Chegou
a ter lançamento previsto noutra editora, esta integral da obra para piano e
quarteto de cordas. Mas, por vicissitudes várias, o seu volume inaugural apareceu
na Toccata na exata semana em que a Capriccio colocou no mercado um CD de Artur
Pizarro com ponto de partida nas “Nove Danças Breves” e que, sempre de Fernando
Lopes-Graça (1906-94), a Naxos publicou a obra completa para violino e piano e
violino solo interpretada por Bruno Monteiro e João Paulo Santos. O que só
prova que, de facto, não há fome que não dê em fartura ou que, no que toca a
Portugal, enquanto o diabo esfrega um olho se passa da disforia à euforia. Seja
como for, seria grotesca a evocação de tão contrastantes estados de espírito se
os mesmos não se provassem indispensáveis ao entendimento desta música. Em
“Canto de Amor e de Morte”, a obra que reúne Prats ao quarteto e em que, já
agora, sentada ao piano do compositor, a pianista toca visionariamente como se
fosse possível detetar o primado da utopia onde ela a todo o custo permanece
oculta, muito daquilo que se ouve dá mostras de resultar de uma infinita
solidão, procedendo de um período de visceral ambiguidade em que, por vezes, a
relação de Lopes-Graça com as suas criações lembra o gesto da mãe que sufoca os
filhos de tanto os apertar. No “Quarteto de Cordas Nº 1” e na “Suíte Rústica Nº
2”, Luís Pacheco Cunha, Anne Victorino d’Almeida, Isabel Pimentel e Catherine
Strynckx transferem-se para um folclore da imaginação, consanguíneo ao dos
modalismos regionais, primeiro, e inçado, depois, pelos ecos de uma insurreição
que se supunha à escala mundial.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
10 de janeiro de 2015
Charles Lloyd: “Arrows Into Infinity” (ECM, 2014) & "Manhattan Stories" (Resonance, 2014)
O seu discurso é
quase sempre alegórico. A uma estação de rádio japonesa, por exemplo, conta coisas
de quando nasceu: “Sou de 1938, [do signo] de Peixes. E, mesmo antes de vir ao
mundo, em Memphis, registaram-se as maiores cheias ocorridas na história da
região. Toda aquela água para que eu pudesse simplesmente seguir na corrente.”
De frente a si, incrédulo, o jornalista Kiyoshi Koyama vai abrindo a boca e
assentindo até lembrar uma personagem de Miyazaki a registar espanto. Lloyd sugere
aquele “sentimento oceânico” que chegou, via Romain Rolland, de Ramakrishna a
Freud e que, mais adiante no documentário, Herbie Hancock distingue desta maneira:
“Ele tinha o seu próprio som. Ninguém alguma vez soou assim, captando uma certa
fluidez, quase como que imerso num rio, produzindo cascatas de som que
praticamente possuíam aspetos ambientais.” O retrato ajusta-se na perfeição
àquele que, como poucos, no jazz saudou a chegada da Era de Aquário.
Aliás, Lloyd visita
a biografia como quem dá conta de uma inevitabilidade: “Phineas Newborn Jr. era
o nosso Bach”, “Duke, Basie ou Dinah, quando era pequeno, costumavam hospedar-se
em minha casa, e eu, de manhã, ficava à espera que se levantassem, cheio de
perguntas para lhes fazer”, “adquiri experiência ao lado de Howlin’ Wolf, B. B.
King ou Bobby Bland”, diz, e não se percebe se está a referir-se àquilo que se
aprende na escola, na igreja ou ao que se fica a saber apenas quando às duas se
falta. Ou invoca intervenções do destino: “Em finais de 50 fui para Manhattan como
se vai a Meca e arranjei quarto no Alvin, defronte do Birdland. Dou de caras
com o Booker Little, que tinha sido meu colega de liceu, e ele pergunta-me: ‘Onde
é que estás a ficar?’ Respondi-lhe que estava na maior, num hotel, e ele
disse-me: ‘Isso é que não, vens comigo para minha casa. Não estás aqui para
viver na maior, mas sim para trabalhar no teu caráter.’ Ele tinha 21 anos e uma
alma perfeitamente realizada.”
