Mark Dresser possui um par de
álbuns absolutamente inclassificáveis na Tzadik, que batizou como “Banquet” e
“Marinade”. Entretanto, no início da década passada, em “Aquifer”, apresentava
um tema denominado ‘Digestivo’. E o mínimo que se pode dizer é que, na
aparência, este “Nourishments”, em que surge ‘Aperitivo’ ou uma dedicação ao chef Paul Canales – que, após 15 anos no
restaurante Oliveto, inaugurou este ano o Duende, ainda em Oakland, privilegiando
uma agenda de música improvisada ao vivo no acompanhamento da degustação dos
seus pratos –, prossegue uma peculiar preocupação com aquilo que, no limite,
anima o trato gastrintestinal. O gesto é eminentemente alegórico. E outra coisa
não sugere a natureza-morta de Floris van Dyck reproduzida na capa deste CD,
que, a pretexto de retratar um comum pequeno-almoço holandês (c. 1610) encena antes
uma liturgia eucarística: atente-se à simbologia transubstancial do copo de
vinho, do cacho de uvas ou do pão, repare-se na toalha de mesa branca e no
queijo em alusão ao período da Quaresma, na maçã cortada em referência ao
pecado original, etc. Ou seja, também Dresser aparece aqui numa surpreendente
adesão a um rigoroso conjunto de princípios estéticos e regras composicionais –
no caso, do jazz –, naquele que, amiúde toldado por uma capacidade de síntese ligeiramente
aquém da ideal, se revela um registo essencial na sua discografia. Dir-se-á que
no estelar consórcio que reuniu está a razão para tão grande sucesso – à
exceção de Michael Sarin, que alterna a posição com Tom Rainey, os restantes
elementos do quinteto, Denman Maroney, Rudresh Mahanthappa
e Michael Dessen, lideram projetos noutras edições da Clean Feed. Mas a verdade
é que tudo depende destas peças de corajosa construção rítmica, inusitado
sentido de estrutura e memorável disposição melódica.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
14 de setembro de 2013
Schumann: Waldszenen; Piano Sonata Nº2; Gesänge der Frühe (Decca, 2013)
Mitsuko
Uchida (p)
Tropicalizou
assim Otto de Greiff os últimos versos de um poema dedicado por Hölderlin à
musa Diotima: “Já o sol, esse teu tempo feliz, se pôs/ e pela noite gelada perdura
um rumor de furacões”. Em outubro de 1853, inspirado pela visita do violinista
Joseph Joachim, que a Brahms havia apontado a porta de sua casa, Robert
Schumann (1810-1856) engendra uma sonata e, num caderno, anota: Diotima. Dessa
modelação inicial sairia um ciclo de peças para piano, o Op.133, rebatizado “Gesänge
der Frühe”, os “Cantos da Alvorada”. Numa carta de fevereiro de 1854, a dias de
tentar suicidar-se saltando de uma ponte para o Reno, o compositor descrevia-o
como o “retrato das sensações provocadas pela gradual aproximação da
madrugada”. Quiçá permeável a uma especulação psicológica, entendendo-se num
espírito romântico a alienação da natureza como o primeiro passo rumo ao total
alheamento do mundo, é frequente representar-se de modo glacial este despertar,
como na paradigmática versão de Jean Martin. Já Uchida aparenta concebê-lo como
um espaço de inquietação no qual se desconhecem as consequências do tormento
que em eco repercute. Aliás, é com reservas que a pianista se acerca das obras
reunidas neste CD, arriscando apenas macular a ingenuidade que nelas se
pressente, a combinação de extrema insegurança e inexcedível orgulho que
possuem. Nem se supõe – basta comparar a sua interpretação com a de Argerich –
que se tenha deixado arrebatar pela “Sonata para Piano Nº2 em Sol menor”, Op.22,
ou, como Richter, tentado controlar completamente a encenação de “Waldszenen”,
as “Cenas da Floresta”, Op.82. No caso destas, dir-se-á antes que, ao jeito de Maria
João Pires mas num efeito em tudo distinto, foi a sua personalidade que
projetou, dando origem a um Schumann incomum, esquivo e hesitante.
7 de setembro de 2013
Pedro Iturralde “Jazz Flamenco 1 & 2” (Vampisoul, 2013)
Por ter planeado de antemão esta
coletânea consagrada ao paradigmático par de álbuns que o saxofonista Pedro
Iturralde gravou entre 1967 e 1968, Javi Bayo dispensou qualquer um dos seus temas
de “Fetén: Rare Jazz Recordings from Spain, 1961-1974”, a crucial antologia que
organizou para a Vampisoul. Já a britânica Jazzman, porventura mais interessada
em representar uma insubordinação a nível global, não se coibiu de inserir ‘Las
Morillas de Jaén’ em “Spiritual Jazz Volume II – Esoteric, Modal and DeepEuropean Jazz, 1960-78”. E o que em ambos os casos se comprova é que também a
hibridização do flamenco resultou de uma alteração de valores à escala
planetária. Um tempo de mudança que testemunhou a gradual imposição dos
princípios do pós-modernismo nas sociedades ocidentais. Basta ouvir com atenção
Iturralde para se pressentir uma radical redefinição na atitude de um músico
face àquilo que na altura se promulgava como um ‘discurso de autenticidade’. Ou
seja, mais do que revalidar um processo fiel às leis da herança, o flamenco
despontava agora seguindo impulsos transculturais.
