14 de fevereiro de 2015

Tony Malaby’s Tubacello “Scorpion Eater” (Clean Feed, 2014)




A acompanhar a receção crítica às suas mais inusuais formações, no jazz contemporâneo é normal impor-se um ponto que se propõe disputar a acracia que lhes é implícita e se resume nestes termos: é essencialmente subversiva ou apenas dispersiva a energia que da sua dinâmica resulta? Isto é, a insólita disposição dos seus elementos é mais uma das suas marcas de distinção ou será a única? Tony Malaby, que surge aqui à frente de um conjunto em que se une a um tubista (Dan Peck), a um violoncelista (Christopher Hoffman) e a um baterista (John Hollenbeck), e conforme se depreende pelo modo em que arruma o assunto, nunca quis tornar uma questão acessória da outra: “Há um contínuo mistério no som da tuba: de onde vem, qual a sua origem, em que lugar se situa na esfera de ação do grupo. [Possui] uma dimensão de que gosto muito.” Aliás, não seria aos 50 anos que substituiria uma convenção por outra. Na verdade, e independentemente da maneira em que se apresenta, a sua produção permanece extraordinariamente avessa a fórmulas. Quanto muito – e o título deste seu disco, só na aparência acerbo, ao inspirar-se por uma criança que adora chupa-chupas de escorpião parece apontar nesse sentido – utiliza-a para assinalar preconceitos a que jamais adere. Ou seja, não é por partilhar a instrumentação que, não há muito, Dave Douglas reuniu em “Mountain Passages” ou, há um pouco mais, e também excluindo o trompete, Arthur Blythe acomodou em “Metamorphosis”, que dos dois se irá aproximar. Até porque, acre e doce e obtusa e aguda e venenosa e sadia, esta é uma música imune ao cinismo. Simplesmente é.

Matana Roberts “Coin Coin Chapter Three: River Run Thee” (Constellation, 2015)



Dir-se-ia um território cuja força simbólica foi essencialmente nutrida à custa de violações, aquele que Matana Roberts visitou entre fevereiro e março do ano passado, e do qual disponibilizou um arquivo visual praticamente ecológico no Instagram através do cardinal southernsojourn2014. Aí, pelo sul dos EUA, inventariou descorados retratos de família, ementas de restaurante desbotadas, carris, correntes enferrujadas e carcomidos troncos, fotografou animais amansados pelo trabalho, sedes de ferozes especuladores financeiros e lajes sepulcrais com evidentes traços de abandono, e por todo o lado captou sinais de trânsito e mosaicos decorativos como quem sugere as ligações a fazer. Claro que logo se percebe ao que vem quando mostra estátuas alusivas a protagonistas da Guerra de Secessão, à história militar confederada, à sociedade esclavagista. Ganha, então, novo sentido o contínuo catalogar de ramais, becos e vielas, de galerias pluviais e tampas de esgoto ou, também, do infinito desfilar de motéis e igrejas. Alguém mais esotérico afirmaria que em “River Run Thee”, o terceiro da programada dúzia de capítulos “Coin Coin”, se adivinha a projeção eletroacústica desse universo. E, no disco, a compositora não disfarça a atração por técnicas de montagem que acima de tudo se alimentam de emanações do inconsciente. Aqui, até as gravações de campo parecem tentativas de registar aqueles fenómenos eletrónicos de voz de que falava Raudive. Ao dogma paranormal Roberts adiciona leituras de “Dhow Chasing in Zanzibar Waters”, uma narrativa de G. J. Sulivan, publicada em 1873, relativa à sua experiência na supressão do tráfico negreiro na costa oriental africana, e com especial relevância para os interessados nos mais nefários aspetos da presença portuguesa em Moçambique. Matana canta, geme, toca saxofone, recorre a inúmeros efeitos. Subitamente ouve-se jazz como se pressente um espetro.