Até que Buddy
Collette o recomendou a Chico Hamilton e parte para a Califórnia. Recorda
Michael Cuscuna: “Entre 1962 e 1963, a sua combinação com Chico, Gabór Szabó e
Albert Stinson parecia feita no céu. Gabór, então, dava vida a tudo o que
Charles escrevesse.” Noutro depoimento, o diretor da Mosaic é corroborado por
Robbie Robertson: “O Charles era mais aberto e imaginativo do que muitos músicos
de jazz do período… e quando arranjou aquele guitarrista húngaro foi demais”. Foi
há pouco lançado precisamente um fascinante inédito que ilustra isso que o
fundador dos The Band acha indescritível: “Manhattan Stories”, um par de
registos ao vivo, de 1965, do grupo de Lloyd com Szabó, Ron Carter e Pete La
Roca, ou seja, o quarteto de “Nirvana”, o LP que a Columbia só editou em 1968. Temas
que em disco – em “Of Course, Of Course” – pouco passavam os cinco minutos,
chegam aqui aos 12 ou aos 17, cada extenso solo uma fórmula mística a despontar
na consciência dos seus executantes.
Claro que a
etapa que se lhe seguiu, a do quarteto com Keith Jarrett, Cecil McBee e Jack
DeJohnette, é que dá mostras, essa sim, de estar no jazz apenas pela capacidade
que o jazz tem de se revelar um instrumento universal. Há no DVD um clipe em
que não se imagina um grupo a poder dar mais de si, até que, em simultâneo,
Lloyd dá uns passos para o lado para se alinhar novamente com o microfone,
Jarrett centra o banco do piano, DeJohnette corrige a posição da tarola e McBee
levanta a cabeça das cordas do contrabaixo olhando à sua volta para ver onde
está, como se estivessem todos subitamente de volta à mesma dimensão. Mas, está
escrito, tudo se extinguiu e ao documentário resta remexer nas cinzas. Com
candura, Lloyd fala das décadas de 70 e 80 como uma criança que descobre que é preciso
aceitar a tristeza para se sentir a alegria. Dos últimos 25 anos de gravações
para a ECM há muitas imagens mas pouco mais se descobre do que isto: cada
ocorrência é uma bênção e só o momento atual interessa porque, lá está, o que
aqui começa pode bem durar até à eternidade.
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Anouar Brahem "Souvenance" (ECM, 2014)
Dir-se-ia marcada pela espera, esta música. Mas nem
mesmo Brahem parece saber do quê. “Talvez por essa razão tenha ido buscar uma
palavra em desuso”, confessa, ao Expresso, em Munique, há coisa de um mês, aludindo
ao título do seu novo CD. Toma gosto ao sal dos conceitos e conclui que, para
si, mais do que qualquer intuito memorialista, e porventura agindo de acordo
com um impulso desprovido de fundamento etimológico, o termo souvenance evoca “algo de mais vago”,
prossegue, “a ideia de uma experiência que simplesmente impregna.” Ao longo da
conversa, mantida por ocasião da estreia europeia desta obra para alaúde,
quarteto e orquestra de cordas que Brahem levará à Gulbenkian, em Lisboa, dia
28 de abril, essa “experiência” ganhará muitos nomes, mas jamais deixará de
representar um essencial desfasamento em relação a factos concretos. É uma
forma de se defender dos artifícios de que a realidade se compõe e, em
simultâneo, de desafiá-los. Porque, no fundo, embora fale neste disco dos
“extraordinários eventos que abalaram a vida de milhões de indivíduos”, Brahem
resiste à politização. Sim, há por aqui temas com designações como ‘Kasserine’,
‘January’ ou ‘Improbable Day’ que remetem para a alvorada da Primavera Árabe e
subsequente queda do regime de Ben Ali, na sua Tunísia natal, mas a música,
essa, não deixa de falar um idioma muito particular, que, com efeito, é exclusivamente
praticado por aquele que a compôs. Está, assim, em permanente enunciação esta
pequena obra-prima de espírito e estilo: da vida, reúne o consolo e o
desconsolo, a ilusão e a desilusão, mas, como é costume com Brahem, carrega a
mágoa rebuçada em melancolia e desembaraça-se da rede de seriedade que ele
próprio vai lançando quando delicadamente canta como, enquanto espera, junto ao
mar canta o pescador.
