A citação é oportuna: “Quem alinhe as
suas múltiplas pertenças, é imediatamente acusado de querer dissolver a sua
identidade no caldo informe onde todas as cores se apagam.” Isto escreveu Amin
Maalouf em “As Identidades Assassinas”, advertindo antecipadamente o seu
sobrinho. Mas a resposta a semelhante imputação de culpa tem-na Ibrahim igualmente
no livro do tio: “Aquilo que faz que eu seja eu e não outrem, é o facto de me
encontrar na ombreira de dois países, de duas ou três línguas, de várias
tradições culturais.” Dir-se-ia que nunca o demonstrou de modo tão convincente
quanto neste “Kalthoum”, em que prossegue por uma via estreita entre dois
precipícios, o da música clássica árabe e o do jazz. Vem homenagear uma das
maiores vozes do século XX, Oum Kalthoum, a "Estrela do Oriente", a "Sexta
Pirâmide do Egipto", a "Mãe dos Árabes", e tinha à sua disposição dezenas de
canções imortais, nomeadamente aquelas de Ahmed Rami ou Riad El Soumbati. Mas
ao se decidir pela adaptação de ‘Alf Layla Wa Layla’ (As Mil e Uma Noites), derivada
de uma fase de declínio nas capacidades da cantora, mostra querer evocar o califado
de Harun al-Rashid, porventura desagradado com as representações do mundo árabe
no ocidente. Nesse sentido, o seu propósito é mais ideológico do que estético:
mas a ideia vale ouro. Consigo estão Frank Woeste, Clarence Penn, Larry
Grenadier e Mark Turner, capazes de tão depressa sugerir a contração neurótica
da atualidade quão a sua infinita recessão até princípios de uma antiguidade
incalculável. Como diz a canção: “E o que parecia um deserto revelou-se um
jardim.”
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
24 de dezembro de 2015
Cecil Taylor “Garden, 1st Set” & “Garden, 2nd Set” (Hat Hut, 2015)
Com 16 anos, numas férias em
família pela Provença, Heston Blumenthal, celebrity
chef, foi ao L’Oustau de Baumanière. Mais tarde, inspirado pelos aspetos multissensoriais
da experiência, “pelo som das fontes e das cigarras, pelo cheiro inebriante a
alfazema”, concebeu um prato, ‘Sound of the Sea’ (meixão, lingueirão, berbigão,
mexilhão, ouriço-do-mar, espuma marinha, areia edível), que servia acompanhado
por um iPod com gravações dos guinchos das gaivotas e do rumor da marulhada.
Dizia tratar-se de um “apelo integrado aos sentidos”. Se criasse um prato por
sugestão da música de Cecil Taylor, essoutro construtivista, que disse um dia
que o seu objetivo era o de “edificar uma estrutura totalmente integrada em
cada peça”, imagina-se que tivesse de investigar o subsolo. Isto porque, talvez
pela extensão do blues que sempre
mostrou ser, esta música sabe a terra. A 16 de novembro de 1981, aliás, este
concerto em Basileia começou precisamente por uma declamação em línguas
desconhecidas, pela qual, em inglês, irrompia a frase “e iremos para os campos
lavrar.” Agora que o reedita em dois volumes (com masterização e
sequencialização retocadas), a Hat Hut decide ilustrar “Garden” com o que
parecem ser as chaminés de fada do Bryce Canyon, como quem diz que também aqui
vê os efeitos de uma ação erosiva. Taylor a escavar o jazz até ao osso. A
esculpir perpetuamente o interior de quem o ouve.19 de dezembro de 2015
Melhores do ano (Best Classical, Jazz and World Music recordings of 2015)
Cavalieri: Rappresentatione di Anima & di Corpo (Concerto Vocale,
Akademie für Alte Musik Berlin, Jacobs; Harmonia Mundi)
Britten/Barber: Piano Concertos; Nocturnes (Roe, London Symphony Orchestra,
Tabakov; Decca)
Rihm: Et Lux (Huelgas Ensemble, Minguet Quartett, Nevel; ECM)
Adams, J. L.: THE Wind in High Places (JACK Quartet; Cold
Blue Music)
Venecie Mundi Splendor (La Reverdie ; Arcana)
Murail: Le Partage des Eaux; Contes Cruels; Sillages (BBC Symphony Orchestra, Netherlands Radio Philharmonic, Valade;
Aeon)
