A Gustavo “El Cuchi” Leguizamón (1917-2000),
docente, poeta, compositor e famoso tribuno argentino, devem-se criações tão indecentemente
idiomáticas quanto ‘Chacarera del expediente’, com a figura do comissário de
polícia corrupto, do prisioneiro inocente e do advogado negligente numa
conversa tão surda que nem Deus a ouve. Ou ‘Coplas de Tata Dios’, também essa,
entre outras, denunciando a tirania do messianismo religioso. Estão ambas aqui,
embora à primeira vista descontextualizadas. Afinal, o guitarrista Pablo
Márquez dispensa a palavra. Mas, tal como fez há uns anos Carlos Martínez com originais
de Atahualpa Yupanqui, a verdade é que nem por isso deixa de prosseguir por
sulcos abertos pelo buril do verbo. Dir-se-ia uma atitude herdada da sala de
aulas: aos 13 anos, Márquez teve Leguizamón como professor de História sem por
um segundo suspeitar que se tratava do autor de tantas das suas zambas preferidas; quando finalmente o
descobriu, terá sido como se nunca o tivesse ignorado, tão indistinguíveis lhe
pareceram então pedagogia e poesia. De igual modo crê agora na mensagem sem a
muleta da métrica. É um gesto de independência que o homenageado apreciaria, e
um que lhe permite prescindir de um programa que, sob outra perspetiva, teria
forçosamente de incluir canções como ‘Balderrama’, ‘La pomeña’, ‘La arenosa’, ‘Chacarera
del Chacho’ ou ‘Lloraré’, daquelas que se colaram ao longo dos anos à voz de Mercedes
Sosa, por exemplo. Mas, melhor ainda só mesmo um pantagruélico título que, evocando
o Bach de “O Cravo Bem Temperado”, se pode traduzir por “O Porco Bem
Temperado”.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
11 de julho de 2015
Terakaft “Alone (Ténéré)” (Outhere, 2015)
Na região de Tombuctu, há coisa de
uma semana, deu-se novo ataque a um comboio da Missão Multidimensional
Integrada das Nações Unidas para a Estabilização do Mali (MINUSMA), saldando-se
seis mortos burquinenses entre os capacetes azuis atingidos. Ao contrário do
que se tinha passado há um mês ou dois, quando, por cortesia, e calcula-se que
pela mão dos próprios, se deixou um bilhete a dizer Ansar Dine junto a um
cadáver, desta feita ninguém reivindicou o atentado. Nem os seus militantes,
nem os do Al-Qaeda no Magrebe Islâmico, os do Movimento para a Unidade e Jihad
na África Ocidental (MUJOA) ou os do Al-Mourabitoun. Isto, porque não será
presumivelmente imputável pelo ato qualquer afiliado da Coordenação dos Movimentos
do Azauade (CAM), como o Movimento Nacional de Libertação do Azauade (MNLA), o
Movimento Árabe do Azauade (MAA) ou o Alto Conselho pela Unidade do Azauade
(HCUA). Pelo menos enquanto mal secou a tinta no acordo de paz com o governo de
IBK que, dia 20 de junho, os separatistas tuaregues foram assinar a Bamako. Então,
porque vêm agora Liya Ag Ablil e Sanou Ag Ahmed (tio e sobrinho e única força
criativa dos Terakaft atuais) cantar “Somos filhos da História/ Somos sólidos e
resistentes” e “Estamos sozinhos”? Talvez por só vislumbrarem oximoros onde
outros leem acrónimos. Ou porque a potência poética que resta naquela estirpe
de rock do Sahel que praticam, ao sol dessecado e dissecado, já não permite
contemplar para lá do indivíduo. “Ténéré” virá dizê-lo: de nada servirá a
revolução do coletivo enquanto não começar a transformação em cada um. O rock
já foi isso.
4 de julho de 2015
Mario Pavone “Blue Dialect” (Clean Feed, 2015)
Entre tantos desencontros, verifica-se sempre o
fluxo da vida nestas gravações em trio de Mario Pavone. Como a expressão
inevitável de uma inteligência muito inoportuna. E não será por –
contrariamente a Picasso – parecer evoluir o contrabaixista da ‘fase rosa’ para
o ‘período azul’ (agora ao lado do pianista Matt Mitchell e do baterista
Tyshawn Sorey, compare-se este “Blue Dialect” com o exuberante “Arc Trio”, seu
predecessor, gravado esse com Craig Taborn e Gerald Cleaver), que a Clean Feed
iria deixar de afiambrar uma fatia da sua obra. É Pedro Costa, diretor e
produtor executivo da editora lisboeta, que o relembra quando, em notas de
apresentação, sugere estar há quinze anos à espera deste extraordinário disco. Mais
que o reconhecimento de uma contingência, dir-se-ia a generosa confissão de uma
necessidade. Uma extração a um carinho antigo, irredutível, eloquente, radical,
só vagamente embaraçado por tudo quanto o inibe. Quem o conseguir esclarecer verá
explicada a relação entre editores e editados. Tal como logo saberá ao que vem
quem neste trio discernir uma instintiva repulsa face à força de qualquer
tutela, não obstante a delicadeza com que, em termos estruturais, se acomoda a
sua subordinação à figura de um líder. Porque aqui, distante da hierarquia e do
arcaísmo, quiçá mais próximo da alquimia, cedo se deteta a maresia daquela
música, a três ou não, que, no jazz, permitiu a libertação da tipologia do trio,
ou de outra qualquer, precisamente pela alforria reclamada pelos contrabaixistas
– pelos avanços culturais, e não somente comportamentais, de Mingus e LaFaro ou
de Swallow e Haden, mas também por uma possível perceção íntima do instrumento
que tocavam. A emancipação de um dialeto que nunca se sabe de cor, discreto e
discursivo em simultâneo, que rouba o nome às coisas e que, talvez por isso
mesmo, se torna mais fluente em todas. Um dialeto tingido de azul.
