20 de março de 2010

Ali Farka Touré & Toumani Diabaté “Ali and Toumani”

Se em vida Ali Farka Touré serviu as mais apócrifas especulações – e a maior, aquela parábola em que surgia como um ‘elo perdido’ entre qualquer coisa demasiado antiga para vir nos livros de História e o que pela América do Norte faziam bluesmen como John Lee Hooker ou Lightnin’ Hopkins, colou-se-lhe à pele desde a sua ‘descoberta’ – não será agora, ao cumprir-se o quarto aniversário da sua morte, que virá comprovar imperturbáveis axiomas. Mas não restarão dúvidas que, talvez por incapacidade em lidar com tão insular proposta, preferiram ignorá-lo (todos os que ‘o levaram’ ao ocidente) sempre que dizia, simplesmente, tocar “música africana”. Porque a verdade é que não há mais fiel expressão para o distinguir nem será outra – ainda que fiquem os momentos de maior notoriedade na sua biografia artística ligados a músicos de distinta proveniência – a fonte de que sempre bebeu. Para o entender basta voltar a “The Source” (1992), em que tudo depende da imanência musical de África.
Também “Ali & Toumani” se ouve como uma contínua balada. E, contrariamente a “Savane” (2006), que vinha sobretudo relembrar o que o seu autor fez em vida, aproxima-se este segundo título póstumo da ideia de testamento criativo. Porque se por um lado – frágil, brando, meditativo, de tempos lentos, cordas mal pisadas e guitarra amparada pelo diáfano rendilhado da kora de Toumani Diabaté – nele se reconhece um homem invadido pela leucemia, prudentemente resignado face ao seu destino, por outro, recorrendo com inesperada urgência a uma reserva de fantasia – a tradição mandinga – que há muito se provou inesgotável, permite imaginá-lo antes em eterno passeio pelas verdes margens do rio Níger, saudando com estas canções as blandícias da Primavera. E não se poderá pedir muito mais a um último álbum.

13 de março de 2010

Antônio Carlos Jobim "Minha Alma Canta"

Consumido por uma perene frustração, Almir Chediak desabafou um dia com o seu aluno Moreno, filho de Caetano, quanto à absurda desadequação dos livros de partituras para violão face ao real interesse dos seus executantes. E porque proficiência no “Concerto de Aranjuez” serviria saraus familiares mas dificilmente conquistaria corações impunha-se uma simples questão: porque não – passando canções ao papel – facilitar a vida aos fãs de Caetano, Chico, Gil, Djavan ou Vinicius? Entre 1989 e 2003, ano do seu assassinato, Chediak organizou esses “Songbook” criando a editora Lumiar e, a partir do volume dedicado a Noel Rosa, produzindo um CD em que cantores consagrados interpretavam temas dos homenageados. Jobim, na sua derradeira fase de absoluto sincronismo – em que cabiam samba, impressionismo, a Mata Atlântica bordejando o litoral e o Sabiá anunciando a Primavera, e em que perdia a voz à medida do desaparecimento da Amazónia – teve na série as catorze participações aqui reunidas. Apoiado na Banda Nova – dos jobins, morelenbaums e caymmis – e nas vozes de Chico, Leila Pinheiro e uma sublime Gal, torna suas páginas de Vinicius, Noel, Ary Barroso, Dorival Caymmi e Edu Lobo, aproveitando, como sempre, para relembrar a todos o que é ser-se brasileiro.

6 de março de 2010

“Éthiopiques 24: Golden Years of Modern Ethiopian Music 1969-1975” & “Éthiopiques 25: 1971-1975 Modern Roots”

E do baú não se vê o fundo. Porque, contrariando permanentes mistificações sobre a acessibilidade, a verdade é que o mundo continua cheio de histórias por contar. Outra coisa não motivou Francis Falceto quando, em 1997, iniciou a série que mais vezes desde o “Live Aid” levou o nome da Etiópia aos jornais. Que o tenha feito sem apelar a caridosos instintos ocidentais será, em si, um pequeno triunfo. E, ainda que assente em méritos artísticos individuais, desse esforço não foi consequência menor a chegada de Mulatu Astatke (vol. 4) ou Alému Aga (vol. 11) a palcos internacionais. Agora, torna ao catálogo de Ahma Eshèté, do qual havia já extraído material para os volumes 1 e 3, e, como duas faces de uma mesma moeda, representa estilos urbanos (vol. 24) e rurais (vol. 25). Como de costume, não sugere menos que a descoberta de uma realidade paralela em que toda a importante música moderna parece ter raiz na terra da australopiteca Lucy. Porque, já um antepassado nosso o sabia (Francisco Álvares, autor em 1540 de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”), aí normalmente se confundem facto e fantasia.