Janácek/Smetana: String Quartets (Takács Quartet; Hyperion)
Wolfe: Anthracite Fields (Bang on a Can All-Stars,
Choir of Trinity Wall Street; Cantaloupe)
Lutoslawski: Piano Concerto; Symphony Nº 2 (Zimerman, Berliner
Philharmoniker, Rattle; Deutsche Grammophon)
Shostakovich: String Quartets (Borodin Quartet; Decca)
Menções
honrosas: num triplo CD (Sony), Igor Levit a promover a tolerância por
intermédio da variação, via as Goldberg (Bach), as Diabelli (Beethoven) e
aqueloutras que Rzewski compôs a partir de ‘El pueblo unido, jamás será vencido!’;
Savall em “Guerra & Paz” (Alia Vox); Kim Kashkashian, Sarah Rothenberg, et al., na “Rothko Chapel” (ECM), de
Feldman, evocando um espaço para se “meditar em
solidão”; Staier nos “Concertos
para Cravo”, de Bach (Harmonia Mundi); Pintscher e o Ensemble Intercontemporain
em obras de Ligeti e Bartók (Alpha); o Ensemble Odyssee em “In Officio
Defunctorum”, de Gaetano Veneziano (Pan); o Orlando Consort consagrado a
Compère (Hyperion); Emmanuelle Bertand, a sinfónica de Lucerna e James Gaffigan
em “Tout un monde lointan”, de Dutilleux (Harmonia Mundi); o “Requiem” de
Dvorák por Herreweghe (Phi); Ashkenazy e Lisitsa na integral de Scriabin (Decca).
Kenny Wheeler/John Taylor “On the Way to Two” (CAM Jazz)
Marilyn Crispell/Gerry Hemingway “Table of Changes” (Intakt)
Fred Hersch “Solo” (Palmetto)
Eve Risser “Des pas sur la neige” (Clean Feed)
Henry Threadgill Zooid “In For a Penny, In For a Pound” (Pi Recordings)
Stanley Cowell “Juneteenth” (Vision Fugitive)
Jack DeJohnette “Made in Chicago” (ECM)
Rudresh Mahanthappa “Bird Calls” (ACT)
Barry Altschul’s 3dom Factor “Tales of the Unforeseen” (TUM)
Schlippenbach Trio “Features” (Intakt)
Em catalyticsound.com, Brötzmann,
Gustafsson, Love, McPhee e Vandermark, mais que ininterruptas solicitações às
suas carteiras, promovem um contínuo chamamento à capacidade que cada visitante
tem de hierarquizar o que aí vê. Em proporções mais modestas, mas nem por isso
menos inexplicáveis, a Leo prossegue a documentação do pico criativo de Ivo
Perelman: 21 discos nos últimos quatro anos! Com semelhante inclinação para o
extraordinário permanece a Clean Feed, com 43 lançamentos em 2015, entre os
quais se notabilizam os de Mario Pavone, Benoît Delbecq, Simon Nabatov/Mark
Dresser e Evan Parker/Joe Morris/Nate Wooley. Nas multinacionais: reedições de
reedições. Nos 40 anos da Hat Hut tornam a catálogo clássicos de Cecil Taylor ou
Anthony Braxton. Ao CD voltou a Xanadu. Foram-se Mark Murphy, Dave Pike, Phil Woods, John Taylor, Howard Rumsey,
Masabumi Kikuchi ou Ornette Coleman.
Zomba Prison Project “I Have No Everything Here” (Six
Degrees)
V/A
“Senegal 70” (Analog Africa)
Hongthong
Dao-udon “Bump Lam Phloen” (EM)
Elza
Soares “A Mulher do Fim do Mundo” (Circus)
Anouar
Brahem “Souvenance” (ECM)
Boubacar
Traoré “Mbalimaou” (Lusafrica)
Juçara
Marçal & Cadu Tenório “Anganga” (Quintavant/Sinewave)
Bassekou
Kouyaté & Ngoni Ba “Ba Power” (Glitterbeat)
Mary Afi Usuah “Ekpenyong Abasi” (Voodoo Funk)
Passo
Torto & Ná Ozzetti “Thiago França” (YB)
Dir-se-ia
reservado para cultores do insólito, mas, de repente, e mais que público, eis
que a nomeação para os Grammy acrescenta pungência a este CD gravado entre os
homens e as mulheres da Prisão de Segurança Máxima de Zomba, no Malaui, ao
mesmo tempo que diz alguma coisa acerca do mercado de música do mundo. Fora
isso, e apesar de mais um ano a ferro e fogo, cá está a embaixada maliana do
costume, à qual se poderiam adicionar os nomes de Samba Touré, Songhoy Blues,
Kandia Kouyaté ou Ballaké Sissoko. Também um período histórico de transição levou
Anouar Brahem a “Souvenance”, com data de 2014 mas lançado entre nós em janeiro
passado. À tríade arquivista deveria acrescentar-se Amara Touré e E. T. Mensah.
