Afinal,
não tinha ficado tudo dito, longe disso, pese embora se prossiga pelo caminho indicado
por Alton Ellis em ‘Black Man’s Pride’ precisamente, há coisa de um ano
incluído no primeiro volume desta série. Aí, escutava-se a sua voz e o que
saltava à memória era o canto do rouxinol em “A Terra Devastada”, de Eliot,
basicamente a pregar no deserto, distante do mundo dos homens, inviolável mas
incompreensível. Trata-se de um sentimento extensível a muitos dos que aqui se
ouvem, a tradução de uma monstruosidade literalmente tatuada na pele (“Oh, eu
não nasci para vencer / Pois sou um homem negro”, lamentava-se Ellis): de que viver
tão longe do sítio de onde se veio é o mesmo que morrer no meio de lugar nenhum.
Daí, quiçá, para cobrir tal distância, esta arregimentação sem precedentes
entre os desapossados de Kingston, parte de uma tribo em tudo periférica – que não
invisível – ao planeamento urbano: os rastafári. Ou seja, regressa a Soul Jazz ao
Studio One como terreno fértil para analisar o impacto da modernização nas
estruturas sociais jamaicanas, espécie de balão-de-ensaio para as experiências
mais dissociativas, através de gente como Ellis, novamente, Horace Andy, Heptones,
Gladiators, Ernest Wilson, Prince Lincoln ou Count Ossie, à frente de um
pelotão de desconhecidos que, não obstante, soube reclamar a sua quota-parte
neste ato de imaginação coletivo: o da cidade enquanto centro cívico, comercial
e cultural. Por enquanto, claro, ali entre os anos 60 e 70, entrincheirada em
bairros de lata, estava longe de o ser – mesmo se o planeta inteiro começava a
mostrar-se sensível às palavras de Bob Marley, Bunny Wailer ou Peter Tosh, cronistas
da desigualdade social com sede nas barracas de Trench Town. Aliás, volta-se à compilação
e percebe-se que, conquanto nada peregrina, a verdadeira questão, aqui, é: como
é que o lugar a partir do qual se lança a semente da transformação no mundo é o
mesmo que resiste mais a qualquer mudança? É essa a tragédia da Jamaica. E a nossa.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
18 de agosto de 2018
11 de agosto de 2018
Fred Hersch Trio “Live In Europe” (Palmetto, 2018)
Como
disse um dia Tom Piazza acerca dos habitantes de Nova Orleães (em “City of
Refuge”), Fred Hersch insistiu em prevalecer – ou seja, foi capaz de
transformar as suas muitas privações em ativos. Aliás, é nesses termos que o
novelista resume o livro de memórias que Hersch publicou no ano passado: como
uma história de superação. E também Jason Moran escrevinhou qualquer coisa do estilo,
referindo os obstáculos com que Hersch lidou dentro e fora do palco, em relações
amorosas ou na sua recuperação: “No jazz, um intérprete partilha tanto as suas
virtudes quanto as suas falhas – é como o reflexo do mundo; e ao improvisar – o
princípio elementar [do género] – é capaz de fazer do infortúnio fonte de
inspiração.” Enfim, Hersch é defumado com incensos desde que vive com a
síndrome da imunodeficiência adquirida. Mas muito de vez em quando somos
relembrados que ele nunca foi propriamente um moralista.
Numa entrevista
recente (na edição do mês passado da revista “The New York City Jazz Record”),
observe-se com atenção o modo como se refere a Cecil Taylor: “[Um pianista]
brilhante, muitíssimo organizado, e uma enorme influência em músicos como Craig
Taborn ou Jason Moran. Uma figura imponente que soube fazer as coisas à sua
maneira. O facto de ser gay foi uma mera
nota de rodapé. Por sinal, ele soube contradizer exemplarmente aquela ideia
feita de que se és gay, então, tens
de tocar música bonitinha.” Pois bem, não se podendo, por um segundo, afirmar que
se trata do contrário de bonito, este “Live in Europe” (registado em Bruxelas,
em novembro último, na reta final de uma digressão de três semanas com John
Hébert na bateria e Eric McPherson no contrabaixo) será igualmente a tentativa
de Hersch tornar claro que a presença do HIV na sua vida nunca poderá deixar de
se confundir com um mau augúrio, negro catalisador do caos emocional e
psicológico, origem de um ubíquo receio de alienação. São originais de
irreconciliáveis tensões (dedicados a John Taylor, Sonny Rollins ou, lá está,
Tom Piazza), e que obrigam quem os escuta a partilhar de uma responsabilidade algo
esmagadora. Pelo meio, como se fosse possível recomeçar do zero, temas de Monk
e Shorter. E Hersch a vender saúde.