27 de fevereiro de 2010

Otto “Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranquilos”

Se, em involuntário diálogo inter-geracional, o que Caetano Veloso ensaiou no retesado “Cê” foi superado pelo “Sou” de Marcelo Camelo, vê-se agora fortificado o mais exangue “Zii e Zie”. Isto é, o regresso do baiano ao rock coincidiu com o momento em que o modelo brasileiro do género absorveu características eminentemente velosianas: abertura ao mundo, vulnerabilidade sensual, êxtase confessional. “Certa Manhã…” soma uma página ao tomo dos ‘break-up albums’ (Otto separou-se da actriz Alessandra Negrini em 2008) sem por um instante vacilar em suicidária auto-comiseração ou encharcar em nostalgia o sudário. Se o seu título parafraseia o início de “A Metamorfose”, de Kafka, compreendê-lo-á melhor quem o julgue pelas primeiras palavras que nele se ouvem: “Há sempre um lado que pesa e outro lado que flutua”. A comandar a ascensão estão Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e Pupillo (Nação Zumbi), na figura do anjo surgem Julieta Venegas e Céu, mas é na terra que o antigo activista do mangue beat procura a redenção – e nos momentos em que cruza jovem guarda, afrobeat e samba, prova que, com o seu melhor álbum, a encontrou.

20 de fevereiro de 2010

“Back to Peru vol. II (1964-1974)”

No que à música peruana diz respeito, o primeiro volume de “Back to Peru” – a par de “Roots of Chicha: Psychedelic Cumbias from Peru”, lançado pela Barbès – inverteu as bolorentas regras de reedições assentes no paradigma ‘etno’ e derivados e veio lembrar ao mundo que a costa do Pacífico da América do Sul não foi imune às vagas da ‘british invasion’. Por isso – generalizadamente evitando repetições – nestes 34 temas de rigorosa extracção neo-rock’n’roll não surge uma única flauta de pã e sublimam-se Kinks, Rolling Stones, Beatles ou Animals ao mesmo tempo que, num misto de coragem e elementar falta de prudência, se opera no coração de indomáveis bestas norte-americanas como as surf music, garage ou psychedelia. Mas para lá de chupar até ao tutano Sandals, Mitch Ryder ou Jimi Hendrix (representados em versões mais ou menos declaradas), bandas como York’s, Drag’s, Holy’s ou Shain’s – a que não se perdoava a fraqueza de espírito face ao doce néctar espremido ao capitalismo – espelhavam uma subterrânea corrente perseguida pelo regime de Juan Velasco Alvarado. Tal, devidamente condicionado por uma obsessão nacional com OVNI e temperado pela mais heterodoxa sexualidade, justificará este ‘vale tudo’ contra-cultural de go-go lisérgico, ié-ié solto em selvas de cogumelos, blues andino-alienígena e folclore psicotrópico.

“Ouled Bambara – Portraits Of Gnawa”

Na sua insuperável busca por êxtase e redenção, um mundo da música desiludido com os seus mitos e ritos ruma ciclicamente a moradas do ‘exótico’, como Marrocos. E, salvo raríssimas excepções, de lá regressa com bateria cósmica recarregada e biografia insuflada pelo mais zelote moralismo colonial. Muitos, desde que há 50 anos Brion Gysin transformou os Master Musicians of Joujouka numa banda de restaurante e que, há 40, Brian Jones com eles ressacou pelo Atlas – seguindo ainda os exemplos de Ornette Coleman, Rolling Stones, Pharoah Sanders, Robert Plant ou Randy Weston –, aí renovaram energias criativas e missionários impulsos resgatando ao anonimato futuras etnias para auditórios europeus. Mas, ocasionalmente, como fizeram Paul Bowles, Bill Laswell ou a editora Al Sur (na série “Les Maîtres du Guembri”), produzem-se também gravações que revelam uma cultura local indiferente a estímulos exteriores, imune a mistificações espiritualistas em segunda-mão e impermeável aos vícios comportamentais de arquivistas. “Ouled Bambara” é dessa estirpe e, pela mão experiente de Maâlem Brahim Belkani, Hassan Zougari ou Abdelkbir Marchane, alimenta-se de uma identidade eternamente em crise, profundamente esotérica e invariavelmente impenetrável. Não fica muito mais ‘real’ do que isto.