Por fim, três representantes brasileiros lembram que, aí, e parafraseando
Belchior, não se vive só dos estados de alma de rapazes e raparigas latino-americanos
com parentes importantes.
12 de dezembro de 2015
Alex Gibney “Sinatra: All or Nothing at All” (DVD Universal, 2015) & Frank Sinatra “A Voice on Air: 1935-1955” (Sony, 2015)
Foi Aileen Mehle quem o revelou em
primeira mão, a 24 de março de 1971, numa coluna que assinava sob pseudónimo (Suzy)
e que inúmeras publicações norte-americanas difundiam um pouco por todo o país:
“Sinatra vai fazer as coisas à sua maneira; reforma aos 55”. O recorte de
imprensa pode ainda hoje ser consultado no site
do “Chicago Tribune”: “Frank Sinatra, a estrela entre as estrelas, a voz que emocionou
milhões, vencedor de um Óscar, retira-se do mundo do espetáculo aos 55 anos.” Se
o texto parecia encomendado, é porque o foi. Aliás, no artigo, só a ostensiva
alusão a ‘My Way’ no cabeçalho dá mostras de ter escapado à revisão do próprio
Sinatra, já que, de resto, nada comprometia a modéstia do gesto que se vinha relatar.
Principalmente quando se aproveitava o ensejo para anunciar um concerto de
despedida com receitas a reverter para a caixa de previdência dos profissionais
da indústria do entretenimento. Só depois vinham as declarações do cantor, necessariamente
polidas pela humildade, agradecendo a generosidade do público ao longo de três
décadas e confessando a forma privilegiada em que “pôde comprovar o vínculo que
une homens e mulheres de todas as cores, credos, idades ou estatuto social;
aquilo que a humanidade possui em comum, e que, talvez mais do que todas as
outras, a linguagem da música consegue evocar.” O evangelismo da afirmação ficou
imortalizado numa manchete da revista “Life” desse ano: “Sinatra Says Good-by
and Amen”.
Como se sabe, e como era provável
que se soubesse de antemão, a reforma iria durar pouco. Mas, não fosse o diabo
tecê-las, a verdade é que ninguém poderia faltar ao apregoado concerto de
despedida. Foi de tal modo que, beneficiando da complacência da plateia da
primeira noite, Sinatra teve de o dividir em duas: a 12 de junho no Dorothy
Chandler Pavilion e a 13 no Ahmanson Theater, espaços contíguos no Music Center
de Los Angeles. A cerimónia teve o patrocínio da princesa Grace do Mónaco (que
havia contracenado com Sinatra em “Alta Sociedade”), realização de Vincente
Minnelli (que havia dirigido Sinatra em “Deus Sabe Quanto Amei”), e o seu
programa era guarnecido com os nomes de Bob Hope, Barbra Streisand, Dean
Martin, Sammy Davis Jr. ou Jack Lemmon. Sinatra escolheu pessoalmente os onze
temas que iria cantar. A ideia era a da sessão de terapia coletiva, presume-se,
para não dizer regressão coletiva, em que poria em revista a história da sua
vida e, por conseguinte, a história pessoal de todos quanto o escutavam.
Começou por ‘All or Nothing at All’, o seu primeiro êxito, e terminou com
‘Angel Eyes’, desviando-se do feixe de luz do holofote no momento exato em que
entoava o derradeiro verso da canção, “Excuse me while I disappear”, capitulando
no escuro como num drama de Shakespeare. Para muitos, esse alinhamento foi o
mais próximo que esteve de redigir a sua autobiografia.
É, por isso, apropriado que “All or
Nothing at All”, o documentário que Alex Gibney lhe consagrou
neste ano de centenário, se permita eleger narrativamente esse concerto de
despedida como fio condutor, ao qual torna uma e outra vez, quase sempre por via
da catarse. O que é o mesmo que dizer que é por intermédio das canções que mais
facilmente se tem acesso ao homem. É normal. Por um lado, porque, no fundo, foi
o canto que fez de Sinatra uma personagem irresistível, e porque, nesse
domínio, há vulgaridades que se vão repetindo ao longo da sua carreira, como
aquela, paradigmática, de Gordon Jenkins (orquestrador de não menos exemplares álbuns
de Sinatra como “Where Are You?” ou “September of My Years”), que proclamava
que “quando o Frank canta uma canção, acredita totalmente nela”. Por outro,
porque era por aí que dava vazão às suas mais ambíguas pulsões sem jamais abdicar
da clareza e subtileza dos seus modos, e porque, inevitavelmente, muito daquilo
que fazia quando não cantava servia para conjugar todo o tipo de resistências.
