Foi no outono passado lançada, pela
Trost, uma presumível primeira gravação deste trio de Alexander von
Schlippenbach, Evan Parker e Paul Lovens, captada em abril de 1972, e seria
curioso colocá-la a tocar conjuntamente com esta do novo “Features”, de
dezembro de 2013, a alguém que permanecesse ignorante da história do grupo para
ver qual das duas lhe pareceria mais recente. Talvez aquela em que pianista,
saxofonista e baterista subissem ao palco para dar mostras de tocar tudo o que
sabiam. Ou uma em que a teatralização da potência transformadora do jazz se
mantivesse mais importante que a sua contínua desdramatização. Iludir-se-ia em
qualquer um dos casos. Pois, aqui, acima de tudo, o que se percebe é que o trio
chegou a uma extraordinária posição de elegância e serenidade precisamente
depois de ter percorrido com inquietação e ocasional rudeza os problemas
essenciais que a existência dessa mesma posição implica. Ou seja, que pacifica
de modo excecional uma ineludível questão: como conviver, no contexto da música
improvisada, com o caráter normativo de uma ação que se prolonga há mais de 40
anos. Um ponto de partida possível, que estes 15 temas procuram ilustrar (e, de
‘Feature 1’ a ‘Feature 15’, eles são uma espécie de enumeração do que possui esta
prática de mais característico), será a tomada de consciência de que o
crescimento ilimitado é insustentável. Sim, há momentos, em “Features”, em que
tudo é propulsivo e percussivo mas também há instantes em que aparenta falir
cada uma das partes de que esse organismo se constitui; há alturas em que se
removem as últimas estruturas permanentes do jazz e outras em que se aplicam
testes de esforço às suas fundações; há uma sensibilidade a um tempo
imprevidente e escrupulosa, espontânea e imitativa. Há a ética de uma música
sincera que, quando se deixa trair, serve para comprovar a dificuldade em
produzir música sincera.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
28 de março de 2015
21 de março de 2015
Agenda: Festa do Jazz do São Luiz
Em ‘The Lives of Many Others’, o
tema titular do seu disco a solo na Clean Feed, a eslovena Kaja Draksler começa
a tocar piano de dentro para fora. Primeiro, com sensibilidade de bate-chapas, e
como quem encontra o jardim de John Cage coberto de ferrugem, cria uma ode ao
aço. Depois, chegando às teclas como uma criança que não dá cavaco às regras, traz
à memória a melodia através da qual, em “The Köln Concert”, Keith Jarrett se deixou
transportar até ao século XII de Beatriz de Dia. É uma síntese única de duas
tradições assente na hilária capacidade do jazz em desarmar convenções. Mas,
também, a expressão de uma crucial ambiguidade que concilia o primado
instrumental que auxilia a ação com aqueloutro que só ampara o pensamento.
Inserida na 13ª Festa do Jazz do São Luiz, toca dia 29, às 18h20, no
Teatro-Estúdio Mário Viegas, e representa perfeitamente o peculiar didatismo de
que se reveste o certame. Nesse espírito, pelas tardes de sábado e domingo, com
entrada livre, promovem-se o habitual concurso de escolas de música e masterclasses com Leo Genovese e Tony
Malaby. Destaquem-se ainda atuações de Ensemble Super Moderne (28, 21h30, na Sala
Principal do teatro lisboeta), octeto de João Guimarães (29, 16h00,
Teatro-Estúdio) ou Deux Maisons (29, 17h10, Teatro-Estúdio) e sublinhe-se a
atenção que André Santos, Desidério Lázaro ou Afonso Pais estão individualmente
a prestar ao formato canção.
Grigory Sokolov "The Salzburg Recital" (Deutsche Grammophon, 2015)
Há uns anos, em entrevista à “International Piano
Magazine”, Sokolov explicava que lhe era impossível detalhar programas com
muita antecedência: “Toco apenas aquilo que de facto quero tocar no momento
atual.” Sabia perfeitamente que isso contrariava as necessidades de quem o
contratava, mas não havia grande coisa a fazer: “Essas pessoas não têm escolha.
Não aceito encomendas”. Por ora, esse apetite coincide com peças de Bach,
Beethoven e Schubert. A 30 de julho de 2008, data da gravação que marca esta
sua estreia na DG, o objeto do seu desejo era um par de sonatas de Mozart e o
opúsculo 28 de Chopin. Do primeiro, quiçá para recordar uma composição do
período em que Mozart permanecia ao serviço do Príncipe-Arcebispo Colloredo, em
Salzburgo, cidade que acolhia o seu recital, começa por explorar a sonata K
280, de 1774, e faz maravilhas com a aria
siciliana do Adagio, talvez com a
‘Ach, ich fühl's, es ist verschwunden’, de “A Flauta Mágica”, em mente. Depois,
passa para a K 332, contemporânea da “Marcha Turca”, e convence quem o ouve
que, para si, tocar piano é sinónimo do verbo sentir, e que a emoção será
porventura o único compasso pelo qual se deve medir a vida. Não obstante a
entrega, para os mais familiarizados com versões de Pires ou Uchida poderá revelar-se
inesperadamente hesitante. Já nos “Prelúdios”, do polaco, concentra o que de
mais celífero havia, por exemplo, em François ou Arrau e o que de mais telúrico
se deteta em Argerich ou Gulda. No fundo, aqui, o verdadeiro milagre é lembrar as
palavras com que George Sand termina “Um Inverno em Maiorca”, crónica da viagem
em que Chopin precisamente os escreveu: “O homem não foi feito para viver com
as árvores, as pedras, o ar puro, o mar azul, as flores e as montanhas, mas sim
com os seus semelhantes”.
