Nas notas de apresentação, Avdeeva discute Chopin
com o jornalista Michael Stallknecht, o que, por estes dias, e seis anos após
ter obtido o primeiro lugar no Concurso Internacional de Piano Frédéric Chopin,
significa ainda falar do polaco como se estivesse a falar de si, ou o inverso, tanto
faz. “Foi naquele período imediatamente anterior ao concurso que mais me
aproximei de Chopin”, relembra, “E tentei mergulhar a sério no seu tempo, não
me limitei a estudar a sua música: li livros dos seus contemporâneos; vi
fotografias de época; visitei muitos dos sítios em que ele viveu; fui a Nohant,
por exemplo, onde ele passou um verão com George Sand, ou até a Valldemossa,
em Maiorca.” Se, como Chopin e Sand, foi à ilha espanhola no inverno, é
provável que, tal como escreveu Akhmátova, tenha descoberto que “é impossível
viver sem sol o corpo e a alma sem canção”, o que é já uma importante lição.
Embora, em matéria de citações, a visão que tem de Chopin se possa sintetizar
por aquele famoso aforismo de Sand, o de que “não há coisa mais difícil de
obter no mundo do que a simplicidade: é o último reduto da experiência e a
derradeira demonstração do génio”. Mas o que a moscovita também parece dizer é
que abraça o cosmopolitismo à medida que os seus conterrâneos o vão rejeitando.
Aliás, escuta-se a sua interpretação da “Fantasia em Fá menor”, Op. 49, e
sente-se uma espécie de saudade, como se a pianista estivesse a descobrir
demasiado tarde o mundo a que aspiraria pertencer. É um sentimento praticamente
aristocrático. Também o seu Mozart – no caso, através da “Sonata para Piano Nº
6 em Ré maior”, K. 284 – é claro e conciso, quase conservador. Inesperadamente,
é na “Sonata Após uma Leitura de Dante”, de Liszt, que surge mais livre e
descomplexada e aventureira e cheia de esperança.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
10 de setembro de 2016
3 de setembro de 2016
William Parker “Stan’s Hat Flapping in The Wind” (Centering, 2016)
Em ‘The End of the World’, logo a abrir, pode
ouvir-se: “Rio-me entre as nuvens/ E o choro delas chama-se chuva/ É o fim do
mundo/ É lindo”. Em ‘Autumn Song’, mais adiante, “caem pétalas de rosas, tão
suaves e fragrantes pelo prado”, enquanto em “For Jeanne Lee” é a música “que
pinga o chão”. Separadas no alinhamento por uma dúzia de temas, há uma
afirmação (“A maior das revolucionárias chama-se rosa”) e um par de
interrogações (“Se os poetas fossem rosas? Se as rosas fossem poetas?”) que se
relacionam entre si e se cruzam com muitas coisas mais. Em ‘The Death of Death’
o condutor da ação dá com um “diabo de cabeça enterrada na areia, sorriso
arreganhado e pés mergulhados em petróleo” para, depois, em ‘Mahalia’, se ver “cercado
por anjos, altos como árvores”. Como de costume na lírica de William Parker, o
que aqui se evoca é a transição e a transcendência ou, por outras palavras, a
importância cultural do rito de passagem.
No caso, vem tudo à boleia de um
projeto que o contrabaixista persegue desde 1994: a criação de um musical (“Stan’s
Hat Flapping in the Wind”, precisamente) para o qual compôs já 60 canções e do
qual, agora, num recital de piano e voz em que intervém exclusivamente como
compositor, faz derivar 19. A sinopse: Stanley Greybeard, ameríndio, tem uma
iluminação; é-lhe declarado o fim do mundo e anunciado que só o som o virá a redimir;
acompanhado da mulher, Marilyn, judia, deverá partir em busca do ponto de
origem da música sacra, feita de “amor, piedade e compaixão”; mas antes
encontrará “anjos, demónios, montanhas que dançam, árvores que falam, flores
que andam” e, fundamentalmente, “músicos cósmicos” (há dedicatórias a Ornette
Coleman, Butch Morris ou David S. Ware) que lhe indicarão esse “corredor de luz”
que é o seu destino final. Como não poderia deixar de ser, é uma história profundamente
atávica. E vem também de há muito este impulso de Parker em elevar o
instrumentista à condição de xamã e a música à de agente do destino. Há uns vinte
anos, numa entrevista à “Soundboard”, dizia assim: “Cada vez que tocas podes
entrar numa espécie de corredor de luz. E se encontrares as combinações certas
de tons há uma porta que se abre. Por detrás dela estão os segredos da
existência.” Dir-se-ia que a cada disco que lança os vai revelando mais um
pouco.