13 de fevereiro de 2010

Egberto Gismonti “Saudações”

Gismonti não é dado a efemérides, mas em 2009 cumpriram-se 40 anos desde que se estreou em disco. Tratou-se, então, de um incaracterístico álbum para a Elenco, na órbita de Baden Powell, com tímida dependência rítmica da bossa jazz e temas em evaporação instantânea para a nebulosa partilhada por Carlos Lyra, Roberto Menescal ou Marcos Valle. Um ano mais tarde, o túrgido “Sonho 70” ombreou com Taiguara ou Edu Lobo e revelou amplo cunho autoral. “Água e Vinho” e novo registo homónimo, em 1973, concentraram as suas mais belas canções e só pecaram ao cobiçar os vizinhos Milton Nascimento e Ivan Lins. À distância percebe-se que serviram também para o definitivo acordar da besta, com “Academia de Danças” e “Corações Futuristas”, a obra-prima de 1976, a sintetizar e jubilar a vanguarda brasileira.

Talvez por tudo isto se tenha atravessado no seu caminho a ECM. Infelizmente, se ganhou uma carreira deixou de ser celebrado pelo que de melhor havia feito: para a posteridade, 1977 não foi já o ano do vibrante e contraditório “Carmo” e sim o do primitivo-laboratorial e antropológico-pastoso “Sol do Meio-Dia”. E assim sucessivamente até tudo se diluir numa produção progressivamente sumida, insular e revisionista.

“Saudações” não corrige o rumo a uma discografia que desde 1981 perdeu o Norte, mas pelo menos remete para o mais longínquo do seu passado. “Sertões Veredas”, a suite para cordas no CD1, recupera o melancólico motivo que em 1979 compôs para “Saudades”, de Naná Vasconcelos, relembra ‘Sertão Brasileiro’, uma das peças de “Nó Caipira”, de 1978, e sugere um Aaron Copland a correr pelo Nordeste ou um Steve Reich a meditar pelo Sertão antes de decalcar Bach, Mozart e Villa-Lobos. O CD2, com o seu filho Alexandre, traz dez “Duetos de Violões” em regime de sarau familiar e vira páginas ilustres do songbook caseiro como ‘Lundú’, ‘Palhaço’ ou ‘Dança dos Escravos’. Mas não chega para acordar um continente adormecido.

6 de fevereiro de 2010

Maria Bethânia "Tua" & "Encanteria"

Bethânia continua bela como uma árvore feia, com o cabelo cada vez mais feito só de raízes e galhos – pêlo de prata sobre olhos prazenteiros – e uma tez ora esculpida a cera ora desenhada a carvão. Tudo numa máscara de luz e sombra, concentrando a memória da terra e do mar. Ela, que se fez em palco, a quem chamaram Rainha, outrora vestida de dourados e tingida de vermelhos, vai agora em disco despontando inevitável mas imperturbavelmente grave e branda, como um lento astro atrás de marés. De forma paradoxal, parece-se também cada vez mais com o Brasil: quanto mais por si o tempo passa mais preparada está para começar de novo.

Não que pela edição simultânea de dois álbuns opere algum tipo de corte no seu passado recente. Muito menos, soçobrando com o peso de mais uma efeméride, se esgota numa meditação sobre a memória. Adivinha-se antes aqui uma lógica convergente que, por acumulação, permite compreender os seus interesses e motivações ao longo da última década (desde “A Força Que Nunca Seca”, de 1999), na qual, no entanto, não inscreve a nostalgia de forma literal: isto, porque traz maioritariamente canções inéditas que falam tanto de si quanto da ideia que de si têm os seus autores. E, como em “Brasileirinho” (2003), “Pirata” (2006) ou “Mar de Sophia” (2006), reitera o fascínio por um mundo rural imerso em símbolos, mitos e fantasia, a devoção aos Orixás e ao Candomblé de Caboclo, a capacidade de apurar impulsos conceptuais de fundação poética, a progressiva atenção aos arranjos de Jaime Além (destilando boleros de ‘piano bar’, dedilhando impressionistas baiões, dissolvendo solenidade de câmara em atmosfera caipira) ou a metáfora que faz do mar e rios afluentes da paixão.
“Tua”, com inspirados originais de Dory Caymmi/Paulo César Pinheiro, César Mendes/Arnaldo Antunes ou Chico César/Paulinho Moska (este, um dueto com Lenine), vem dedicado ao amor e à saudade e, no seu melhor, é um sucedâneo de “Âmbar” (1996) com menos pérolas no colar. “Encanteria” consagra-se à fé e ao sincretismo baiano, tem uma ‘Saudade Dela’ (com Caetano e Gil) capaz de lembrar ‘Alguém Me Avisou’ (que os três cantaram em “Talismã”, de 1980) e revela-se indispensável nos sambas de Roque Ferreira e nos temas com a Orquestra Portátil de Música, de Maurício Carrilho e Luciana Rabello. Não marcam, nem poderiam, este tempo como há muito fizeram “Drama” (1972), “Álibi” (1978) ou “Alteza” (1981), mas chegam para provar que Bethânia continua mais bela e importante que os seus discos.

