Parte significativa da produção do
polaco Tomasz Stanko – marcada, na década de 60, por um determinante estágio no
climático quinteto de Krzysztof Komeda, quiçá responsável por uma dimensão
praticamente imagética na sua conceção musical – parece assinalar algum tipo de
insuficiência. E, no figurino do jazz europeu, poucos se terão concentrado com
a mesma consistência num discurso que, dada a sua intrínseca exiguidade, dá,
ciclicamente, mostras de se aproximar da extinção. Porque, apesar de ter
desempenhado funções de desembaraçado colorista num ou noutro efémero
agrupamento, Stanko opera – e a discografia por si idealizada para a ECM nos
últimos vinte anos certifica-o – num enlutado e noturnal ambiente, de uma
edificante solitude, porventura toldado pela atávica relação com o vulto de
Miles Davis. O processo assemelha-se ao de qualquer fotógrafo contemporâneo que
recorra ao monocromatismo sépia: as revelações, independentemente do objeto, aparentam
situar-se exclusivamente num passado remoto. Mas, da mesma forma que essa
técnica pictórica foi criada para aumentar a durabilidade do material impresso,
também o trompetista encena análogos paradoxos temporais com as suas
construções. Será o mínimo que se pode dizer deste primeiro ensaio com um novo
quarteto (David Virelles ao piano, Thomas Morgan no contrabaixo e Gerald
Cleaver à bateria) que imediatamente ombreia com o melhor dos seus precedentes:
“Leosia”, do boreal conjunto que Stanko formou com Bobo Stenson, Tony Oxley e
Anders Jormin, e “Lontano”, gravado com os compatriotas Marcin Wasilewski, Slawomir Kurkiewicz e Michal Miskiewicz. Dedicado à
poetisa Wisława Szymborska, é um elegíaco compósito de perene memória e constante
movimento, cujo estelar acompanhamento – resolutamente cartográfico no
desbravar de onze originais – resgata com assombro ao sepulcro.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
9 de março de 2013
Guarnieri: Piano Music 1 (Naxos, 2013)
Max Barros
O recital inicia-se com “Dança Negra”, “Dança Brasileira” e
“Dança Selvagem”, espécie de arcada supraciliar numa fisionomia folclorista que
encabeçava o corpo nacionalista arquetipicamente desenhado por Mário de Andrade
em plena ‘Era Vargas’. Mas em meia dúzia de minutos já a ação se instala no
âmago de uma produção mais exogâmica, pese embora a aparente escravidão
conceptual: foi, de facto, através dos 50 “Ponteios”, escritos entre 1931 e
1959, que Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993), compositor paulista que passou
grande parte da vida e da posteridade a responder por uma bacoca “Carta aberta
aos músicos e críticos do Brasil”, irrefletidamente redigida em 1950, circum-navegou
os arriscados redemoinhos da teoria musical de meados do século XX. Max Barros,
concertista com provas dadas na matéria, e cujo virtuosismo é inteligentemente
subordinado à invenção de cada peça, revela-se um notável descodificador de uma
cinética mais ontológica do que irónica – com indicações de tempo como ‘desconsolado’,
‘com profunda saudade’, ‘angustioso’ ou ‘dengoso, mas sem pressa’ – e articula
exemplarmente frases de estrutura irregular, num discurso polifónico marcado
por elipses e elisões que ocultam um caráter monotemático. Absorvendo a
qualidade intimista da modinha e da toada, o ciclo deriva do ‘pontear’, a
preambular verificação da afinação feita por um violonista antes de tocar, e,
nessa perspetiva, é um regionalista e aforístico concentrado de contrastes,
algures entre os “Prelúdios” de Chopin e os de Shostakovitch, com deslumbrantes
linhas melódicas sobre ostinati,
fluxos e refluxos de acordes espelhados, súbitas alterações de dinâmica, atmosférico
cromatismo e dramática ambivalência tonal. A par das “Cirandas” de Villa-Lobos
e dos “Tangos” de Ernesto Nazareth, porventura o ápice do repertório solístico
brasileiro para piano.
Le Super Biton National de Ségou “Anthology” (Kindred Spirits, 2012)
O drama situa-se rio Níger acima, para
os lados de Tombuctu e Gao, mas, como se sabe, a guerra santa não tem domicílio
e, na sua proposição maliana, mascara o mais ordinário predatismo à face da
terra. A biografia artística da Super Biton de Ségou, ainda em atividade e nominalmente
inspirada na figura de Mamari ‘Biton’ Coulibaly – fundador do Império Bambara
no início do século XVIII, região conquistada pelas cimitarras dos mujahidin em 1861 e, numa ação
atualmente reencenada a norte, ‘libertada’ pelo exército colonial francês em
1890 – funciona, apesar de tudo, como uma parábola para a compreensão da maior
das fantasias revolucionárias: a do igualitarismo. Porque a verdade é que,
desenvolvida a partir das formativas Ségou Jazz, Alliance Jazz e Renaissance
Jazz nas Semanas da Juventude criadas por Modibo Keïta nos anos 60, e
apresentada, já na primeira das Bienais Artísticas e Culturais do regime de
Moussa Traoré, enquanto Orchestre Régional de Ségou, a sua produção assimilava repertório
bamana, fula, bozo, tuaregue, songhai, mandinga, dogon ou wolof num discurso,
então, ancorado nas modernas formas afro-cubanas tão em voga. Aliás, comparando
as suas gravações desse ano (editadas na alemã Bärenreiter-Musicaphon numa
série de 15 títulos que incluía os emissários de Mopti, Tombuctu, Sikasso,
Kayes ou, através da Rail Band, de Bamako) com as desta antologia, provenientes
de um par de álbuns homónimos de 1977 lançados pela Mali Kunkan, verifica-se
precisamente a emergência de um distinto perfil folclorista, melhor
representado pelas malabares guitarradas de Mama Sissoko (oscilando, com
orgulhosa sobriedade, entre escalas pentatónica e diatónica), o insigne timbre
vocal de Mamadou Doumbia e a cerimonial expressividade do trompetista Amadou
Bâ, numa configuração de paz e tolerância que se impõe relembrar.
