que há 70 anos Bud Powell transformou a locação latina tempus fugit em ‘Tempus Fugue-it’. No sábado, sosseguem os espíritos, que voltamos a rodar como dervixes. Primeiro, às 17h, com o trio de Stéphan Oliva, Sébastien Boisseau e Tom Rainey, cujo recente “Orbit” inclui em sequência temas como ‘Cercles’ e ‘Spirales’, e à noite com duetos de piano de Vijay Iyer e Craig Taborn organizados sob a égide de uma sugestiva frase de Cecil Taylor: “Somos animais, parte integrante da natureza. Somos os poemas transitórios,” afirmou o maestro, em 1994. Falava do ciclo da vida. Quem chamou “The Circle Game” a um dos seus primeiros livros de poesia foi Margaret Atwood – e será com “The Atwood Suites”, e o Andrew Rathbun Large Ensemble, que encerra o Guimarães Jazz, de amanhã a quinze dias, reunindo até lá tempo mítico, tempo histórico, tempo geológico, tempo pessoal, o que se quiser – enfim, antes que não tenha tempo, destaque, ainda, para a ICP Orchestra (11) e para Joe Lovano (13)!

26 de outubro de 2019

Saariaho: Graal Théâtre; Circle Map; Neiges; Vers Toi Qui Es Si Loin (BIS, 2019)

Por mais espectral que se afigure, ou, quiçá, por isso mesmo, há na música de Saariaho uma inebriante sede de presenças – um teatro de sombras, em busca pela unidade existencial, sim, mas marcado pelo signo da incompletude. E escutar a sua obra, em termos algo simplistas, é permanecer adstrito a essa fenda que se abre no espaço e no tempo. Como é óbvio (em “Circle Map”), não admira que se socorra da poesia desse decantador de ausências que é Rumi: “Não sou feito de terra, água, ar ou fogo// Não sou do paraíso, ou deste mundo// O meu lugar é sempre o não-lugar”, escreveu o persa em “As Obras de Xamece de Tabriz”, 700 e tal anos antes do António Variações de ‘Estou Além’. Aqui, de modo muito apropriado, o místico é ouvido mas jamais visto – na voz de Arshia Cont, em off, os seus versos lidos, gravados e reproduzidos, como se a orquestra passasse a estar assombrada pelo fantasma do seu próprio solista. Quem se recordar dos registos fonográficos de Raudive (dos mortos, dizia ele), sabe que isto é de levantar os cabelos: e quando Cont, com o som da recitação manipulado, a fim de imitar a fala de uma criança, declama “Sou tão pequeno que mal posso ser visto”, estamos já, de facto, no território do biopsicólogo Jaak Panksepp, que associou os “arrepios musicais”, como lhes chamava, a um sistema sinalizador biológico primitivo (ex.: entre os primatas, quando mãe e cria estão perto um do outro mas por algum motivo perdem o contato visual, o grito da mãe faz eriçar o pêlo da cria).

De carência e afeto trata igualmente “Vers toi qui es si loin”, dedicada a Peter Herresthal e baseada na derradeira ária de “L’Amour de loin” (a ópera que a finlandesa compôs há coisa de 20 anos, com libreto de Amin Maalouf), cheia de ressonâncias de Rumi, claro, mas, e apesar de Los Panchos o terem cantado melhor, em ‘Piel Canela’, capaz de lembrar uma oração islâmica, que diz: “Onde quer que eu vá – somente Tu/ Onde quer que eu pare – somente Tu”. Virada a oriente está também a Arturiana “Graal théâtre”, um concerto para violino alimentado a lascas da escala arábica, espécie de épico em que os heróis de Wagner surgem incorpóreos, desmaterializados e de átomos dispersos. Exatamente o que se passa em “Neiges”, que obriga, com calafrios, a voltar a Rumi: “Seja a neve derretendo/ Lave-se de si.”

9 de julho de 2016

Céu “Tropix” (Six Degrees, 2016)



Ouve-se atentamente ‘Perfume do Invisível’, primeiro tema e, por sinal, single inaugural deste quarto álbum de Céu, e pensa-se no Whitman de “Canto de Mim Mesmo”. Nomeadamente quando os versos da canção (“Logo que o perfume do invisível te inebriou/ Você me viu/ E o mundo também/E o que estava quietinho ali/ Se mostrou, meu bem”) lembram os do poema (“As casas e quartos estão repletos de perfumes// Eu próprio aspiro essa fragrância// Eu próprio dela poderia embriagar-me” e ainda “O visível é prova do invisível/ Até que se torne invisível e por sua vez seja provado”). De facto, e sempre que se introduz na equação a variável do amor, a cantora é dada ao êxtase dos místicos. Aliás, mais adiante, em ‘Minhas Bics’, no instante em que se escuta “Eu pedi para ser feita da poeira/ Do astro da estrela que risca o céu”, não é tanto Sagan que vem à mente (ele, que dizia que “o nitrogénio no nosso ADN, o cálcio nos nossos dentes”, etc., “foram criados no interior de estrelas em colapso”, que “somos poeira das estrelas”) quanto Blake, vendo “o mundo num grão de areia”, segurando “o infinito na palma da mão”, ou Rumi, com os seus “grãos de areia do deserto” dançando, apaixonados.

Ou seja, “Tropix”, mais do que qualquer desvanecimento, tem como assunto a atomização do universo musical como modo – diriam eles – de Céu se conhecer a si mesma e, quiçá, de morder a própria cauda, uma imagem mais apropriadamente tropicalista. Ela, que, a publicações brasileiras, explica assim a metáfora: “[O disco] acaba tendo também um conceito”; “fui notando que falava mesmo sobre um píxel tropical”; “vem daí a história de ‘Tropix’, de ‘trópico’ com ‘píxel’, uma leitura digital dos trópicos”; “algo de construção tijolo a tijolo, de decupagem”. Mais do que na lírica, é um impulso que se distingue nos arranjos, sintéticos e soturnos, com as notas de cada acorde divididas em borbulhantes arpejos (em evocação de Moroder, cortesia dos teclados do francês Hervé Salters, famoso pelo nom de plume General Elektriks) ou com os staccatos da guitarra elétrica de Pedro Sá refletidos numa bola de espelhos. Diz a paulista: “Eu olho muito para o passado para buscar coisas novas, acho difícil fazer algo totalmente fresco. Talvez por isso [se] sinta esse eterno retrô.” É: Céu olhou para dentro de si e entrou na matrix.