22 de novembro de 2014

Keith Jarrett, Charlie Haden, Paul Motian “Hamburg ‘72” (ECM, 2014)



Em finais dos anos 80, isto é, no que tem de considerar-se a sua fase pré-histórica, era possível aceder a uma página da internet insolitamente alojada no sítio da Universidade de Duisburgo e, desse modo, consultar uma exaustiva relação subordinada ao tema “Workshops, Workshop TV e Concertos radiofónicos na NDR – Radiodifusão do Norte da Alemanha”. A lista, reunida por um Dr. Michael Frohne, melómano e dentista, mais não era, no fundo, do que um inventário de registos, em cassete, de programas com concertos de jazz promovidos e emitidos pela estação de Hamburgo. E, até 1988, aí se discriminavam 227 datas protagonizadas por luminárias do jazz europeu e norte-americano, consagrando-se um par de entradas a Keith Jarrett: 14 de junho de 1973 e 18 de abril de 1974. Dessas, se a segunda estava correta – uma apresentação do grupo que gravaria “Belonging” na semana seguinte – já a anterior, precisamente este trio com Haden e Motian, acertava no dia e no mês e falhava no ano. Nada que uma nova etapa no sistema de desenvolvimento da rede – a dos fóruns – não viesse corrigir.

Afinal, tinham tocado em 1972 e havia provas concretas: um LP de tiragem limitada e comercialização interdita, com o número de série “NDR 0666063”, na capa estampado “Jazzworkshop ‘72”, e com dois temas dos Return to Forever, de Chick Corea, no Lado A, e quatro do trio de Jarrett no Lado B. Até que, entretanto, já neste século, tornou-se claro que o título em causa era apenas um entre muitos: a coleção da NDR inclui discos de Steve Lacy, Jan Garbarek, Lee Konitz, Carla Bley, Tony Scott, John Surman, Weather Report ou Soft Machine. Mas, como não poderia deixar de ser, era o de Jarrett o mais apetecido. E, em leilões, de 2004 a 2007, por exemplo, chegava a ser transacionado por valores na ordem dos 300 ou 400 euros. Já em 2008 e em 2009, em CD e DVD, sob a designação “Live in Hamburg 1972”, a emissão via integralmente a luz do dia através de edições de legitimidade e qualidade discutíveis. Erros que este lançamento da ECM vem agora emendar.

“Hamburg ‘72” é um documento fascinante. Testemunha a primeira digressão europeia do trio num momento em que, com a adição de Dewey Redman, estava em curso o seu processo de transformação em quarteto. O repertório é em parte o que se espera: eis o esotérico ‘Everything That Lives Laments’, vindo de “The Mourning of a Star”, o estridente ‘Piece for Ornette’, chegado das sessões de “El Juicio”, e o exuberante ‘Take Me Back’, que nesse mesmo ano ganharia forma em “Expectations”. Mas há aqui um inédito (‘Life, Dance’), um precoce ‘Rainbow’ (que só viria a ser gravado em “Byeblue”, em 1976) e uma inesperada versão de ‘Song for Che’, o original de Haden que, sete meses antes, durante o 1º Festival Internacional de Jazz de Cascais, numa noite em que Jarrett também subiu ao palco do Pavilhão do Dramático, lhe valeu uma detenção pela PIDE. Jarrett toca piano, pandeireta, flauta e saxofone soprano e, como um crente, está permanentemente entre a agonia e o êxtase.

15 de novembro de 2014

Kassé Mady Diabaté “Kiriké” (No Format!, 2014)



A analogia mais comum para os bardos da cultura mandinga é a que envolve um antigo provérbio que, em 1960, Amadou Hampâté Bâ levou a uma conferência na UNESCO, e que diz que, em África, cada velho que morre é como uma biblioteca que arde. Toumani Diabaté, porventura ignorando o conto “Um Apólogo”, de Machado de Assis, recorre à metáfora da “agulha que tudo cose”. Mas vejamos que sentido Eric Charry atribui aos jeli, ou griô, no antológico “Mande Music: Traditional and Modern Music of the Maninka and Mandinka of Western Africa”: “São músicos, cantores, conselheiros, oradores, louvadores, mediadores ou cronistas, são quem dá forma ao passado e ao presente”. Dir-se-iam uma espécie de aplicação da Lei de Lavoisier à historiografia. A explicação de Charry traz à memória a maneira como, numa “Jazz Review” de 1959, Steve Lacy definia o músico de jazz: “Dado à oratória, à dialética, à matemática ou ao atletismo, ele é poeta, diplomata, educador e estudante”. Será mera coincidência, mas não deixa de parecer apropriado que, em Juillaguet, nos arredores de Angoulême, o sereno “Kiriké” tenha sido gravado no estúdio de Kent Carter, contrabaixista que, ao longo dos anos, foi um dos mais estimados e constantes cúmplices de Lacy. E quando, no norte do Mali, se reduzem literalmente bibliotecas a cinzas, o que o novo álbum de Kassé Mady vem dizer é que chegou a hora de devolver a palavra a estes homens que, através da música, não fazem outra coisa que renovar a confiança no Homem. Talvez por isso termine o disco com ‘Hera’, termo bambara para o ideal de paz a que aspira qualquer griô. Com a histórica voz dos National Badema estão as de Ballaké Sissoko, Lansiné Kouyaté, Badjé Tounkara e Vincent Segal mais as de 15 milhões de malianos. É essencial ouvi-las.

