Em 2000,
numa entrevista para a publicação “50 Miles of Elbow Room”, o
multi-instrumentista Cooper-Moore passeava pela emoção contida da
reminiscência: “Fui em busca de um nome para a banda no dicionário Webster’s.
Não fui além do A: Apogeu.” E, sim, presume-se que se tenha deixado seduzir pelo
que em astronomia indica o ponto na órbita terrestre em que um astro se
encontra mais afastado da Terra. Afinal, estávamos no início dos anos 70, pouco
depois de muita gente ter dado conta da importância da verticalidade na
evolução humana, ainda que não lhe sobrassem motivos para andar pela rua de
cabeça erguida. Aliás, sempre se disse que o free jazz era, também, uma forma de alguém representar em palco a
remoção das toneladas de raiva, receio e rancor que lhe pesavam no peito, de
arrojar o ranço de tantos soluços, um gesto que transformava o ato de respirar
num feito ideológico. E porque não? David S. Ware – que, no contexto da ação
deste trio com Cooper-Moore e Marc Edwards, nesse abril de 1977 pela primeira
vez foi a estúdio com intenção de revelar ao mundo que algo de novo começava a
aparecer no horizonte – sempre aliou um tom áspero e asfixiante a uma prática devocional
devastadora. Ninguém imagina como eram, então, os seus dias, tal como poucos
sabem verdadeiramente o que viveu desde que passou a depender da diálise
peritoneal até à sua morte, com areia negra a encher-lhe as veias, em 2012. Mas
do seu íntimo nunca se apagou a esperança. Esta reedição dilatada – com
lançamento parcial na Hat Hut, em 1979 – é a assunção de uma responsabilidade
histórica, quase incongruente com a experiência desse que nem com trinta anos
feitos, e muito antes de lá chegar, estava já no apogeu.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
5 de março de 2016
Agenda: Portalegre JazzFest 2016
Em dois fins de semana, evadindo um
rapto quotidiano, volta o jazz a Portalegre para nova edição do JazzFest –
façam figas, a 13ª. E inicia-se, sexta, dia 11, com a voz da norueguesa Mari
Kvien Brunvoll, que canta como uma estrige e saca do embornal kissanges e kazoos, saltérios e teclados, pedais de efeitos e instrumentos de
percussão. Acompanha-a Stein Urheim. Juntos (na foto), têm um disco com um título tirado a
Bertrand Russell, sugerindo que a arte está de permeio entre as ciências exatas
e as ocultas. No sábado, chega o sazonado quarteto de Carlos Martins, outro que
crê que nenhuma música – nem ninguém – existe verdadeiramente a sós no mundo.
Num novo CD, o seu veludíneo tom erra por uma vaga ideia de sul, mais afetiva
que efetiva, e do jazz extrai a prática e a poética. A cada um destes concertos
segue-se uma atuação de Miguel Mira, Pedro Sousa e Afonso Simões, algo que se
comporta, num instante, como se a um pássaro alvoroçado se arrancasse a retriz
e, noutro, aparenta esvoaçar por rotas há muito definidas. Há um aroma panteísta
neste texto que se poderia aplicar a “Earth Blossom”, um histórico registo de John
Betsch, editado pela Strata-East. Pois é de Betsch, em trio, com Eric Revis e
Kris Davis, que se espera o mais belo momento do certame, sexta, dia 18. Já na
noite seguinte, avezado ao rock mas abordoado por muito mais, Chrome Hill
dispensa tais considerações. Em complemento a cada serão está o septimino Slow
is Possible, cuja denominação é contrariada por temas de andamentos
sezonáticos, tão estáticos quão logo movidos por uma vivacidade que mostravam não
poder possuir.
