No
seu “Schubert’s Winter Journey: Anatomy of an Obsession”, acabado de publicar, Ian
Bostridge fala acerca do pavor que lhe inspirava ‘Boa Noite’, o gesto inaugural
deste ciclo: “Ficava enormemente aliviado assim que terminava. Dada a minha
inexperiência, ou porque me sentia menos comprometido com o tema do que o que
devia ou por desconfiar da visão do compositor, tinha receio de me aborrecer.
Afinal, em “Winterreise”, não há canção mais longa do que essa”. Goerne pediria
permissão para discordar. Nesta sua leitura, de modo invulgar, tal honra cabe a
‘A Estalagem’, o eufemístico cemitério cujas portas permanecem fechadas ao
viandante, ao qual nenhuma redenção ou qualquer lenitivo se concederá, nem
mesmo o que vem com a morte. Dir-se-ia uma forma de sustentar a inelutabilidade
do destino deste protagonista, fadado a errar num purgatório coberto de neve,
uma arca frigorífica para a alma. Pontuada pelo absurdo existencial, sugerindo,
até, que Schubert não era inteiramente ignaro do humor negro, e com episódios de
profunda alienação, não surpreende que Beckett tenha sentido arrepios na
espinha ao ouvir “Viagem de Inverno”. Mas tal invocação servirá sobretudo para
sublinhar a resistência contemporânea a um modelo interpretativo absoluto. Ilustra-o
o número deste mês da “Gramophone”, com Bostridge a receitá-la como tratamento
de choque, Mark Padmore a frisar os seus aspetos mais impassíveis, Gerald
Finley e Christoph Prégardien a descreverem-na como o hino de um sobrevivente
ou, em posição diametralmente oposta, Jonas Kaufmann a tomá-la pelo último
estertor verbal de um suicida, possivelmente cifrado no crocitar de um corvo. Goerne,
que aprendeu com Fischer-Dieskau, parece saber que, contra todas as evidências,
nem sempre é preciso que uma coisa termine para que outra comece.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
31 de janeiro de 2015
24 de janeiro de 2015
Blue Note: Uncompromising Expression – The Singles Collection (Blue Note, 2014)
Não é disso que fala o título desta
antologia. Mas, inversamente proporcional ao vínculo com o mais indulgente
ecletismo patrocinado pelos que hoje lhe conduzem os destinos, o descomprometimento
que da análise dos seus conteúdos se depreende parece ser, antes de mais, com a
própria biografia original da Blue Note. Porque nem era assim tão absurdo o que
se pretendia – celebrar o virtual 75º aniversário de uma das mais emblemáticas chancelas
da história do jazz por meio da evocação de 75 dos seus singles –, havendo, até, uma forma de o alcançar que se diria irrepreensível:
coligir em exclusivo material lançado até 1951, isto é, correspondente ao
período em que o single se provou de
facto o inevitável fonograma de que a editora se socorreu. Mas não, ao
aventurar-se de modo predominante pela era moderna – e inclusivamente
contemporânea – das suas produções, isto é, após Alfred Lion e Frank Wolff
terem dado início ao fabrico dos seus primeiros LP, e já depois da dispersão do
seu catálogo por grandes conglomerados, o retrato que aqui se propõe é, acima
de tudo, um que destrói a mais iconográfica das suas identidades mediáticas: aquela
que se associa aos definitivos testemunhos de Wayne Shorter, Bobby Hutcherson,
Andrew Hill, Herbie Nichols, Larry Young, Tony Williams, Don Cherry, Sam
Rivers, Grachan Moncur III, Cecil Taylor ou Eric Dolphy (ainda que apenas por “Out
to Lunch”), todos daqui ausentes porque, lá está, e como admitia Richard Cook
em “Blue Note Records: The Biography”, os seus “cogentes programas de música”
eram essencialmente consagrados à longa duração. Ou seja, a ativação do single enquanto dispositivo comercial
sujeitava-se exatamente às convenções de mercado que, no geral, a Blue Note
procurava contrariar. Aliás, a ambivalência que as designações “Uncompromising
Expression” e “The Singles Collection” contiguamente acarretam já é, de si, desconcertante:
invoca-se a mais antiga declaração de princípios dos fundadores da Blue Note (uma
ação pensada “para favorecer, sem qualquer compromisso, a expressão do hot jazz e do swing”, traduzidos numa “manifestação social e musical” em que
interessa reconhecer “o seu impulso e não os seus adornos comerciais e
sensacionalistas”, escreviam eles em 1939) para, precisamente através do
formato em que a indústria mais homogeneizou essa cultura e, por isso, privilegiando
o que de mais formulário, oportunista e redutor veio a editora a abrigar, logo promover
uma recusa dos seus valores. Não é isso o revisionismo?