Hawniyaz (Harmonia Mundi, 2016)
Em julho de 2011, em vésperas de se
apresentar no 18º Festival de Jazz de Istambul com o projeto “Mujeres de Agua”,
Javier Limón dava uma entrevista ao diário “Zaman”. Falava de traços culturais
comuns aos países do Mediterrâneo e, a certa altura, puxando a brasa à sua
sardinha, o jornalista pergunta-lhe pela cantora Aynur (Dogan). “Tem a voz de
uma guerreira”, respondeu o produtor, “além de que possui aquele tom lamuriento
que é característico do cantar cigano”. No dia 15, ao lado de vocalistas gregas,
israelitas ou espanholas, Aynur pôs-se debaixo do holofote e seguiu pelo
labirinto melismático do flamenco até que, na sua língua materna, a curda, entoou
uma canção de amor. Notou-se algum mal-estar entre o público, um ou outro berro
rompeu com o silêncio protocolar, cuspiram-se para o ar versos da “Marcha da
Independência” e, de repente, a voz da cantora foi varrida por uma vaia:
exigiam que cantasse em turco. Aynur ficou a olhar para a assistência, sem saber
se haveria de rir, chorar ou lutar, até que saiu de palco. Um ano mais tarde atuava
no festival Morgenland, de Osnabrück, e, respondendo ao desafio de Cemîl
Qoçgirî (instrumentista alemão de origem alevita), aceitou participar num
ensaio com dois músicos que admirava mas que não conhecia pessoalmente: o
iraniano Kayhan Kalhor e o azerbaijano Salman Gambarov, também presentes na
edição desse ano do festival alemão. O encontro foi captado em vídeo: vêem-se
os dedos de Gambarov a poisar nas teclas do piano com a solenidade de um cego
que se prepara para revelar ao mundo um importante texto em braille, ouvem-se notas hesitantes no kamancheh de Kalhor, como o gaguejar de uma
criança que aprende a ler, e um arpejo na tambura de Qoçgirî anuncia uma
cantilena vinda de tempos imemoriais. Hoje perguntam a Aynur o que sentiu
quando tocaram juntos pela primeira vez e ela responde que foi como chegar a
casa. “Hawniyaz”, que, em curdo, quer dizer “precisamos todos uns dos outros”,
é música para quem ainda procura o caminho.27 de agosto de 2016
Chin: Live Recordings (Casa da Música, 2016)
Remontam a 2014, estas gravações, quando Unsuk Chin (n.
1961) foi a Compositora em Residência na Casa da Música. Note-se, aqui, o
“Concerto para Violino” (2001), com a presença de Viviane Hagner e Ilan Volkov,
uma peça absolutamente estranha e idiomática, ainda que possua estrutura
eminentemente clássica, com “o andamento de abertura seguido de um andamento
lento, e depois um scherzo e finale”, como bem apontou Habakuk Traber.
