Perdeu-se
a conta às vezes que foi editado e reeditado, revisto e aumentado, antologizado
e remasterizado. Dir-se-ia até que dele já se reconhecem as partículas de pó. O
que não impede que, sempre que dá à costa, deste espólio se fale como se de um
estranho objeto se tratasse, um pedaço de madeira lançado ao mar, originário
não se sabe de que época ou de que lugar, a que função se destinava ou que
sortilégios representa, se pela mão humana trabalhado, se pelos elementos
entalhado. Em “Blue Note Records: The Biography”, Richard Cook não faz por
menos: “Com Monk, a Blue Note entrou na sua fase moderna”, escreve. Há 65 anos
atrás, ouvi-lo era como admirar escultura tradicional africana numa galeria de
arte contemporânea: qualquer reação parecia simultaneamente possível e intolerável,
genuína e postiça, natural e artificial. Estão aqui os moldes para uma
subsequente vida de invenção: por ordem de comercialização, as primeiras
versões de ‘’Round Midnight’, ‘Well, You Needn’t’, ‘Off Minor’, ‘In Walked
Bud’, ‘Epistrophy’, ‘Ruby, My Dear’, ‘Evidence’, ‘Straight, No Chaser’,
‘Misterioso’ ou ‘Monk’s Mood’, tocadas como se tivessem sido originalmente
compostas num piano com teclas a menos, desnoveladas por um batalhão de
instrumentistas em luta contra a intuição (ouçam-se os takes alternativos). Curiosamente, nem todos questionavam Monk por
aquilo que ele dava ares de subtrair à música dos outros: numa resenha de 1963,
por exemplo, Philip Larkin dizia que nesses temas os acordes eram como uma mala
de viagem que mal se conseguia fechar de tão cheia. Mais que improvisação,
escuta-se um método. E a sua aprendizagem nunca terá fim.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
13 de dezembro de 2014
Johnny Alf “Ele é Johnny Alf” (Universal, 2014)
Como
escreveu Ruy Castro em “A Onda Que Se Ergueu do Mar”, Johnny Alf (1929-2010)
foi daqueles destinados a viver “numa zona de sombra projetada pela sua própria
luz”. Até a biografia que lhe dedicou João Carlos Rodrigues é modesta,
recorrendo ao subtítulo “Duas ou Três Coisas que Você Não Sabe”, quando são às
dezenas, para não dizer às centenas, os factos acerca da sua vida que de modo
geral se ignoram. Por exemplo, que nas décadas de 60 e 70 ergueu um monumento em
cada ida a estúdio. Ou, como um dia disse, que a homossexualidade era a nuance que efetivamente evidenciava e
policiava o seu “comportamento junto às pessoas”, que era, numa alusão a ‘Eu e
a Brisa’, “a brisa do título da música”. Ou que jamais domesticou as suas
excentricidades enquanto compositor, anacrónico no antes e depois da época – a
da bossa nova – que melhor as reivindicou, conquanto fossem impossíveis de absorver
em absoluto. Alf interessava-se por decompor a realidade quando o tempo era de
síntese e em simplificá-la no instante em que se provava mais complexa. De
maneira invisível, administrou as ilusões de uma geração inteira num
determinado momento para de seguida lhe inventariar as desilusões. Disso fala este
álbum de 1971, pela primeira vez reeditado em CD na sua versão original e com um
EP de 1972 como complemento, em que todo o posicionamento político se vê
monopolizado por aspetos emocionais, em que a esperança não passa de um compromisso
intelectual e em que só o passado é autêntico e a solidão a única
inevitabilidade. Quem nunca o ouviu, desconhece toda a ingratidão que pode haver
no mundo e, de facto, não sabe duas ou três coisas sobre o amor.
