Como é que se lê, em Levítico 25:10? “Santificareis o
quinquagésimo ano, proclamando na vossa terra a liberdade de todos os que a
habitam. Este ano será para vós um Jubileu: cada um de vós voltará à sua
propriedade e à sua família.” Certo. Mas, pelos vistos, e como costumam dizer
os ingleses, algo que é, também, mais fácil de dizer do que fazer. Talvez por
isso, por estarem atentos aos cabeçalhos dos jornais, e decorridos que estão 50
anos desde a sua primeira atuação pública conjunta, tenham ido Parker e Lytton buscar
inspiração a um livro de Elias Canetti que reporta a acontecimentos decorridos
durante a Segunda Guerra Mundial e que inclui frases tão desconcertantes quanto
esta: “Em pleno dia, olhava-se para o céu e seguiam-se os rastos dos aviões
como um evento esportivo. Era tão excitante!” No original, chama-se “Party im
Blitz” – e trata-se, segundo os seus editores brasileiros, que o colocaram no
mercado com a designação de “Festa sob as Bombas”, de uma “colcha de retalhos
social tecida com fina ironia, com seus nobres decadentes e vaidosos, artistas
presunçosos, emigrados e refugiados sem tostão ora deprimidos ora eufóricos.”
Não admira, na era de Boris, que lhes venha à memória – logo a eles, que sempre
fizeram profissão de fé na abolição de fronteiras – e que trechos aí sacados
sirvam agora para batizar os temas deste CD: de ‘A Little Perplexing’ e
‘Confused About England’ a ‘What Has it Become Entangled with Now?’ e ‘England
Feels Very Remote to Me’. Que é, claro, o tipo de comentários que promoviam nas
plateias de há 50 anos atrás – em notas de apresentação incluídas em “Three Other Stories
(1971-1974)”, Martin Davidson recordava como “despertavam a ira das falanges mais
conservadoras por recorrerem àquilo que era entendido como ruído” (Lytton,
aliás, militava nos White Noise)! E como é bom perceber que tanto tempo depois
de “Collective Calls (Urban) (Two Microphones)”, explorando as dinâmicas de sax
tenor e bateria, insistem em pôr parênteses à frente daquilo a que
coletivamente chamamos música!
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
15 de fevereiro de 2020
8 de fevereiro de 2020
Abrahamsen/Pesson/Strasnoy: Piano Concertos (Erato, 2020) + Jean-Guihen Queyras & Alexandre Tharaud “Complices” (Harmonia Mundi, 2020)
Em capas de discos, e em materiais de promoção, Alexandre
Tharaud costuma aparecer de braços abertos – ainda há pouco, em “Versailles”, esticava-os
mais que Ronaldo “Fenómeno” ao festejar um golo. Era como se quisesse
simbolizar tudo aquilo que subitamente conseguia abarcar, numa incursão pelo
barroco de perder a cabeça que começava na corte de Luís XIV, passava pela de
Luís XV e terminava na de Luís XVI. Tocava Rameau, De Visée, Royer,
D’Anglebert, Duphly, Balbastre e François Couperin, mas, no fundo,
comportava-se como Charlize Theron naquele anúncio da Dior, quando, em plena
Galeria dos Espelhos, em Versalhes, ela diz: “O passado pode ser belo: uma
memória, um sonho. Mas não é lugar para se viver. É hora de seguir em frente!”
Foi
exatamente o que Tharaud tentou fazer – em “Piano Concertos” – com três
primeiras gravações de obras de que é dedicatário: “Left, Alone”, de Hans
Abrahamsen (com a Filarmónica de Roterdão e Yannick Nézet-Séguin), “Future is a
Faded Song”, de Gérard Pesson (com a Sinfónica da Rádio de Frankfurt e Tito
Ceccherini), e “Kuleshov”, de Oscar Strasnoy (com Les Violons du Roy e Mathieu
Lussier), gente prontíssima a trocar-lhe as voltas, como é óbvio. Talvez por
isso, então, seja agora fotografado em poses que trazem à memória o David Bowie
de “Heroes” e o Iggy Pop de “The Idiot”, quando, nas capas desses seus
respetivos álbuns, se puseram a recriar “Roquairol”, um quadro de Erich Heckel
que, por sua vez, se diria inspirado pela personagem homónima de “Titã”, do
escritor Jean Paul: aquela, que, exposta a tudo quanto havia para ver e ler,
acreditava que a vida não era mais que uma sucessiva citação de obras de arte. Muito
pouco canónicos, trata-se de concertos em que se dá pelos vestígios do Pessoa
que afirmou: “O futuro, não o conheço. O passado, já não o tenho. Pesa-me um
como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada.” Ou, como disse
T. S. Eliot, para o qual aquele título de Pesson aponta: “Que o futuro é uma
canção desvanecida.”
