Em meados de abril, Mitchell e
Taborn encontraram-se na lista de premiados da Fundação Doris Duke. Noutro
país, o acesso a galardões desta natureza vem no seguimento de uma certa
transigência. No caso, basta ouvir estes discos em que se reuniram com um
percussionista que tenta permanecer anónimo para se perceber que, aqui, se
mantêm tão íntegros quanto desconcertantes. Os registos resultam das mesmas
sessões de gravação de 2013. E dir-se-iam comungar de um ritual feito com a
intimidade do orientalismo, não fosse o facto de abdicarem da delicadeza e de
se provarem intimidatórios. A salva inicial de “I” é algo expletiva, de uma
saraivada que Mitchell intensifica com ruídos salivais, sádicos uivos, raivosos
silvos. O restante alinhamento, e tanto do segundo CD, trata de desintegração, corrompido
por borbotos de anacronismos digitais e analógicos bolores. Há uma aragem de
canaviais e uma floresta de gongos e quinquilharia chinesa e, quando Taborn
recorre ao piano acústico, o som de um rio que se suicida numa cascata. Mitchell,
decano do Art Ensemble of Chicago, há muito que se tornou um invulgar escultor,
desses cuja única ligação à realidade é essa, tão evidente, de trabalharem a
partir do espaço vazio. Agora, mais do que dialogar com as margens do jazz,
conversa com a periferia das suas abstrações. Notável.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
14 de junho de 2014
Chico Buarque: 70 anos
Há 20 anos atrás – ainda dava cartas a indústria discográfica
–, o mais unificável na obra de Chico Buarque era, pela Polygram, agrupado numa
espécie de pentagrama subordinado aos signos de “O Amante”, “O Cronista”, “O
Malandro”, “O Trovador” e “O Político”: cinco compilações para o quinquagésimo
aniversário. Volvida uma década, à medida do sexagésimo, a BMG promovia o
lapidar “Francisco” – 12 discos e um par de DVD – e acentuava essa sensação de
já não estarmos bem perante um mero facto da vida. Alerta, a imprensa acolheu majestosas
homilias, sintetizadas num artigo de Tatiana Maia para o “Observatório de
Imprensa”: “Chico Buarque fez 60 anos. Enquanto escrevo, no Rio não se fala em
outra coisa. É capa de revista, assunto no ‘Jornal de Domingo’, tema de festas
em casas noturnas, de palestras, exposições, livros e de caixas de música. Mais
uma vez, Chico é unanimidade. A ‘Folha de S. Paulo’ publicou um teste com
perguntas curiosas; o ‘Jornal do Brasil’ fez um ‘Caderno B’ especial no
domingo. Trazia 60 depoimentos sobre o aniversariante: de Pelé a Fernando
Henrique Cardoso e Fernanda Montenegro. O ‘Globo’ trouxe um especial enorme,
com 18 páginas. Será que ainda há algo de diferente a ser dito sobre Chico?”
Aparentemente havia, sim, como no texto “O que as mulheres veem nele?” E em muitos
mais, com sociólogos lembrando a cronologia do seu engajamento, psicólogos
esquadrinhando-lhe a mente, seguidores das artes de palco discorrendo acerca
das suas peças de teatro, analistas literários examinando a forjicada prosa dos
seus romances, linguistas contando aliterações e anagramas nas suas letras e
quantas esdrúxulas tem ‘Construção’ ou críticos de cinema evocando insólitas
aparições no grande ecrã, de “Quando o Carnaval Chegar”, de Cacá Diegues, a “O
Mandarim”, de Júlio Bressane, e “Água e Sal”, de Teresa Villaverde. O impacto
de tudo isto no homenageado foi pernicioso: refugiou-se em Paris – para escrever,
garantia – recusando entrevistas e indicando à sua assessoria que a todos comunicasse
que “seria cabotino” estar de conivência com tanta veneração. Originais? Nem pensar.
Neste particular, explicar-se-ia ao ‘Folha’: “Os meus discos são relançados de
formas diferentes, embrulhados assim e assado. Há um interesse muito grande por
isso. Se eu lançar um disco novo vou competir comigo mesmo. E devo perder.”