3 de janeiro de 2015
Verckys et l’Orchestre Vévé "Congolese Funk, Afrobeat & Psychedelic Rumba 1969-1978" (Analog Africa, 2014)
Viviam-se tempos eminentemente pragmáticos, em
Kinshasa. Do sistema de partido único de Mobutu, por exemplo, decalcava-se a bronzeada
blindagem da invulnerabilidade. Acerca de Verckys lê-se o seguinte em “Rumba on
the River”: “Audaz e ambicioso, com uma ideia de si próprio que excluía a noção
de fracasso, ninguém teve um impacto assim tão grande na indústria musical do
período.” Gary Stewart, autor dessa enciclopédia da música popular dos dois
congos publicada em 2000, não faz por menos. No capítulo em que toma nota das
movimentações que acompanharam a alvorada da década de 70, de uma
arregimentação sem precedentes, o nome do saxofonista, compositor, chefe de
orquestra, editor e produtor praticamente salta a cada página. Conta-se o seu
estágio de seis anos na OK Jazz, de Franco, relata-se a sua emancipação, em
abril de 1969, quando se estreia no emblemático Vis-à-Vis com a recém-fundada
Orchestre Vévé, e identifica-se a sua mão por trás do êxito das orquestras Bella
Bella, Empire Bakuba, Lipua Lipua, Kiam ou Zaïko Langa Langa. Em junho de 1972,
sete dos dez discos mais vendidos no Zaire traziam a sua assinatura. Em 1974,
logo após o combate entre Ali e Foreman, a revista “Likembe” fazia capa com uma
fotografia que exalava suor: Verckys e James Brown atuando em conjunto. Curiosamente
tamanha glória jamais se transferiu para a era do CD, ainda que, aqui, a Analog
Africa nem colija sucessos, consagrando-se antes à reunião de raridades. O
retrato é extravagante e essencial e aquilo que à primeira vista é ridículo
parece inevitável à segunda, alegoria para toda a música que há no mundo.
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Entrevista a Ondina Pires, autora de "Biografia Autorizada de Victor Gomes: Juntos Outra Vez"
Ondina Pires é perentória: “Foi um
susto! Era inevitável entrar por aqui adentro mas ninguém estava preparado para
aquilo. Talvez por isso se tenha mantido um corpo externo à nossa própria
realidade.” Fala, claro, da chegada do rock’n’roll a Portugal, ali entre finais
de 50 e inícios de 60, e logo dá uma achega quanto à sua progressiva
assimilação pelo bucolismo mais ufano e pelo urbanismo mais pueril. Afinal,
tudo se passava sob as vistas horrorizadas da brigada dos bons costumes e
impunha-se contrariar os ferinos instintos de um estilo que apelava permanentemente
ao escândalo. “De repente”, prossegue, “o que tínhamos por cá era um rock
assexuado e inofensivo, e isso chocou o Victor. Aliás, se pudéssemos concentrar
a ação inicial do Victor num manifesto seria precisamente esse, o de cantar o
que ele chama de verdadeiro rock, o rock’n’roll à americana, em inglês, rebelde
e selvagem, proibido e fascinante, como quem mostra à metrópole que isto não se
trata de mais uma cançoneta ou de um fadinho qualquer.”
Vindo de Luanda, após adolescência
e infância passadas num Moçambique prenhe de eventos, Victor Gomes aterra em
Lisboa em abril de 1963. Virá a deixar a cidade, e o país, em dezembro de 1967,
para só regressar em definitivo no início da década de 90, e, bem sabe quem
conhece o meio, à sua passagem deixou a terra queimada, um rastro de pragas. Além
de um interessante acervo fotográfico, Ondina reuniu escritos diversos com
origem em publicações como “O Século”, “Diário Popular”, “Crónica Feminina” ou “Plateia”
e o que sobressai é uma sequência de “esgares e piruetas”, um vórtice de “doença”,
“frenesi”, “loucura” e “fúria”, uma contínua caricatura que o cronista
Sebastião Leiria, no “Jornal do Algarve”, em agosto de 1964, assim sumariou: “Depois
de Victor berrar os sete farrapos em várias posições, berra de cócoras muito
irritado, não se sabe porquê. Os demais Gatos também se põem de cócoras. Depois
arroja-se ao chão, os Gatos também. Tudo estendido a coçar a barriga. Então Victor
põe o microfone de pés para o ar e reboleia-se no sobrado, lembrando os
besouros quando de barriga para cima se querem voltar.”
