A ideia não é, em si, nova. E, para
nos ficarmos por companheiros geracionais, convirá relembrar esse paradigmático
par de álbuns – um de originais e outros de versões – que Ethan Iverson,
pianista dos Bad Plus, expôs há quinze anos no teorema “Construction Zone” e
“Deconstruction Zone”, e recordar as incursões que o próprio Iverson, mas também
Greg Osby, Jason Moran, Vijay Iyer ou, coetaneamente, Dave Douglas e Herbie
Hancock, fizeram pela pop contemporânea. É quase uma tradição dentro de outra. Afinal
de contas, já na alvorada do jazz, foi precisamente pela descoberta da música
popular mais heterodoxa que aquelas bandas paroxísticas e ágeis – constituídas
em redor de grémios, festivais, piqueniques, bailes, marchas e excursões –
escaparam à sua condição provincial e arquitetaram uma crucial transmutação,
abandonando genericamente o mutualismo em prol da arte de solistas pela qual se
veio a reconhecer o mais virtuoso no género. E terá sido esse libertário
postulado o motor de todos os celeumas. Por tudo isso não admira que, meses
após o autoral “Ode”, proponha Mehldau, coadjuvado, como é hábito, por Larry
Grenadier e Jeff Ballard, que se torne a equacionar a densidade do seu discurso
artístico sob o pretexto de uma visita ao repertório de Nick Drake, Chico
Buarque, Jimi Hendrix, Sufjan Stevens, Alice in Chains ou Elvis Costello,
reforçando, nesta era de aplicativos personalizados para a reprodução digital
de música, o papel do intérprete como o de um curador de sensibilidades. Há,
inevitavelmente, uma afetação da postura do pianista ao lidar com tamanha
estilização, mas no melhor da sua obra assinada sobressai um fascínio pela
estrutura que aqui se prova valioso. Um axiomático formulista,
perfeitamente empático em ‘Baby Plays Around’ e ‘Samba e Amor’.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
23 de fevereiro de 2013
Baden Powell “À Vontade” (Soul Jazz, 2012)
Os nomes próprios, por inspiração
paterna, vinham do apelido composto do fundador do escutismo, Lord
Baden-Powell, e é indesmentível que o guitarrista brasileiro aparentava levar
uma vida de prospetivo nomadismo. Já o sobrenome, efetivamente familiar,
remetia para Tomás de Aquino, o qual terá porventura lido sob o prisma da
dialética aristotélica que o teólogo dominicano integrou no cristianismo. Mas a
verdade é que Baden Powell de Aquino era mais virtuoso e errante nos palcos do
que longe deles, apesar de europeiamente domiciliado no final da década de 60 em
Paris e, quem sabe se num acaso chistoso, em Baden-Baden. Aí, tendo encontrado
a luz na floresta negra através de uma série de títulos para a germânica MPS, confirmou-se
um distinto hilemorfista, esculpindo materiais folclóricos com um decoro
absolutamente ético, ainda que os estivesse a inventar à medida que lhes
conferia forma. Porque, noutra das contradições a que entregou a ação, Powell operava
na esfera do mito sobretudo quando a sua audiência acreditava estar perante a
personificação do sincretismo popular sul-americano. A reedição de “À Vontade”,
o seu quarto álbum, gravado em 1963, evoca a génese de tão singulares
características e relembra o instante, algo contingencial, em que abandonou em
definitivo o que se preparava para ser uma carreira largamente subterrânea. Ao
estrear quatro dos 25 afro-sambas escritos em apenas três meses com Vinicius de
Moraes (‘Consolação’, ‘O Astronauta’, ‘Candomblé’ e ‘Berimbau’), é igualmente o
momento em que se ditou um destino que, não obstante a generosidade, a complexidade
e a originalidade das suas criações, jamais se afastaria dessa fantasiosa visão
do primitivismo afro-baiano. Espartano, esquivo e elegante, Baden Powell tocava
como se tivesse pudor em largar beleza no mundo. Foi essa a sua maior dádiva.
