No último número da revista “Down
Beat”, Rudresh Mahanthappa explica assim este seu álbum em que faz uma
extraordinária evocação de Charlie Parker: “É como quando Picasso pintava um
rosto feminino, deslocando um olho do sítio e dando-lhe uma aparência
completamente diferente e única: vejo muito do que faço como se fosse Charlie
Parker com o olho fora do lugar.” Fala, portanto, de ângulos e assimetrias, de memória
e movimento. Concilia um expoente artístico com uma estratégia comercial. Nada
que não se dê com assinalável frequência. Aliás, ainda há coisa de uma semana,
na Semana da Moda de Paris, as modelos no desfile de Simon Porte Jacquemus
avançavam pela passerelle como que
saídas de “Les Demoiselles d’Avignon”, com um terceiro olho, uma segunda boca e
um segundo nariz pintados na face. Dir-se-ia que, na sua mais pueril expressão,
de uma ingenuidade praticamente calculada, postulava-se a possibilidade da arte
sob a égide do comércio mediante a sua inesgotável capacidade de encantar e
espantar e embaraçar os signos de que se reveste o real. Também aqui, por um
lado, se trata de uma tomada de consciência da história e dos convencionalismos
em que é prenhe e, por outro, de uma aproximação ao inconfundível poder de
sedução da ambiguidade. Isto, porque possui um vernáculo muito pessoal,
Mahanthappa: com os seus próprios ardis e recursos, avanços e recuos. Onde “Bird”,
quiçá por intermédio de Lester Young, se socorria do blues, vale-se por exemplo Rudresh da música clássica indiana ou do
jazz de fusão, sem chegar jamais a trair a manifestação das suas íntimas
convicções. Cultivando a energia cinética da citação, porquanto se veja grego o
ouvinte que busque aqui os originais de Parker, e com Adam O’Farril no trompete,
Matt Mitchell ao piano, François Moutin ao contrabaixo e Rudy Royston na
bateria, produziu um dos mais engenhosos, estimulantes e enigmáticos discos de
2015.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
14 de março de 2015
Rudresh Mahanthappa “Bird Calls” (ACT, 2015)
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Scriabin: Œuvres Mystiques Pour Piano (Bayard, 2015)
Em
abril de 1915, quando morreu, eram tantos a querer dele se despedir que, no
cemitério, se tiveram de impor oficialmente limites à admissão dos enlutados. 100
anos depois, quando de Scriabin pouco mais se lembra do que a forma peculiar em
que racionou a tonalidade, é pela publicação da “Obra Completa”, na Decca, que
se aguarda, em particular pelas seis dezenas de primeiras gravações às mãos de Vladimir
Ashkenazy e Valentina Lisitsa que essa coleção em 18 CD presumivelmente contém.
Entretanto, há outras movimentações de nota em torno do excêntrico universo do
compositor: a BIS lançou o “Concerto para Piano em Fá sustenido menor”, na
interpretação de Yevgeny Sudbin, e a Hyperion reeditou antologias de Piers Lane
consagradas aos seus “Prelúdios” e “Estudos” e colocou no mercado uma integral
dos “Poemas” pelo norte-americano Garrick Ohlsson. Também a Bayard foi aos
arquivos resgatar este importante registo, originalmente produzido pela
parisiense Studio SM, em 1997, e através do qual se apresentou a primeira
versão completa do opúsculo 52 (“Três Peças”, de 1906) e se estreou “Tombeau de
Scriabine”, de Manfred Kelkel, um prelúdio construído pelo musicólogo em torno
dos esboços de “L’Acte Préalable”, parte do inacabado “Mysterium”, projetado para
uma apocalíptica récita no sopé dos Himalaias que, entre outras coisas, através
de “orquestra, coro misto, efeitos visuais, bailarinos, uma procissão e incensos”,
teria como fim definitivo nada mais, nada menos, do que o Armagedão. Como
poucos, Jean-Pierre Armengaud sabe que tudo isto são símbolos voláteis, e
talvez por isso tenha decidido regravar um trio de peças, aqui incluídas, entre
as quais se destaca a inexorável “Para a Chama” (o Op. 72, de 1914). Como
sempre, com Scriabin, cruzam-se volúpia e volubilidade, desenha-se um dédalo a
cada compasso e, como os sonhos, o seu fascínio é inversamente proporcional à
sua explicação.