Pierre Boulez "20th Century" (Deutsche Grammophon, 2015)
Em
meados do século passado, a redigir uma entrada enciclopédica sobre Bartók, Boulez
falou de “cinco grandes” compositores contemporâneos: além do húngaro, em
relação ao qual se presumia alguma condescendência – tal o encómio e tão grande
a aparente relutância em fazê-lo –, a lista incluía ainda Stravinsky,
Schoenberg, Berg e Webern. Como é óbvio, o redator não estava propriamente a
ser literal. À data em que escrevia, só o russo permanecia entre os vivos. E,
mesmo assim, não o tivesse Boulez ido resgatar à inconsequência do neoclassicismo,
por pouco. Mas também é verdade que ao longo dos anos não lhe faltaram oportunidades
para regressar ao tema. E de cada vez que lhe perguntavam qualquer coisa nesse
sentido, quiçá como defesa ou apenas porque lhe parecia imprescindível
autocitar-se, lá voltava a ladainha: Bartók, Berg, Schoenberg, Stravinsky, Webern.
Não
admira, portanto, que, dos 44, se consagrem 25 CD desta caixa a obras do quinteto.
Trata-se de uma desproporção que se notava já em “The Complete Columbia Album
Collection”, a integral de Boulez na CBS que a Sony lançou no outono passado e
que não só em número de fonogramas – 67 – se prova superior a esta.
Curiosamente, aliás, é graças a duas antologias de ambições mais modestas, e também
acabadas de sair – uma na Erato, com 14 CD, e outra, com 10, na própria DG, focada
esta em registos provenientes dos célebres salões “Le Domaine Musical” decorridos
entre 1956 e 1967 –, que a crucial posição de Boulez na história cultural do
século XX se torna mais evidente. Uma que, por sinal, se define individualmente
pelo grau de desconforto que gera, em todos quanto a lêem, a fanática caracterização
de Souvtchinsky, citada por Jonathan Goldman em “The Musical Language of Pierre Boulez”: “É certo que a reforma e a
reformação dos conceitos e linguagem de que neste momento irrevogavelmente se
ocupa a música viva teve os seus atentos precursores e eficientes
esclarecedores. Mas tivemos de esperar pelo sempre problemático e inesperado
aparecimento de um predestinado para que este movimento ganhasse absoluta
consciência de si mesmo e do seu valor histórico. Só o advento de um criador
assim, pela sua presença, pela afirmação do seu dom e pela aplicação do seu bom
senso, torna tudo, até aquilo que mal se enxerga, subitamente mais nítido.”
Calcula-se
que tenha sido pela fé em tamanho messiado que os organizadores desta coleção tenham
excluído obras de Mahler compostas na primeira década do século XX e incluído outras
de Debussy escritas na última do século XIX. Afinal, Boulez afirmou: “Se não há
dúvida nenhuma que a poesia moderna teve origem em alguns poemas de Baudelaire,
então é igualmente certo que a música moderna despertou com o ‘L’après-midi
d’un faune’”. Não desfazendo do prelúdio, ouvindo muitas das peças aqui
compiladas, nomeadamente as de Ligeti, Birtwistle, Varèse, Messiaen ou, claro, as
de Boulez-compositor, dir-se-ia, até, que Baudelaire foi conjuntamente a raiz
de muita música do século XX. Ele que, em “Correspondências”, reparou que “Em
prolongados ecos, confusos, ao longe/ Numa só tenebrosa e profunda unidade/ Tão
vasta como a noite e a claridade/ Correspondem-se as cores, os aromas e os
sons”.
14 de março de 2015
Agenda: JazzFest
Após edições de calendarização menos alegórica, concilia-se o
“JazzFest”, de Portalegre, com a energia primaveril que anualmente intoxica as
agendas e enlouquece os sentidos. É assim apropriado um ato preambular: a
atuação (primeiro, fora do âmbito do festival, dia 19, na Culturgest, em
Lisboa, e, depois, já no Alto Alentejo, no dia 20) de um renovado quinteto do
contrabaixista Michael Formanek – com Tim Berne, Brian Settles, Jacob Sacks e Dan
Weiss – cuja designação se inspira num tema de Hank Williams em que se associa
o fim de um ciclo amoroso aos humores do inverno. Mas a provar que a vida
continua, eis o quarteto de Ricardo Toscano (com Diogo Duque, Romeu Tristão e
João Pereira) escalonado para uma sessão “after hours” na noite de sexta-feira
(repete sábado) e o trio de Chris Speed (com Chris Tordini e Dave King), dia
21, finalizando o fim de semana inaugural de concertos no CAEP. A ação será retomada
na sexta, dia 27, com um interessante quarteto que reúne o guitarrista André Matos
e o saxofonista Tony Malaby (acompanhados por Demian Cabaud e André Sousa
Machado) a que se seguirá, com repetição na noite seguinte, uma apresentação do
não menos curioso Deux Maisons (na foto: o encontro do trompetista Luís Vicente e do
baterista Marco Franco com os irmãos Théo e Valentin Ceccaldi, recentemente
celebrado no CD “For Sale”). Já agora, sim, há discos da entidade organizadora,
a Clean Feed, à venda durante o certame, mas nessa matéria ninguém sairá de
mãos a abanar: cada ingresso dá direito a um CD. O final do “JazzFest” será
para estafeteiros: sábado, dia 28, a pianista eslovena Kaja Draksler toca um
solo (o seu CD de 2013 ia de Cage a Jarrett num abrir e fechar de olhos) e um
dueto com a trompetista e fliscornista Susana Santos Silva. Esta, por sua vez,
irá juntar-se ao trio De Beren Gieren (o recente “The Detour Fish documenta
essa articulação luso-flandrina), que também tocam sem a convidada. De seguida,
quase todos partem rumo à capital para a Festa do Jazz do São Luiz.
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