Na capa, um pormenor de “Sepultamento de Jesus”, de
Ignazio Solari – vem a propósito, terminada que está a semana santa, não
obstante se ter discutido mais a recuperação da economia do que a ressurreição
de Cristo, este ano. Será, até, muitíssimo apropriado, tendo em conta que o
quadro pertence à coleção da Catedral de Salzburgo, cujo arquiteto foi Santino
Solari (pai de Ignazio) e cuja cúpula octogonal foi o amplificador original das
obras de Bernardi. Não se pense, no entanto, que em 1629 (data da publicação de
uma solaz “Missa de Defuntos” que é a grande razão de ser deste extraordinário
CD) os incumbentes descuravam assuntos terrenos – em “Os Noivos”, de Alessandro
Manzoni, lê-se que, na altura, os encargos com a guerra não podiam ser diferidos:
“Sed belli graviores esse curas”. De
modo crucial para esta história, aí, o contexto era a entrada da peste com as
tropas alemãs em território italiano no decurso da Guerra dos 30 Anos: “Por
toda a faixa de território percorrida pelo exército, tinham sido encontrados
alguns cadáveres nas casas, alguns nas estradas. Pouco depois, neste ou naquele
vilarejo, começaram a adoecer e a morrer pessoas e famílias de males violentos,
estranhos, com sintomas desconhecidos para maior parte dos viventes.” Nessa
perspetiva, não é difícil imaginar o veronês Stefano Bernardi (1577-1637) a
aceitar o cargo de mestre-capela no príncipe-bispado governado por Paris de
Lodron, reduto católico que se manteve neutro durante o bárbaro conflito – ainda
assim, devia levar consigo o desamparo e desconsolo daquela desgraçada gente que
pelo caminho ia cruzando (e salta novamente à memória o romance de Manzoni: “Em
todos os lugares encontraram povoados fechados com portões, outros quase
desertos, tendo os habitantes fugido, ido para os campos ou se dispersado – pareciam
criaturas selvagens, uns trazendo menta nas mãos, outros arruda, outros alecrim,
outros uma garrafa de vinagre.”) Sem que o pudesse admitir, ao libertar tamanha
emoção numa obra contaminada pelo mais catártico em Gabrielli, era em nome
dessa gente que compunha. Sem que o pudesse saber, seria preciso nova pandemia
para que viesse a ser relembrado.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
18 de abril de 2020
10 de abril de 2020
Bach: The Well-Tempered Consort – I (Linn, 2020)
Por mais que um motivo, manda a tradição que, neste
dia, de Bach, se evoque antes a “Paixão Segundo São Mateus”. Se é essa a
questão, consumado está, como diria Jesus Cristo na cruz (até, porque, do oratório,
na BIS, há nova edição digna de nota: a do Bach Collegium Japan, dirigida por
Masaaki Suzuki, com Benjamin Bruns e Carolyn Sampson). Tudo isto, claro, porque
não só a obra – estreada na Sexta-Feira Santa de 1727 – acompanha a
crucificação e morte no Calvário do seu protagonista como, também, representa
um muitíssimo figurado regresso ao mundo dos vivos do seu autor (o que se deu em
março de 1829, quando Mendelssohn, a contragosto das plateias do seu tempo, a tornou
a incluir numa folha de sala, de certa forma pondo em marcha um processo de
reabilitação crítica que não mais parou). Daí resulta um terreno fértil para
testar o que na avaliação da natureza dos solos se apelida de limites de
consistência: ou seja, sim, desde então, Bach tornou-se permeável a todas as
reconfigurações possíveis e imaginárias (basta esquadrinhar o YouTube que independentemente
de géneros musicais se dá por opúsculos seus interpretados em ocarinas, copos
de cristal, harmónicas, flautas de pã, cavaquinhos, instrumentos e gente dos
quatro cantos do planeta). Por isso, e porque, este ano, ao que parece, a
Páscoa foi cancelada, em boa hora e de modo muito apropriado surge o Phantasm a
propor transcrições para viola da gamba de páginas extraídas a “O Cravo Bem
Temperado”, “Oferenda Musical” e, com uma ou outra cantata pelo meio, ao transcendente
terceiro volume de “Pequeno Livro para Órgão”. Dir-se-ia que os seus
integrantes aspiravam ao mesmo que a pianista mongol Odgerel Sampilnorov, conforme
o relato de Sophy Roberts, em “The Lost Pianos of Siberia”: “Bach diz-nos como
expressar a dor e a tragédia. Quando leio acerca da Ressurreição não sinto
grande coisa, mas quando toco [uma ária] ganho vida. Bach ensinou-me a
respirar!” Aqui, basta escutar o “Prelúdio Nº 22”, BWV 867, ou “Kyrie, Gott
heiliger Geist”, BWV 671, que se pressente o equivalente à primeira golfada de
ar que um mergulhador de apneia dá ao regressar à superfície. Habemus Páscoa.