7 de março de 2015
Kyung Wha Chung “The Complete Decca Recordings” (Decca, 2014)
Delas ausente há mais de uma década, o regresso de Kyung Wha
Chung a salas britânicas possuía no calendário a força gravitacional de um dos
factos do ano. Dir-se-ia, até, que desse modo se restabeleceria uma intimidade
antiga, só interrompida pela doença e através dos seus silêncios prenhe em
carga poética. Era um encontro com a saudade o que se agendava. Por isso,
jamais esperaria a sul-coreana que do seu recital de 2 de dezembro passado se viesse
a falar por intermédio de um fait divers.
É que, entre peças, ignorando que a simples presença de uma criança entre milhares
de adultos é hoje razão para se subordinar um evento aos mandamentos da
pedagogia, Chung cometeu a imprudência de repreender uma família cujo rebento se
acometia de um ataque de tosse, desabafando que mais valia voltarem daí a uns
anos. Ninguém abandonou o recinto e o concerto decorreu na normalidade até ao
seu apoteótico final. Mas um certo jornalismo com níveis de indignação mais
galopantes, à custa do que se considerou um inqualificável ato de censura, levou
a crer que em palco tinham caído o Carmo, a Trindade e a Madonna. Chung foi obrigada
a responder numa carta aberta publicada a 9 de dezembro pelo “The Guardian”: “A
imprensa tem afirmado uma e outra vez que a música clássica está morta. É, por
isso, tão incrível e maravilhoso que um incidente ocorrido num recital de
violino seja capaz de fazer manchetes pelo mundo fora, estimulando animados
debates acerca da conduta quer de músicos quer do público.” Com ironia, apelava
a que não se confundissem honestidade e hipocrisia, decência e desonra,
respeito e desconsideração. Afinal, foi também graças a si que, ao longo dos
anos, promovendo uma espécie de crítica da nacionalidade, se aclararam as águas
na música erudita, melhor se distinguindo tolerância e intransigência, egoísmo
e abnegação, ou mais depressa se detetando onde reside a tirania e no que
consiste a generosidade. Outra coisa não demonstra esta caixa, que efetivamente
se ouve como a canção de alguém que à custa de muitas provações encontrou enfim
um sentido para a vida. Basta que se compare com o que veio posteriormente a
fazer a sua primeira gravação, de 1970 – com o concerto em ré maior, de
Tchaikovsky, e o em ré menor, de Sibelius, ambas com Previn e a LSO –, em que
as impressões digitais deixadas no braço do violino trazem à memória as
hesitantes pegadas de um combatente num campo de minas. Para mais, quando logo
depois – em concertos de Bruch, Walton ou Stravinsky – era já pela sua
confiança e invulnerabilidade que surpreendia. Isto num momento em que as
referências interpretativas (de Kreisler, Ysaÿe, Heifetz,
Milstein, Grumiaux, Ricci ou Oistrakh), não obstante o seu incalculável
valor, procediam de um baú com o bafo da naftalina. Inexcedível em Bartók, Berg
e Elgar (com Solti), em Saint-Saëns e a polir pérolas de Mendelssohn e de
Chausson (com Dutoit), em sonatas de Franck, Debussy (com Lupu) e Richard
Strauss (com Zimerman), por contraste, Kyung Wha lembra os virtuosos que dão
mostras de perceber o tempo como que mergulhados numa depressão: ferinos a cada
segundo e inofensivos a cada hora. Aqui, conta o instante, mas a sua soma
assume o poder do evangelho.
