Em ‘Sastanàqqàm’ faz-se
uma jura sagrada: “Ténéré, enquanto
for vivo, voltarei para ti.” Quem o diz é Ibrahim
ag Alhabib, força motriz dos Tinariwen. E em outubro passado andou lá perto,
quando a banda atuou no Festival de Taragalte, no sul de Marrocos. O jornalista
britânico Andy Morgan fez-lhe uma visita e deram dois dedos de conversa: “Não
faço ideia nenhuma do que se passa por lá”, confessava o cantor. De facto,
desde a última sublevação tuaregue no norte do Mali, em 2012, que as coisas se
complicaram para si e para os seus. Aliás, ele foi mais um dos que sofreram na
pele o efeito negativo daquela alegada coligação entre militantes tuaregues e
elementos do Ansar Dine e da Al-Qaeda no Magrebe Islâmico que, na altura, mais
não fez do que cobrir a região com o véu da ortodoxia islâmica. “É mais
complicado para os nómadas”, continuava, “que só querem ser deixados em paz com
os seus rebanhos. Mas até os animais estão assustados!” Como dizia Riobaldo, em
“Grande Sertão: Veredas”, “Cavalo
que ama o dono, até respira do mesmo jeito.” O jagunço estava no nordeste
brasileiro mas podia estar na estepe russa ou no deserto do Sáara. A ilusão é
semelhante: a de um espaço sem princípio nem fim que parece ilimitado mas que
aprisiona, que transforma os seus habitantes em heróis e vilões e cujo
horizonte infinito obriga a contemplar o céu. Só que, como, agora, em
‘Tanakra’, canta Ousmane ag Mossa, dos Tamikrest: “A Estrela Polar
desapareceu.” E “Os pássaros já não voltam para o ninho”, responde-lhe Alhabib,
em ‘Ténéré Tàqqàl’. Pois “Elwan” e “Kidal” falam a língua do exílio e da
solidão.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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3 de junho de 2017
26 de outubro de 2013
Milton Nascimento “Uma Travessia: 50 Anos de Carreira ao Vivo” (DVD Universal, 2013)
Travessia.
Não por acaso é a última palavra que se lê naquele cemitério para a unidade
linguística que se chamou “Grande Sertão: Veredas”, quando infere Riobaldo: “O
diabo não há! […] Existe é homem humano. Travessia”. Como o narrador do romance
de João Guimarães Rosa, Milton Nascimento encontrou o rumo no que a vida possui
de mais transitório, entre a imanência e a transcendência. Ou seja, atravessando
mais misérias e tristezas do que aquelas de que dão conta os cronistas (orfandade,
discriminação, encarceramento, proscrição, tortura, depressão), o seu maior
ensinamento terá porventura derivado desse momento em que preferiu a dúvida à
certeza, a reversibilidade à fatalidade. Em 1967, na segunda edição do Festival
Internacional da Canção, descreveu-o assim: “Solto a voz nas estradas/ Já não
quero parar/ Meu caminho é de pedra/ Como posso sonhar”, antes de concluir, catarticamente,
“hoje faço com meu braço meu viver”. Em 1976, nas páginas de uma revista (a
efémera “Música do Planeta Terra”), Caetano Veloso apresentou-o de modo genesíaco:
“Milton vinha vindo sozinho pelo caminho e todas as estrelas brilhantes se
apagaram à sua passagem para só voltarem a brilhar em sua voz quando ele
cantasse. E o céu ficou negro e sem luz e então houve muito mais luz”. O
compromisso de Milton está na terra, apesar de aparentar despontar entre os
astros.
