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12 de abril de 2014

Berg: Lyrische Suite; Schoenberg: Verklärte Nacht (Harmonia Mundi, 2014)

Ensemble Resonanz, Jean-Guihen Queyras (vc, d)

No epistolar “Die Geschichte einer Liebe in Briefen”, encontra-se, num escrito de Berg de 23 de outubro de 1926 endereçado a Hanna Fuchs, uma descrição confessional desta “Suíte Lírica”. Tratou-se, à data da sua descoberta, em meados dos anos 70, de um achado hermenêutico que permitiu entender a obra enquanto “admissão da nossa experiência amorosa”, isto é, como resultado de uma relação extraconjugal. Sabe-se que a índole dessa ligação foi sobretudo platónica (Helene Berg, numa carta a Alma Mahler, falou da necessidade do seu marido em “construir obstáculos” para melhor enquadrar “paixões”), mas permanecem úteis frases como: “o primeiro movimento (…) é farto em cifras que expressam o nosso secreto relacionamento”; “no segundo (…), mesmo um ouvinte de que nada suspeite sentirá alguma da ternura que me anima quando penso em ti”; “o terceiro narra a natureza inocente e murmurante do nosso encontro”; “o quarto, a luminosa consciência do nosso amor”; “o quinto, o relampejante delírio”; “por fim, apenas desespero e aflição”. A suíte, para quarteto de cordas, estreou a janeiro de 1927, quando o único divórcio de que se falava era o da tradição com a modernidade, embora prove, antes, que uma peça dodecafónica poderia conter memórias românticas tanto quanto um novo amor se alimenta dos que o precederam. Berg orquestrou três andamentos, e Theo Verbey, em 2006, como Cerha fez com “Lulu”, transcreveu os restantes, que agora Queyras e o Resonanz gravam com febril dedicação. Como apêndice, uma “A Noite Transfigurada”, composta pelo mentor de Berg em 1899, mais matricial e redentora que profética ou anátema, de eminente simbolismo dramatúrgico.

21 de dezembro de 2013

Eisler: Ernst Gesänge; Lieder Mit Klavier (Harmonia Mundi, 2013)



Matthias Goerne (v), Thomas Larcher (p), Ensemble Resonanz

Em 1998, no centenário de nascimento desses dois exatos contemporâneos, Matthias Goerne lançou o “Livro de Canções de Hollywood”, composto por Hanns Eisler, em Los Angeles, a partir, maioritariamente, de poemas de Bertolt Brecht. A edição, pela Decca, gerava-se no contexto da série “Música Degenerada”, uma referência à exposição organizada pelo regime nazi em 1938, sintetizada, então, num cartaz que retratava uma figura amacacada a tocar saxofone de casaca e cartola, Estrela de David desabrochada na lapela – essa caricatura, tal como Eisler, está representada na pintura de Rainer Ehrt impressa na capa acima reproduzida. A reincidência de Goerne em doze dessas composições prova que o alemão lhes investigou primeiro a técnica para agora lhes desvendar a humanidade, nomeadamente quando canta: “Confundindo cheiro e som, imagem e sentido/ O fugitivo senta-se debaixo do amieiro/ E prossegue com o seu custoso labor: a esperança”, em ‘Primavera’; “Junto à cama, na cabeceira/ Está o pequeno aparelho a seis válvulas com o seu altifalante// De manhã cedo/ Ligo o interruptor e oiço/ boletins com as vitórias dos meus inimigos”, em ‘Quarto de Hotel 1942’; “O meu filho/ Foi-me buscar para salvar um pequeno alperceiro que crescia junto à casa/ Arrancando-me a um verso em que apontava o dedo àqueles que preparavam uma guerra que/ Podia destruir o continente, esta ilha, o meu povo, a minha família e a mim próprio”, em ‘Domingo de Páscoa’. Esta “paisagem do exílio” foi musicada por Eisler, dir-se-ia, ao socorrer-se das mais irresolutas ambiguidades encontradas em Brahms, Schubert ou Wolf. Já nas “Canções Sérias” – para barítono e orquestra, derradeiro opúsculo – esse dilacerado romantismo sublinha uma dramática tomada de consciência: há sempre quem substitua os piores entre nós.