Disso mesmo se ocupa “Complices”, com Queyras e Tharaud mergulhados
nos tons pastel de Kreisler, Vecsey, Fauré ou Saint-Saëns e a lembrar que, por
vezes, escreveu-o também Eliot, “o caminho para a frente é o caminho para
trás.”
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Elza Soares “Se Acaso Você Chegasse + A Bossa Negra” (re. Aquarela do Brasil, 2020)
É assim: “Brasil/ Esquece o mal que te consome/ Que
os filhos do Planeta Fome/ Não percam a esperança/ Em seu cantar/ Ó nêga!” Nada
a que Elza tenha dado voz em “Se Acaso Você Chegasse” (1960) ou “A Bossa Negra”
(1961). Trata-se, antes, de uns versos sacados ao samba-enredo “Elza Deus
Soares” com que, daqui a quinze dias, na Marquês de Sapucaí, a Mocidade
Independente de Padre Miguel vai homenagear a autora de “Planeta Fome” (2019). É
algo que vem na linha do seu mais recente tríptico de álbuns – que inclui,
ainda, “A Mulher do Fim do Mundo” (2015) e “Deus é Mulher” (2018) – e que, de
certa forma, como quem anda à cata de dados para pôr no martirológio, retoma o
que Elza havia ensaiado em “Do Cóccix até o Pescoço” (2002), quando, via Chico
Buarque, dizia: “Bambeia, cambaleia/ É dura na queda/ Custa a cair em si//
Largou família, bebeu veneno/ E vai morrer de rir// Vagueia, devaneia/ Já
apanhou à beça/ Mas para quem sabe olhar/ Flor também é ferida aberta/ E não se
vê chorar.” Dir-se-ia um expoente neste processo de construção de identidade que
a coloca em trânsito entre a resignação e a resiliência e que a toma ora por
vedeta (da rádio) ora por vilã (quando foi acusada de ter acabado com o
casamento de Garrincha, por exemplo), ora por vítima (de violência doméstica,
digamos) ora por vingadora (“Mil nações/ Moldaram minha cara// Minha voz/ Uso
pra dizer o que se cala”, avisa em ‘O que se Cala’, no seu penúltimo disco). Musicalmente,
era tudo muito mais interessante quando Elza se permitia ser tudo isso de uma só
vez, como nestas suas primeiras idas a estúdio – complementadas com singles do período e um punhado de temas
de “Sambossa” (1963) –, e, num dos momentos mais importantes da História da MPB
em termos performativos, fazia da sua catarreira uma catapulta capaz de
expetorar o nó na garganta com que ficava ao cantar ‘Mulata Assanhada’ e
‘Polegadas de Mulata’ e de pôr à vista de todos a repressão que os sectores mais
reacionários da sociedade a faziam à força engolir.
