Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
5 de setembro de 2020
Admas “Sons of Ethiopia” (Frederiksberg, re. 2020)
Scarlatti: Il Martirio Di Santa Teodosia (Aparté, 2020)
Nos seus escritos dedicados aos mártires da Palestina, Eusébio de Cesareia conta a história de Teodósia de Tiro: resumindo, em 307, aos dezassete anos, chegada à Cesareia Marítima, Teodósia aproxima-se de um conjunto de prisioneiros cristãos que aguardavam a sentença de morte; diante do tribunal, leva-lhes palavras de conforto e pede-lhes que dela se lembrem ao chegarem ao Senhor; é detida por soldados romanos e conduzida à presença de Urbano, o governador, que a manda renunciar à sua fé; quando ela se recusa, ele condena-a à tortura e ordena a sua execução. Como se sabe, o martirológio do cristianismo primitivo sugere que quanto maior o suplício, maior o benefício – aliás, na época, certos dirigentes romanos percebem que o melhor castigo para os cristãos será negar-lhes uma morte atroz. Aqui, Alessandro Scarlatti (1660-1725) revê o catálogo dos mártires e cruza a narrativa de Teodósia com a de Santa Inês, que decidiu consagrar a sua pureza a Deus e, assim, resistir aos avanços de Fúlvio, o filho do Prefeito de Roma. Como tal, para dourar a pílula, Teodósia (Emmanuelle de Negri) surge agora como a pretendida de Arsénio (Emiliano Gonzalez Toro), filho de Urbano (Renato Dolcini), que tem como confidente e conselheiro Décio (Anthéa Pichanick). É uma história de amor não correspondido: mesmo com Décio a interceder junto de si, Teodósia rejeita Arsénio e prova-se constante na sua devoção a Deus, por quem está pronta a sacrificar-se; e será Urbano a ditar-lhe a sentença. “Oh, inclemência! Oh, martírio!”, dizia Vasco Santana em “O Pai Tirano” (1941), e há realmente muito teatro no meneio de Teodósia ao cantar: “Ecco il petto, ecco il seno/ Con empio furore/ Lacerate, ferite, eccovi il cuore!” Arsénio pede que a amada seja poupada, mas hoje é provável que apregoasse separatismo masculino em mgtow.com (Men Going Their Own Way): aquele que troca a liberdade por uma carinha laroca está condenado a sofrer, conclui. Scarlatti fornece um arsenal de melismas a Teodósia, que lança no êxtase (“Mi piace morire”, “Corro à morir”, avisa) – de facto, com as óperas fechadas a mando de Inocêncio XI, a nobreza romana tinha de se contentar com oratórios!
29 de agosto de 2020
Larry Ochs-Aram Shelton Quartet “Continental Drift” (Clean Feed, 2020)
Hailu Mergia “Yene Mircha” (Awesome Tapes From Africa, 2020)
21 de agosto de 2020
Hideto Sasaki, Toshiyuki Sekine Quartet + 1 “Stop Over” (BBE, re. 2020)
“Cadence Revolution: Disques Debs International Vol. 2 (1973-1981)” (Strut, 2020)
As coisas iam bem encaminhadas, há dez anos, quando Hugo Mendez organizou “Tumbélé! Biguine, Afro & Latin Sounds From the French Caribbean, 1963-74” (Soundway, 2009) e “Sofrito: Tropical Discotheque” (Strut, 2011). Mas a verdade é que, desde então, se tem insistido numa lógica – de mercado, precisamente – que não permite perceber com clareza uma certeza elementar na música antilhana: a de que, contrariamente ao que o zouk formulou, aí, juntando duas ou mais parcelas não se obtém um plural aritmético mas, sim, uma sucessão de singularidades. Assim, na sua génese, de pouco adianta recordar o instante em que as orquestras haitianas seguiam a etiqueta das danças de salão, em que a Tropicana tocava chá-chá-chá em Pointe-à-Pitre ou em que os congoleses Ry-Co Jazz aportavam ao arquipélago: em Guadalupe, onde a Debs operava, a kadans correspondia a um bilhete de identidade. Talvez por isso se inicie este espantoso novo volume da série dedicada pela Strut ao selo de Henri Debs de modo tão emblemático, com ‘Moin Domi Dérhô’ (‘Eu Durmo lá Fora’, em crioulo), uma canção gravada pelos Super Combo depois de terem observado em primeira mão as condições de vida dos emigrantes guadalupinos nas ruas de Paris. Aliás, convém não esquecer que esta produção foi contemporânea à ação da UPLG (a União Popular pela Libertação de Guadalupe) e que não terá ficado imune a febres independentistas – o que explica a palavra “revolução”, no título.









