Trata-se,
à primeira vista, de uma tácita adesão de Evans ao universo da ficção
científica, através da evocação da obra de Frank Herbert, autor de “Dune”.
Publicado em 1966, esse “Destination: Void” original visava a controvérsia,
prenhe de tentações prometeicas e alertas proféticos em polémicos temas como os
da clonagem ou inteligência artificial que as suas personagens acareavam de
modo complexo e dos quais sobressiam conceitos eminentemente comparáveis: conspiração
e culpa, ética e experimentação, moralidade e mortalidade, senciência e
sociobiologia, forma e função. Mas, neste caso, conquanto dessas problemáticas comungue,
talvez se cuide antes de prevenir o ouvinte, asseverando que, por mais
extraordinário que pareça, nada disto é absolutamente imune à lógica. E ainda
que para o disco alguma coisa se tenha transferido da sensação de claustrofobia
e catástrofe iminente que se imputa a Herbert, o interesse aparenta ser outro:
propor um paradigma de sustentabilidade orgânica para o que se terá de apelidar
como jazz eletroacústico. É, assim, tão fisiológico quão ontológico, o sucessor
de “Ghosts”. É como a nave do “Alien”. E embora dependa de uma disposição de
tal maneira augural que se diria transcender a própria compreensão, nele, Evans,
Sam Pluta, Ron Stabinsky, Tom Blancarte e Jim Black tocam com tamanha exatidão
que dão mostras de tudo tornar inteligível. É um paradoxo que percorre as
criações do trompetista, aqui dado a uma congregadora visão de conjunto que o
distancia de testemunhos deixados em palcos portugueses, onde se costuma comportar
como aquele rapaz penteado de credencial ao peito que, na rua, pede uns minutos
da nossa atenção. Por ora, volta a ser um estranho numa terra estranha. Bem como
o queremos.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
20 de dezembro de 2014
Ustvolskaya: Violin Sonata; Clarinet Trio; Duet (ECM, 2014)
Patricia Kopatchinskaja (vln), Markus Hinterhäuser
(p), Reto Bieri (cl)
Para Galina Ustvolskaya (1919-2006)
havia algo de repudiável na análise teórica das suas obras. Nessa medida, era
um pouco como aquelas puritanas matronas que ficam horrorizadas sempre que o
passado das suas famílias vem a público. Tudo indica que tinha igualmente aversão
a que a execução das suas peças ficasse entregue a mulheres, naquilo que um psicólogo
daria como sinal de uma carência qualquer. Mas, já diz o provérbio, a palavras
loucas, ouvidos moucos. E a este inefável CD de Kopatchinskaja a ECM acrescenta
um livreto com vinte páginas a que só falta o essencial: dizer que não houve injustiça
maior no retrato que ao longo dos anos se foi pintando da russa do que a que a
caracterizou como uma compositora desprovida de ingenuidade. Isso, e que a
repugnância pela ideologia e o desabraçar da utopia não ocultam o facto de que
possui uma escrita diversa mas continuamente marcada pelo totalitarismo. Nem
podia ser de outro modo, nem Shostakovich, o seu mentor, se entende
exclusivamente à luz da pedagogia do oprimido. Mas é relativo saber-se que também
Ustvolskaya alinhou, em dado momento, com os épicos triunfalistas do pós-guerra
(ou era assim ou acordava com a polícia política a bater-lhe à porta a meio da
noite). Nem que seja para melhor se valorizarem estas “Sonata para Violino e
Piano” (1952), “Trio para Clarinete, Violino e Piano” (1949) e “Dueto para
Violino e Piano” (1964) que ao culto bolchevique por novas formas de um
Mayakovski, por exemplo, parecem responder com forma nenhuma. São profundas as
estirpes do medo. Aqui, algures entre Messiaen e Feldman, escavam-se-lhes as
raízes.
13 de dezembro de 2014
Thelonious Monk “‘Round Midnight: The Complete Blue Note Singles (1947-1952)” (Blue Note, 2014)
Perdeu-se
a conta às vezes que foi editado e reeditado, revisto e aumentado, antologizado
e remasterizado. Dir-se-ia até que dele já se reconhecem as partículas de pó. O
que não impede que, sempre que dá à costa, deste espólio se fale como se de um
estranho objeto se tratasse, um pedaço de madeira lançado ao mar, originário
não se sabe de que época ou de que lugar, a que função se destinava ou que
sortilégios representa, se pela mão humana trabalhado, se pelos elementos
entalhado. Em “Blue Note Records: The Biography”, Richard Cook não faz por
menos: “Com Monk, a Blue Note entrou na sua fase moderna”, escreve. Há 65 anos
atrás, ouvi-lo era como admirar escultura tradicional africana numa galeria de
arte contemporânea: qualquer reação parecia simultaneamente possível e intolerável,
genuína e postiça, natural e artificial. Estão aqui os moldes para uma
subsequente vida de invenção: por ordem de comercialização, as primeiras
versões de ‘’Round Midnight’, ‘Well, You Needn’t’, ‘Off Minor’, ‘In Walked
Bud’, ‘Epistrophy’, ‘Ruby, My Dear’, ‘Evidence’, ‘Straight, No Chaser’,
‘Misterioso’ ou ‘Monk’s Mood’, tocadas como se tivessem sido originalmente
compostas num piano com teclas a menos, desnoveladas por um batalhão de
instrumentistas em luta contra a intuição (ouçam-se os takes alternativos). Curiosamente, nem todos questionavam Monk por
aquilo que ele dava ares de subtrair à música dos outros: numa resenha de 1963,
por exemplo, Philip Larkin dizia que nesses temas os acordes eram como uma mala
de viagem que mal se conseguia fechar de tão cheia. Mais que improvisação,
escuta-se um método. E a sua aprendizagem nunca terá fim.
Johnny Alf “Ele é Johnny Alf” (Universal, 2014)
Como
escreveu Ruy Castro em “A Onda Que Se Ergueu do Mar”, Johnny Alf (1929-2010)
foi daqueles destinados a viver “numa zona de sombra projetada pela sua própria
luz”. Até a biografia que lhe dedicou João Carlos Rodrigues é modesta,
recorrendo ao subtítulo “Duas ou Três Coisas que Você Não Sabe”, quando são às
dezenas, para não dizer às centenas, os factos acerca da sua vida que de modo
geral se ignoram. Por exemplo, que nas décadas de 60 e 70 ergueu um monumento em
cada ida a estúdio. Ou, como um dia disse, que a homossexualidade era a nuance que efetivamente evidenciava e
policiava o seu “comportamento junto às pessoas”, que era, numa alusão a ‘Eu e
a Brisa’, “a brisa do título da música”. Ou que jamais domesticou as suas
excentricidades enquanto compositor, anacrónico no antes e depois da época – a
da bossa nova – que melhor as reivindicou, conquanto fossem impossíveis de absorver
em absoluto. Alf interessava-se por decompor a realidade quando o tempo era de
síntese e em simplificá-la no instante em que se provava mais complexa. De
maneira invisível, administrou as ilusões de uma geração inteira num
determinado momento para de seguida lhe inventariar as desilusões. Disso fala este
álbum de 1971, pela primeira vez reeditado em CD na sua versão original e com um
EP de 1972 como complemento, em que todo o posicionamento político se vê
monopolizado por aspetos emocionais, em que a esperança não passa de um compromisso
intelectual e em que só o passado é autêntico e a solidão a única
inevitabilidade. Quem nunca o ouviu, desconhece toda a ingratidão que pode haver
no mundo e, de facto, não sabe duas ou três coisas sobre o amor.
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