1 de fevereiro de 2020
Ingrid Laubrock + Aki Takase “Kasumi” (Intakt, 2019)
Há 20 anos, quando se estreou com “Who is It?”, Laubrock
espelhava a reação de amantes de jazz do mundo inteiro à menção do seu nome. Na
altura, fazia uma versão de ‘Com Açúcar, Com Afeto’, de Chico Buarque, mas,
hoje, dada a importância que adquiriu no circuito internacional e os projetos
em que se vê envolvida, só mesmo Tom Rainey, o marido, para cantar “Com açúcar,
com afeto/ Fiz seu doce predileto/ Pra você parar em casa/ Qual o quê!” O que
explica a necessidade de tocarem em conjunto (Rainey é baterista), como na última
edição do Jazz em Agosto. São situações em que é normal projetar-se a sombra da
intimidade, com o reconhecimento mútuo que isso implica, embora, por vezes, se
pareça antes convocar as igualmente previsíveis infidelidades que tamanha
proximidade gera. Takase, que também costuma dar concertos com o marido (o
pianista Alexander Von Schlippenbach), sabe bem o que é ter de lidar com estas
continuidades e descontinuidades e com as diferenças que os membros de um casal
têm de aceitar um no outro – com tudo o que o dueto habitualmente promete e o
muito que na sua prática fica por cumprir. Em estúdio, o desafio será
contrariar a sensação com que se fica, ao vivo, aqui e ali, sempre que dois músicos
se reúnem, buscam um espaço comum, expõem e empurram reciprocamente para fora das
respetivas zonas de conforto, acusam o desgaste, contabilizam perdas e acabam a
conhecer-se profundamente e a estranhar-se em partes iguais. Talvez por se considerarem
integrantes de algo maior e mais complexo do que aquilo que regra geral ata e
desata as pessoas umas às outras, Laubrock e Takase não caem nessa armadilha e,
ao invés, vinhetas como ‘Dark Clouds’, ‘Sunken Forest’ ou ‘Carving Water’
assemelham-se a instantâneos de paisagens e de lugares mais ou menos
imaginários, que, como dizia Clarice Lispector, em “Água Viva”, são
“simplesmente já”. Nem por acaso, o último tema do disco, que tanto fala à
História do jazz, chama-se ‘Luftspiegelung’, uma palavra alemã para miragem.
Kitgut Quartet “‘Tis Too Late To Be Wise” (Harmonia Mundi, 2020)
Na capa, a coberto da mata, como dríades, elas, como sátiros, eles,
emissários dos antigos deuses da festa e da folia, da paz e da primavera, são
os próprios membros do quarteto Kitgut que parecem cantar “In vain are our
graces/ In vain are our eyes// In vain are our graces/ If love you despise//
When age furrows faces/ ‘Tis too late to be wise”! Quando, num bosque encantado, criaturas sobrenaturais tentam levar o herói
a desviar-se da sua missão e a dedicar-se aos prazeres da carne, trata-se de
umas linhas tiradas à segunda cena do quarto ato de “Rei Artur”, de Henry
Purcell, e servem de advertência a todos os que se habituaram a ver a coisa ao
contrário: de que nunca é tarde para aprender. Pelo menos naquele sentido proverbial,
de que o seguro morreu de velho, de que mais vale prevenir do que remediar, prudência
do que ciência, etc., petrificado num amplamente citado “it’s never too late to be wise”, de “Robinson Crusoé”, em que Defoe
colocava o seu protagonista a “alertar aqueles cujas vidas forem acometidas de
incidentes tão extraordinários ou mesmo não tão extraordinários” quanto os seus
“a não menosprezarem essas intimações secretas.”
Aqui, sem quaisquer acometimentos hermenêuticos, o Kitgut comete a
indiscrição de engendrar um programa que vai de Matthew Locke (1621-1677) e
John Blow (1649-1708) a Purcell (1659-1695), lá está, e Joseph Haydn
(1732-1809), quando só o último entre eles é que efetivamente contribuiu (e de
que maneira) para a sua literatura específica. Ou seja, Amandine Beyer, Naaman
Sluchin, Josèphe Cottet e Frédéric Baldassare (uma formação de sonho) põem as
setas do relógio a andar para trás e, no que diz respeito à datação
convencional do quarteto de cordas, caso houvesse o equivalente ao carbono-14
para assuntos desta natureza, claro, deixam-se levar para um tempo que se prova
mitológico, mais ainda que pré-histórico – daí, quiçá, este título, inspirado
pelo que em “Rei Artur” trauteava um coro de ninfas e silvanos –, e atiram-se a
um punhado de entreatos, à “Suíte Nº 2 para 4 Violas da Gamba”, de Locke, ou à
“Fantasia a 4, Nº 8”, de Purcell, que cosem às facadas com o “Quarteto de
Cordas, Op. 71, Nº 2”, de Haydn, composto pouco depois do austríaco ter feito
arranjos de folclore escocês e galês para os seus editores britânicos. Teria, então,
este disco eventualmente de ser feito? Não é tarde nem é cedo: em pleno Brexit,
é agora mesmo.
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