A dias do septuagésimo, o caso não mudou radicalmente de
figura, embora dificilmente consigam os vulturinos produtores do audiovisual rapar
o fundo ao tacho a ponto de propor algo que supere “De Todas as Maneiras” (24
CD numa antologia da Universal editada em 2012) ou a monumental dúzia de DVD
realizada por Roberto de Oliveira entre 2005 e 2006. Além de que, desta feita,
se imagina o tom congratulatório em jornais e revistas a dirigir-se mais rumo
ao trabalho de há dez anos do que exatamente a encaminhar-se para aquele que,
outra vez, procura paz de espírito pelas margens do Sena de forma a compor as
derradeiras linhas do sucessor de “Leite Derramado”. No momento da edição em
língua inglesa de “Budapeste”, professou: “escrevo em busca de alguma coisa: para
entender talvez o passado, talvez eu mesmo”, parafraseando Proust, como daquela
vez em que redigiu uns versos especificamente para Sérgio Godinho (“Vou/ Uma vez mais/ Correr atrás/ De todo o meu tempo
perdido”). Só que o Brasil permanece uma perturbação dos sentidos que se agrava
durante o Campeonato do Mundo de futebol, a “arte” que o quase septuagenário coloca
“acima das outras”, e à qual consagrou uma canção cheia de tabelas entre rimas
internas. Claro que o Mundial não está com a vida fácil, apesar do esforço dos seus
organizadores em submeter esta experiência ao desejo do coletivo: “Juntos num
só ritmo”, é o lema da FIFA, adocicado pela adoção da música da diversidade –
tecno-brega, eletro-forró – que por mais que se perfume com aromas politicamente
corretos tresanda a ambições de soberania cultural. Como a memória é curta, não
estamos assim tão distantes dos “Ninguém Segura Este País” ou “Brasil, Ame-o ou
Deixe-o” da Ditadura Militar. Até Chico será levado a cantarolar a melodia do
mordaz ‘Aqui é o País do Futebol’ que Milton Nascimento e Fernando Brant
dedicaram ao ‘México 70’: “Brasil só é futebol// Nesses noventa minutos/
De emoção e de alegria/ Esqueço a casa e o trabalho/ A vida fica lá fora/
Dinheiro fica lá fora/ A cama fica lá fora/ A família fica lá fora/ A vida fica
lá fora/ O salário fica lá fora/ E tudo fica lá fora.” Por isso, Chico fica lá
na Île Saint-Louis assistindo aos jogos pela televisão. Em 1998, afirmou ao
“Globo”: “Por causa desse uso político [do futebol] feito durante a ditadura, fiquei
um pouco avesso a essas patriotadas. É uma coisa que ficou impregnada, (…) essa
propaganda toda que se faz em volta: ‘Brasileiro gosta de futebol, brasileiro
gosta de mulher.’ Como se os outros povos não gostassem. Fica muito ‘Brasil,
Brasil, Brasil’, que é meio desagradável e lembra um pouco esse período.”
De facto, os tempos não estão
para unanimidades. Se não estão para o futebol ou para Dorival Caymmi, que teria
completado timidamente o centenário em abril passado, menos ainda estão para
Chico. Veio há meses a lume uma prova da sua pontualíssima delinquência moral,
quando, na polémica em redor das biografias não-autorizadas, despoletada pela
iniciativa que pedia a declaração de inconstitucionalidade dos artigos do
Código Civil que condicionam a publicação de biografias ao aval dos biografados
(ou seus herdeiros), Chico, o homem que em 1980 conduziu Vítor Gaspar à Festa do
Avante, se situou junto dos que ignoram a liberdade de expressão, ajuizando que
o interesse privado prevalece ao público. Nada de inédito: em 1975 travou no prelo
um livro do semanário “O Pasquim” por achar que depoimentos seus com cinco anos
estavam “desatualizados”. É o resultado de décadas de sambas como ‘Segredo’, de
Herivelto Martins e Marino Pinto: “Teu mal é comentar o passado/ Ninguém
precisa saber o que houve entre nós dois/ O peixe é pro fundo das redes/
Segredo é pra quatro paredes”. Entre 2011 e 2012 foi um dano colateral à ação da
sua irmã, Ana de Hollanda, no Ministério da Cultura, quando esta prosseguia políticas
elitistas em questões de direito autoral. E foi, por essa altura, acusado de
influenciar a alocação de verbas, ao abrigo da Lei Rouanet, para um projeto de
Thaís Gulin, sua namorada. Chico deve ter esquecido a frase com que Sérgio
Buarque de Hollanda, seu pai, abriu o quinto capítulo de “Raízes do Brasil”: “O
Estado não é uma ampliação do círculo familiar”. Já em 2010 havia corrido uma
petição para que devolvesse o Prémio Jabuti de Literatura por “Leite
Derramado”: tal como no caso de “Budapeste” recebeu a distinção de Livro do Ano
quando, na etapa de votação preliminar, não tinha sequer encabeçado a categoria
em que concorreu. Ou seja, a muita distância do aforismo dos anos 60 – “Chico é
a única unanimidade nacional” –, andou-se mais próximo dessoutro julgamento que
proferiu Millôr Fernandes: “Desconfio de todo o idealista que lucra com o seu
ideal.”