“Great Chopin Pianists: The Winners of The International Chopin Competition, 1927-2010” (2015, Deutsche Grammophon)
Pianista e pedagogo num mundo
privado de poesia, o polaco Jerzy Zurawlew padecia: “O culto de Chopin tinha-se
esfumado. Aliás, dava frequentemente com a opinião de que ele era demasiado
romântico, que sentimentalizava a alma e anestesiava a mente. O que, por si só,
e segundo vozes críticas, seria mais do que razão para lhe excluir a obra dos
conservatórios. Achava este equívoco doloroso.” Decidiu-se por contra-atacar. E
inspirou-se ao observar façanhas desportivas entre os mais jovens. “Organizar
uma prova!”, faiscou-se-lhe na mente. Nascia o Concurso Internacional de Piano
Frédéric Chopin, em Varsóvia, com edição inaugural em 1927 e concebido para se
disputar a cada cinco anos. E tem-se provado que o espírito competitivo é
contagioso. Só na edição de 2015 se avaliaram 450 candidatos, tendo o galardão
principal ido para o sul-coreano Seong-Jin Cho. Por questões de prazos, presume-se,
entre os laureados do certame é o único ausente desta antologia. Mas incluem-se
os outros, os que ao longo dos anos deixaram à sua passagem a geografia
sentimental da capital polaca alterada como que por um terremoto, aqueles que
nunca se deixaram intimidar pela falta de intimidade da situação, os que
descobriram que tocar Chopin obriga a minar reservas estratégicas de emoção
dentro de si. Atente-se aos exemplos pré-históricos de Lev Oborin (Primeiro Prémio
em 1927), Alexandre Uninsky (1932) ou Yakov Zak (1937): um toca o Largo da “Sonata para Piano Nº 3 em Si
menor”, Op. 58, como se uma sedação lhe fosse engolindo os nervos e os
músculos, outro aproxima-se do “Estudo em Dó sustenido menor”, Op. 25, Nº 7, como
se apenas nesse momento despertasse a sua consciência de pianista e o terceiro namora
algumas das mazurcas com a possessividade de um adolescente inseguro. São
gravações históricas da Melodiya e da Polskie Nagrania que a DG resgatou. Tal
como o são as de Halina Czerny-Stefanska e Bella Davidovich (vencedoras, ex aequo, em 1949), com a azerbaijana a prolongar
o Allegro maestoso do “Concerto para
Piano Nº 1 em Mi menor”, Op 11, tal como, depois de se pôr, o sol deixa atrás
de si a luz dos seus raios, e a polaca a veicular a faustosa e anacrónica prosápia
do “Concerto para Piano Nº 2 em Fá menor”, Op. 21. Após um apontamento de Adam
Harasiewicz (1955) entra-se na era moderna, com Maurizio Pollini (1960): os
seus “12 Estudos”, Op. 25, permitem imaginar o rosto iluminado daquele que conhece
os mistérios da vida; na “Sonata para Piano Nº 2 em Si bemol menor”, Op. 35, mitiga,
até, a sensação de desconsolo que habitualmente a cerca. Depois, claro, há uma Martha
Argerich (1965) que deteta os pressentimentos dos “24 Prelúdios”, Op. 28,
abraçando a euforia mal contida com que tenta compensar uma carência ou
soltar-se de uma repressão. Há ainda por aqui Garrick Ohlsson (1970), mas é com
Krystian Zimerman (1975) e Dang Thai Son (1980) que se acede a um limbo
inatingível, a um som profundo que corre espavorido para longe de quem o tenta
escutar. Com Stanislav Bunin (1985), Kevin Kenner (1990), Philippe Giusiano
(1995) e Alexei Sultanov (1995) coroa-se o Chopin da incontinência melódica e
tudo parece cíclico (os três últimos receberam o Segundo Prémio em edições sem
vencedor, o que compromete tecnicamente o subtítulo da compilação). Yundi Li
(2000) e Rafal Blechacz (2005) mantiveram-se presos à Terra. Mas Yulianna
Avdeeva (2010) apaga a sombra que arranhava a luz da eternidade num recital que
torna a urdir a grande ilusão de Chopin. Inédito, vale pela caixa inteira.
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27 de fevereiro de 2016
Larry Young “In Paris: The ORTF Recordings” (Resonance, 2016)
(Nathan Davis, Larry Young, Woody
Shaw e Billy Brooks @Le Chat Qui Pêche, Paris, c. 1964-65, por Jean-Pierre Leloir)
Zev Feldman, da Resonance, terá sentido um sobressalto tal ao escrever a nota introdutória para a brochura deste lançamento que se baralhou nas datas: “Foi há quase 38 anos que pela última vez surgiu uma novidade em disco de Larry Young. Infelizmente, 38 foram também os seus escassos anos de vida.” Por meia dúzia de meses, no que às contas do produtor concerne, a verdade é que faleceu aos 37, em março de 1978. E quanto a edições, Feldman referir-se-á a “The Magician”, de 1977, uma tentativa final de Young em obter sucesso comercial, já que o favor da crítica, esse, tinha-o há muito abandonado. Terá caído no esquecimento do escriba que “Mother Ship”, a derradeira sessão do organista para a Blue Note, em 1969, permaneceu inédita até 1980. Na ocasião, da pena de Michael Cuscuna, a prosa na sua contracapa terminava assim: “Morreu em vão, Larry Young, mais uma vítima dessa epidemia que dá pelo nome de incompetência hospitalar e negligência médica.” Hoje, com mais cautela mas não menos condolência, Larry Young III lembra que o óbito do seu pai foi declarado quando se submetia a um tratamento para curar uma pneumonia, mas reforça que “as causas da sua morte continuam por apurar”. Como se sabe, é algo que tem em comum com Eric Dolphy, largado em agonia num corredor de hospital, em Berlim, porque, no caso, os médicos não conseguiram diagnosticar um coma diabético. Mas o que até ao momento se ignorava é que foi em consequência do desaparecimento de Dolphy, em 1964, que se deu a oportunidade de Young viajar para Paris.
É Nathan Davis, que tocava no famoso Le Chat Qui
Pêche, com Dolphy e Donald Byrd, que o recorda, afiançando que foi em
homenagem ao malogrado saxofonista que endereçou um convite a Woody Shaw para
se mudar para a capital francesa, e que foi Shaw, posteriormente, que por sua
vez insistiu para que Young e Billy Brooks a si se juntassem. É apenas uma das
muitas estórias que esta antologia das gravações de Young captadas pela ORTF
revela – outra é a de como todos se deixavam encantar por Béla Bartók. Há aqui
incandescentes jams com instrumentistas
locais, mas é na música do quarteto (Davis, Young, Shaw e Brooks) que se
pressente já o apelo da eternidade.
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