A cada concerto, conjugando o
desconhecido, Victor Gomes diz às audiências nacionais que a experiência do rock
lhes é tão estranha que nem a língua em que falam a pode representar. “Essa
questão é importantíssima e ninguém a mencionou”, acrescenta Ondina. “O Victor,
de Lourenço Marques, veio com o inglês debaixo da língua e chegou a um país de
agudíssimos atrasos. E, conhecendo o repertório que ele dominava [Elvis
Presley, Little Richard, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, Gene Vincent, etc], é
óbvio que a censura também não o entendia lá muito bem.” Quando Vasco Morgado
se lembrou de colocar Victor Gomes e os Gatos Negros a tocar num palco
improvisado em pleno Saldanha, a sua arguta réplica a uns agentes da PIDE que
lhe questionaram as intenções ilustra este paradoxo na perfeição: “Os senhores
não se preocupem: isto é apenas rock”. De súbito, os multifários e inefáveis
expoentes comportamentais reclamados pela música jovem das democracias modernas,
que Victor imitava, ganhavam exposição no centro de uma capital envelhecida e subdesenvolvida
e eram augúrio do que poucos se permitiam imaginar: um novo posicionamento de
Portugal perante o mundo.
No entanto, contrapõe Ondina: “Se
dissermos ao Victor que a sua ação no período é eminentemente política, ele não
o vai aceitar.” Provavelmente por recusar-se a admitir a instrumentalização que
aí se implica. E, depois, porque é evidente que não gerou descendência. Que ninguém
ousou aproveitar-se da originalidade que preconizou. “Falando com o Victor”, insiste,
“nota-se o agasto causado pela tomada de consciência de que lhe era impossível
ter feito mais. Que tudo em seu redor permaneceu muito bem-comportado e
politicamente correto. Quando fez parte de júris dos Concursos de Ié-Ié [a
partir de 1965] começou a aborrecer-se. Achava que não tinham aprendido com o
seu exemplo e sentia falta de figuras ferozes em palco. Até que dá o rock por
morto e enterrado e se vira para a música ligeira. Mas com aquela energia
erótica e insubmissa, a partir microfones, a gritar, a empurrar os colegas da
banda, a saltar para o público e a arrastar-se pelo chão, fico com a impressão
que havia mais gente na altura a desejar ter sido como o Victor mas que não
teve coragem, a quem faltou garra e a necessidade física de extravasar tudo
aquilo daquela maneira.”
É um retrato que fica por fazer.
Este “Juntos Outra Vez” – título inspirado na única gravação que Victor
realizou nos anos 60 – termina com a seguinte nota: “Muitos [dos] que
conviveram ou ainda convivem com o Victor Gomes foram contactados. Grande parte
deles não respondeu ou deu evasivas.” Ondina revalida o desabafo: “Há um
embaraço crónico em relação ao passado neste país. Tudo indica que se preferem
mascarar os factos relativos às décadas de 50, 60 e 70. Há uma enorme falta de
confiança e pouquíssima autoestima. Este passar com uma esponja por cima dos
assuntos também é um sinal de carência de amor-próprio.” Põe mais
deliberadamente o dedo na ferida: “Não é nada simples dedicar uma biografia a
uma pessoa viva e ela própria muito complexa. As fontes históricas são raras e ocasionalmente
anedóticas. Procuro confirmar testemunhos e encontro impaciência e indignação.
A maioria das pessoas do tempo do Victor – músicos, bailarinas, promotores, jornalistas,
fotógrafos – preferiu não falar. Parece que toda a gente tem medo de toda a
gente, que toda a gente tem vergonha de toda a gente.”
