Tomando
por certo um lapso tipográfico na palavra absolute,
será no mínimo tentador sugerir que, à primeira vista, a aproximação de Jon
Irabagon a dois terços do RED Trio contraria, de facto, essa noção de ‘zero
absoluto’. Mas, ainda que se referindo à temperatura de menor valor entrópico –
numa inversão simbólica da mais comum alegoria na ‘improvisação livre’ -, não
será inapropriado, no âmbito desta ação, relembrar o que a mecânica quântica
apelida de ‘estado fundamental’ ou, no limite, o que promulga a Terceira Lei da
Termodinâmica. Isto é, o extremo agora invocado entende-se enquanto um ponto de
partida para a identificação da substância transformável e, quiçá, para a
ilustração metafórica de um princípio de ‘maximização’ que, também no universo,
se considera espontâneo. Trata-se de um impulso conceptual para a compreensão
daquilo que, muitas vezes neste contexto, está sujeito aos imponderáveis que
derivam da negociação de sensibilidades. E, nessa medida, a receção a estes sete
temas gravados em Lisboa a 19 de outubro de 2009 prova-se influenciada por
qualificativos retirados à física, à astronomia ou à geologia. Fala-se aqui –
em ‘Crust’, ‘States of Matter’, ‘Nova’ ou ‘Parallax’ – de crostas planetárias,
nas fases da matéria, na cataclísmica explosão das estrelas, na posição dos
objetos celestes, no espaço-tempo, enumeram-se parâmetros de variação sistémica
e promovem-se alusões ao estudo da relatividade. Pode não ser mais do que uma
adenda ou um resíduo de importância paratextual, mas à luz destes significados aceita-se
a ocasional saturação motívica em Faustino, a obsequiosa mimese de Ferrandini e
a autonomia discursiva de Irabagon. Ou melhor, apesar dessas tendências, por aí
se percebe que há sempre quem na música saiba para onde vá mesmo quando não parece
haver caminho a seguir. Nunca foi outra a ‘arte do trio’, e este sabe-o bem.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
22 de junho de 2013
Simón Bolívar String Quartet: Ginastera; Dvorák; Shostakovich (Deutsche Grammophon, 2013)
Solistas na Orquestra Sinfónica
Simón Bolívar, porventura a mais visível organização com origem no ‘El Sistema’
– o modelo de administração da formação musical junto de comunidades
carenciadas na Venezuela cuja pedagogia se espalhou pelo mundo e de que a
Orquestra Geração é uma ramificação nacional –, Alejandro Carreño, Boris Suárez,
Ismel Campos e Aimon Mata propõem na sua estreia em disco um programa de
extraordinária valência, habilmente convertido num intrigante, inesperado e
inclusivo manifesto de civismo e participação social. De facto, outra coisa não
promulga a reunião destas três obras. Porque já a inicial, o vertiginoso “Quarteto de Cordas Nº1”, em 1948 composto pelo
argentino Alberto Ginastera (1916-1983), promovia tanto daquilo que interessará
agora ao agremiado venezuelano: decantar aspetos cruciais de uma identidade
regional através de descomprometidas bissetrizes – entre melopeias do folclore
andino, despicadas toadas dos violeiros das pampas, formas crioulas urbanas, etc
– que, por sua vez, se colocam ao serviço de uma vívida compreensão do
modernismo global. Tal impulso terá precedente na peça que se lhe segue, o pioneiro
“Quarteto Americano” de Antonín Dvorák (1841-1904) – o nº12, em Fá maior, escrito
em 1893 num lugarejo do Iowa – que, numa linhagem tutelada por Smetana, vaporizava
espirituais negros e, em certas opções de escala e ritmo, os mais rudimentares
modalismos rurais numa extasiada expressão aqui perfeitamente ilustrada.
Irrompendo pelo alinhamento com contornos praticamente caucionários surge o
críptico “Quarteto de Cordas Nº8 em Dó menor” de Dmitri Shostakovich
(1906-1975), lembrando que o amor à pátria ocultou frequentemente propósitos
totalitários mas, nesta interpretação, poupado ao grotesco e funâmbulo retrato
psicológico que a seu pretexto quase sempre se traça. Absolutamente arrebatador.