Agenda virtual
De modo a angariar fundos na luta contra a covid-19,
diz Lionel Richie que urge tornar a gravar ‘We Are the World’. Bom, nem que seja
pelo interesse puramente didático da coisa, faz mais sentido pôr artistas do
mundo inteiro a cantar ‘Amor Secreto’, de Wando, no FaceTime: “Hoje vou ficar
em casa/ Vou tirar a roupa/ Vou te amar em pensamento/ Vou ter febre louca// Mesmo
te querendo muito/ Não vou te encontrar/ Vou te amar em fantasia/ Pra não
machucar.” De forma mais ou menos eufemística, no YouTube, Twitter, Instagram
ou Facebook, é o que tem virtualmente demonstrado gente como Joyce DiDonato,
Daniel Hope, Igor Levit, Yo-Yo Ma, Gautier Capuçon e Alisa Weilerstein. Nessa
perspetiva, o ponto alto da agenda semanal virá por cortesia de Marc-André
Hamelin (na foto), um pianista que se revela incapaz de ceder ao pânico mesmo quanto tem
em mãos as mais complicadas partituras e que, quarta-feira, às 17h30, diretamente da sua sala de estar, propõe um programa que passa por C. P. E. Bach, Enescu,
Liszt e Scriabin e que arrisca a transcendência no “Noturno Nº 6” de Fauré (que
marcou o regresso do compositor ao piano após um interregno de seis anos e que
se ouve como se alguém tivesse decidido resumir em dez minutos a dor e a
alegria entretanto vividas) e numa seleção do segundo livro de “Prelúdios” de
Debussy, que inclui “La terrasse des audiences du clair de lune”. Quem também se
porá a evocar a lua, embora tocando à uma da tarde, amanhã, na sua página de Facebook, é o notável pianista holandês Dante Boon, que inicia o live com a meditativa “Early Night”, de Michael
Vincent Waller. E à cata de luz, por alturas da “Sinfonia da Ressurreição”, andava
Mahler, um prodigioso praticante de isolamento social – quinta, às 19h30, a London Symphony Orchestra emitirá no seu canal de YouTube uma recente interpretação da
obra dirigida por Semyon Bychkov. “Não foi em vão que sofreste”, ouvir-se-á. Quem
quiser que acredite.
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4 de abril de 2020
Kate Lindsey, Arcangelo "Arianna" (Alpha, 2020)
Observe-se com atenção a capa deste “Arianna”, que
logo virá à memória a senhora X – “enterrada da cintura para baixo numa rocha”,
“presa e desamparada” numa “praia cheia de pedras” – de que Jung falava em “Os
Arquétipos e o Inconsciente Coletivo”. Agora, tal como então, aliás, por
intermédio de Handel e Haydn (nas cantatas “Ah, Cruel! No meu Pranto” e “Ariana
em Naxos”), favorece-se a representação de um cativeiro, não tanto de um ato de
libertação. Dir-se-ia que Kate Lindsey, a ter algum livro na mão, privilegiaria
antes “Heróides”, de Ovídio, em que a protagonista, desesperada, quanto mais
corre, mais se enterra na areia: “Entretanto, aos meus gritos de ‘Teseu’, pela
praia, as rochas côncavas devolviam-me o teu nome; e quantas vezes, eu, a ti
chamei, tantas vezes o lugar chamava!” Para Lindsey, o mito de Ariana é “uma
exploração psicológica da necessidade de amar, da coragem que requer, dos
riscos que acarreta”, avança, em notas de apresentação. “Amar é uma das nossas
maiores e mais perigosas aventuras.” Que o diga Ariana, claro, que, após se ter
apaixonado à primeira vista por Teseu, e de o ter ajudado a derrotar o
Minotauro, em Creta, ficou, na ilha de Naxos, pelo seu amado traída e à sua
sorte deixada, a ver navios, como Junot. Aqui, só em “Ébria de Amor, Fugia”, de
Alessandro Scarlatti, lhe é concedida a redenção – na figura de Baco, que, achando-a
consumida pela dor, compadecido, lhe dá a mão (“Baco e Ariana”, de Ticiano, descreve
esse encontro). Mas se Scarlatti e Handel compunham à mesma hora, no mesmo
lugar, para a mesmíssima plateia (em Roma, em 1707), já Haydn, em 1790, isolado
na herdade dos Esterházy, se sentia longe de tudo e de todos, sobretudo de
Viena e de Maria Anna von Genzinger, pela qual nutria um amor platónico – e quando
a sua Ariana se lamenta (“Miserável e só/ Não tenho quem me console/ Foge de
mim quem tanto amei/ Cruel e infielmente”) é a voz dele que se escuta. Nesse
particular, Lindsey atinge uma crueza tão irredutível quão irredimível: mais
que o seu impedimento absoluto, a de quem canta a maldição que pode advir da
intimidade. Nos dias que correm, somos todos vulneráveis à ideia.