Se fosse um filme, e Ondina recorre
com frequência a técnicas narrativas associadas à escrita para cinema, “Juntos
Outra Vez” teria a metade passada em Portugal a preto e branco e, apesar de
tudo, a metade passada em África a cores. Em 1968, quando Victor viaja por
Moçambique a atuar para as tropas, a convite do Movimento Nacional Feminino, dá
uma entrevista ao “Notícias da Beira” em que diz que o “ambiente artístico
metropolitano é terrivelmente artificial”, que está rodeado de “mesquinhez” e
“cinismo”, que os artistas se tentam “queimar uns aos outros”, entre “invejas e
intrigas”. Ondina confirma que estes momentos de disforia se repetem no
percurso de Victor: “Seria uma forma de viver em paz no presente, esse acertar de
contas com o passado. Mas há muitos assuntos que ele não quis abordar. Olha-se
para o que ele diz e pensa-se imediatamente: foi mesmo assim?” Em privado, discuta-se
o assunto com contemporâneos seus que não vão faltar diferentes versões para os
mesmos acontecimentos. Mas, sob certa perspetiva, antes de se dirigir ao
cidadão, o que o rock exemplarmente sintetiza é essa submissão aos variados e
contrastantes pulsares do indivíduo.
Quantas vidas teve Victor? Houve a
do menino do Alto do Pina que aos seis anos é subitamente levado pela família para
Lourenço Marques para logo se ver deixado aos cuidados dos salesianos no
Instituto Mouzinho de Albuquerque; a do miúdo que, à caça e à pesca, explorava
as pastagens e os lagos na fronteira com a Suazilândia e que, nunca tendo
recebido visitas dos pais, pedia todos os anos pelo Natal uma pressão de ar; a
do rapazote que, no dia a seguir a ter feito 15 anos, fugiu do instituto para,
meses depois, andar pelos prostíbulos da rua Araújo com “poupa cheia de
brilhantina, jeans, blusão de ganga
de gola levantada e atitude desafiadora”; a de aprendiz de soldador que queria
cantar; a de futebolista no Sporting Clube de Lourenço Marques, hoquista no
Sindicato ou pugilista no Desportivo de Malhangalene; a de vedeta instantânea,
vencedor de “A Hora do Caloiro” no Rádio Clube de Moçambique; a de prematuro
pai de família tornado caçador; a de regressado ao mundo do espetáculo e
imigrado em Angola com a coroa de ‘Rei do Rock’; a de retornado a Lisboa com
nome feito no teatro de revista, no concurso do ‘Rei do Twist’, no cinema, no
circuito do Maxime, do Fontória, do Ritz, de uma cidade que crescia em volúpia
e violência a cada madrugada; a daquele que se fixou na Rodésia deixando uma
mulher em cada porto; a de criador de gado que teve uma fazenda em Balla Balla
e que mais tarde foi mercenário; a de soldador em Inglaterra e França; a de
carismático crooner no T-Club, no
Espelho d’Água, em Belém, entregue à gestão das suas memórias e a uma plateia
que sabia invejar a sua juventude. Certamente tantas mais.
“O Victor nunca esteve
completamente consciente do seu valor simbólico. Não tem noção de que significou
a mudança”, deduz Ondina. A imagem que fica desta sua biografia é de um homem
incapaz de esconder a sua natureza e de assumir a sua vulnerabilidade. A de
alguém que não se quis reduzir a nenhuma ideologia que não aquela plasmada na sua
provocante incoerência. Que encontrou no rock “uma família adotiva”, concorda a
autora, “uma maneira de conquistar algum exibicionismo social e de fazer frente
ao que achava injusto”, num género espúrio, de natureza híbrida, capaz de abalar
hierarquias e de pôr em andamento processos de emancipação e participação face
aos quais permaneceu muitas vezes ignaro. “Ele é muito contraditório
politicamente, revolucionário numas coisas, conservador noutras”, resume
Ondina. “Talvez se possa dizer, até, que viveu o rock mais do que o cantou.
Ainda que profundamente ambíguo é um elogio que se lhe pode fazer. Neste país
em que a história vai com o vento, em que a tendência é a da regressão cultural
e que o desinteresse e o desafeto parecem epidémicos, quis salvaguardar as
estórias do Victor, mesmo se ele não gosta de perder tempo a pensar nas coisas,
se a ideia que deixa é a de alguém forte mas teimoso, a caminhar pelo mundo
como uma imparável força da natureza, sempre a avançar, só coração.” Um coração
independente.
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