Começa a navegar por mares
conhecidos – num férreo ostinato conduzido
pela mão esquerda do pianista Danilo Pérez que, para ouvintes cúmplices, espelha
o exercício exclusivamente dextro de Herbie Hancock na precedente gravação
deste ‘Orbits’, em 1967 incluída em “Miles Smiles” – mas nem por isso ilude os
interesses da aguda inteligência que lhe guia o caminho. De facto, Shorter – esteio
do ‘segundo grande quinteto’ de Miles Davis e paradigmático ideólogo da função
multiculturalista do jazz desde a fundação dos Weather Report em 1971 – opera num
raro quadro cognitivo que, combinando distinta intelectualidade com um atraente
abstracionismo, coloca, com frequência, ao serviço de uma caprichosa
imaginação. E “Without a Net”, o seu primeiro álbum em oito anos, novamente ao
vivo, e no qual reincidem intérpretes que até a sonhar devem realizar as
fantasias uns dos outros – Pérez, John Patitucci e Brian Blade –, só podia
resultar da ação daquele que, cruzando a ductilidade própria da memória com
ágeis raciocínios e os mais espirituosos juízos, jamais teve de desperdiçar
energias a disfarçar falta de originalidade. Quase octogenário, decano do hard
bop, experto fusionista, titular de uma espantosa inconguência – a do grífico
improvisador – e de regresso à casa, a Blue Note, em que – não se fazendo por
menos – gravou duas mãos cheias de obras-primas, Shorter permanece no topo das
suas divinatórias faculdades, e o seu oblongado, adunco e declamativo saxofone
soprano insiste em cartografar os mais sinuosos e inóspitos terrenos. E nunca
como em ‘Pegasus’, tema de cerca de vinte minutos em que se acopla ao grupo o
quinteto de sopros Imani Winds, capaz de inaugurar um abismal conceito: a peça de
câmara, de fluxos minimalistas, que se supõe conseguir exaltar mesmo as mais
tumultuosas liturgias das denominações cristãs afro-americanas.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
23 de março de 2013
20 de março de 2013
16 de março de 2013
Mahler: 9 (Deutsche Grammophon, 2013)
Los Angeles Philharmonic Orchestra, Dudamel, G.
(d)
Como se a sua ação pudesse ficar
mais mitificada, aí está Gustavo Dudamel a comandar com telúrica dignidade a
Orquestra Sinfónica Simón Bolívar no funeral de Hugo Chávez no instante em que
chega ao mercado esta gravação, cerca de doze meses após a conclusão do
catártico “Projeto Mahler” e pouco mais de dois anos depois de, no centenário
da morte do compositor, ter precisamente apresentado em Lisboa a lutuosa “Nona”
à frente da Filarmónica de Los Angeles. E o mínimo que se pode dizer é que, nesta
transposição do último sopro de Mahler – ou melhor, do seu derradeiro batimento
cardíaco, numa altura em que estava já o austríaco consciente da endocardite infeciosa
que o consumia –, também ao maestro venezuelano vão faltando as forças à medida
que da pauta se extingue a música. Ou isso, ou, o que não surpreende, optou por
retirar qualquer deliberação mais definitiva do ‘Adagio’, sublinhando-lhe
apenas as ambiguidades – aquele lacrimoso e acrimonioso contraponto entre a
pungente redenção e a mais apática resignação, por exemplo – e cristalizando-lhe
a perplexidade que ainda inspira. Comparando com os três andamentos prévios, suspeita-se
que Dudamel não se interesse por espectros, reservando a energia para
‘Andante’, ‘Ländlers’ e ‘Rondo-Burleske’, nos quais expõe com impecável sentido
de oportunidade um caráter dual, tenso, sardónico, que entrincheira dramaticamente
numa orquestra tornada campo de batalha entre dois mundos – o velho, provinciano
e mesquinho, que escorraçou Mahler, e o novo, vibrante e confuso, que o acolheu
– recorrendo a dispositivos praticamente banalizados por décadas de
acompanhamento no grande ecrã de cenas de beligerância militar, sentimental e
metafísica. Conforme Walter, Bernstein, Maderna ou Rattle, aqui regressará
quando decidir lembrar que a terra não é só para os vivos.
