Há uns meses, à “Ransom Note”, John Armstrong
explicava o segredo do sucesso de Chief Tabansi, alguém que à frente de um
pequeno selo independente havia indelevelmente marcado a indústria fonográfica
nigeriana dos anos 70 e 80: “Ele tinha o seu próprio estúdio de gravação, a sua
própria empresa de fabrico e duplicação de vinis e o seu próprio canal de
distribuição – uma carrinha, através da qual, desde Onitsha, percorria o país
de lés a lés,” de Lagos, onde vendia discos de fuji aos iorubas, à fronteira com o Níger, por exemplo, onde vendia
música árabe aos haúças. De facto, não seria para qualquer um. Mas o que o DJ e
produtor britânico responsável pela presente campanha de reedições da Tabansi,
na BBE, desconhecerá, quiçá, é que o fundador da editora não tinha a vida,
assim, tão complicada quanto isso: pelo menos a partir de 1979, quando Shehu
Shagari interditou a importação de discos (uma medida protecionista que levou a
que no ano seguinte se viessem a produzir 12 milhões de singles e LP na Nigéria, metade dos quais dedicados a estilos
nacionais, conforme explica John Collins, em “Musicmakers of West Africa”). O
que terá sido o empurrão que faltava para que a Tabansi promovesse uma ressurreição
cultural: a do highlife ibo, cujos
expoentes (Stephen Osita Osadebe, Celestine Ukwu, Nico Mbarga, Oriental
Brothers) estavam nas mãos de multinacionais como a Philips e a Decca, prestes
a ser nacionalizadas ou em contrapartida a ter de abandonar o barco. E, com
Jake Sollo à frente das operações (ele, que, dez anos antes, em plena Guerra do
Biafra, animava as tropas secessionistas com os Funkees, antes de viajar para
uma Inglaterra em que o esperava de braços abertos John Peel), tratar de
atualizar o mais leve e lúdico no género para esse período hedonista em que nas
discotecas os temas mais pedidos eram o ‘Boogie Oogie Oogie’, de A Taste of
Honey, e o ‘Boogie Wonderland’, dos Earth, Wind & Fire. Aqui, com o mesmo
Nkem Njoku com que viria a gravar “Man No Good” (1986), está plasmada a esperança com
que Sollo e uma minoria tão perseguida reagiam aos avanços democráticos de um país
que temiam não ser para si. Mas foi, ainda que só por uma noite.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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18 de julho de 2020
Nkem Njoku & Ozzobia Brothers “Ozobia Special” (BBE, re. 2020)
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19 de janeiro de 2013
Kiki Gyan “24 Hours in a Disco: 1978-82” (Soundway, 2012)
No Gana, em Acra, milita ainda
adolescente nos Blues Monks, de Ebo Taylor, ou nos Pagadeja, de Ray Allen, mas
foi enquanto Kiki Djan que ganhou notoriedade, quando, por entre o expatriado
grémio de ganeses e caribenhos reunidos em Londres nos Osibisa, subia ao palco
do “Top of the Pops” e se sentava ao teclado para animar pálidas britânicas
como se fosse o Stevie Wonder. E ouvindo-se os três álbuns que gravou com a
banda encontram-se as sementes – ‘Kangaroo’ em “Osibirock” (1974), ‘Do It (Like
It Is)’ em “Welcome Home” (1975) ou ‘Dance the Body Music’ em “Ojah Awake”
(1976) – para tão luxuriante produção em nome próprio. Mas é no contexto
específico do disco sound tardio, quando
o edifício estético em que o género assentava havia já recebido o aviso de
demolição mas nas tabelas europeias pupulavam ainda Gonzalez, Skyy, Voyage,
Odyssey, Kano, Imagination ou Ottawan, que se compreende o essencial desta colossal
manobra de hedonismo. E, nos últimos anos, apenas em “Brand New Wayo: Funk,
Fast Times & Nigerian Boogie Badness 1979-1983” se ouviram com o mesmo grau
de emoção tantas coisas ridículas (uma eternidade de falsetes cantados como
quem exala hélio, violinos tocados com o repentismo da dança rítmica e baixos a
ronronar como gatos pançudos). Com mote no máxi
“24 Hours in a Disco”, que, em 1979, a Bronze lançou como banda-sonora para
bacanais em boates, incluem-se aqui temas de “Feeling So Good” ou do apropriadamente
propulsivo “Disco Train”, editados já na Nigéria, onde namorava uma filha de
Fela Kuti, tocava com Jake Sollo e chutava e inalava com toda a gente. Produziu
mais um par de discos mas definhou, passando por clínicas de desintoxicação e
acabando nas ruas a contar histórias de grandeza e desilusão por uns trocos. Faleceu
em junho de 2004, emaciado pela sida, sem uma grama daquilo que mais pôs na
música: gordura e alegria.
9 de junho de 2012
The Funkees “Dancing Time: The Best of Eastern Nigeria’s Afro Rock Exponents 1973-1977” (Soundway, 2012)
Talvez
só os Sly and the Family Stone de “There’s A Riot Going On” ou os Funkadelic de
“Maggot Brain” o tenham, em 71, feito tão bem. E também, aí e então, ora no
sudeste asiático, ora à porta de casa, era de guerra que se falava. Porque é
certo que poucos como os nigerianos Funkees, num período de iminente e eclético
pedantismo estético, conseguiram refundar o rock enquanto ideia da música negra
e não apenas como símbolo. E, evitando um emprego paliativo dos seus princípios,
dessa forma restaurar um orgulho cultural em ruínas. Deu-se
porventura o caso do grupo – de origem Igbo, a etnia derrotada no Biafra, em
cujo conflito os seus membros participaram animando as tropas secessionistas – ter
encontrado num paradigma universal traços específicos da sua identidade. O que fica
claro na audição do single “Slippin’ into
Darkness/Breakthrough”, de 73, no qual, através de versões africanizadas dos
temas dos War e dos Atomic Rooster (em que, respectivamente, se fala de um
mergulho na escuridão e da incapacidade de se escapar a uma prisão invisível),
se associa a um interposto estado de espírito para denunciar a sua própria
condição. Da mesma maneira, em ‘Dancing Time’ ou ‘Ogbu Achara’, recorre ao afrobeat para o tornar num organismo
mutante. Tudo isto é patenteado nesta inexacta antologia (a cronologia do
subtítulo está equivocada e sai igualmente frustrada a ambição escrita na
contracapa de coligir todos os singles
da banda) que tem como prato forte a inclusão quase integral de “Point Of No
Return”, álbum gravado em Londres, em 75, quando agentes musicais como John
Peel viam nos Funkees uns novos Osibisa ou Cymande. Debalde, Jake Sollo sairia em
76 precipitando o seu fim e só Harry Mosco, falecido este ano, manteria uma
carreira proeminente. Mas entre 71 e 77 foram seminais.
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