30 de janeiro de 2010

Amina Alaoui “Gharnati – En Concert” & Jon Balke - Amina Alaoui “Siwan”

Canta Amina Alaoui e liquefazem-se azulejos em Alfama; enquanto isso, explorando o bairro sob lua incerta, o violino de Kheireddine M’Kachiche derrama tinta em mapas invisíveis e entontece-lhe nas vielas o sangue; sobretudo, as notas que se soltam do alaúde tunisino de Sofiane Negra – como grãos libertos das ampulhetas em que se guardou o pó dos califados – estremecem-lhe muralhas. É assim “Gharnati”, e tanto melhor. Pois quem reclama hoje a herança do Al-Andalus declarará – entre outras coisas – um património poético fundamental para a renovação responsável do fado. Por cá já se provou vezes sem conta que a missão não interessa a ninguém. Alaoui evoca com mais frequência tradições que vão de Granada a Tremecém ou de Córdova a Fez, mas compreendê-lo-á ao ponto de no seus concertos começar a incluir a canção de Lisboa. Ouvi-la, em “Siwan”, cantar ‘Ondas do Mar de Vigo’, de Martim Codax, funciona nessa perspectiva como uma extática antevisão. No disco – maioritariamente, poemas dos séculos XI e XII musicados por Jon Balke – esse é, aliás, dos poucos momentos livres de um absurdo musicológico que lhe tolhe movimentos (juntar versos do alentejaníssimo Al-Mu’tamid Ibn Abbad ao trompete distópico de Jon Hassell, nem aqui nem na China).

23 de janeiro de 2010

Le Trio Joubran “À L’ombre Des Mots”

Nos poemas de Mahmoud Darwish tudo tem uma causa: as pedras polidas em forma de face, os cedros vertidos pelas colinas, as janelas suspensas sobre o Mediterrâneo, o apelo do marulho na noite, o aroma do pão rompendo na madrugada, os mártires e minaretes que sustêm o peso do céu, o tempo contado em nuvens que passam imitando no ar o voo das andorinhas e no chão ensombrando prisões, a mentira sincera do amor, a esperança de uma miragem e a marcha de um profeta… Até o acaso tem causa. Vem do clarão com que nasce a palavra mas precede-lhe porque se chama Palestina, a sua terra sem terra, geografia de exílio, saudade e memória, para a qual, nas fileiras da OLP, escreveu a Declaração de Independência. Falecido a 9 de Agosto de 2008, deixou mais próxima do pó uma certa ideia de pátria. Por isso, e para que a língua conduza à ressurreição, organizou o trio de alaúdes dos irmãos Samir, Wissam e Adnan Joubran este concerto em torno da voz daquele que há mais de uma década acompanhavam em leituras. Com Youssef Hbiesch na percussão, igualam modulações e métrica, espelham palavras com ostinatos e colam harpejos a sílabas numa virtuosa homofonia em câmara ardente vulnerável apenas à vontade do vento e à infelicidade do Homem.

16 de janeiro de 2010

Tom Zé, Autor da Bossa Nova

Em 1939, numa sibilante e gutural grafonola que calava o ziziar de provençais cigarras, Jorge Luis Borges, em Nimes, vaporizava lamentos portenhos num borriço de alma. O tango, com Buenos Aires à distância, era uma experiência sinóptica. De um trago, escreveu “Pierre Menard, Autor de Quixote”, conto mascarado de recensão literária consagrado a um ficcional autor francês. Explicava Borges que Menard não copiou a novela do século XVII – criou, isso sim, condições para que no século XX nascesse como que pela primeira vez o texto. O rico e subtil palimpsesto – de páginas em tudo coincidentes com certos capítulos do “Dom Quixote” de Cervantes – teria agora, centenas de anos depois, de ser lido à luz do seu tempo. Reflectia o argentino sobre autoria e interpretação e postulava que o contexto e acto da leitura podem alterar o significado a qualquer obra. Mas, astuto e previdente, apresentou na mesma altura “A Biblioteca de Babel”, narrativa através da qual, inversamente, patenteava o absurdo de um universo em que se multiplicavam livros até ao infinito, sem sentido possível, em todas as variações, traduções e permutações: a algaraviada da repetição. Hoje, numa era – de sampling, karaoke e mash-ups em epidémica difusão mediática – saturada por referências estéticas em constante reprodução, e em que a realidade há muito ultrapassou antiquadas ficções, parece simultaneamente ingénuo e trivial tentar desvendá-la num processo que lhe espelhe os mecanismos. Ou seria, não fosse o mundo andar esquecido e, claro, se não existisse Tom Zé, que fez do plágio programa.

