Na sua ação tangencial à música erudita, ao folclore, ao
tango, ao jazz, é costume sublinhar-se o que de aproximado há nesses materiais tão
diversos, conquanto se distinga Dino Saluzzi precisamente por todos manter à distância.
Ou seja, fosse o argentino menos rigoroso nas suas evocações e dir-se-ia produzir
uma arte de ausências, silenciada por uma inconfessável afetividade. Nessa
perspetiva, “El Valle de la Infancia” flutua entre a autobiografia e a memória,
e remete para o lugarejo em que nasceu, Campo Santo, na cordilheira oriental da
província de Salta, à sombra dos Andes, num tempo anterior à rádio e à
eletricidade, praticamente precedente à palavra, que simultaneamente se saúda e
esconjura. Não tivesse o tema tanta prevalência na sua obra e tomar-se-ia esta
gravação por um prolongamento do ensaiado quase há dez anos em “Juan Condori” –
também então, como agora, se socorrendo Dino do irmão Cuchara, do filho José
María e do sobrinho Matías. O enquadramento familiar permite tratar saudades
comuns, mas não torna a operação menos ficcional. Até quando reconstitui fielmente
a época que recorda, por intermédio de zambas
de Mario Arnedo Gallo, Atahualpa Yupanqui ou Ariel Ramírez (o compositor de
“Missa Crioula”), o disco responde mais a um impulso de criação do que
propriamente de recriação. Talvez por isso não sucumba à nostalgia. Isto é, o
seu autor está aqui como a criança que ao nomear o mundo está a pô-lo em
movimento, a tomar posse da sua origem e consigo a carregá-la para sempre. Pega
no bandoneón e pensa-se em versos de
um patrício seu, Manuel J. Castilla: “si
alguno me tocara las manos/ se iría enloquecido de eternidad”.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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10 de maio de 2014
5 de junho de 2009
Carlos Martínez “Atahualpa Yupanqui – Obra Completa Para Guitarra (Composiciones Propias)”
Portugal percebeu-o bem. E não foi apenas para apadrinhar Abril que, um dia, don Ata ‘saudou’ Zeca Afonso evocando mais o sopro do vento do que a vontade dos homens. É que não será a distância a separar quem, em países cortados ao meio, soube ao verdugo responder com uma poética de flores de estio. E se, por vezes, a política mais não faz do que mistificar valores inscritos na terra, o que dizer de quem – na sua Argentina – soube reclamar um lugar no coração geográfico de um país de forma a melhor entender o que lhe ia na alma? E, para mais, criando um estilo que – como por cá o de Paredes – só não fez escola porque se revelou inimitável. Daí a impossível tarefa do guitarrista Carlos Martínez e o paradoxo em que assenta o seu absoluto triunfo. Pois constata que, mais do que a compreensão do tempo cronológico, em Yupanqui é necessário reconhecer aquilo que a filosofia apelida por ‘tempo oportuno’. Isso, e a aceitação de uma cumplicidade geográfica que – por entre sarças e canaviais, nas serranias e nos planaltos – se revela sempre que numa decantação folclórica o sangue se mistura com as cordas e a madeira. Do andino sonho de tocar a lua à descida da cruz de quem canta errando pela pampa, esta é a música enquanto metáfora de silêncios.
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