Acholi Machon “Lamwong: Freedom Fighters” (Irl, 2014)
Sim,
o parlamento está a um passo de aprovar a proposta de lei que criminaliza a
homossexualidade, discrimina-se genericamente a mulher, prolongam-se conflitos
étnicos a oeste, a economia depende do trabalho infantil e da caça furtiva, prossegue
a desflorestação de áreas protegidas, milícias rebeldes recorrem à violação, à
tortura e à mutilação nos dois lados da fronteira com o Congo, 7% da população
ainda vive com o vírus do HIV, os soldados do LRA, de Joseph Kony, continuam a
raptar, aterrorizar e perseguir civis nas mais remotas zonas da República
Centro Africana e Sudão do Sul e, como se nada fosse, nomeado pela União
Africana e com a anuência de políticos do mundo inteiro, Sam Kutesa, um homem
da confiança do presidente Museveni, conduz as sessões da Assembleia Geral das
Nações Unidas. Mas, no meio de tudo isto, no Uganda, também há quem diga apenas:
“Eu escolho o amor”. É o caso destes Acholi Machon, gravados por Ian Brennan e,
aqui, representados por Gaetano Tep Yer Yer e Kornelio Odong Mulili. Imunes ao
lugar-comum, cantam a duas vozes, de modo responsorial, num enquadramento que
nem é particularmente acholi pelo
tanto que dessa vivência se esboroou, acerca de paz, liberdade, pátria,
infância, solidariedade e auxílio internacional. Fazem-se acompanhar por um par
de quissanjes de maneira monótona e narcótica – nessa medida lembrando mais
práticas azande ou lango – como se estivessem
permanentemente rodeados pelo zumbir de um enxame de abelhas. Assemelham-se a pouco
daquilo que se conhece e compõem uma dramaturgia muito corrompida e ao mesmo
tempo muito cândida. Tão fugaz quão inesquecível.
6 de dezembro de 2014
Sugestões de Natal
Ouvem-se,
por estas canções, coisas como “a aldeia contra o futuro”, “ventre da terra”,
“voz de um Brasil distante”, “voz do vento”, “o vento de lá”, “que a mata beija
e abraça”, e percebe-se que Bethânia procura o país virginal, quase uma coisa
dela que ocasionalmente partilha, um folclore antigo que põe a habitar uma
língua nova. Acaba apropriadamente, em ‘Folia de Reis’, a louvar o “santo filho
de Maria”.
Ostad Elahi “The Sacred Lute” (Le Chant du Monde, 2014)
Num
rincão do Met, em Nova Iorque, está patente uma exposição consagrada ao
iraniano Ostad Elahi, aquele que, mal comparando, está para a tambura como
Paredes se encontra para a guitarra portuguesa. Ou seja, foi alguém que, sob
certa perspetiva, sozinho disputou, transformou e em muito expandiu os limites
do que se considera a autêntica expressão cultural de um povo. Esta exemplar antologia ilustra-o.
A
princesa de que aqui se fala é Emily Ruete, que do seu país guardou apenas um
saco com areia do mar, autora, em 1886, da autobiografia cujo espetro sonoro se
evoca. Talvez por isso tanto se ouçam as ondas nesta ficção. Incluem-se
gravações de taarab realizadas em Zanzibar
em fevereiro e o que se pressente é que a música serve para superar até o destino
mais trágico.
“Charlie Haden – Jim Hall” (Impulse!, 2014)
Em
abril, acerca desta gravação, Ethan Iverson escrevia: “É tão gratificante ouvir
música tocada com tamanho desvelo e desassombro, ainda que tenhamos de
dedicá-la a Hall, falecido em 2013”. Não lhe passava pela cabeça que três meses
depois seria a vez de Haden se ir. Há assim algo de testamentário neste inédito
registo de 1990. Escutá-lo é conhecê-los.
Não
se organizará propriamente sob o signo da Natividade, mas é verdade que se
subintitula: “Música Sacra para Piano, Dois Contrabaixos, Bateria e Biankoméko
Abakuá”. É uma sincrética narrativa afro-cubana construída à sombra do pecado
original que pariu o jazz. O piano de Virelles carrega a memória de um homem
que dá os seus primeiros passos numa terra estranha, e dos sortilégios com que
se propõe a cobri-la.
Dr. John “Ske-Dat-De-Dat: The Spirit of Satch” (Proper,
2014)
É
o espírito de Louis Armstrong que se evoca mas é a própria sintaxe que se baralha.
E com o cadinho de Nova Orleães a transbordar de entranhas não é uma homenagem
ao nascimento de uma música que se faz mas uma ménage com todas as músicas o que, aqui, se promove. Terence
Blanchard, Blind Boys of Alabama, McCrary Sisters ou Dirty Dozen Brass Band
ajudam à festa. Nada é pessoal e tudo é confessional.
Melhor que o “Kind of Blue” só “Kind of Blue”. Ou algo do
género. Isso, desde que se olhe para o mítico disco de Miles da mesma forma com
que hoje se encara a ida a cena de qualquer peça de Shakespeare: não esperando a
subida a palco dos King’s Men mas aguardando que novos atores despertem no
texto significados obscuros. Peter Evans, Jon Irabagon, Ron Stabinsky, Moppa
Elliott e Kevin Shea não fazem por menos.
