31 de janeiro de 2015

Schubert: Winterreise (Harmonia Mundi, 2014)



No seu “Schubert’s Winter Journey: Anatomy of an Obsession”, acabado de publicar, Ian Bostridge fala acerca do pavor que lhe inspirava ‘Boa Noite’, o gesto inaugural deste ciclo: “Ficava enormemente aliviado assim que terminava. Dada a minha inexperiência, ou porque me sentia menos comprometido com o tema do que o que devia ou por desconfiar da visão do compositor, tinha receio de me aborrecer. Afinal, em “Winterreise”, não há canção mais longa do que essa”. Goerne pediria permissão para discordar. Nesta sua leitura, de modo invulgar, tal honra cabe a ‘A Estalagem’, o eufemístico cemitério cujas portas permanecem fechadas ao viandante, ao qual nenhuma redenção ou qualquer lenitivo se concederá, nem mesmo o que vem com a morte. Dir-se-ia uma forma de sustentar a inelutabilidade do destino deste protagonista, fadado a errar num purgatório coberto de neve, uma arca frigorífica para a alma. Pontuada pelo absurdo existencial, sugerindo, até, que Schubert não era inteiramente ignaro do humor negro, e com episódios de profunda alienação, não surpreende que Beckett tenha sentido arrepios na espinha ao ouvir “Viagem de Inverno”. Mas tal invocação servirá sobretudo para sublinhar a resistência contemporânea a um modelo interpretativo absoluto. Ilustra-o o número deste mês da “Gramophone”, com Bostridge a receitá-la como tratamento de choque, Mark Padmore a frisar os seus aspetos mais impassíveis, Gerald Finley e Christoph Prégardien a descreverem-na como o hino de um sobrevivente ou, em posição diametralmente oposta, Jonas Kaufmann a tomá-la pelo último estertor verbal de um suicida, possivelmente cifrado no crocitar de um corvo. Goerne, que aprendeu com Fischer-Dieskau, parece saber que, contra todas as evidências, nem sempre é preciso que uma coisa termine para que outra comece.

24 de janeiro de 2015

Blue Note: Uncompromising Expression – The Singles Collection (Blue Note, 2014)



Não é disso que fala o título desta antologia. Mas, inversamente proporcional ao vínculo com o mais indulgente ecletismo patrocinado pelos que hoje lhe conduzem os destinos, o descomprometimento que da análise dos seus conteúdos se depreende parece ser, antes de mais, com a própria biografia original da Blue Note. Porque nem era assim tão absurdo o que se pretendia – celebrar o virtual 75º aniversário de uma das mais emblemáticas chancelas da história do jazz por meio da evocação de 75 dos seus singles –, havendo, até, uma forma de o alcançar que se diria irrepreensível: coligir em exclusivo material lançado até 1951, isto é, correspondente ao período em que o single se provou de facto o inevitável fonograma de que a editora se socorreu. Mas não, ao aventurar-se de modo predominante pela era moderna – e inclusivamente contemporânea – das suas produções, isto é, após Alfred Lion e Frank Wolff terem dado início ao fabrico dos seus primeiros LP, e já depois da dispersão do seu catálogo por grandes conglomerados, o retrato que aqui se propõe é, acima de tudo, um que destrói a mais iconográfica das suas identidades mediáticas: aquela que se associa aos definitivos testemunhos de Wayne Shorter, Bobby Hutcherson, Andrew Hill, Herbie Nichols, Larry Young, Tony Williams, Don Cherry, Sam Rivers, Grachan Moncur III, Cecil Taylor ou Eric Dolphy (ainda que apenas por “Out to Lunch”), todos daqui ausentes porque, lá está, e como admitia Richard Cook em “Blue Note Records: The Biography”, os seus “cogentes programas de música” eram essencialmente consagrados à longa duração. Ou seja, a ativação do single enquanto dispositivo comercial sujeitava-se exatamente às convenções de mercado que, no geral, a Blue Note procurava contrariar. Aliás, a ambivalência que as designações “Uncompromising Expression” e “The Singles Collection” contiguamente acarretam já é, de si, desconcertante: invoca-se a mais antiga declaração de princípios dos fundadores da Blue Note (uma ação pensada “para favorecer, sem qualquer compromisso, a expressão do hot jazz e do swing”, traduzidos numa “manifestação social e musical” em que interessa reconhecer “o seu impulso e não os seus adornos comerciais e sensacionalistas”, escreviam eles em 1939) para, precisamente através do formato em que a indústria mais homogeneizou essa cultura e, por isso, privilegiando o que de mais formulário, oportunista e redutor veio a editora a abrigar, logo promover uma recusa dos seus valores. Não é isso o revisionismo?

17 de janeiro de 2015

Agenda: O que aí vem



Música erudita: Jordi Savall afirmou recentemente que “sem memória não há justiça”. Agora, como um inequívoco veículo para as suas convicções, anuncia um ambicioso “Guerra & Paz” em que revê a história militar europeia dos séculos XVII e XVIII. Não seria potencialmente tão interessante se não estivesse tão nitidamente marcado pelas incertas pulsões do seu ideólogo, mas trata-se ainda assim de um dos mais aguardados lançamentos de um começo de ano em que se destacam: “1865”, de um Anonymous 4 às voltas com a Guerra da Secessão; o “Rappresentatione di Anima, et di Corpo”, de Emilio de’ Cavalieri, por René Jacobs; um par de caixas de Richter (faria 100 anos) e outra dedicada a Boulez (haja saúde fará 90 em março); o “Requiem” de Dvorák dirigido por Herreweghe; um recital de Lubimov consagrado a Ives, Berg e Webern. Em palco, relevo para quem concilia presteza dramática e poder reivindicativo: Benjamin Grosvenor (8/02), Midori (21/03) e Volodos (24/05) na Casa da Música; Schiff na Gulbenkian (8/02 e 24/03). Do frio, os tricinquentenários de Sibelius e Nielsen a congelar os de Dukas, Magnard ou Glazunov.


