Com a
vulnerável impetuosidade da juventude, Zhang Shengliang – o púbere chinês, de 15
anos, internacionalmente conhecido por Niu Niu – propõe um programa que
ressalva o generoso proselitismo de Franz Liszt (1811-1886), sublinhando-lhe
simultaneamente as mais quiméricas capacidades, num conjunto de transcrições de
Saint-Saëns, Paganini, Schubert e Wagner. Naturalmente, o prodigioso pianista
deleita-se na travessa e dilatada secção central da “Danse Macabre” – que
estimula com invulgar acerbidade – e prova-se apropriadamente temperamental num
trio de temas extraídos aos “Grandes Études de Paganini”, cuja lendária
transcendência domestica com sutileza e sobriedade, mas, em “Das Wandern” ou em
“Isoldes Liebestod”, perde alguma fluidez quando, em peças do austríaco e do
alemão, o essencial da ação se transfere do tempo cronológico para o psicológico.
É, de certa forma, um problema de perspetiva de que está isento o italiano
Michele Campanella ao concentrar, neste ano de bicentenários, o integral das
incursões do compositor húngaro na obra – predominantemente operática – de Verdi
(1813-1901) e Wagner (1813-1883), reforçando-lhes um aspeto de manifesta
modernidade: a imposição da paráfrase como um instrumento ao serviço do mais
escrupuloso multiculturalismo. De facto, Liszt operou aqui no coração de um
dogma – o da construção identitária – que conduziu aos limites da invenção e da
ética, intervenção que mais vital e definitiva se tem revelado com o passar dos
anos.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
18 de maio de 2013
Liszt: Transcriptions, Niu Niu (EMI, 2013) & Liszt: The Complete Wagner & Verdi Transcriptions, Michele Campanella (Brilliant Classics, 2013)
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Richard Wagner
11 de maio de 2013
Bombino “Nomad” (Nonesuch, 2013)
Na última década, o fantasioso e
subversivo ‘blues do deserto’ – promulgado por Tinariwen, Toumast, Terakaft,
Etran Finatawa, Tartit ou Tamikrest – ilustrou na perfeição o estágio final da
utopia para itens musicais ameaçados, convertendo-se de remota causa
faccionária em acessível marca registada para consumo universal, com as suas comitivas
de agentes e sedes oficiais de dissensão, o mais zeloso séquito e o Rough Guide
da praxe, não dispensando sequer – na sua ascensão a símbolo mundial da
guerrilha urbana, apto a disputar a popularidade do lenço de Arafat – de uma elementar
etapa degenerativa. Será, presumivelmente, ao que se referem todos quanto, na
resenha a este terceiro ensaio de Bombino, ressalvam, por exemplo, as comprometedoras
condições de produção de “Nomad”, com gravações rigorosamente vigiadas por Dan
Auerbach, vocalista dos Black Keys – uma banda com a qual, aliás, e caso
tivesse o mínimo conhecimento da sua atividade, até se vislumbra o extático guitarrista
nascido no Níger a simpatizar. Mas, mais hipotético que efetivo, tal
branqueamento surge contrariado pelo essencial do sucessor de “Guitars from
Agadez, Vol. 2” (captado no terreno pela Sublime Frequencies, em 2007, no
seguimento de uma sessão consagrada ao Group Inerane) e “Agadez” (Cumbancha,
2011), que mais não faz do que prolongar uma cândida e branda – e em permanente
oposição aos acontecimentos recentes – mensagem de paz para o povo tuaregue.
Por sinal, atua de forma pouco imaginativa, liofilizada e embaraçada por uma
conceção genericamente rudimentar do blues
rock de travo psicadélico, evocando uma estratégia há 45 anos aplicada pela
Cadet a álbuns de Muddy Waters e Howlin’ Wolf, mas a verdade é que a esperança
ainda supera o marketing. Valha-nos
isso.
Dieter Ilg “Parsifal” (ACT, 2013) & Eric Schaefer “Who Is Afraid Of Richard W.?” (ACT, 2013)
Foi Chuck
Jones quem, em 1957, quis “pegar nas 14 horas do ‘Anel’ e abreviá-las para seis
minutos”, conforme explica Daniel Goldmark em “Tunes for ‘Toons: Music and the
Hollywood Cartoon”, ao analisar “What’s Opera, Doc?”, curta-metragem de
animação protagonizada por Bugs Bunny e Elmer Fudd que propunha um hilariante
pasticho de operáticos estereótipos extraídos a Richard Wagner (1813-1883). Não
seria bem isso que teria em mente o compositor quando aludiu ao unificador
conceito do gesamtkunstwerk, mas é inegável que,
décadas depois, até uma lebre travestida de Brunilde personificava o
fundamental da sua mais grandiloquente parafernália visual, dramática e
musical. Em ano de bicentenário, convirá lembrar que, quer na ação do
realizador ao serviço da Warner Bros., quer na de Fauré, Hindemith ou Eisler,
que temperaram a pompa metafísica do mesmo material com equivalentes doses de
distorção humorística, o contexto é tudo. Aliás, bastará a audição deste par de
discos para concluir que, logo pelo próprio ato de deslocação formal – dedicado
a “Parsifal” o elegante trio de jazz de Ilg e abarcando ilustres páginas da
tetralogia o quarteto chunga de Schaefer –, não haverá mais digna e eficaz paródia
a estas obras do que tocá-las como elas, essencialmente, são, ainda que, para
tal, se destile em burlesco o seu aparato oracular e a sua ingenuidade
narrativa, e se zombe o totalitarismo subjacente à sua grotesca sacralidade e demente
monumentalidade.