Prokofiev: Visions Fugitives; Chopin: Sonata Nº 3 (ECM, 2014)




Anna Gourari (p)


Disse-lhe um dia um amigo: “Estás a fugir da História, e a História não perdoa: ninguém te compreenderá quando voltares”. Pelo menos assim o recordava Prokofiev nas suas memórias, lembrando ainda: “A Revolução de Fevereiro deu comigo em Petrogrado e recebia-a de braços abertos. Andava pelas ruas durante os combates, escondendo-me sempre que os tiroteios se aproximavam em demasia. Escrevi então a décima nona das ‘Visões Fugitivas’, refletindo parte das minhas impressões do momento.” Em termos da sua cinética, outro tanto não sugere o andamento com que a caracterizou: presto agitatissimo e molto accentuato. Ouve-se e adivinham-se projéteis extraviados, disparos em sucessão, sirenes, explosões e a desorientação que tudo isso causa. É igualmente dos poucos instantes na sua leitura da obra em que Anna Gourari não toca como uma auguratriz em transe. E é tão vaga, talvez, por tão bem conhecer o texto que a inspirou, escrito por Konstantin Balmont e sintetizado nestas linhas: “Da sabedoria, nada sei – deixo isso para outros/ Limito-me a pôr em verso estas visões fugitivas”. Aqui, aterrada pela efemeridade que só a poesia torna suportável, a pianista parece flutuar num sonho de que não quer acordar jamais. E, não se esfumando como de costume, as miniaturas de Prokofiev – compostas entre 1915 e 1917, no período dos seus iniciais opúsculos, e terminadas a um ano de partir para os EUA – permanecem no ar de maneira praticamente atmosférica. Uma ambiência que, neste seu undécimo disco, Gourari reforça pela inclusão de “Conto em Fá menor”, de Medtner, antes de concluir com a “Sonata Nº 3 em Si menor”, de Chopin, que, na realidade, precedendo as outras duas peças, dá mostras de ter origem na mesmíssima coisa: naquela elusiva música que um compositor só vislumbra quando doutra se ocupa.

7 de fevereiro de 2015

Kenny Wheeler “Songs for Quintet” (ECM, 2015)



Em finais da década de 60 consagrada ao fabuloso cavaleiro andante de La Mancha, através de “Windmill Tilter”, dir-se-ia eminentemente simbólica a estreia de Kenny Wheeler em nome próprio. Já aí, por exemplo, conquanto inserida num dispositivo – o da orquestra de John Dankworth – de inequívoca ambiguidade autoral, se identificava aquela renúncia a constrangimentos formais e a adesão ao absoluto poético pelos quais se daria no futuro o compositor de origem canadiana a conhecer. Mas também, e fundamentalmente, ficava patente na sua execução um tom tingido pela melancolia que, para melhor a suportar, parecia filtrar determinados aspetos da realidade, preferindo insólitas emanações de um domínio de fantasia frequentemente sintetizado pela adesão textual ao mundo da canção. Chama-se “Songs for Quintet” esta edição póstuma e, em 73, denominou-se “Song for Someone” o seu primeiro postulado mais idiomático. Nunca servirão de emblema para a mesma coisa mas com Quixote possuía também em comum a argúcia, que a honra e a generosidade temperavam, e a angústia, que não dava mostras de permitir que o arreliasse em demasia. Mas não se dispunha tão facilmente ao registo da farsa, se essa não se definir pela tomada de consciência de que nem da sua própria história consegue alguém ser o herói. Kenny Wheeler teve um final de vida marcado por problemas de saúde. Campanhas de angariação de fundos – algumas beneficiando a sua viúva, Doreen – surgiram no verão passado e povoaram o horizonte de moinhos de vento. Viria, adoentado, a falecer em setembro mas, antes, passou com Stan Sulzmann, John Parricelli, Chris Laurence e Martin France pelos estúdios Abbey Road e acrescentou umas linhas ao seu testamento. Ao fliscorne traz à memória a Billie Holiday de 1959, mas não está assim tão só: lembra antes o dramaturgo que, já diminuído, emenda a pontuação na única das suas peças que não verá estrear.