Música do Mundo: Até ao verão, e aos festivais, é época baixa. E, neste domínio, só Lisboa escapa à absoluta hibernação dando-se um jogo de ténis de mesa entre duas instituições locais: Kayhan Kalhor e Erdal Erzincan vão à Gulbenkian (02/02); Toumani e Sidiki Diabaté conduzem à Culturgest (06/02) aquela carga emocional que no Mali se transporta de geração em geração; Zé Miguel Wisnik e Lívia e Arthur Nestrovski levam leituras agógicas e pedagógicas do cancioneiro brasileiro à Gulbenkian (20/02), onde, logo de seguida, entre fevereiro e março, com Calcanhotto, se manterá o sotaque mas elevará o grau de pretensão; de Marrocos, Driss El Maloumi na Culturgest (13/03) e, vindo da Tunísia, Anouar Brahem na Gulbenkian (28/04). Pelas lojas, não será a inundação de Rough Guides a contrariar a seca nos escaparates. 

Jazz: Só com as novidades de janeiro já a ECM tomou conta do trimestre: estreiam-se na editora a orquestra de Chris Potter e o trio de Vijay Iyer, celebra-se Kenny Wheeler com o póstumo “Songs for Quintet” e um quinteto de luxo liderado por Jack DeJohnette assinala os 50 anos da AACM. Da ACT virá “Bird Calls”, de Rudresh Mahanthappa; da Soul Jazz, a reedição de “Tanner Suite”, de Lloyd McNeill; da Clean Feed, discos de Chris Lightcap, Mario Pavone e Eve Risser. Ao vivo, antes dos festivais: Steve Lehman no Porto (Casa da Música, 01/02); Michael Formanek em Lisboa (Culturgest, 19/03) e em Portalegre (CAEP, 20/03); Nate Wooley no Porto (Culturgest, 26/03); Joe McPhee em Lisboa (Culturgest, 9/04) e Anthony Braxton na Casa da Música (25/04). E, sim, é ano de centenário de Billie Holiday, em que milhares de cantoras com tumultuosa relação com o feminismo tratarão de assassinar ‘Lover Man’, ‘My Man’ ou ‘The Man I Love’. Por enquanto, à exceção de “Coming Forth By Day”, de Cassandra Wilson, e uma nova biografia da autoria de John Szwed, nada de especial se anuncia, mas espera-se a devida reorganização de catálogo. Também Billy Strayhorn faria 100 anos, mas a esse não é preciso dar nada: Lady Gaga (na foto) tratou-lhe da prenda quando cantou ‘Lush Life’.

Mozart: String Quartets Dedicated to Joseph Haydn (Harmonia Mundi, 2014)



Não podia ser mais clara de intenção, ficando para a posteridade a epistolar dedicatória: “Al mio caro Amico Haydn”. A 1 de setembro de 1785, educadamente italianizado, correto em tudo o que pudesse dizer ou fazer, e com sincera esperança que o favor do seu amigo amparasse o “frutto di una lunga, e laboriosa fattica”, assim dispunha Mozart os seus novos quartetos sob a invocação dessoutros que, quatro anos antes, não inteiramente desprovido de intenção didática havia Haydn publicado ao abrigo do Op. 33. Note-se que, tutelada por este mesmo Cuarteto Casals, através da série “Gold”, foi há pouco colocada no mercado pela Harmonia Mundi uma acutilante versão desse avuncular opúsculo e que, na presente edição, presumindo-se que tenha ficado para segundas núpcias a metade que lhe falta, estão apenas três dos seus subsidiários. Um deles, o “Quarteto de Cordas Nº 14 em Sol maior”, K.387, dito ‘Primavera’, entremeado num que em muito o precedeu e noutro que em quase tanto o seguiu, será amanhã, ao fim da tarde, incluído no recital que o Casals preparou para o Grande Auditório da Gulbenkian, em Lisboa. Neste disco, é um prodígio. A irrequieta primeira melodia do Allegro vivace assai, por exemplo, raramente se moveu com a velocidade e a indiscrição de um mexerico, como aqui. É igualmente rara a fluída articulação das suas mais extremas dinâmicas: dir-se-ia que praticamente sumaria a diferença entre o agir e o pensar sem subalternizar qualquer categoria. Aliás, em todo o andamento, pese embora o portento de proporção que acima de tudo se revela, Mozart visa o físico e o metafísico. Já no Menuetto é com fidelidade que se expõem certos elementos arcaicos, como o que deixa visível de outra era o arquiteto a quem foi encomendado o restauro de um edifício antigo. E o Andante cantabile concentra virtuosismo e agilidade dramática: quando o seu tempo se torna espaçado sugere a imagem de um rio a congelar mesmo diante dos nossos olhos. A acompanhá-lo, nesta gravação, um “Quarteto de Cordas nº 16 em Mi bemol maior”, K.428, em que cada pausa é bem pensada e cada aceleração deliciosamente irrefletida, até transformar o Menuetto num arraial de levantar poeira, e um “Quarteto de Cordas nº 19 em Dó maior”, K.465, em virtude da aventura harmónica do Adagio, dito ‘Dissonante’, a provar-se um milagre de forma e função, intencionalidade e invenção, tão recheado de receios quanto de certezas, um discípulo a honrar mais o seu mestre ao infringir precisamente as regras que este lhe deixou.