Mas que figura pública com a sua longevidade – e logo uma tão apta a pôr-se em
contacto com as mais profundas estruturas da existência moderna – não se vê em
algum ponto da sua vida sobrecarregada de afetos e desafetos? O filme está assombrado
por semelhantes inquietações.
“All or
Nothing at All” goza de uma relação privilegiada com alguém que, de certa
forma, se reputa como ‘biógrafo oficial’ (Charles Pignone, um dos seus produtores
executivos e autor de “Sinatra 100”), o que lhe permitiu ter acesso a
depoimentos de Nancy Barbato Sinatra (casada com Frank entre 1939 e 1951) e dos
seus filhos (Nancy, Frank Jr. e Tina), mas não se opõe à passagem de correntes que
sugerem uma versão menos convencional dos acontecimentos. Não obstante, no capítulo
em que examina as ligações entre Sinatra e a Máfia deixa no ar mais perguntas
que respostas. Por exemplo, ao contrário do que Mario Puzo popularizou em “O
Padrinho”, não embarca na velha história de que Tommy Dorsey só o libertou das
obrigações legais para com a sua orquestra quando recebeu a tal “proposta irrecusável”
(reza a lenda, a nada eufemística pistola de Willie Moretti, de quem Sinatra
era afilhado, apontada à cabeça), mas também se escusa a mostrar uma notícia da
“Billboard” que dá conta da compra do contrato de Sinatra por Jules C. Stein, patrão
da MCA. E é no mínimo curioso que dependa exclusivamente do que disse o cantor acerca
da sua viagem de finais de 1946 a Cuba. Isto é, quem ignore que a Conferência
de Havana, em que se reuniram os patrões das principais famílias do crime
organizado – de Lucky Luciano e Frank Costello a Don Vito e Sam Giancana –, incluía
um jantar de gala que tinha Sinatra como cabeça de cartaz corre seriamente o
risco de ficar convencido de que tudo não passou de uma enorme coincidência.
Mas
Gibney é menos púdico quando deixa recair a sua atenção sobre John F. Kennedy,
aceitando factos que Tina Sinatra vem há muito tornando públicos acerca do
papel que o seu pai desempenhou na aproximação dos Kennedy a Giancana por
altura das eleições presidenciais de 1960. Também o episódio que determinou o
rompimento definitivo entre os dois, em março de 1962, irrompe sem filtros.
Resumindo: depois de Sinatra ter gasto uma fortuna a construir o que apelidou
de Casa Branca ocidental na sua propriedade de Palm Springs, heliporto
incluído, o sempre concupiscente Kennedy, pressionado pelo irmão, Bobby, transferiu
à última da hora a projetada escapadinha de fim de semana com Sinatra para a casa
de Bing Crosby. Republicano, sim, mas fundamentalmente limpo de associações
criminosas e, mais significativamente, capaz de até aí conduzir Marilyn Monroe,
com quem o presidente terá passado a noite. Ou seja, o documentário afiança a
teoria de que foi a mágoa decorrente de tudo isto – da momentânea
desclassificação de Sinatra da nova aristocracia do poder político – que o afastou
do Partido Democrata e o levou até Reagan e Nixon. Está certo, mas não custava
dizer que só em 1986, quando Kitty Kelley, persona
non grata no seio do clã Sinatra, lançou “His Way: The Unauthorized Biography of Frank
Sinatra”, veio o assunto mais insistentemente a lume.
