13 de fevereiro de 2016

Seckou Keita "22 Strings/Cordes" (ARC, 2015)


Este “22 Strings” (embora cordes seja efetivamente mais apropriado) foi editado em maio do ano passado mas só agora chega às lojas portuguesas, como um suplemento à atuação de Seckou Keita agendada para quarta-feira à noite no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Na instância, o senegalês terá a harpista galesa Catrin Finch a seu lado, sua colaboradora em “Clychau Dibon”, um título de 2013 avesso ao cinismo e feito à medida dos instintos de bacharéis em Antropologia – já agora, porque estas coisas não se inventam assim, relembre-se que lhe foi concedida a distinção de Melhor Colaboração Intercultural nos prémios de 2014 da revista “Songlines”. O disco, que traçava uma tangente entre o mais atávico nas músicas celta e mandinga para harpa e corá, trazia à memória um daqueles ensaios dos Baka Beyond em que Keita participou: no seu melhor realizava um desvio ao cânone relativamente inocente; no seu pior deixava-se comprometer por pressupostos ideológicos que se julgavam há muito superados. Quiçá por via de Keita, vinha ainda marcado por um traço de personalidade que, no contexto desta música que instrumentistas provenientes da África Ocidental têm feito com congéneres seus na Europa, é tanto um defeito quanto uma virtude: a adaptabilidade. 

Enfim, o seu, porque o qualificativo até tem a ver com música, era cada vez mais como o caso do chef que se havia notabilizado na gastronomia nacional do seu país mas que só tinha conseguido emprego a preparar comida de fusão fora de portas. E é uma das possíveis motivações para um regresso a casa. Talvez por isso – ou apenas porque calha bem um cliché a seguir ao outro – se possa afirmar que este é o primeiro disco do resto da sua vida. Como o próprio indica em entrevista ao “World Music Central”: “É como aquele provérbio que nos diz que é preciso dar um passo atrás para poder dar dois à frente.” Daí um arco narrativo que se inicia com ‘The Path from Gabou’ (a região de Gabu é o local de nascimento mítico da corá), que passa por ‘Mandé’ (até para que se compreendam as diferenças entre a tradição de Keita e, digamos, a de Toumani Diabaté) e avança até ‘Future Strings in E’. Na sinopse de uma má adaptação ao cinema deste evangelho dir-se-ia que se reconduz o extraviado ao caminho certo. Banda-sonora já há.

6 de fevereiro de 2016

Andrew Hill, Ran Blake: The Complete Remastered Recordings on Black Saint & Soul Note (Cam Jazz, 2015)



Se os atuais não o fazem já, é certo e sabido que futuros motores de pesquisa tratarão de pôr em evidência uma secundaríssima ligação entre Andrew Hill e Ran Blake: em 2007, morreu o primeiro no dia de anos do segundo. E cuidarão de relatar o surto de atividade que acompanhou cada um na fase crepuscular das respetivas carreiras. Aos 80, Blake anuncia o lançamento de “Chabrol Noir” (Impulse) quando ainda há pouco dava ao prelo “Ghost Tones: A Tribute to George Russell” (A-Side) e “Kitano Noir” (Sunnyside), novo capítulo da sua parceria com a cantora portuguesa Sara Serpa. Também em 2014 colocou dois discos no mercado, homenagens a Abbey Lincoln e Chris Connor. Por sua vez, logo antes de falecer, Hill gravou “Time Lines” e acompanhou os esforços da Blue Note em honrar o seu património através de sucessivas edições – títulos da década de 60 como “Passing Ships” ou “Pax” permaneciam até então inéditos e todos os outros, à exceção de “Point of Departure”, continuavam congelados na era analógica. Ao radialista Gary Vercelli, em 1986, declarou isto: “Ao gravar para a Blue Note descobri que não teria como recompensa fama e fortuna mas sim fama e fome.” Não foi completamente honesto: também alcançou bastante infâmia. Tal como Blake, encontrou refúgio no ensino. Aí, sim, traçam-se facilmente paralelismos entre os dois. Afinal, nas universidades de Colgate, Portland State, Wesleyan, Michigan ou Harvard, discursava Hill sobre a música improvisada como “um ato de imaginação do coração” enquanto Blake, sempre no Conservatório de Nova Inglaterra, falava às suas turmas acerca da “primazia do ouvido”. Ou seja, davam mostras de querer dizer o mesmo: que o ensino tradicional não apela às capacidades mais prodigiosas dos seus alunos. Talvez por isso, por esse didatismo inconformado, tenham participado ambos em programas de educação musical em prisões – Hill ao serviço do New York State Council for the Arts e do Instituto Smithsonian, Blake no departamento de Community Services do NEC. 

Porém, que não apenas aos seus agentes mais subversivos, o percurso de Hill e Blake serve igualmente para lembrar um período na indústria fonográfica norte-americana de séria resistência ao jazz, durante o qual nem o prestígio institucional abria portas. Ao longo dos anos 80, só os esforços coordenados de pequenas chancelas europeias como a Soul Note permitiram comprovar a vitalidade artística de tão ilustres pedagogos. Demonstra-o esta série de integrais de que está a chegar novo lote às lojas.