Sabemos hoje que esta desnacionalização
de um dos símbolos da identidade espanhola se singularizou de modo exógeno – ao
invés da copla ou da rumba catalã. Aliás,
pouco ficou dessoutra violenta torção à mesma estirpe que, quiçá inspirada pela
insólita reunião de Sabicas e Joe Beck em “Rock Encounter” (1966), esteve na
base do chamado ‘rock andaluz’. O próprio Bayo, no texto em que apresenta a
edição, insinua que apenas atendendo a um conjunto muito específico de
circunstâncias conduz a pulsão fusionista à conceção de um híbrido; isto é, ao
momento em que, no que diz respeito a aspetos formais, semânticos ou
socioculturais, a combinação de dois espécimenes musicais distintos dá, como
aqui, efetivamente origem a um novo estilo. E cita, como exemplos menores neste
domínio, os ensaios de Miles Davis com “Sketches of Spain” (1960) ou de John
Coltrane com “Olé” (1962). Mas podia ter recuado até 1957, quando Miles gravou
‘Blues for Pablo’ em “Miles Ahead”, Charles Mingus incluiu ‘Ysabel’s Table
Dance’ em “Tijuana Moods” – numa tendência que culminaria nos mais viscerais e
manifestamente incongruentes instantes dessa obra-prima que foi “The Black
Saint and The Sinner Lady” – e, em “West Side Story”, Leonard Bernstein encaixou
‘America’ no compasso da bulería.
Seja como for, talvez por se
compreender que as peculiaridades do flamenco serviam uma retórica internacional
que contrariava as mais hegemónicas inclinações da cultura anglo-saxónica, era
chegada a hora de renovar o seu transgressor estatuto num contexto local.
Iturralde, com o expatriado pianista germânico Paul Grassl, o contrabaixista
suíço Eric Peter e o baterista alemão Peer Wyboris – os dois últimos, veteranos
de inúmeros registos com Tete Montoliu – entendeu que, para tal, seria urgente aproximar
duas forças, tão basilares quão contrárias no flamenco: o nostálgico
sentimentalismo que mascara uma aspiração à pureza, por um lado, e, por outro,
o irreprimível desejo de produzir algo original contaminando toda a expressão criativa.
Seguiu o conselho de Joachim-Ernst Berendt – que, nesses termos, e após
descoberta de um esboço seu em quarteto, numa transmissão radiofónica ao abrigo
da União Europeia de Radiodifusão, o convidaria para o Festival de Jazz de
Berlim de 1967 – e fez audições a guitarristas antes de entrar em estúdio. Nem
com 20 anos feitos, apareceu-lhe Paco de Lucía. E com estes dois volumes de
“Jazz Flamenco” se fez história.
Etiquetas:
Charles Mingus,
Eric Peter,
Espanha,
Flamenco,
Jazz,
Joachim-Ernst Berendt,
John Coltrane,
Leonard Bernstein,
Miles Davis,
Paco de Lucía,
Paul Grassl,
Pedro Iturralde,
Peer Wyboris,
Vampisoul
Nkengas “Destruction” (Secret Stash, 2013) & C.S. Crew “Funky Pack” (Cultures of Soul, 2013)
Dizia assim Russ Dewbury, seu
organizador, quando, em 1999, a Strut lançou a compilação “Club Africa”: “De
Masters at Work e Joe Claussell a Frédéric Galliano e Faze Action, o som ‘afro’
ganhou preponderância nas pistas de dança de todo o mundo, embora ninguém consiga
pôr a mão nos discos mais influentes. Não que o vinil seja raro… ele simplesmente
não existe”. A fazer jus a estas declarações, só agora se cumprem os requisitos
para que saiba quem foram os Nkengas, então incluídos na pioneira antologia. E
conclui-se que se tratava de uma primitiva encarnação dos muito mais famosos
Ikenga Super Stars of Africa, constituída de forma acrimoniosa, em 1973, por dissidentes
da banda de Chief Stephen Osita Osadebe. E que, precisando absolutamente de se
distanciar do seu empregador, recompôs o highlife
num plano de exotismo pan-africano, ritualista, nostálgico e de essência fantasiosa.
Também o obscuro “Funky Pack”, da elusiva C.S. Crew, tem neste momento primeira
reedição. E, à semelhança dos próprios Nkengas e demais estetas reunidos em
“Lagos Disco Inferno” ou “Brand New Wayo”, demonstra algo insofismável: que, ao
contrário da instintiva perceção que acerca disto se mantém, e não obstante a
tutela do afrobeat popularizado por Fela
Kuti, foi através de uma sintética versão do funk na dependência direta de modelos norte-americanos que, em
meados dos anos 70, melhor se traduziu em música uma singular mundividência
nigeriana.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