Seja como for, o documentário
nunca perde o fio à meada. Ao invés, a sua capacidade de seguir a par e passo a
biografia de Sinatra sugere um conjunto de ideias imperturbável, como se, por
osmose, do seu objeto tivesse absorvido alguma daquela singular serenidade. Como
um enorme fresco, cá estão os anos formativos, entre guerras, marcados pela
Grande Depressão, em que, apesar de tudo, aquele menino pálido e magro de Jersey,
com a parte esquerda do rosto marcada pelos fórceps que o trouxeram ao mundo, se
deixa fascinar pelas aptidões sociais da mãe, Natalina Garaventa, ao mesmo
tempo que, porventura de maneira inconsciente, se permite atrair pela
capacidade de introspeção do pai, Antonino. E aqui está igualmente o que tão
bem se conhece: a participação no concurso de talentos de Edward Bowes,
biscates em Nova Iorque, emissões da WNEW a partir da Rustic Cabin, aulas de
elocução com John Quinlan, o namoro e casamento com Nancy, o convite para
ingressar na orquestra de Harry James, e subsequentemente na de Dorsey, as
gravações iniciais e o arranque da carreira a solo, a estreia no Paramount, a sua
transformação em ídolo daquela legião de meninas de soquetes e saias compridas
que esperavam por si à porta dos teatros, rúbricas na rádio, a mudança para
Hollywood, filmes, casos com Marilyn Maxwell ou Lana Turner, o casamento com
Ava Gardner (que o arruinou), o progressivo decréscimo da sua popularidade até
que a atuação em “A Um Passo da Eternidade” lhe relança a carreira, a sequência
milagrosa de álbuns na Capitol, a não menos prodigiosa série de namoradas (mesmo
se acabava sempre por cantar ‘The Lady Is a Tramp’), a transferência para Las
Vegas e a formação do Rat Pack (cuja fama perdurável passou por “Onze Homens e
um Segredo”), a fundação da Reprise, a filantropia, o casamento com Mia Farrow,
o encontro com Jobim e aquelas duas décadas finais na estrada, saltando de
arena em arena, sucessivamente celebrado em vida, de que fica uma frase que
disse a Pete Hamill, autor de “Why Sinatra Matters”: “Talvez saibamos menos das
coisas à medida que envelhecemos”. Afligido pela demência e vítima de ataque
cardíaco, faleceu a 14 de maio de 1998.
O livro de Hamil acaba de
regressar aos escaparates, mas no mercado há mais duas mãos-cheias de edições, entre
as quais se destacam “Sinatra” (para a mesinha do café, limitado a 1000
unidades e à venda por 1300 euros), “Sinatra’s Century”, de David Lehman,
“Sinatra: The Photographs”, organizado por Andrew Howick, e, acima de tudo, “Sinatra:
The Chairman”, de James Kaplan, que, somada ao volume que a precedeu (“Frank:
The Voice”), se arrisca a tornar definitiva. Quanto a discos, são às dezenas as
reedições, muitas delas em vinil, e as antologias, entre as quais se recomenda “Ultimate
Sinatra” (4 CD, Universal), com registos entre 1939 e 1979, ou “Classic
Sinatra: His Great Performances 1953-1962” (3 CD Lucky Stars/Distrijazz), concentrada,
esta, no material da Capitol.
Mas é “A Voice On Air: 1935-1955”,
extraída a emissões radiofónicas protagonizadas por Sinatra, com dezenas de
inéditos e versões com orquestrações jamais publicadas, e que inclui participações
de Nat King Cole, Benny Goodman, Doris Day ou Slim Gaillard, que se prova a
peça que faltava neste puzzle. Dos pré-históricos Hoboken Four aos The Four
Sharps, da bravia banda de James à aveludada orquestra de Dorsey, de transcrições
de um programa como “Songs by Sinatra” às de “Frank Sinatra in Person”, eis o
cantor no centro da vida familiar e cultural norte-americana. Através da sua
audição, fica patente a gradual definição de um estilo tão destemido quão
vulnerável, tão exuberante quão reservado. O fraseado de Sinatra, solto e simples,
de uma imaginação interpretativa sem precedentes, tinha o sotaque do
instrumentalismo do jazz, das suas inflexões e sensibilidades extremas. Nunca a
divisão do ritmo de uma canção, que fazia flutuar, havia soado tão natural. Ele,
após décadas de enfáticos tenores e de encerados barítonos desprovidos de
emoção, com um domínio sobre a respiração a roçar o do mergulhador em apneia,
veio amaciar as esquinas dos poemas, das melodias, dos timbres, conferindo
dramatismo ao espectro integral de cada tema. A origem de tudo isto está nestas
gravações, ainda que só a partir dos 40, em LP como “In the Wee Small Hours”,
“Songs for Swingin’ Lovers!” ou “Only the Lonely” (todos com arranjos de Nelson
Riddle) tivesse assumido proporções sacramentais. O mundo das artes a braços
com o neorrealismo e Sinatra a cantar Porter, Gershwin, Berlin, Van Heusen,
Hart, Cahn, Kern, Styne, Mercer ou Hammerstein, como quem diz que, fachada por
fachada, preferia a do romance.
Era costume terminar um espetáculo brindando à assistência: desejava a
todos sorte e saúde, paz na terra, muito amor e carinho, e, invocando um velho
cliché, fazia votos que chegassem aos 100 e que fosse a sua a última voz que ouvissem
– tivessem todos essa sorte.
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