Agenda: Jazz na cidade
Com vista sobre a cidade, no Parque
de Santa Catarina, terminará hoje o Funchal Jazz com concertos de Christian
McBride (21h30) e Terence Blanchard (23h). Quem lá esteve e entretanto aviou as
malas para o continente foi Miguel Zenón, que se apresentará hoje e amanhã em
Lisboa, no Hot Clube (22h30), trazendo na bagagem “Identities are Changeable”,
sortido de signos e símbolos em que aborda a temática da identidade nacional no
seio da comunidade nova-iorquina de ascendência porto-riquenha. Já no Porto, na
Casa da Música (21h), em veneração por Billie Holiday, será José James a
convocar semelhantes constrangimentos e contradições, enquanto em Braga, no
GNRation (22h30), e só na aparência liberto de ambiguidades e artifícios, se
aguarda o expetorante duo de Peter Brötzmann e Steve Noble. Isto tem muito de circunstancial
e contextual, e amanhã às 18h, em Serralves, mais não se espera do I.Overdrive
Trio quando este subir ao palco do Jazz no Parque com o espetro de Syd Barrett.
Falar-se-á do jazz enquanto ponto de fricção, mas, dia 7, no CCB (21h), em
Lisboa, o encontro de Sly Dunbar, Robbie Shakespeare, Nils Petter Molvaer, Eivind
Aarset e Vladislav Delay tratará de desintegrar muitas mais objetividades. Ou
seja, afirma-se um agente ao serviço da heterodoxia quem hoje evocar as
propriedades transitórias do jazz. Que é o que fará o telegráfico
Radio.String.Quartet.Vienna, igualmente na terça, às 19h, e também na capital, ao
servir de veículo acústico para as composições daquele (Joe Zawinul) que um dia
cantou o corpo elétrico. No mesmo certame, o Jazz im Goethe-Garten, sempre ao
fim da tarde, seguir-se-ão Andreas Schaerer e Lucas Niggli (dia 8), Agustí
Fernández (dia 9) e No Metal in This Battle (dia 10). Forças fluidas e frequentemente
falazes, de que servem de exemplo dois antipodais guitarristas: Al Di Meola (quinta,
CCB, 21h) e Joe Morris (terça, Sociedade Musical União Paredense, 22h; sexta, Museu
Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, 19h; sábado, GNRation, 22h).
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Shostakovich: String Quartets (Decca, 2015) & Shostakovich arr. Rudolf Barshai: Chamber Symphonies (Harmonia Mundi, 2015)
Borodin Quartet / The Dmitri Ensemble, Graham Ross (d)
A
cena passa-se no Teatro Bolshoi, em Moscovo, a 26 de janeiro de 1936, durante uma
récita de “Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk”. Shostakovich não ignora quem do
outro lado da sala se esconde por detrás de uma cortina, mas não ousa
dirigir-lhe o olhar. Nem mesmo quando, mal a ópera acabou, um rumor de veludo
denuncia o repentino desocupar do camarote. Um cominativo editorial no Pravda,
dois dias depois, viria a confirmar-lhe aquilo a que não quis assistir com os seus
próprios olhos: Estaline não gostou do que ouviu. Logo aí, dir-se-ia ter ficado
traçado o destino do compositor. Quanto muito, não se suspeitaria que, anos
mais tarde, seria a sua “Leninegrado” que altifalantes na frente de batalha
lançariam sobre barricadas nazis. Sucessivamente denunciado e reabilitado pelo
regime soviético, até que, já na altura de Khrushchev, se deixou absorver de
vez pelo aparelho, Dmitri Shostakovich (1906-75) criou uma obra recheada de
senhas e contrassenhas, cifrada, críptica. Partindo dos anos 30 e chegando aos
70, com os quartetos de cordas Nº1 e Nº14, os atuais membros do Quarteto
Borodin – que, na sua formação inicial, incluía Rudolf Barshai – sabem sujeitar-se
à ambiguidade para, enfim, no Nº8, de 1960, se revelarem exemplarmente acutilantes naquelas
subterrâneas melodias que anunciam canções que se ouvirão jamais ou conduzindo
cada fuga a um banco de nevoeiro. Quando o adaptou para orquestra de câmara (no
CD da Harmonia Mundi está igualmente a sua versão do quarteto Nº1), também Barshai
lhe reforçou traços autobiográficos, que, de modo inteligente, aqui suavemente se
disfarçam.
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