20 de fevereiro de 2013
16 de fevereiro de 2013
Entrevista a Jason Moran
Aos 38 anos, Moran consegue a proeza
de ser tão influente sentado ao piano quanto atrás de uma secretária. E a atual
temporada do John F. Kennedy Center for the Performing Arts espelha aspetos
centrais da sua biografia artística. Enfatização de vínculos interativos com o
público, fundamentação histórica da importância da educação, promoção de novos
talentos, valorização da tradição e simultâneo reconhecimento das figuras que
melhor questionam o dogma, manutenção de um eclético diálogo com as outras
artes ou o fomento da expressão musical enquanto paradigma comunitário são
preocupações que Moran traduziu em disco antes de as levar para um programa que
inclui um ciclo de jazz do norte da europa, noites de baile, um festival
dedicado a Mary Lou Williams, atuações de Fred Hersch, Anthony Braxton ou de Kenny
Barron ou festas de aniversário para os septuagenários Jack DeJohnette e
Charles Lloyd. Mas foi, de facto, em “Black Stars”, “The Bandwagon” ou “Ten”
que reuniu o conjunto de ideias pelo qual se destacou numa geração – a de Brad
Mehldau, Ethan Iverson ou Vijay Iyer, nascida na primeira metade dos anos 70 –
marcada por uma ação esteticamente transversal, investida na supressão de
fronteiras entre géneros e movida por uma prática interdisciplinar
eminentemente contemporânea. Vem ao grande auditório da Culturgest acompanhado
pelo contrabaixista Tarus Mateen e pelo baterista Nasheet Waits.
JS: O seu último disco,“Ten”, foi
lançado há quase três anos, por isso estaria em falta se não lhe perguntasse
pelo trio, se têm trabalhado em novo material e se reservam novidades para o público
lisboeta?
JM: O Bandwagon está ótimo. E, sim,
temos estado a gravar temas inspirados em Fats Waller. Nesse projeto participa
o trio e também o conjunto de músicos que normalmente gravita em torno da
espantosa Meshell Ndegeocello. Por isso há uma série de novas peças (algumas
delas muito antigas) incluídas nas nossas atuações e estamos desejosos e gratos
por as podermos mostrar em Lisboa.
JS: Há dez anos que viaja por Portugal e pela Europa, onde, presumivelmente,
o jazz tem um estatuto periférico. E, no entanto, é nos Estados Unidos que se
vê frequentemente envolvido na discussão de uma inimaginável proposição: a da
falta de relevância do jazz no contexto da música moderna. Parece-lhe uma
daquelas profecias autorrealizáveis?
JM: Bem,
por um lado não acho mal que o jazz não esteja no centro das atenções dos
média. Até porque na América a música evolui tão rapidamente que esse tipo de
escrutínio poderia ser comprometedor. Na verdade, a questão fundamental é que
nos faltam discussões mais vigorosas em torno da arte em geral, por isso todas
as atividades criativas carecem de divulgação. Não só o jazz, mas também a
música clássica, a ópera, a dança contemporânea, a literatura, etc. O jazz é
uma força tão vital… e precisaremos sempre dessa e de outras energias criativas
para tratarmos do nosso corpo e alma. Na realidade não estou preocupado com a
relevância cultural do jazz e sim com as formas que temos à nossa disposição
para incluirmos mais arte no nosso quotidiano.
JS: Foi
nomeado consultor artístico do Kennedy Center e no exercício do cargo conseguiu
já refletir algumas das inquietações manifestadas na sua música. Há algo de
concreto que procure atingir?
JM: Quero essencialmente continuar o
caminho traçado pelo meu predecessor, o lendário Billy Taylor: expor os
melhores músicos possíveis a um público que poderá informar-lhes e
justificar-lhes o essencial da sua própria relação com a música. Isto requer
uma tremenda energia e devo dizer que tem sido absolutamente maravilhoso
explorar todas estas possibilidades.
JS: Tem-se interessado pelo mais
transitável na História da música e incluído no seu discurso uma série de
descobertas que aparentam conduzi-lo a soluções criativas inéditas. Como se dá
esse processo?