Em 2008, assinalando os 50 anos da bossa nova, Tom, apoiado em Arnaldo Antunes e desmultiplicando duplas com cantoras (Fernanda Takai, Mariana Aydar, Mônica Salmaso, Tita Lima, Andréia Dias, Márcia Castro ou, entre outras, Badi Assad), produziu, com “Estudando a Bossa – Nordeste Plaza”, um gesto revisionista que não encontrou tão lúcida equivalência entre as restantes acções celebrativas. Como Menard, que contradisse a ideia primária de que todas as épocas são iguais ou distintas, Tom esclareceu em disco que João Gilberto não podia ser de todos ou só de um. E, também ele, cumpriu os requisitos para que, na sua produção, se amansassem patos, mareassem barquinhos, amachucassem bolinhas de papel, replicassem Rosa e Doralice, pingassem bim e bom, enfim, se duplicasse o texto inaugural de João. Para isso, desafinou-se, viniciou-se, copacabanou-se e, com jobiniana insensatez, acorcovadou-se num barracão nas traseiras do tonalismo. Daí resultou uma deslumbrante metonímia, com acordes, toada, harmonia, palavras, despencados contraponto e síncopes, que, pela primeira vez, mostravam João como sempre foi: suspiro do samba, pai do que – numa música de tambores – a teoria musical apelida de “terminação feminina”, mas ainda, como Tom, vítima do ostracismo e filho do exílio – alguém que, insuficiente mas incapaz de aceitar que se silenciasse o seu canto, voltou em 1957 a um Rio de Janeiro que lhe tinha sido indiferente para, então, criar algo tão singular que só a genética tendência para a duplicação conseguiu transformar em género. Por isso aproveite quem, em Viseu e Guimarães, possa assistir ao que originaram décadas de conspiração: Tom Zé a fazer de João Gilberto a fazer de Tom Zé.

9 de janeiro de 2010

Syran Mbenza & Ensemble Rumba Kongo "Immortal Franco: Africa’s Unrivalled Guitar Legend"

Com a sua morte, em 1989, caiu a noite sobre uma nação em ruínas. E – à excepção da que, estando já em parte alguma, se baseava em valores de produção importados – não se vislumbrava que a música no Congo sobrevivesse ao desaparecimento de Franco. Passadas duas décadas está ainda por se refazer o país, mas pela primeira vez desde a saída do poder de Mobutu chega em paz o mês de Janeiro. Talvez por isso tenha 2009 (com o segundo volume de “Francophonic”, a compilação “Cubanismo from the Congo” ou a descoberta de Staff Benda Bilili) prenunciado o regresso da antiga colónia belga ao mapa mundial de distinção estética. Também Syran Mbenza – com um punhado de veteranos das TPOK Jazz, Quatre Étoiles e Kékélé a seu lado – relembra as lições do seu malogrado líder, puxando o lustro a clássicos do seu repertório e renovando-lhe características essenciais: irresignável sentido rítmico em síncopes de voluptuosa elegância, transparente delicadeza em harmonias de eterna deriva atlântica, gorjeados vapores extraídos a febris braços de guitarra, deslizantes melodias suspensas em colares de atóis, sopros de panteão a balançar as ancas ao equador, prosódicos jogos de palavras a escarnecer linguistas. Tão simples quanto a rotação da Terra.

31 de dezembro de 2009

Melhores do Ano

“Très Très Fort” Staff Benda Bilili (Crammed)
“Floodplain” Kronos Quartet (Nonesuch)
“Francophonic Vol. 2 (1980-1988) Franco & Le Tpok Jazz (2cd + Livro Sterns)
“Entre Amigos” Dolores Duran (Biscoito Fino)
“Volume Two: Echos Hypnotiques 1969-1979” Orchestre Poly-Rythmo De Cotonou (Analog Africa)
“Black Rio 2” (Strut)
“Legends of Benin” (Analog Africa)
“Tudo Ben (Jorge Ben Covered)” (Mr. Bongo)
“Atahualpa Yupanqui – Obra Completa Para Guitarra (Composiciones Propias)” Carlos Martinez (3cd Acqua)
“The World Is Shaking: Cubanismo From The Congo 1954-1955” (Honest Jon’s)