Embora, ao que tudo indica, em 1956 já atuasse com o grupo
Luar de Prata – que chegou a gravar um 78rpm com versões dos Platters e de
Steve Lawrence –, Milton comemorou em 2012 os 70 anos de vida e os 50 de
carreira (para esta avaliação parece ter sido contabilizado o período decorrido
desde ‘Barulho de Trem’, um original seu em 1962 captado em estúdio com o obscuro
Conjunto Holiday, a par da atividade com os W’s Boys, banda de que era
vocalista). Talvez de forma involuntária, foi um borrão nas linhas de
demarcação da música popular brasileira. Não por rigorosamente as patrulhar, ao
jeito de companheiros de geração, como Chico Buarque, Paulinho da Viola ou Edu
Lobo; muito menos por se deixar seduzir pelo seu exotismo, como fizeram Eumir
Deodato, Marcos Valle ou Sérgio Mendes; ou, sequer, de acordo com a ação de
Caetano, Gilberto Gil ou Jorge Ben Jor, por conspirar expô-las ao ridículo. De
maneira singular, em vez de levar o Brasil ao mundo moderno – o que, logo ao
segundo álbum, e precocemente, até fez – sugeria querer reconduzi-lo a qualquer
coisa mais arcaica: quem sabe, a um mundo que era já brasileiro antes ainda de
haver Brasil. Milton foi moldando a história artística central do seu país
dando mostras de lhe ser absolutamente exterior.
“Uma Travessia”, o espetáculo que traz
a Portugal no dia do seu septuagésimo primeiro aniversário, encerra a liturgia
de quem avançou estremecendo pelos segredos da criação, transformando angústia
em profecia, abrindo-se ao infinito mas jamais perdendo de vista o que só o
trabalho alcança (em ‘Amor de Índio’ proclama: “Todo o amor é sagrado/ e o fruto do
trabalho/ é mais que sagrado”). O correspondente DVD (o concerto está igualmente
disponível em CD), em que participam Wagner Tiso (aos teclados em ‘Vera Cruz’,
‘Nos Bailes da Vida’, ‘Canções e Momentos’ e na sua ‘Coração de Estudante’) e
Lô Borges (duetista em quatro temas e solista em três clássicos de sua pena: ‘Nuvem
Cigana’, ‘O Trem Azul’ e ‘Um Girassol da Cor do seu Cabelo’), remete para outra
efeméride: as quatro décadas volvidas desde “Clube da Esquina”, o mais gregário
de entre todos os discos concetuais. Os seus discretos ideólogos (Ronaldo
Bastos, Márcio Borges, Fernando Brant) são evocados pelo repertório, enquanto
os seus mais visíveis obreiros (Beto Guedes, Toninho Horta, Luiz Alves,
Robertinho Silva, Nelson Angelo, Tavito, Rubinho) são lembrados nos arranjos de
um quinteto – Gastão Villeroy no baixo, Kiko Continentino ao piano, Widor
Santiago nos sopros, Wilson Lopes à guitarra e Lincoln Cheib na bateria – elaborados
a partir de matrizes que, de tão exatas, se diriam lavradas num cartório de
Minas Gerais logo após a sua conceção.
Mas foi por atribuir sentido à
existência dos que o ouviam que Milton se revelou eminentemente contemporâneo.
O seu canto aproximava diferenças, dirigia-se ao público para imediatamente dele
se distanciar, provava que a vida necessita de solidões mas também de quem aponte
saídas. Seria importante que o diálogo com os coliseus de Lisboa e Porto não
ocultasse este tempo em que tantos enfrentam o desespero de frente. E que se
percebesse que quão mais o presente os escraviza mais Milton fala aos
resistentes. Tratar-se-ia de um novo significado para um ato destinado a gente sequiosa
por relações com o sublime. Em ‘Promessas do Sol’, pergunta: “Que tragédia é
essa que cai sobre todos nós?”. Respondendo, em ‘Cais’: “Para quem quer se
soltar/ invento o cais/ invento o mar”. E visita o “porto de desesperança e
lágrima” de ‘Lágrimas do Sul’ para, com ‘Maria, Maria’ afirmar que “é preciso
ter força”, que “é preciso ter graça” e “gana sempre”, porque “quem traz na
pele essa marca/ possui a estranha mania/ de ter fé na vida”. E a sua plateia ficaria
a ter como certo aquilo que assegurou em ‘Clube da Esquina nº 2’, que “os sonhos
não envelhecem”.
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