Mostly Other People Do The Killing “Slippery Rock!” (Hot Cup, 2013)
Porventura contrariando as
expectativas – à revelação da capa do quinto álbum de estúdio dos MOPDtK – de
todos quanto aguardavam um composto de anfetaminas produzido para corroborar a
teoria de que se estava perante a versão para a ‘era da informação’ do dissimulado
conceptualismo dos Lounge Lizards ou da rapinante vilanagem dos Naked City, eis
que Moppa Elliot, contrabaixista e compositor do ocasionalmente furtivo
repertório do quarteto, anuncia que “Slippery Rock!” resulta antes de uma inusitada,
e quiçá escorregadia, incursão no pantanoso terreno do smooth jazz, tal como explicou ao “All About Jazz”, em entrevista a
Troy Collins: “comprei cerca de trinta álbuns de smooth jazz e deixei-me mergulhar por completo nesse universo
sonoro, por isso estes temas são uma tentativa minha de compor nesse idioma”. De
facto, num prolongamento da assimétrica estratégia de gestão de influências
previamente ensaiada, não é desta que o extático vernáculo da banda se permite
sedar por ardis retóricos. Ao invés, a premissa sugere uma engenhosa e
provocatória combinação de referências que problematiza um método de trabalho
que, de forma simplificativa, se poderia descrever como autólatra. E talvez
seja por isso que – conforme promulgaram as sinestésicas operações lideradas na
década de 80 por John Lurie e John Zorn – se mostre tão essencialmente
pós-moderna esta sincrónica navegação por categorias só na aparência retidas no
tempo. E se os porfiados diálogos de saxofone e trompete entre Jon Irabagon e
Peter Evans sobre a impertinência rítmica de Kevin Shea lembram mais ‘Bird’ e ‘Dizzy’
e Roach do que os irmãos Brecker e Lenny White, o ponto parece ser precisamente
esse: reconduzir o criador a uma encruzilhada de ideologias. Brilhante.
[Hoje,
às 22h00, no Teatro Maria Matos, Peter Evans toca com o Rodrigo Amado Motion
Trio]
“The Ravi Shankar Collection” (EMI, 2012)
À míngua de originais, muito perversamente,
equivale-se nos escaparates uma inédita proliferação de baús, destinada a equilibrar
os predatórios instintos de colecionadores com os sonhos de posteridade de
criadores e a encapsular os mais hemorrágicos índices de produção: num aleatório
inventário de novidades, que do fenómeno apenas arranha a superfície, é agora possível
ter numa só caixa todo o Verdi, o catálogo completo da Instant Composers Pool, sete
LP de Cecil Taylor, as composições para dois pianos de Debussy, os álbuns de
estúdio de Joni Mitchell entre 68 e 79 ou os dos Van Halen entre 78 e 84, as
remisturas de Tom Moulton, cada segundo captado em fita dos Stark Reality, recitais
de Van Cliburn na RCA, registos oficiosos de Miles Davis em 69 ou um impressionante
compêndio realizado por Peter Brötzmann. Talvez por se presumir que o comprador
ocasional de música dispensa já do formato físico cai-se no extremo oposto:
considerar que quem ainda gosta de a ouvir não tem mais nada que fazer com o
seu tempo. Pecado que esta antologia consagrada a Ravi Shankar – reunindo onze
horas de gravações – não comete, dada a dispersão e vastidão do legado do sitarista
falecido em dezembro e, apesar de irresponsável e cripticamente o ocultar, por
incluir, numa repreensível organização anacrónica e por entre uma série de
curiosidades menores – como o concerto no festival de Monterey ou as peças
orquestrais conduzidas por Previn e Mehta – um punhado de obras-primas da sua discografia
da década de 60: “Improvisations”, em que colabora o quarteto de Bud Shank, Dennis
Budimir, Gary Peacock e Louis Hayes, “India’s Master Musician”, “Portrait of a
Genius”, com Paul Horn na flauta, “In New York”, com Alla Rakha nas tablas e
Shyam But-Nagar na tambura, ou “Menuhin Meets Shankar”, com Yehudi Menuhin no
violino.
13 de março de 2013
Tulipa Ruiz "Tudo Tanto" (Pommelo/Natura, 2012)
A agenda portuguesa de Tulipa
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