4 de maio de 2013
Royal Band de Thiès “Kadior Demb” (Teranga Beat, 2012)
Como tantas vilas na costa
ocidental africana, Thiès desenvolveu-se de acordo com imperativos coloniais,
devendo-se o ímpeto fulcral para o seu crescimento à construção de um entroncamento
ferroviário que agilizou a comunicação entre Dakar e o resto do país, e, ao fim
de décadas de empreitada, concretizou a junção com a linha vinda de Bamako, no
Mali. O surto de atividade comercial deu origem a uma fixação de populações
migrantes – de diversas etnias e nacionalidades – e ao correspondente aumento do
tecido urbano, com os seus bairros residenciais, pequenos negócios, praças e
mercados, bares e restaurantes. É o tipo de cidade na região que, desde a
independência, se desfaz em nostalgia e se revela perversamente indiferente ao
progresso. Em agosto de 2004, o grego Adamantios Kafetzis, colecionador de
discos, brindava a glórias passadas num bar local, transportado por uma banda para
um tempo sem retorno. Descobriu que o distinto barítono que o enfeitiçava em palco
era o de Adama Secka, cantando ao lado da vetusta Royal Band de Thiès. A
continuação da história é familiar: Secka conduziu-o a James Gadiaga, antigo
vocalista do grupo, ex-Super Diamono e atual Super Cayor, que por sua vez lhe
entregou uma preciosa fita, na sua posse há 25 anos – imaculadas gravações de
1979 realizadas por Moussa Diallo, o mesmo que registou álbuns de Youssou
N’Dour com a Étoile de Dakar, de Pape Seck com a Number One ou o mítico
“Pirates Choice”, da Orchestra Baobab. O que aí ouviu – e que agora edita neste
“Kadior Demb” – é o mesmérico som dessa gente em trânsito, vaporizando formas
cubanas, embriagando ritmos tribais, vivendo o sonho a cada nota na guitarra
elétrica e a cada baforada no saxofone, algo tão essencial e vibrante quanto a
própria vida e tão belo e inesquecível quanto esses símbolos da modernidade
senegalesa, até hoje perdido na noite.
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Ches Smith and These Arches “Hammered” (Clean Feed, 2013)
Ches Smith apresenta um ambicioso
estudo informado por trabalho de campo – ao lado de necrófilos da estirpe de
Trevor Dunn (na presente encarnação do Trio-Convulsant), Jamie Stewart (nos
neogóticos Xiu Xiu), Carla Bozulich (na encantação acusmática de Evangelista) e
Trey Spruance (na funérea excentricidade dos Secret Chiefs 3) – desenvolvido nas
mais variadas morgues musicais, autopsiando cada compasso e tónica,
escalpelizando estrofe e refrão ou dissecando timbre, harmonia, melodia e ritmo
com a incansável diligência de um patologista do apocalipse e o mórbido zelo de
um enciclopedista de profecias. Numa análise geracional, o que há uns anos
passava por iconoclasta curiosidade (no testemunho de figuras como John Zorn,
Weasel Walter ou Elliott Sharp) deu hoje lugar a uma espécie de neurótica
insaciedade (em Ches e em nomes como Kris Davis, Nate Wooley ou Peter Evans), que
tem como crucial mais-valia algo de extremamente simples: a expressão de artistas
que são mais do que uma lista de restrições dentro de determinada categoria,
iludindo quer a tradição quer a redutora neofilia, e cujo discurso se
fundamenta na assunção de um ilimitado terreno de exploração. É nessa
perspetiva sintomático que se anuncie já que o próximo tomo destes These Arches
– Smith na bateria, Tim Berne no saxofone alto, Tony Malaby no saxofone tenor,
Mary Holvorson à guitarra elétrica e Andrea Parkins ao acordeão – seja um disco
com versões de temas associados a Nina Simone, precisamente gravado com o
vocalista dos Xiu Xiu. E não admira que “Hammered” se revele este concentrado
de estilos – jazz alienante, desfocado folclore, vísceras de rock – com subversivos
fogachos de coesão e enigmáticos hinos, ocasionalmente desconfortável e rudemente
abstrato, mas nunca menos do que uma fascinante assembleia de improvisadores
fora de série.
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