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Lugares [Agenda virtual]
Há exatamente uma semana, no canal de YouTube da Deutsche Grammophon, desde Belgais, ou, como ela dizia, “no meio do nada”,
Maria João Pires servia de anfitriã numa maratona de streaming de pouco menos de quatro horas aproveitando para falar
acerca desta “terrível crise que atravessamos”: avisava que era útil
refletirmos sobre o futuro, sobre como podemos “cuidar melhor de nós, do
planeta e uns dos outros”, “respeitando-nos mais, partilhando mais”. Depois,
pelo muito que temos a aprender com o seu exemplo, presume-se, explicava que
tinha decidido tocar Beethoven: um “homem de fé e de esperança, que sempre
lutou pela justiça com muita compaixão – uma alma pura.” E tocou o quê? Pois, a
“Sonata para Piano Nº 8”, vulgo Pathétique – seria cómico se não tivesse sido
tão comovente. Seguiu-se-lhe, por ordem de entrada em cena, e quase sempre a
partir das respetivas casas, Víkingur Ólafsson, Joep Beving, Rudolf Buchbinder,
Seong-Jin Cho, Jan Lisiecki, Kit Armstrong, Simon Ghraichy, Evgeny Kissin e Daniil
Trifonov, que, por sinal, tocou de luvas, o que não se via há coisa de 15 anos,
desde um recital de Jorge Lima Barreto. De certa forma, o mote tinha sido dado
por Philip Glass, citado por Ólafsson: “A música é um lugar tão real quanto outro
qualquer – e assim que souberem onde é esse lugar podem lá ir sempre que
quiserem”, lê-se nas suas memórias. Dito e feito: antes de Trifonov tocar a
última nota de “A Arte da Fuga”, o vídeo atingia já as 250.000 visualizações. Hoje,
e até terça, sempre às 5 da tarde, um desses lugares é a sala de estar do
violinista Daniel Hope, em Berlim, a partir da qual tem tocado todos os dias em
direto (as transmissões são no YouTube da DG e no site do canal Arte). Quem
também continua a tocar a partir da sua sala de estar em Berlim é Igor Levit
(através da sua conta no Twitter) e, em Nova Iorque, Fred Hersch (na sua página
de Facebook) – na semana passada, por fatalidade, tocaram ambos ‘And so it
Goes’, de Billy Joel, tema que começa assim: “In every heart there is a room/ A
sanctuary safe and strong”. Será a algo do género que remete um festival
virtual a decorrer diariamente, até terça, chamado Live from our Living Rooms –
entre outros, envolve gente como Chick Corea, Joe Lovano, Bill Frisell, John
Patitucci ou Dave Liebman. Como se não bastasse, hoje, pela noite dentro, Vijay
Iyer improvisa em direto a partir do auditório do Centro de Artes de Caramoor
(no canal de YouTube da instituição) e, terça, pouco antes da meia-noite,
Jeremy Denk [na foto] apresenta seleções de “O Cravo Bem Temperado”, de Bach, no site do
Greene Space, a sala da rádio pública nova-iorquina. Lugares e mais lugares,
pelo menos até ao dia em que façamos como aquela personagem de “O Quarto”, de
Herberto: “Fecho as portas da casa, a porta de saída e as portas dos quartos
entre si. E fico no quarto sem soalho e deito-me no chão. Ouço o mar e o vento
à frente e atrás da montanha solitária e poderosa. Depois encosto a cara à
terra profundíssima para escutar o seu húmido sussurro atravessando-a toda e
passando por mim.” Depois a música acaba.
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