Ao contrário do que viria a acontecer no “Concerto para Violoncelo” (2009/2013),
por exemplo, solista e orquestra não estão em permanente oposição, nem a seta
do tempo aponta tão decididamente num sentido só. Aliás, comparada com uma
gravação anterior, Hagner consegue agora um equilíbrio maior entre o
virtuosismo coletivo e a violência individual que a peça pede. A certa altura dá-se
uma suspensão narrativa ao nível dos principais acontecimentos, como se
convergissem para o mesmo espaço dois universos de ordens distintas, o que
remete para uma declaração de 2003 da sul-coreana: “A minha música é um reflexo
dos meus sonhos. Eu tento converter em música as visões de luz imensa e a
incrível magnificência de cores que vejo flutuando pelo quarto (…) e ao mesmo
tempo formando uma escultura sonora.” Esta frase poderia aplicar-se a “Rocaná”
(2008), que significa “sala de luz”. Num andamento contínuo, de cerca de 20
minutos, é muito o que ilumina e ilude, revela e reserva, encandeia ou engana,
nomeadamente quando associado à perceção do comportamento dos raios de luz,
suas “distorções, refrações e ondulações”. Ou seja, é uma obra que questiona permanentemente
as relações entre as entidades físicas, que é fugidia, fluida, fugaz. Nessa
perspetiva, que contraste proporciona a audição de “Gougalon (Cenas de um
Teatro de Rua)” (2009/2011), uma das obras-primas de Chin, com o Remix Ensemble
capaz de absorver e projetar toda a ironia e emoção da peça, ora
transformando-se numa exuberante orquestra de gamelão, ora invocando a
languidez de uma banda de lupanar.
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Pascal Niggenkemper 7ème Continent "Talking Trash" (Clean Feed, 2016)
Não há uma designação irrevogável
para as concentrações de detritos que se encontram à superfície dos oceanos e
que possuem como paradigma aquela que se vai apelidando de Grande Depósito de
Lixo do Pacífico ou, na caracterização de Charles Moore, Grande Sopa de Lixo do
Pacífico. Em “Moby-Duck”, de Donovan Hohn, também Curtis Ebbesmeyer recorre à
metáfora, aproximando-a aos giros oceânicos: “É o que acontece quando mexes a
sopa com a colher e ela continua a rodar uns segundos”. Falando acerca da
acumulação de materiais não biodegradáveis no Giro Pacífico Norte pela ação das
correntes marítimas, dizia: “Velejavam por aí conhecidos meus até repararem num
frigorífico aqui, num pneu acolá, boias de vidro de antigas redes de pesca a
perder de vista, plástico por todo o lado.” A descrição traz à memória a passagem
das “Vinte Mil Léguas Submarinas” em que o Náutilus atravessa o mar de sargaços.
Também o cartaginês Himilcão terá referido uma zona algácea em que “bestas
marinhas se movem vagarosamente”. Hoje, trabalhos de investigação como os de Moore
obrigam a substituir os sargaços pelos plásticos e a admitir que mesmo nos
oceanos não há besta maior do que o Homem. Numa área superior a um milhão de
m2, Moore recolheu amostras desse caldo pestilento que batizou de “sopa
plástico-planctónica” e no qual se reconhecem consequências devastadoras para o
meio ambiente e para a cadeia alimentar. Na arte, que não apenas no fotojornalismo,
a câmara de Susan Middleton retratou a situação ao imortalizar o cadáver de um
albatroz que tinha morrido de fome com o bucho cheio, com 250 fragmentos de
plástico nas entranhas.
Agora é o contrabaixista Pascal Niggenkemper a deixar-se
inspirar por tudo isto, por esta “absurda realidade”, com o objetivo de levar esse
“sétimo continente a cantar, chiar, zunir, zumbir e gritar”. O resultado, como
se pode imaginar, aproxima-se da música concreta e, até, da música industrial,
com os pianos preparados de Eve Risser e Philip Zoubek entremeados de objetos
enferrujados e pedaços de madeira, os clarinetes de Joris Rühl e Joachim
Badenhorst imitando guinchos de aves marinhas e o conjunto de flautas de Julián
Elvira, que mais parece a canalização do Náutilus, como que saído das
profundezas. Dotado da fantasia que o tema desmerece, é também deslumbrante.
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