JM: Temos
a felicidade de possuir documentação sobre grande parte da História do jazz. Há
registos fonográficos e até rolos para pianola bastante antigos. Por isso, à
medida que o jazz se infiltrava pelo mundo fora estes objetos criados pelos seus
fundadores tornavam-se os verdadeiros compêndios e guias para a sua prática. Já
para aprendermos Mozart precisamos de pautas. Isto é, nunca vamos saber a que
soava Mozart ao piano ou como foi ouvir a estreia de “Don Giovanni”. Ou aquilo
que sentia quem escutava as improvisações de Bach ao órgão. Mas podemos pôr a
tocar um disco de Monk ou Earl Hines. E isso para mim é absolutamente mágico:
que possamos ter acesso a essa fatia da História que nos diz tanto sobre os
compositores quanto acerca do que era, então, viver-se na América. O meu
processo de investigação é esse – aliado à dádiva que foi estudar com Jaki
Byard ou Andrew Hill –, mas não tenho como deixar de o filtrar pela minha
própria visão das coisas, pelo que significa viver nos dias de hoje.
JS: Além
de Monk e Ellington gravou Ravel, Brahms, Prokofiev, Afrika Bambaataa ou Björk,
revelando-se, como outros da sua geração, um iconoclástico revivalista. Nunca
sentiu que essas espirais cada vez mais distantes dos constituintes centrais do
jazz lhe poderiam ameaçar a própria essência?
JM: Acho
que nunca considerámos que Ellington o fazia quando orquestrou Grieg ou
Tchaikovsky. Ou muito menos Coltrane quando tocava ‘Summertime’. Uma dimensão
fundamental do jazz em termos formais é a de permitir a revelação de estilistas.
As versões de temas alheios à sua História podem dizer-nos mais sobre o
virtuosismo de quem adapta do que de quem compôs. E para mim é obrigatório que
um artista reflita o ambiente à sua volta. Por isso interessa-me mostrar o que
sentia em relação ao ‘Planet Rock’ e ao hip hop que ouvia em criança, ao que me
é contemporâneo. Estes músicos de que falamos recorreram a toda a música. É o
que quero. O Ravel compôs um blues,
eu posso escrever um ballet.
JS: Envolve-se
numa série de projetos que corroboram a tese de que uma ideia musical é mais
importante do que uma forma musical. Vê a sua produção enquadrada no conjunto
de princípios que determinam o jazz ou como uma força para a promoção de novos
valores?
JM: O
jazz, acima de tudo, promove novas ideias. Essa é uma das suas grandes
virtudes. Examinando a sua História, e os seus principais desenvolvimentos
década após década, compreende-se que a sua evolução era imperiosa. E nós,
enquanto artistas, procuramos sempre novas formas de transmitir aquilo que sentimos.
Cada filme, cada estória ou cada quadro partilha algo com a sua plateia. Olho
para o meu trabalho e observo-o a par das outras artes e jamais confinado às
paredes construídas em redor do jazz.
JS: E é o elemento da surpresa, e a
vontade de assumir riscos, aquilo que melhor define o trabalho de um músico
criativo nos dias de hoje?
JM: Essencialmente a gestão do risco,
face às contrariedades e recompensas. Alguns músicos arriscaram muito – musical
e pessoalmente, diga-se – para que eu possa levar a vida que levo. Enfrentaram
o racismo ou o sexismo, entre tantas injustiças, e mesmo assim conseguiram
exprimir a sua mensagem. O risco é um fator com que lidamos diariamente e é
nessa circunstância que se revela também na prática da música improvisada.
JS: Ken Vandermark – com o qual gravou
no grupo de Eric Revis para a portuguesa Clean Feed – disse-me numa entrevista
que o que mais o impressionava em trabalhar com músicos veteranos era ver como
eles ainda encontravam caminhos por desbravar. A ECM acabou de lançar “Hagar’s
Song”, um álbum de duetos que Charles Lloyd gravou consigo. O que de mais
importante retira da vossa associação?
JM: O Charles permite-me respirar mais
fundo. E examinar profundamente o que emana da música à medida que ela vai acontecendo.
Ele costuma dizer que tem uma mente de principiante. Ou seja, que para ele tudo
é novo. Nessa perspetiva, este disco é como uma conversa íntima. É uma alegria
tocar com um mestre que não receia avançar pela floresta adentro.
JS: O jazz ainda é uma força redentora
para as iniquidades da sociedade norte-americana?
JM: O jazz cura-nos. O público procura
prazer, amor e terapia. O músico partilha o que pode em forma de som e é pela
sua assimilação que a plateia alimenta a alma. E há-de ser sempre assim.