A partir de gravações privadas de 1958 tudo chegou e partiu entre murmúrios de João Gilberto. O material de arquivo tornou a revelar-se dramaticamente vital. Fora de competição: Agustí Fernández “Un Llamp Que No S’Acaba Mai”, Akira Sakata “Friendly Pants”, Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble “The Moment’s Energy”, Flower-Corsano Duo “The Four Aims”, Ken Vandermak, Barry Guy & Mark Sanders “Fox Fire”, Okkyung Lee, Peter Evans & Steve Beresford “Check For Monsters”, Polwechsel & John Tilbury “Field”, Ran Blake “Driftwoods”, Wadada Leo Smith & Jack DeJohnette “America” e WHO Trio “Less is More”. No renascimento da Horo: Sam Rivers “Black Africa! Live in Villalago 1976”. No da Nessa: Charles Tyler “Saga of the Outlaws”. Ao vivo: Omar Souleyman, Group Doueh e Peter Evans. Melhor manifesto recuperado: “Fight the Future”.

24 de dezembro de 2009

Anouar Brahem “The Astounding Eyes Of Rita”

Como o original refrigério do mar experimentado a meio do tempo quente e seco ou a descoberta inaugural dos aromas amargo e doce das frutas de Verão, o íntimo afecto que com a música de Anouar Brahem desponta nem sempre resiste à repetição. Por isso dificilmente se voltará ao instante em que, no encontro com “Barzakh” e “Conte de l’Incroyable Amour”, ouvi-la era como nos olhos ter a dançar o revérbero do Mediterrâneo ou nos pés marcada a sua fímbria salgada. E também a sua discografia subsequente se afastou de tão vagas impressões. Até este momento. Porque no subúrbio dos poemas de Mahmoud Darwish – a que se dedica o álbum – ganha novamente razões para se deixar ir com a brisa para longe do destino dos homens. E, como uma balada de exílio em tudo fiel à do autor palestino há um ano falecido, trata nos seus espaços menos discursivos de olhar para lá da poeira dos sentidos e encontrar um mundo que, infelizmente, foi o paraíso. Seguem a par da obra poética estas canções para oud, clarinete, baixo e percussão como um sinuoso rio que às margens reclama terra e sangue para não se perder no oceano. Até tudo ficar branco.

19 de dezembro de 2009

Franco & le TPOK Jazz “Francophonic Vol. 2 (1980-1988)”

Kinshasa chamava-se então Léopoldville. E, após anos de terror, a capital do Congo Belga adaptava-se a um tecido urbano que pressupunha progresso civilizacional mas que se reduzia à inclusão no seu traçado do ‘bairro indígena’. Aí, sintonizava-se uma estação de rádio e ouviam-se canções do Sexteto Habanero ou da Orquesta Aragón, enquanto dezenas de músicos mantinham o decoro colonial pelas charangas de restaurantes europeus. Imagine-se o bairro Tremé, em Nova Orleães, se na cidade se tivesse mantido a escravatura e o jugo espanhol e um dia, com o jazz, soasse de uma corneta a liberdade, e ter-se-á ideia do que significou em 1953 a entrada em estúdio de um jovem de 15 anos que viria a cantar como ninguém a independência do seu país. A ascensão de Franco a inultrapassável potência criativa do continente africano comprova-se pelas mais de 1000 canções gravadas pela sua banda até 1980, período do qual se extraiu o primeiro volume de “Francophonic”. Agora, nesta antologia de 150 orgíacos minutos, torna-se coerente uma fase mais complexa e de maior dispersão, assombrada pela corrupção resultante da proximidade de Mobutu, pelo exílio e pela doença, mas que os 40 músicos da TPOK Jazz reconduziam a um redentor manifesto contra o medo do mundo. Um dos acontecimentos do ano.