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15 de junho de 2013
Ellery Eskelin, Susan Alcorn, Michael Formanek “Mirage” (Clean Feed, 2013)
Mal se anunciou
“Mirage”, Ellery Eskelin postou a boa-nova no fórum “Sax on the Web”, divulgando
o lançamento e aproveitando para testar as funcionalidades da página no que diz
respeito à alocação de ficheiros áudio distribuídos pela plataforma SoundCloud.
Consuetudinariamente chegaram-lhe mensagens congratulatórias e questionários
acerca do processo de gravação, levantando-se uma dúvida referente à captação
do baixo. O saxofonista esclareceu o forense e lembrou que, naquela
circunstância, partilhava dados no formato MP3, pelo que a qualidade da audição
dependeria do equipamento utilizado na sua reprodução. Quando o seu
interlocutor confessou estar a escutar através dos altifalantes de um portátil,
Eskelin compreendeu o equívoco, desabando: “de certa maneira estamos a regredir
com tanta tecnologia”. O episódio ganha pertinência no contexto da apresentação
de um disco intitulado miragem; e, numa perspetiva mais oblíqua, revela-se oportuno
o seu enquadramento na discussão de um registo – com Eskelin no tenor, Susan
Alcorn na guitarra pedal steel e Michael Formanek ao contrabaixo
– que contraria a teleológica leitura que no horizonte desponta sempre que dá à
costa um trio tão invulgar. Mas a sua evocação é nos dias de hoje eminentemente
apropriada pois permite ilustrar uma distinta característica coetânea a esta época
de progresso técnico e científico, que é a que determina o abismo entre aquilo
que conhecem do mundo a maioria das pessoas e o que sobre a sua disciplina específica
sabe cada um. Dito de outra forma: não só expertos num instrumento se mostram
incapazes de formular uma análise musical como se receia que a crítica de jazz
se prove inábil em louvar o que com o género mantém uma relação vestigial
embora não menos transformativa. “Mirage”, uma fissura para o seu âmago, é essa
obra-prima.
“Mirror To the Soul: Music, Culture and Identity in the Caribbean 1920-72” (Soul Jazz, 2013)
O documentário arranca no Haiti, em
62, numa cerimónia vodu junto à catarata Le Saut. O locutor, com solene sobranceria,
relata estarmos a “testemunhar manifestações com origem na mais negra África”,
mas as câmaras, ao contrário dos espíritos, são incapazes de possuir os “nativos”
que se banham nas águas da Montagne Terrible. Sem demora – e ao jeito do
“Jornal Português”, de António Lopes Ribeiro – surge nova curta-metragem de
atualidades filmadas numa parada militar na Havana do ‘Coronel Batista’, em
vésperas da sua factual ascensão à presidência de Cuba; o apresentador, primeiro
circunspetamente mas logo com desembaraço, insinua que por essas instáveis
paragens só com mão-de-ferro se põe cobro à balbúrdia política. Um salto no
tempo de duas décadas e, num mercado de Brixton, eis a prova de que “as
donas-de-casa são todas iguais”, com a reportagem escoltando caribenhas de
banca em banca, servindo de virtuoso exemplo de integração ao adquirir produtos
tão frescos quão recentes na memória estavam os motins raciais de 58, em Notting
Hill. Depois visita-se a lenitiva Nassau em 37: um idílio estival para os
“súbditos da Coroa”, “porto de abrigo” retratado como uma utopia turística alicerçada
no colonialismo. E assim sucessivamente, em meia centena de pequenos filmes
extraídos às bobines da British Pathé. Os exóticos destinos – da Jamaica às Ilhas
Virgens, de Bermuda a Barbados – aparecem febrilmente sequenciados, num
processo que transfere para objetos cinematográficos a prática normalmente aplicada
pela Soul Jazz a registos fonográficos. O resultado é continuamente intrigante,
ocasionalmente perverso e ilustra desacreditadas teses em questões de género, classe
ou carácter biológico, levando ainda a refletir sobre modelos de comunicação,
medidas de controlo social ou sistemas de organização governativa e a interrogar
noções de identidade, cidadania e representação. É também, no contexto do
desenvolvimento ao longo dos anos de uma peculiar perceção da realidade antilhana
no Reino Unido, uma meditação acerca do valor contemporâneo dos arquivos
audiovisuais – nomeadamente dos pré-televisivos – e da sua validade documental
e pertinência historiográfica.