Weber: Sonatas For Piano & Violin/Piano Quartet (Harmonia Mundi, 2013)
Tão célebre quanto a famosa ópera
“O Franco-Atirador” foi a frase que a obra inspirou em Hans Pfitzner acerca do
seu compositor: com característica acerbidade, sugeriu esse inveterado saudosista
que por nenhum outro motivo, que não a edificação de tal ode ao espírito
germânico, veio Carl Maria von Weber (1786-1826) ao mundo. É certo que Pfitzner
bradava num palco carcomido por dois vetores que na sua mente se sobrepunham – pátria
e paixão –, mas é evidente que, desde então, poucas peças de Weber se afirmaram
no cânone. Estudantes de clarinete estarão, quiçá, familiarizados com a sua
produção (Weber dedicou um “Concerto” e um “Quinteto” ao virtuoso Heinrich
Baermann), mas é raro tropeçar no seu nome em récitas. Já em matéria de
gravações o último par de anos inverteu essa tendência: a Hyperion coligiu as suas
sonatas para piano, a Chandos lançou as suas duas sinfonias, a Linn registou uma
série de concertos seus para sopros, a EMI acaba de reeditar uma antiga leitura
das suas missas e eis agora, na Harmonia Mundi, as “Seis Sonatas para Piano e
Violino” e o “Quarteto para Piano”. E a verdade é que logo se impõem por
relembrar o satírico multiculturalista que Weber também foi. Os temperos
nacionalistas das sonatas, por exemplo, com as suas sardónicas indicações (“Air
Russe”, “Carretere Espagnuola” [sic], “Air Polonais” ou “Finale Siciliano”),
ouvem-se como uma paródia da Escola de Viena e, até, como um humorístico prenúncio
do folclórico amanteigado ingenuamente barrado em quase todo o romantismo
subsequente. Mas é no quarteto – ou melhor, nos seus adágio e minueto – que tudo
se complica: organização enigmática, silêncio lacónico, fragmentos melódicos de
algum absurdo, bizarras harmonizações, o galanteio de Mozart lançado nas
profundezas, a garra que vinha do escuro. Isabelle Faust, até pelo apelido,
está como peixe na água.
13 de fevereiro de 2013
9 de fevereiro de 2013
Britten: Cello Symphony, Cello Sonata & Cello Suites (Hyperion, 2013)
Alban Gerhardt
(vc), Steven Osborne (p), BBC SSO, Andrew Manze (d)
Ainda a procissão vai no adro, no que concerne à celebração do centenário de Benjamin Britten (1913-1976), e, inflamados por uma recente biografia escrita por Paul Kildea, já os espíritos mais fleumáticos se inquietam, reconduzindo o quadro geral de circunspeta comemoração à instância de polémica paroquial. Afinal, trata o livro de aventar nova causa para a morte de uma figura que, pese embora a homilética institucional que inspirou, nem sempre gerou consensos. Dimensão a que alude ideologicamente a obra aqui reunida, procedente de um período (1961-1971) no qual, contrariando o asfixiante sectarismo da guerra fria, o britânico se aproximou de Richter, Shostakovich e Rostropovich, seu dedicatário e paradigmático intérprete. Nesse particular, a perspetiva de Alban Gerhardt não é de todo avuncular. A sua ágil leitura da “Sinfonia para violoncelo e orquestra”, por exemplo, que vai da gravidade morosa à alacridade desembaraçada, sugere uma visão muito distinta da do violoncelista russo, que a tocava como se de uma luta até à morte se tratasse; jamais ignorando a tensão inerente à peça, com as suas oscilações tonais, guinadas discursivas e harmonias ora dissentâneas ora adstringentes, mantem-se irresolúvel o confronto entre a fortitude autonómica e a cobiçada estabilidade coligativa. Em complemento, a “Sonata em dó para violoncelo e piano” é um jogo do gato e do rato que acentua uma derivação melódica de Gershwin, e as três “Suítes para violoncelo” operam uma capciosa revisão do homólogo legado de Bach (a primeira amalgama as suas sarabandas mas inclui também uma citação de ‘Golliwogg’s Cakewalk’, de Debussy, e uma chacona com coloração purcelliana), com paragens em Shostakovich (ecoa a sua “5ª Sinfonia” pela segunda) e no folclore eslavo (na terceira). Quase tudo, uma chorosa sirene de nevoeiro numa missão de resgate.
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