12 de dezembro de 2009

Sugestões de Natal

Arnaldo Antunes “Iê Iê Iê”
No ano do lançamento em DVD de “Na Onda do Iê Iê Iê” e da publicação da autobiografia de Erasmo Carlos, só Arnaldo Antunes para pôr a saudade a dançar. Sublimando Roberto Carlos, Golden Boys ou Fevers (por cá havia Sheiks, Tártaros ou Chinchilas), abrilhanta penteados, encurta minissaias e lustra turbinas naquilo que nunca fez antes: canções de época.
Luz Casal “La Pasión”
Pomposos sopros insuflam orquestras cubanas em canções de René Touzet e Osvaldo Farrés, move-se a congas o metrónomo mexicano segundo María Grever e Rosario Sansores Prén, demolham-se ‘Historia de un Amor’ e ‘Cenizas’ e uma vaga de violinos encharca boleros de Porto Rico, Chile, Brasil e Argentina. Canta-se bem mas quem alegra é o maestro, Eumir Deodato.
Adriana Partimpim “Partimpim Dois”
Livros e discos infantis são uma espécie de nova beneficência. Tanto aliviam consciências quanto salvam carreiras. Adriana Calcanhotto toma comprimidos para o enjoo de “Maré” e dá dois passos atrás. Mantêm-se referências e cúmplices, adiciona-se o Dylan cristão renascido, mistura-se uma meninice de Vinicius e batuca-se João Gilberto. Não faz mal a uma mosca.
Seu Jorge “América Brasil, O CD Ao Vivo”
A gravação é de Janeiro e traz apenas um inédito. Mas nada diminui o impacto de milhares de vozes a cantar ‘É Isso Aí’, ‘Carolina’, ‘Tive Razão’ ou ‘São Gonça’. Apela aos mais básicos instintos do mercado mas ninguém combina desta maneira heranças de Jorge Ben, Bezerra da Silva e Emílio Santiago. Há ainda na banda uma endiabrada rabeca a lembrar Jorge Mautner.
“Elas Cantam Roberto Carlos”
Não há Natal sem Roberto Carlos. E é natural que a festa arranque mais cedo neste ano em que se celebram os seus 50 anos de carreira. “Elas…” regista o concerto de 26 de Maio em que se engalanaram vozes e vestidos. No alvo: Alcione, Marina Lima, Adriana Calcanhotto e Nana Caymmi. O ‘Rei’ apareceu para a inevitável ‘Emoções’ mas não precisou de ir ao duche.
Don Cherry & Latif Khan “Music / Sangam”
Nunca terá a sua acção dependido do calendário, mas não virá a despropósito evocar agora quem sempre celebrou valores ecuménicos. Nesta sessão de 1978 (com Khan nas tablas), Cherry cruza melodias guineenses com indianas, canta, toca órgão, harmónio ou flauta de bambu, e, à semelhança de Jon Hassell, recorda parte daquilo que Miles desistiu de sonhar.

5 de dezembro de 2009

Orchestra Baobab “La Belle Époque”

Em noites brandas sonhava-se com o futuro. A música apaziguava espíritos, abrigava amantes, abraçava ideologias e aproximava-se de muitos sítios sem ao certo pertencer a lugar nenhum. Ao balcão discutia-se política e fechavam-se negócios, ministros recebiam no restaurante dignitários ocidentais e, pelos cantos da discoteca, conspiravam emissários de potências estrangeiras. Em palco suspendia-se o tempo: a banda da casa fixava-o no par de décadas em que a rádio nacional rodava discos do Sexteto Habanero, Orquesta Aragón ou Arsenio Rodríguez. Ocasionalmente, a pedido de representantes do governo de Léopold Senghor, e para que ninguém se pensasse num barco rumo a Cuba, o doce embalo tropical incluía melodias tradicionais wolof e a toada folclórica derivava para repertório mandinga ou baladas crioulas de Casamança, próximas das que cantava a Cobiana Djazz na Guiné-Bissau. Assim foi no Club Baobab, em Dakar, da inauguração em 1970 até ao fecho de portas em 1979. A sua orquestra, com instrumentistas de diferentes etnias e origens (Togo, Mali e Nigéria), encarnou na perfeição a tese cultural pretendida para o Senegal e – a par da Bembeya Jazz na Guiné ou a OK Jazz no Congo – simbolizou a recondução da diáspora a solo natal. Sabe-se que a sua melhor fase em disco é de final de setenta a inícios de oitenta, que caiu vítima da fórmula que criou, mas que anos depois renasceu. Esta retrospectiva ganha importância pelas limitações do mercado: os temas do primeiro CD são retirados de dois álbuns de 1972, em parte por reeditar (alguns foram incluídos pela Oriki em “A Night At Club Baobab”); dez canções do segundo, gravadas em 1978 em Paris, viram a luz do dia em 1992 numa edição já esgotada (“On Verra Ça”, World Circuit). Esta é mais uma fresta do que uma porta escancarada, mas o que se vê nunca se esquece.