6 de março de 2013
2 de março de 2013
Paradoxical Frog “Union” (Clean Feed, 2012)
O espécime parecia um provocatório
oximoro e, de facto, a audição, em 2010, do ensaio inaugural desta banda com filiação
nominal na pseudis paradoxa – a rã que encolhe consideravelmente
à medida que se vai tornando adulta, isto é, cujas crias são maiores do que os
progenitores – confirmava uma inquietante tese empenhada em contrariar alguns
dos princípios formais e idiomáticos associados à prática da música
improvisada. Numa ocasional concatenação de vozes – solos, duos e trios em
extensões tímbricas à primeira vista extemporâneas – que privilegiava uma
coalescência mais textural do que melódica, a pianista Kris Davis, a
saxofonista Ingrid Laubrock e o multi-instrumentista Tyshawn Sorey,
predominantemente na bateria, teciam ondulantes e elípticos padrões, como uma
anfíbia criatura enredando limos ao sabor da maré. E em composições
discriminatórias, conseguiam também produzir a ilusão de que todos os seus
constituintes, inclusivamente os contingentes a uma ação parcialmente
indeterminada, eram essenciais. Deste “Union” pode, no mínimo, dizer-se que é
ainda mais escrupuloso em seguir esse caminho que não só questiona a morfologia
típica do trio de jazz como sugere algo que apenas este trio de jazz poderia criar.
Uníssonos anunciativos, contrapontos pacientes, harmonias oblíquas, inesperadas
dinâmicas, enfim, um conjunto de estratégias que geram estruturas
enciclopédicas, informadas mais por um espírito de vanguarda do que
propriamente por determinada escola, focando-se em raras tangentes – intervalos
comuns em Thelonious Monk e Morton Feldman ou técnicas semelhantes em Anthony
Braxton e Luciano Berio são o tipo de insensatas proposições que inspiram – de
densidade variável que ocorrem num espaço de pura invenção e intriga, volátil e
evanescente, preciso e espontâneo, pleno de possibilidades.
“Love, Revelry and the Dance in Mediaeval Music” (Ricercar, 2012)
Millenarium
Numa década, a partir de 1998, o
conjunto Millenarium, fundado por Christophe Deslignes e Thierry Gomar, operou uma
extática e libertária incursão pelo repertório medieval - com enfática
concentração em códices, música instrumental e poesia trovadoresca - através de
sete gravações para a Ricercar que, reunidas nesta coleção, se medem pelos mais
esotéricos, cerimoniais e elucidativos manifestos gerados pelos homólogos Hespèrion
XX, Clemencic Consort ou Ensemble Organun. Começando com “The Masters of the
Florentine Organetto”, promoveram uma ação virtuosa, e estabeleceram uma prática
de proficiência técnica dada à improvisação, cuja expressividade é, neste caso,
sublinhada pelo emprego do órgão portativo e do recurso a idiofones e
membranofones da bacia do Mediterrâneo. O mesmo distinto e, porventura, hermético
multiculturalismo que, já em “Joy: Troubadours’ Songs and Joungleurs’ Dances” e “Douce Amie”, lançados em 2000 e 2001,
cria um vibrante fresco em que cabe o amor cortês, trovas do errante Bernard de
Ventadorn, retratos de malabaristas e jograis, pastorelas de Thibaut de
Champagne ou canções de gesta do ciclo das cruzadas, num enquadramento
conceptual eminentemente contemporâneo. Perspetiva essencial para a teatral
reconstituição – com “Tempus Transit”, registado em 2004, e “Officium Lusorum”,
em 2005 – de páginas da “Carmina Burana”, que se escuta como uma negociação
entre o sagrado e o profano à luz dos goliardos, e que atinge o zénite na encenação
de uma paródica e transgressora ‘missa dos batoteiros’ no âmbito das folias das
festas dos loucos. Por fim, em “Danza” (2007), relembra-se a função ritualista
da música do pré-Renascimento e, em “Llibre Vermell” (2007), a devoção
mariana do manuscrito de Monserrate, símbolo de tolerância e herança
espiritual, perfeito cair do pano para a atividade do grupo.
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