Sylvain Rifflet & Jon Irabagon “Perpetual Motion:
A Celebration of Moondog” (Jazz Village, 2014)
Moondog
era tão bruto e alegórico e utópico e distópico como a esquina nova-iorquina em
que assentou arraiais durante três décadas. Da cegueira ao capacete viquingue,
tudo em si significava – até a evidência de estar parado num ponto de passagem.
Mas hoje pouco se toca a sua insólita obra. Rifflet, Irabagon e um coro
infantil visitaram-no em Valhala.
Charpentier:
Canticum ad Beatam Virginem Mariam
Montserrat Figueras (s), La Capella Reial de Catalunya,
Le Concert des Nations, Jordi Savall (d) (Alia
Vox, 2014)
As
edições de Savall começam a ser impossíveis de sintetizar. Aqui, comemora o 25º
aniversário do Concert des Nations através da reedição de um CD da Astrée. Mas
traz também a missa “Assumpta est Maria”, gravada em 2004. Tudo em redor da devoção
à Virgem e com paradigma em “Salve Regina”.
Anne-Sophie Mutter (vln), Lambert Orkis (p) (Deutsche
Grammophon, 2014)
Do
2014 de Mutter esperavam-se antologias. Por ser natural
que o ano que se seguiu ao do seu quinquagésimo aniversário fosse embalado pela
contemplação retrospetiva mas também porque se celebravam as Bodas de Prata da
sua relação artística com Orkis. Mas qualquer movimento da violinista é
eminentemente prospetivo. E, aqui, entre canónicas visitas aos arquivos, corrobora-o
uma estreia de Penderecki.
“Murray Perahia Plays Chopin” (Sony, 2014)
Regressa
aos escaparates a série Sony Classical Masters com uma mão-cheia de títulos eminentemente
recomendáveis de que se destacam os de Bruno Walter e Isaac Stern às voltas com
Brahms ou o do Quarteto Budapest a tocar Mozart. Mas mais difícil de ignorar,
ainda, é este, em que Perahia é como um zéfiro, convertendo Chopin num prazer
muito lá de casa, confortável e caprichoso, arisco e aristocrático.
“111 Classics for Christmas” (Deutsche Grammophon,
2014)
Sem
grandes inquietações éticas, transigindo com as circunstâncias, alinham-se Bach
e os Boston Pops. Mas não há o que atacar. E é precisamente quando se revela
mais conformista que esta caixa retém de modo mais íntimo o essencial do que
pretende transmitir: que o sagrado, mesmo a pisar a linha, ainda supera o
profano. Destacam-se Gardiner, Pinnock, McCreesh, Otter, Fink,
Studer e a família von Trapp.
Chamber Choir Ireland, Paul Hillier (d) (Harmonia
Mundi, 2014)
Prolonga
Hillier a dignidade partilhada de que o Natal comunga através de um conjunto de
vilancetes de inspiração sacra e obras corais de propensão litúrgica edificado em
torno das “Antífonas do Ó”. Trespassa séculos, atravessa o Atlântico e está bem
no repertório irlandês que tudo isso simboliza. Submete anacronismos ao poder
da quadra e em ‘Gesù Bambin l’è Nato’ toca o céu.
“Legendary Moments from the New Year’s Concerts Vol. 2”
(Sony, 2014)
Como
não poderia deixar de ser, começa com o ritual do “Danúbio Azul”, o tema que
acompanhava as refeições das “pessoas da sala de jantar” cantadas pelos tropicalistas.
Com Kleiber, Barenboim, Mehta, Maazel ou Muti há, aqui, uma espécie de concílio
de senadores em que se proclama que até pode haver mérito irrefutável em não se
viver em Viena – apenas não no dia 1 de janeiro.
Choir of Clare College, The Dmitri Ensemble, Graham
Ross (d) (Harmonia Mundi, 2014)
Nada
ampara melhor o abismo histórico que este disco propõe do que “A Hymn to the
Mother of God”, de Tavener, lauda à criação. De resto, do século XV a Bach e a
Schoenberg, Ross mantém-se um magistral arquiteto que tem o vidro como
matéria-prima única e, da sua lavra, estreia “Lullay, My Liking”, um coral todo
ele ambíguo e tenso e absolutamente arcaico e moderno.
“The
Originals” (50 CD Deutsche Grammophon, 2014)
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Sony
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