28 de novembro de 2009

Buika y Chucho "El Último Trago"

São vozes que choram, clamam, se esganam e só depois cantam. E duas mulheres que cultivam uma ambígua identidade sexual. Por isso terá o seu quê de calculismo produzir o encontro de Buika com repertório associado a Chavela Vargas. E a primeira coisa que se confirma é a grandeza de um registo tão à vontade na tradição imortalizada por La Niña de los Peines quanto noutro qualquer. Porque se nas gargantas erradas o flamenco é pouco mais que uma doença de vogais, na de Buika é tão natural quanto o primeiro grito. E servirá para revolver as entranhas destas rancheras, ora vexadas valsas, ora pútridas polcas, ora brumosos boleros, até que as canções de Álvaro Carrillo (‘El Andariego’), Agustín Lara (‘Se Me Hizo Fácil’), Juan Zaizar (‘Cruz de Olvido’) ou, inevitavelmente, José Alfredo Jiménez (de ‘Las Ciudades’, com aquele murmurado “Te vi llegar y senti la presencia de un ser desconocido”, à embriagada ‘En El Último Trago’) mais não fiquem que um cancioneiro de sussurros. Chucho Valdés – a cumprir funções próximas das de seu pai, Bebo, no “Lágrimas Negras” de Diego Cigala – evita a caída no dramatismo drag de Lola Beltrán ou Lucha Villa e lança-se por uma lírica ponte suspensa entre Bill Evans e Frank Emilio Flynn.

21 de novembro de 2009

Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou "Volume Two: Echos Hypnotiques 1969-1979"

James Brown disse muitas coisas espantosas. E não se vislumbra uma leitura tão rigorosamente suspensa entre a contínua admiração e a permanente desconfiança quanto a da sua autobiografia. Ainda assim, restam ao fim de todos estes anos momentos de irresoluta perplexidade na sua interpretação, como aquele em que se refere à música africana revelando nada ter encontrado no continente negro que lhe permitisse reconhecer as suas raízes. Mais perturbante ainda será não lhe ter sequer servido de matéria para reflexão o repetido facto de – do Zaire à Nigéria – tudo o que por lá ouviu lhe parecer um eco distorcido da sua própria produção. Na verdade, ainda que ignorasse aquilo que a etnomusicologia do seu tempo caracterizava como um “eco de outro eco”, de nada valem as suas palavras face ao que provou em disco. E também porque não faltariam candidatos a demonstrar-lhe na prática a origem da ancestral força espiritual que tão bem evidenciava em palco e em estúdio, bastaria uma palavra sua para que dessas viagens tivesse levado mais que banhos de multidão e dinheiro de ditadores. A Poly-Rythmo, por exemplo, sempre que se dedicou ao jerk (expressão que qualificava temas tradicionais do vodun ‘modernizados’ ao jeito da pop ocidental) confirmou dominar a mesmíssima grandeza matricial do groove por si dilatado e, mais concretamente, igualar a modelar destreza polirrítmica do seu baterista, Clyde Stubblefield. E não se poderia imaginar mais eficaz banda para o acompanhar quando, em “Hell” (1974), cantava o que sabe qualquer homem no Benim: “a man has to go back to the crossroads before he finds himself”. Esta é, em sete anos, a quarta antologia consagrada à orquestra de Cotonou, a primeira a libertá-la dos fantasmas de Franco e Fela Kuti e a melhor a representá-la pela sua acção natural: na virtual dependência do “Padrinho do Soul”.

7 de novembro de 2009

Zanzibara 5: Hot In Dar – The Sound Of Tanzania 1978-1983

São hoje conhecidas as múltiplas manifestações culturais de uma Tanzânia então uniformizada pela propaganda. Talvez por isso – apesar de ser possível concentrar atenções na obra de Mlimani Park Orchestra, Dar International Orchestra e Vijana Jazz Band fazendo-a depender do patrocínio do regime – se liberte de constrangimentos políticos este quinto volume da série “Zanzibara” (irmã, na Buda, da mais prestigiada “Éthiopiques”). Porque esta nova era para a música popular de Dar es Salaam cruzava tradições tanzanianas com o que de mais significativo chegava do Zaire ou do Quénia sem que as elites se interrogassem quanto à sua legitimidade nacionalista. E foi esse impulso – a par da reabilitação do swing de tempos coloniais filtrado por uma apertada malha funk – que precipitou a explosão da musiki wa dansi, febre que durou até final dos anos 80 quando sintetizadores e caixas de ritmo substituíram instrumentistas. Mas aqui celebram-se ainda bandas com três dezenas de músicos capazes de espelhar em palco os mais graciosos gestos nas pistas de dança, até, por fim, entre espirais de guitarras eléctricas efervescendo como bolhas em bebidas gasosas e secções de sopro dialogando como claques rivais em bancadas opostas, se revelar um inesperado centro criativo para a África oriental.