A narrativa principal de
“Mirror to the Soul” oculta fascinantes temáticas secundárias: uma dirá respeito
à própria Pathé e ao seu coerente ‘sentido de Estado’, seja na condescendência com
que mostra o quotidiano das colónias, seja a acompanhar a jubilante receção a membros
da Família Real ou na maneira em que promove o imperativo moral de se acolherem
emigrantes na sociedade londrina; outra terá que ver, precisamente, com a
experiência dos caribenhos na capital inglesa, informando quanto à sua
participação na Segunda Guerra Mundial, divulgando a ação de trupes de dança e agrupamentos
musicais, noticiando a chegada do navio Empire Windrush, em 48 expedido de
Kinsgton com 500 passageiros “em busca de uma vida melhor”, ou denunciando a
violência de quem via na miscigenação um prenúncio para a derrocada civilizacional;
depois, vários segmentos consagrados à exploração da matéria-prima das ilhas –
sal, açúcar, rum, café, banana, ananás – através de multinacionais sublinham a
ilusão da independência sempre que a soberania económica é elusiva; outros,
capturando em película as tropas de Fidel Castro e depoimentos de Kennedy por
alturas da invasão da Baía dos Porcos ou da crise dos mísseis, permitem
observar as relações entre Cuba e os EUA durante a Guerra Fria; mas a mais sedutora
será, porventura, a mais propagandística, que é a que promulga uma ideia de
paraíso tropical que dura até hoje, em trechos excursionistas enodoados pelo racismo.
Em complemento, compilam-se num livreto elucidativos textos do organizador, Stuart
Baker, e uma apócrifa – e, dada a sua sincronização com as imagens no DVD,
controversa – banda-sonora colige raridades (André Toussaint, Lord Brynner,
Irakere, El Gran Combo) e grupos afro-caribenhos familiares à editora (Black Caribs of Belize, Oba-Ilu, Tumba
Francesa). No fundo, é apenas apropriado que tal prolixidade não afaste em
definitivo os fantasmas do imperialismo cultural.
8 de junho de 2013
Joshua Redman “Walking Shadows” (Nonesuch, 2013)
Foi há 20 anos que se estreou – primeiro
com um inexcedível homónimo e meses depois com o estelar “Wish” – e, desde
então, porventura pela associação do seu nome ao do genearca Dewey Redman ou,
talvez, pela complacência com que a crítica saúda os recém-chegados, Joshua tem
sido involuntariamente descrito como um radical da pior espécie: aquele que,
dissimulando-a sob o manto do ecletismo, oculta uma agenda conservadora. Nessa
perspetiva, alguns dos seus subsequentes registos, de “Timeless Tales” – com a
mesma formação de base aqui presente – a “Compass”, podem ser,
independentemente de repertoriarem ou não inéditos, entendidos como uma
sonegação à vanguarda, a cedência a uma metodologia de resultados comprovados
em detrimento do arrebatamento praticamente fisiológico pressentido na sua
execução inicial. O argumento é equívoco – embora o saxofonista não seja imune ao
contágio emocional da sua própria articulação. Porque, tal como este seu novo
álbum confirma, não é pela sua atávica relação com a essência estrutural de
qualquer género que poderá ser avaliado. Não há, aliás, melhor maneira de o
relembrar do que através de um ensaio estética e historicamente tido como
anacrónico, para não dizer culturalmente alienado: o do disco de saxofone,
secção rítmica e orquestra de cordas. E, logo pelo título, que evoca o famoso solilóquio
do Rei da Escócia (“A vida não é mais do que uma sombra errante (…). Uma
história (…) cheia de som e fúria que nada significa”, em “Macbeth”), dispensa
pretensões de originalidade. O que este ciclo narrativo demonstra – numa
circum-navegação estilística, com interlocutor crucial em Brad Mehldau, que
estabelece pontos de contacto entre Strayhorn, Shorter, Bach ou Beatles – é que
Redman só deve ser julgado pelo compromisso com o profundo idealismo subjacente
ao jazz. “Walking Shadows” não trata de outra coisa.
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