A controvérsia vem de longe. Num dia de 1970, terminado o
exílio por Itália, ouviu-se: “Agora falando sério/ Eu queria não cantar/ A
cantiga bonita/ Que se acredita/ Que o mal espanta.” E Mais: “Dou um chute no
lirismo/ Um pega no cachorro/ E um tiro no sabiá// Pra não ver banda passar.” Ao
quarto LP, Chico, com muita vaidade e pouca autoestima, respondia com ‘Agora
Falando Sério’ àqueles que implicavam com o feitiço do tempo que se apoderava
dos seus sambas que venciam festivais, nostálgicos e reacionários,
impossivelmente compatíveis com a terrível apreciação de Clarice Lispector
(“Chico tem um ar de bom rapaz, esses que todas as mães com filhas casadoiras
gostariam de ter como genro”) que o tornava cúmplice até das famílias dos carrascos.
Em “Verdade Tropical”, Caetano Veloso advertiu: “Claro que havia uma
agressividade necessária contra o culto unânime a Chico em nossas atitudes.” De
repente, ficavam para trás ‘Tem Mais Samba’, ‘Pedro Pedreiro’, ‘A Banda’,
‘Carolina’, ‘Olê, Olá’ ou ‘Com Açúcar, Com Afeto’, e Chico deixou-as de vez. Logo
chegariam ‘Rosa dos Ventos’, ‘Deus Lhe Pague’, ‘Cotidiano’, ‘Construção’,
‘Valsinha’, ‘Olha Maria’, ‘Samba de Orly’ ou, no contexto da peça “Calabar”, o
‘Fado Tropical’ do irónico refrão “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ Ainda
vai tornar-se um imenso Portugal” e do mais explícito “Todos nós herdamos no
sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo/ Mesmo quando as minhas mãos estão
ocupadas em torturar, esganar, trucidar/ Meu coração fecha os olhos e
sinceramente chora.” E vieram ‘O Que Será’, ‘Meu Caro Amigo’, ‘Cálice’, ‘Pedaço
de Mim’, ‘Tanto Mar’, ‘Apesar de Você’, os “Saltimbancos”, a “Ópera do
Malandro”, e os temas da definitiva emancipação dessa personalidade interior
feminina de que Jung falava (mas que por vezes recordava a Myrna, de Nelson Rodrigues),
mais a piscadela de olho ao MPLA em ‘Morena de Angola’ e a aproximação a Cuba, até
que se arruinou um regime e se entra nos anos 80 sem se vislumbrar um
brasileiro ou um português que não tivesse em si um pedacinho de Chico.
Seguiram-se sambas, boleros e valsas de teatralidade entranhada (“O Grande
Circo Místico”, “O Corsário do Rei”, “Dança da Meia-Lua”, sempre com Edu Lobo)
e um dos mais lúcidos e lúdicos álbuns da história da MPB: o homónimo de 1984,
contemporâneo às “Diretas Já”. E tanto mais, enfim.
Chico parece ter passado a vida a desfazer equívocos
revelando uma cínica indiferença pelo alcance das suas ideias poéticas: “Eu
gostava de falar mal do governo quando os jornais não o faziam”, dizia à
Rolling Stone; “Acho uma contradição isso de dizer que eu expresso muito bem o
sentimento feminino, pois, para mim, as mulheres são um enorme mistério”,
confessava no DVD “À Flor da Pele”; “Eu não proponho mudanças. Tenho até uma
certa antipatia pelo trabalho que ao mesmo tempo representa o problema e propõe
a solução”, jurava à Veja. Pode ter cantado melhor ao veicular o que não foi:
pobre, crente, mulher. E não se sabe se o mundo continuará preso aos seus
relatos de generais e coronéis, de generalidades coronárias, às suas crónicas
de género. Chico é, talvez, o grande historiador dos nossos desenganos. Que
nunca nos seja retirado o direito a entendê-lo mal.