An Easy Introduction To Bossa Nova: Top 20 Albums (New Continent, 2018)
Há
uns anos, debatendo-se com a necessidade de agradar a gregos e a troianos na
elaboração de “Bossa Nova e Outras Bossas – A Arte e o Design das Capas dos LPs”,
Caetano Rodrigues e Charles Gavin decidiram bater à porta do escritor Ruy
Castro. Farto do tema até à raiz dos cabelos, o autor de “Chega de Saudade – A
História e as Histórias da Bossa Nova” despertou o guru da algoritmia que havia
em si, virou-se para eles e disse-lhes: “Incluam no vosso livro todos os discos
que encontrarem com bossa nova no título, cubram o período até aos anos 70 e
dividam-no por categorias, como cantores e cantoras, pioneiros, música
instrumental e bossa nova internacional.” Isto é, saiu-se com uma anabrótica
saraivada de anacronismos. Não se deixando abater, Caetano e Charles esquadrinharam
lojas de usados até que um deles gritou: “Achei!”. Referia-se a “Bossa é
Bossa”, de A Turma da Bossa, o primeiro disco com ‘bossa’ no título.
Infelizmente tratava-se de um single,
o que não ia de encontro ao pretendido. Pois, infrinjam-se as regras: não se
nega um momento eureka!
Com
semelhante soltura doutrinal, e prosseguindo, grosso modo, de acordo com os
conselhos de Ruy Castro, eis uma “An Easy Introduction to Bossa Nova: Top 20
Albums” que nem os tais 20 álbuns tem. Afinal, tanto quanto os três primeiros de
João Gilberto que tiraram as medidas ao género (aqui incluídos), não se podem considerar
álbuns, per se, as compilações
consagradas às canções de Jobim e de Vinicius (esta, então, traz o
pré-histórico monólogo de “Orfeu da Conceição”, de 1956, andava ainda João em
experiências anacâmpticas numa casa-de-banho de Diamantina – e, nessa
perspetiva, o encontro de Laurindo Almeida com Bud Shank, em “Brazilliance”, é quase
antediluviano). Nem se pode dizer que os discos de Moacyr Silva com Elizete
Cardoso (os dois volumes de “Sax Voz”) sejam feitos do mesmo barro da bossa. Além
de que a caixa abrange ainda álbuns de Stan Getz, Zoot Sims, Coleman Hawkins,
Quincy Jones e Dizzy Gillespie que, lá está, levam as regras ao limite. Mas não
importa: isto foi uma descoberta demasiado importante.
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4 de agosto de 2018
Dexter Gordon Quartet “Tokyo 1975” (Elemental, 2018)
No
que parece um quarto esconso de uma modesta pensão na zona de Nova Iorque, logo
a abrir o filme, naquele seu característico tom cavo e enfisemático, atravessado
por dióxido de carbono e poluído por muitas mágoas, Dexter Gordon – ou melhor,
Dale Turner, o extraordinário composto dramático a que o músico deu corpo em “À
Volta da Meia-Noite” (Bertrand Tavernier, 1986) – despede-se de um velho amigo
dizendo-lhe que está de partida para Paris: “O que é que isso vai resolver?”,
pergunta o outro, “Não vai mudar a maneira como tocas”. Dale hesita, esboça um
sorriso reservado como quem receia que até a alegria lhe tirem, e responde do
modo mais convicto possível: “Não há olhares frios em Paris.” Podia estar a
falar por experiência própria, claro. Aliás, numa “Down Beat” de finais de
1976, numa altura em que se preparava para encarnar a personagem de Ulisses (apropriadamente,
o LP que viria a gravar no Village Vanguard antes do ano fechar chamar-se-ia
“Homecoming”), Dexter explica-se assim: “Fui para a Europa e vivi uns anos em
Paris. Mas na última década estabeleci-me em Copenhaga. É mais ou menos o meu
lar, hoje em dia. Pode dizer-se que me tornei uma espécie de dinamarquês, o que
é bom. Como é óbvio, aprendi muito. É outro estilo de vida, outra cultura,
outra língua. Gostei. Ainda gosto. Depois, naturalmente, não havia
discriminação racial, nem nada desse género. Além de que significa alguma coisa
ser artista na Europa. Somos tratados com muito respeito. É uma outra
mentalidade.”