17 de janeiro de 2015
Agenda: O que aí vem
Música erudita: Jordi Savall afirmou recentemente
que “sem memória não há justiça”. Agora, como um inequívoco veículo para as
suas convicções, anuncia um ambicioso “Guerra & Paz” em que revê a história
militar europeia dos séculos XVII e XVIII. Não seria potencialmente tão
interessante se não estivesse tão nitidamente marcado pelas incertas pulsões do
seu ideólogo, mas trata-se ainda assim de um dos mais aguardados lançamentos de
um começo de ano em que se destacam: “1865”, de um Anonymous 4 às voltas com a
Guerra da Secessão; o “Rappresentatione di Anima, et di Corpo”, de Emilio de’
Cavalieri, por René Jacobs; um par de caixas de Richter (faria 100 anos) e outra
dedicada a Boulez (haja saúde fará 90 em março); o “Requiem” de Dvorák dirigido
por Herreweghe; um recital de Lubimov consagrado a Ives, Berg e Webern. Em
palco, relevo para quem concilia presteza dramática e poder reivindicativo: Benjamin
Grosvenor (8/02), Midori (21/03) e Volodos (24/05) na Casa da Música; Schiff na
Gulbenkian (8/02 e 24/03). Do frio, os tricinquentenários de Sibelius e Nielsen
a congelar os de Dukas, Magnard ou Glazunov.
Música do Mundo: Até ao verão, e aos festivais, é
época baixa. E, neste domínio, só Lisboa escapa à absoluta hibernação dando-se
um jogo de ténis de mesa entre duas instituições locais: Kayhan Kalhor e Erdal
Erzincan vão à Gulbenkian (02/02); Toumani e Sidiki Diabaté conduzem à
Culturgest (06/02) aquela carga emocional que no Mali se transporta de geração
em geração; Zé Miguel Wisnik e Lívia e Arthur Nestrovski levam leituras
agógicas e pedagógicas do cancioneiro brasileiro à Gulbenkian (20/02), onde,
logo de seguida, entre fevereiro e março, com Calcanhotto, se manterá o sotaque
mas elevará o grau de pretensão; de Marrocos, Driss El Maloumi na Culturgest
(13/03) e, vindo da Tunísia, Anouar Brahem na Gulbenkian (28/04). Pelas lojas,
não será a inundação de Rough Guides a contrariar a seca nos escaparates.