7 de junho de 2014
Dave Douglas & Uri Caine “Present Joys” (Greenleaf, 2014) & Dave Douglas, Chet Doxas, Steve Swallow, Jim Doxas “Riverside” (Greenleaf, 2014)
Numa sintética exposição dos ensinamentos da moral cristã,
em duas epístolas se dirigiu o apóstolo Paulo às Igrejas de Eféso e Colossos. Por
ora, ressalve-se o caráter admoestante de um par de passagens em que exortava à
recitação de “salmos, hinos e cânticos” e aconselhava todo o crente a renunciar
aos “prazeres da carne”, “cantando e celebrando de todo o coração os louvores
do Senhor”. O texto em grego, promulgando a primazia da voz humana no ato de exaltação,
recorria à seguinte metáfora: “ponteando as cordas do coração”, como se no
tórax albergássemos uma harpa. Já no século XIX, o hinário “A Harpa Sagrada”, precisamente
nessa figura de retórica inspirado, teve um tremendo impacto nas mais
conservadoras congregações norte-americanas ao promover uma ardente adesão à
doutrina do Novo Testamento. Publicado em 1844, cedo se reputou como o segundo
livro mais popular nos Estados-Unidos, a seguir à Bíblia. Até hoje, com
predominância no sul do país, as suas leituras permanecem um acontecimento
social, mais participativo do que performativo, envolvendo dezenas de devotos. Muitas
das primeiras gravações desta tradição, nos anos 20 do século passado, possuem
uma reconfortante intimidade familiar, praticamente arcaica quando comparada com
a exuberância desse ‘muro de vozes’ tão mais em voga nos dias que correm, apto
a gerar uma música em que não é fácil penetrar mas face à qual só em vão se oporá
resistência. Notável demonstração disso mesmo acha-se em “I Belong to This
Band: Eighty Five Years of Sacred Harp Recordings”, uma compilação editada pela
Dust-to-Digital.
Dificilmente se dirá que o jazz comunga desta particular
deontologia. Mas quem tenha prestado atenção ao que Alan Lomax escreveu sobre o
assunto estará mais perto de compreender a sua capacidade de sedução. Em 1959, o
folclorista relatou assim os procedimentos da Associação Unitária de Harpa
Sagrada de Fyffe, no Alabama: “São centenas de agricultores, advogados de
província e comerciantes, acompanhados pelas respetivas mulheres e filhos, e,
no entanto, ao cantar, não há aqui vedetas; o ambiente é completamente
democrático. Eis um estilo coral feito à medida de uma nação de
individualistas.” De facto, trata-se de um veículo de veneração ou, até, de um
modo de estreitar vínculos comunitários, mas, como tanto do que teve origem na
Reforma Protestante, por vezes parece ser mais acerca da liberdade de cada um. Talvez
por isso, que não apenas pela expressividade das suas melodias, tenha
igualmente Dave Douglas encontrado razões para abordar, em “Present Joys”,
cinco temas de Harpa Sagrada, acrescentando-lhes um punhado de inéditos nesse
espírito imbuídos. Socorrendo-se de um polímate da estirpe de Caine, surpreende
pela redução: da tumultuosa polifonia a sensíveis cânones a dois. Mas, por
outro lado, tão dogmático material torna-se às mãos dos improvisadores
acentuadamente sincopado e cromático, distanciando-se da sua existência
devocional e aproximando-se, ocasionalmente por intermédio de glosas, do mais
primitivo evangelho do jazz, de êxtases profanos e silêncios solenes.
Supõe-se que nada tenha a ver com isto “Riverside”, uma
homenagem ao mais caracteristicamente idiomático em Jimmy Giuffre concebida essencialmente
a partir de originais de Douglas e Chet Doxas (notem-se as credenciais de
Swallow neste contexto), mas basta ouvi-lo para se identificar uma interseção
de bucolismo e cosmopolitismo em tudo semelhante a essoutra de que se falava, obedecendo
a uma arejada gestão do espaço e à contínua ilustração de um fascinante
complexo de arquetípicas ações em que se harmoniza de forma panorâmica e se
imprimem ritmos de atrativa lassidão. Lembrando a escritura citada, o
trompetista está num e noutro disco de todo o coração.
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