Jack DeJohnette “Made in Chicago” (ECM, 2015)
Tudo parece estar sob um transe
profundo e em permanente trânsito. “Sou dono do meu destino”, já cantava Moraes
Moreira em ‘Transe o Trânsito’. E menos não reivindica esta assembleia,
convocada em Agosto de 2013 pelo Festival de Jazz de Chicago, com o
cinquentenário da AACM no horizonte – chega em maio. Aliás, em “A Power
Stronger Than Itself”, o livro que lhe consagrou, George Lewis lembra um artigo
em que Muhal declarava que a Associação era “a prova que os desfavorecidos e os
desprivilegiados se podem juntar e definir as suas próprias estratégias para a
obtenção de liberdade política e económica, tornando-se dessa maneira responsáveis
pelos seus próprios destinos”. Trata-se, então, aqui, da celebração da potência
autonómica da arte a que Malraux aludia com o seu “museu imaginário”, ainda que
num contexto que traz antes à memória uma frase de Gertrude Bell: “Os homens
santos sentaram-se numa atmosfera a tresandar a antiguidade, tão espessa com o
pó dos tempos que através de si nada se via”. Mas se pela cabeça de Bell nunca
passou que estátuas por si achadas – e há 3000 anos parcialmente destruídas por
campanhas assírias no atual Iraque – viriam a ganhar nova vida graças a
impressoras 3D, o mesmo não se pode dizer de alguém, como Mitchell, que, com o
Art Ensemble of Chicago, esculpia a “Great Black Music: Ancient To The Future”.
Ou de DeJohnette, que dá forma aos vultos que pelos sonhos vagueiam. Talvez por
tudo isso, em ‘Museum of Time’, este CD invoca Jane Roberts, a escritora que
escreveu: “Sei, agora, e sem sombra de dúvida, que passado, presente e futuro
não existem”.
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Djessou Mory Kanté “River Strings: Maninka Guitar” (Sterns, 2014)
Eric Charry, autor de “Mande
Music”, uma influente antologia obviamente consagrada à música mandinga,
introduz deste modo o subcapítulo em que toma por tema os principais estilos de
expressão à guitarra da era moderna: “A divisão administrativa da pátria
mandinga entre Mali e Guiné gerou importantes ramificações nas formas de
guitarrear dos dois países.” Libertando-o do fardo da geopolítica e mais ainda
do da etnomusicologia, cedo se percebe ao que se refere: de modo a obter o
favor e o patrocínio dos ricos e poderosos, quando se separaram os membros da
federação da África Ocidental Francesa, os músicos do lado maliano tiveram de
rumar para norte, fronte ao vento, em direção a Bamako, sujeitando-se àquele
som de espanta-espíritos em que nas corás ecoavam os alaúdes do Sahel; já os
que deram por si em território guineense desviaram-se para sudoeste, cortando o
meridiano e a savana até Conacri e navegando pelas ondulantes melodias do balafon. O que, simplificando, explica a
preferência de uns pela escala pentatónica e de outros pela escala maior. Ou
seja, para melhor situar a peleja, comparada com aquelas melancólicas e ocres ruminações
que Ali Farka Touré esboçava bem para lá de Tombuctu, por exemplo, esta
guitarra de Djessou Mory Kanté, de caráter jovial e convivial, é aqui pintada
com os tons do hino à alegria. Nada que, em finais dos anos 90, na Popular
African Music, de Günter Gretz, não tivesse já deixado patente em “Guitare Sèche”,
a sua primeira edição em nome próprio após uma mão-cheia de gravações com Kanté
Manfila, o mais famoso dos seus irmãos. Mas, também, algo que se explica apenas
pela data desta sua passagem pelo estúdio de Salif Keita, seu principal
empregador: maio de 2012, antes da epidemia do ébola. Isto é, os dois anos e
meio que a Sterns demorou a lançar este disco serviram para o transformar numa improvável
missa por uma Guiné largada no patíbulo.
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