Não
obstante o tanto que longe do seu país encontrou – apreço, admiração, ânimo,
inclusivamente audácia, para não falar já da família que constituiu –, Dexter
Gordon notabilizou-se exatamente por jamais reprimir as memórias americanas que
marinavam no som do seu instrumento. Ouvi-lo, então, e também, seria honrar
aquilo que de mais belo havia sobrevivido à ruína de vidas inteiras, a
materialização de um milagre, a forma de adorar o período em que o saxofone foi
marcado por Herschel Evans, Dick Wilson, Chu Berry, Charlie Parker, Wardell
Gray ou Lester Young, gente que nem à meia-idade chegou. Como não poderia
deixar de ser, seria ainda uma advertência quanto à futilidade de planear o
futuro, por exemplo. Mas igualmente, e incrementalmente, quanto a um facto que a
geração de Gordon logo intuiu: de que, mais cedo ou mais tarde, para o bem ou
para o mal, haveremos todos de sentir na pele o exílio. Por tudo isso, entre
muitas coisas mais, um solo de Gordon era ao mesmo tempo mediúnico e votivo, um
contínuo ato de condenação e absolvição, a tomada de consciência de que viver longe
de casa não quereria necessariamente dizer que não se pertencia a lugar nenhum.
Seja como for, Dexter voltou – e nesta edição, como bónus, surge ‘Old Folks’,
gravado em 1977, quando tinha regressado de vez aos EUA e deixado a um
continente de distância um dos melhores grupos com que havia tocado, que é precisamente
o que se escuta neste concerto de outubro de 1975 em Tóquio, com Kenny Drew,
Niels-Henning Orsted Pedersen e Albert “Tootie” Heath agradecendo aos mortos
todo o espaço que deixaram aos vivos.
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Agenda: Jazz em Agosto II
Reta final da 35ª edição do Jazz em
Agosto, número que, por sinal, agradará àquele a que se consagra a sua
programação, John Zorn, alguém que jamais recuou quando confrontado com o
sincretismo ocultista. No tarô egípcio, por exemplo (e a capa de um dos discos de Zorn, “From
Silence to Sorcery”, é ilustrada com cartas do célebre baralho de Salvador
Dali), o 35º arcano promete alarmes, consternações, acontecimentos imprevistos,
enquanto uma leitura mais corrente – trata-se, afinal, do 2 de paus – aponta
para todo o tipo de descobertas a quem abandonar a sua zona de conforto e se
abrir a novas experiências. Já o 35º anjo cabalístico (na discografia de Zorn,
pense-se em “Zohar” ou na série “Book of Angels”), o da reconciliação, costuma
ser invocado para aludir à importância da lealdade em matéria de heranças. Apropriadamente,
numa das suas mais reveladoras entrevistas – à NPR, a rádio pública
norte-americana, a 3 de setembro de 2013, no dia a seguir ao do seu sexagésimo
aniversário, portanto –, Zorn disse assim: “Claro que uma pessoa não se pode
sentar e compor 300 peças num período de três meses e achar que o está a fazer
sem algum tipo de ajuda. (…) Sinto que há mensagens [que recebemos]. Que há
anjos. Que há uma herança e uma energia. E que a podemos canalizar. (…) E eu
não conseguiria fazer nada disso sem estes músicos. Porque, para mim, a música
é sobre pessoas. Não é sobre sons. É sobre pessoas.” Mesmo que – ou
preferencialmente que – isso signifique colocá-las em situações de algum desconforto.
Nessa perspetiva, há uns anos, um dos músicos do seu círculo confidenciou-me o
seguinte: “Passar da minha música para a do Zorn é como ir deitar-me, adormecer
enquanto humano e acordar como inseto.” Talvez por isso tantas das suas
criações dêem mostras de vibrar com frequências do inconsciente, ainda que
pareçam derivar de processos de síntese relativamente simples, quase sempre
envolvendo o medo. Desafios recorrentes na sua obra, a que, hoje, às 18h30, no
Auditório 2 da Gulbenkian, tratarão de dar resposta os Trigger (Will Greene,
Simon Hanes e Aaron Edgcomb), espécie de power
trio da atonalidade. Já pelas 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre, haverá
sessão dupla: com Craig Taborn, primeiro, e o trio de Brian Marsella (com
Trevor Dunn e Kenny Wollesen), depois, passando em revista algumas das
“Bagatelles”, temas que trazem à memória que o stride piano e o dodecafonismo foram contemporâneos. Amanhã, nos
mesmos horários, Julian Lage e Gyan Riley [na foto, com Zorn], em guitarra acústica, tocarão
“Midsummer Moons”, bucolicamente passível de se associar aos ritos do
solstício, e a fechar o festival subirão ao palco os Secret Chiefs 3 para
interpretar peças de extração levantina, de Zorn, cujo frutado aroma, nos
narizes certos, se confunde com o cheiro da carne humana em decomposição.
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