Jazz: Só com as novidades de janeiro já a
ECM tomou conta do trimestre: estreiam-se na editora a orquestra de Chris
Potter e o trio de Vijay Iyer, celebra-se Kenny Wheeler com o póstumo “Songs
for Quintet” e um quinteto de luxo liderado por Jack DeJohnette assinala os 50
anos da AACM. Da ACT virá “Bird Calls”, de Rudresh Mahanthappa; da Soul Jazz, a
reedição de “Tanner Suite”, de Lloyd McNeill; da Clean Feed, discos de Chris
Lightcap, Mario Pavone e Eve Risser. Ao vivo, antes dos festivais: Steve Lehman
no Porto (Casa da Música, 01/02); Michael Formanek em Lisboa (Culturgest,
19/03) e em Portalegre (CAEP, 20/03); Nate Wooley no Porto (Culturgest, 26/03);
Joe McPhee em Lisboa (Culturgest, 9/04) e Anthony Braxton na Casa da Música
(25/04). E, sim, é ano de centenário de Billie Holiday, em que milhares de
cantoras com tumultuosa relação com o feminismo tratarão de assassinar ‘Lover
Man’, ‘My Man’ ou ‘The Man I Love’. Por enquanto, à exceção de “Coming Forth By
Day”, de Cassandra Wilson, e uma nova biografia da autoria de John Szwed, nada
de especial se anuncia, mas espera-se a devida reorganização de catálogo. Também
Billy Strayhorn faria 100 anos, mas a esse não é preciso dar nada: Lady Gaga (na foto)
tratou-lhe da prenda quando cantou ‘Lush Life’.
Mozart: String Quartets Dedicated to Joseph Haydn (Harmonia Mundi, 2014)
Não
podia ser mais clara de intenção, ficando para a posteridade a epistolar
dedicatória: “Al mio caro Amico Haydn”. A 1 de setembro de 1785, educadamente
italianizado, correto em tudo o que pudesse dizer ou fazer, e com sincera
esperança que o favor do seu amigo amparasse o “frutto di una lunga, e
laboriosa fattica”, assim dispunha Mozart os seus novos quartetos sob a
invocação dessoutros que, quatro anos antes, não inteiramente desprovido de
intenção didática havia Haydn publicado ao abrigo do Op. 33. Note-se que,
tutelada por este mesmo Cuarteto Casals, através da série “Gold”, foi há pouco
colocada no mercado pela Harmonia Mundi uma acutilante versão desse avuncular
opúsculo e que, na presente edição, presumindo-se que tenha ficado para
segundas núpcias a metade que lhe falta, estão apenas três dos seus
subsidiários. Um deles, o “Quarteto de Cordas Nº 14 em Sol maior”, K.387, dito
‘Primavera’, entremeado num que em muito o precedeu e noutro que em quase tanto
o seguiu, será amanhã, ao fim da tarde, incluído no recital que o Casals
preparou para o Grande Auditório da Gulbenkian, em Lisboa. Neste disco, é um
prodígio. A irrequieta primeira melodia do Allegro vivace assai, por exemplo,
raramente se moveu com a velocidade e a indiscrição de um mexerico, como aqui.
É igualmente rara a fluída articulação das suas mais extremas dinâmicas:
dir-se-ia que praticamente sumaria a diferença entre o agir e o pensar sem
subalternizar qualquer categoria. Aliás, em todo o andamento, pese embora o
portento de proporção que acima de tudo se revela, Mozart visa o físico e o
metafísico. Já no Menuetto é com fidelidade que se expõem certos elementos
arcaicos, como o que deixa visível de outra era o arquiteto a quem foi
encomendado o restauro de um edifício antigo. E o Andante cantabile concentra
virtuosismo e agilidade dramática: quando o seu tempo se torna espaçado sugere
a imagem de um rio a congelar mesmo diante dos nossos olhos. A acompanhá-lo,
nesta gravação, um “Quarteto de Cordas nº 16 em Mi bemol maior”, K.428, em que
cada pausa é bem pensada e cada aceleração deliciosamente irrefletida, até
transformar o Menuetto num arraial de levantar poeira, e um “Quarteto de Cordas
nº 19 em Dó maior”, K.465, em virtude da aventura harmónica do Adagio, dito
‘Dissonante’, a provar-se um milagre de forma e função, intencionalidade e
invenção, tão recheado de receios quanto de certezas, um discípulo a honrar
mais o seu mestre ao infringir precisamente as regras que este lhe deixou.
14 de janeiro de 2015
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