Miles Davis “Miles at the Fillmore – Miles Davis 1970: The Bootleg Series Vol. 3” (Sony, 2014)



De volta a 1970, como um detetive que regressa a um caso arquivado. Fala-se, claro, daquele conjunto de ações que, no mundo do jazz, fileiras mais reacionárias tomaram por uma deserção. Mas já então era óbvio que nada havia pelo que punir Miles Davis. Pelo menos num código penal em que uma cobra não seja condenada à prisão por mudar a pele. É o que nos dizem as provas: “Bitches Brew”, “A Tribute to Jack Johnson”, “Live-Evil”, gravações espalhadas por “Big Fun” ou “Get Up With It”, “Black Beauty”, “At Fillmore” (de que a presente edição vem dar a visão integral) ou “Live at the Fillmore East, March 7, 1970”. Parece trabalho para uma vida inteira mas mais não é do que o registo de um punhado de meses em que as bandas de Miles deixavam o exo-esqueleto pelos palcos e estúdios por que passavam. Entre 17 e 20 de junho de 1970 não foi diferente. Há, ao longo destes quatro discos, um núcleo constituído por ‘Directions’, ‘The Mask’, ‘It’s About That Time’ e ‘Bitches Brew’ dado a dissonância e distorção, um contínuo estudo de contrastes (por exemplo, em “At Fillmore” Steve Grossman quase só se ouvia ao soprano e aqui surge alternadamente no saxofone tenor), um vago sentimento de dissociação que Dave Holland, Jack DeJohnnette e Airto Moreira nunca permitem que se torne dominante, uma música que explora textura e densidade e que permanece misteriosamente cristalina, que se crê estática e, no entanto, não para de se mexer, e, fundamentalmente, não tanto um jogo de pingue-pongue entre Chick Corea e Keith Jarrett quanto aquele em que um faz de trovão e o outro de relâmpago. Há um imenso enigma e uma só solução. Essa detinha-a Miles.

La Lira D’Espéria II: Galicia – Danças, Cantigas & Cantos da Terra (Alia Vox, 2014)




Jordi Savall, Pedro Estevan


A Galiza, descreve-a Carlos Villalba Freire como um lugar eternamente suspenso entre o sonho e a realidade. Talvez por o galego, conforme sugere num cancioneiro dos anos 70, ansiar sempre “outra coisa”. Jordi Savall, apresentando este projeto para rabecas, arrabis e percussão, identifica-a como a expressão de uma “insólita forma de insularidade”, como “uma grande ilha, de qualidades muito arraigadas”, e também ele procura essa “outra coisa”. A começar pelo título, que, do Jardim das Hespérides a Orfeu, foi buscar à Grécia antiga. E ainda que comunique com um primeiro tomo gravado há 20 anos, o que pretende agora confirmar é um caráter de exceção. Ou seja, nada, aqui, dá mostras de participar da diáspora mediterrânica em que mergulhava o volume precedente, isto é, coisa nenhuma é declaradamente hispânica, apesar de se incluírem algumas das “Cantigas de Santa Maria”, de Afonso X, entre esta coleção de “cantos da terra, cantos de ciegos, cançãos d’embalar, danzas y bailes”. Mas até o que se pressupõe uma decantação de música galaico-portuguesa, trovadoresca, sefardita ou árabe surge como a rude manifestação de uma índole pré-céltica misteriosamente embrulhada em bruma. É natural. Afinal, Savall acaba de renunciar ao Prémio Nacional de Música espanhol. E, em carta aberta, coassinada por José Carreras ou “Pep” Guardiola, defendeu o direito dos catalães à autodeterminação. Por essas e por outras, no tricentésimo aniversário da Guerra da Sucessão Espanhola, inseriu ‘Catalunya en altre temps, ella sola's governava’ num programa a que chamou “Guerra e Paz”. Com Savall, o passado mantém-se absolutamente contemporâneo.