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16 de fevereiro de 2019

Don Byron/Aruán Ortiz “Random Dances and (A)Tonalities” (Intakt, 2018)

Sim, Byron e Ortiz tocam efetivamente “Música Callada”, de Mompou – para ser exato, tocam a quinta peça do seu primeiro caderno, uma daquelas obras feita à medida das almofadinhas das patas dos gatos e em cuja interpretação não convém de todo ignorar os versos de João da Cruz que lhe serviram de mote, e que dizem assim: “A noite sossegada/ A par dos levantes do raiar da aurora/ A música calada/ A solidão sonora/ A ceia que recreia e enamora.” Estranhíssima opção para um dueto, como é óbvio. Mas a verdade é que Byron teve sempre uma enorme atração pelo insólito, ainda que esta escolha não tenha sido sua – afinal, foi o cubano que passou uns anos a estudar na Catalunha. Aliás, logo a abrir este disco escuta-se ‘Tete’s Blues’, de Ortiz, e o que logo vem à memória é a Barcelona de Tete Montoliu bem como as gravações em que essa prodigiosa figura fazia ao teclado o que Gaudí tinha feito em edifícios: estruturas sensíveis, sinuosas, insinuantes, sobrecarregadas de enfeites e ao mesmo tempo imunes à lei da gravidade.

Mompou ter-se-á referido a um efeito semelhante, precisamente a propósito das suas miniaturas para piano, quando falou acerca de uma música que tinha “como missão penetrar nos pontos mais profundos da nossa alma e nas regiões mais secretas do nosso espírito” mesmo que não fosse impelida a deslocar-se “mais que uns milímetros no espaço”. Não há melhor definição para música de câmara. E, aqui, é essa ideia que infiltra o pensamento de Byron e Ortiz, seja em ‘Black and Tan Fantasy’ (Duke Ellington), seja na transcrição para clarinete do segundo andamento da “Partita para Violino Nº 1”, em Si menor, de Bach, seja em ‘Dolphy’s Dance’ (Geri Allen), seja em ‘Delphian Nuptials’, de Byron, elegantíssimo tema que se diria comungar em simultâneo do “Prelúdio e Fuga” em Dó maior com que Bach, de novo, iniciava “O Cravo Bem Temperado” e de “Danseuses de Delphes”, um prelúdio de Debussy. Isto, além de uma série de tangentes atonais em que Byron e Ortiz despertam para a vida como o sonâmbulo que acorda em sobressalto à beira de um precipício. Aí, nunca mais voltam à Terra.

24 de fevereiro de 2018

Brightbird "Brightbird" (Arjuna, 2017)


Não será indiferente ao truísmo de que metade da poesia do mundo desapareceria se dela se espantassem as aves, este Brightbird – trio composto por João Paulo Esteves da Silva (piano), Samuel Rohrer (bateria) e Mário Franco (contrabaixo) –, conquanto tamanha evidência se aplique a demais artes. A começar pela música. Ainda há quatro anos, em Marrocos, se subordinou o Festival de Fez ao épico “Conferência dos Pássaros”, de Farid ud-Dîn Attâr, e, em palco, de Rokia Traoré a Jordi Savall, não houve quem não quisesse achar correspondência a estes versos seus: “Ergue-te e toca/ essas líquidas notas que roubam o coração aos homens.” De facto, “At liquidas avium voces imitarier ore…”, já dizia Lucrécio, a lembrar o nascimento da música. Claro que, no caso, não se trata de povoar espaços tímbricos ou cromáticos com os seus cantos – embora, por vezes, parte do que aqui se escuta pareça recordar esse tempo em que poesia, partitura e piu-piu eram um só. 

Em comum com a lírica antiga, ainda, mantém-se a exaltação da natureza: estas improvisações livres possuem títulos como ‘Sun’, ‘Winter’, ‘Renewal’, ‘Waves’, ‘So Much Water So Much Green’ ou ‘Bird’, e por vezes não se percebe bem se são os instrumentistas que estão a traduzir o universo à sua volta ou se é o ‘Cosmos’ (outro dos temas do disco) que está a ser convidado a decifrá-los a eles ou a verter-se neles. Seja como for, mantêm-se algo ascéticos: se o que fazem saísse da mente de um místico serviria para acompanhar aquelas linhas em que São João da Cruz falava de um pássaro solitário. Aliás, quem se inspirou em João da Cruz foi Mompou, cujo “Pájaro triste” se diria feito à medida de João Paulo – afinal, num poema, foi o português que escreveu: “A tocar piano/ aprende-se a deixar o paraíso.” Há momentos em que o inverso parece verdadeiro, é certo. Mas a música deste trio, subtil e empática e extraordinariamente reativa, faz-se também da saudade por aquilo que num segundo está e noutro não, tão fugidiço quanto um bater de asas.