A Soul Note proporcionou duas idas a estúdio a Andrew Hill. Da inicial (junho de 1980) provêm “Faces of Hope”, a solo, e “Strange Serenade”, com Alan Silva e Freddie Waits. Dizia-se que Hill era natural de Port au Prince (nasceu em Chicago, em 1931) e retiravam-se todo o tipo de ilações do equívoco – se a sua origem fosse Marte dava mais ou menos no mesmo. Hill recorre a uma dissonância calculada, sensual, que mais que um observador associou a Scriabin embora ele falasse de Debussy. No LP em que está desacompanhado há um ‘Rob it Mohe’ que cita ‘Blue Monk’ e, de facto, muito do que aí se passa deve algo a Monk. Da sessão final (julho de 1987) procedem “Shades”, com Clifford Jordan, Rufus Reid e Ben Riley, e “Verona Rag”, novamente só, dois dos seus álbuns mais consistentes. Há frases marcadas por acentos inquietos, como as daquelas crianças que trocam os timbres às vogais. Traz à memória Bud Powell e Art Tatum mas no tema-título do recital a solo invoca o Schubert das últimas sonatas. 

 Já a ligação de Ran Blake à editora italiana foi mais dilatada, com sete entradas em catálogo. A certa altura, de tão gríficas, já se sabia o que delas se esperar – mas só na medida, digamos, em que nos anos 50 ninguém ignorava o que aguardar de um filme de Hitchcock. É o caso de “Epistrophy” (1992), dedicado a Monk, aqui tão influente quanto em Hill, de “Unmarked Van” (1997), um tributo a Sarah Vaughan entre o primitivo e o exótico, ou de “Indian Winter” (2005), com David Fabris na guitarra elétrica – tão previsíveis quão perfeitamente capazes de subverter expetativas. As pérolas são “Improvisations” (1981), duetos de piano com Jaki Byard em que ocasionalmente se invertem papéis, “Duke Dreams”, a alienante exaltação do legado de Strayhorn e Ellington a partir do divã de um psicólogo, “Suffield Gothic” (1984), a onírica evocação da sua cidade natal (Bob Blumenthal chamou-lhe o “Amarcord” de Blake), e “Short Life of Barbara Monk” (1987), elegante, inquietante, a síntese das suas obsessões.

“Senegal 70: Sonic Gems & Previously Unreleased Recordings from the 70’s" (Analog Africa, 2015)



Aconselha a prudência que se mencione a apocrifia de grande parte das histórias deste “Senegal 70”. “Músicos em digressão por Paris, como Youssou N’Dour, chamavam-nos para tocar com eles”, diz Max Dia, dos Fangool, referindo-se a uma altura em que N’Dour não devia ainda ter carta de condução, quanto mais passaporte. “Quando entrámos em Abijão fomos conduzidos para o canal de televisão estatal e, em virtude de insistentes telefonemas de Papa Houphouët, ficámos três horas no ar”, conta King N’Gom acerca da apoteótica chegada da Super Star Band à Costa do Marfim, apelando a que se imagine o presidente do país a tarde inteira colado à TV, ligando para a RTI à medida que ia cortando relações diplomáticas com a União Soviética, alimentando a dissensão em países vizinhos ou o diabo a quatro. “Laye Thiam foi para o Congo e ouvi dizer que também aí teve grande sucesso, a ponto de ter sido contratado para acompanhar James Brown no concerto que ele deu em Kinshasa”, avança Pape Diallo, lembrando o trompetista da Star Band e sem jamais ter visto, só pode, “Soul Power”, o filme com a atuação de Brown no “Zaire 74”, em que o cantor surge escoltado por Maceo Parker, Fred Wesley e demais J.B.’s. Já o rigor obriga a que se sublinhe o anacronismo do subtítulo. ‘Bour Siné’, de Saourouba de Louga (e o andamento a puxar para o mbalax torna a conclusão já por si evidente), procede dos anos 80, a mesma década em que tinham um pé a Gëstu de Dakar de ‘Ndiourel’ e a Tropical Jazz de ‘Kiko Medina’, um tema de Arsenio Rodríguez. Por sua vez, esta ‘El Carretero’, de Guillermo Portabales, a que dá corpo Amara Touré, provém dos anos 60, quando o guineense se contava ainda entre as fileiras da Star Band. Mas ouçam-se os inéditos (‘Bour Siné’ e ‘El Carretero’, mas igualmente ‘Africa’, da Orchestre G.M.I., ‘Massani Cissé’, da Orchestre Laye Thiam, e sobretudo ‘Ma Penda’ e ‘Thiely’, da Orchestra Baobab, esta uma versão de ‘Achilipú’, do El Gran Combo de Puerto Rico, nas vozes de Médioune Diallo e Thione Seck) que logo se fica com vontade de atirar a prudência e o rigor pela janela. É quando o facto dá lugar à fantasia que, no Senegal, a música almeja a transcendência – esta antologia relembra-o.

30 de janeiro de 2016

Miles Davis “The Last Word: The Warner Bros. Years” (Warner, 2015)



No virar do século muito se falava de “The Last Word”, uma daquelas retrospetivas com pés e cabeça que raramente passam da fase de projeto. Pelo que era dado a entender, tratava-se da integral de Miles na Warner, mas a notícia nem era essa. Na antologia, a acompanhar gravações acerca das quais nada tinha ficado por saber encontrar-se-iam registos a respeito dos quais só se especulava. Viriam a lume as sessões com a Rubber Band, além de uma parceria com Prince que possuía como base temas compostos com o esmero concetual de um pedófilo (‘Can I Play With U’, ‘Jailbait’, etc) ou o célebre concerto de La Villette, o reencontro de julho de 1991 com McLaughlin, Corea, Hancock ou Shorter. Até data de lançamento se definiu: setembro de 2001, dez anos após a morte do seu dedicatário. Mas tão portentoso programa não chegou a ver a luz do dia, nem é agora que deixa de permanecer inédito. Sem tirar nem pôr, isto é, tal como originalmente vieram ao mundo, esta “The Last Word” reúne “Tutu”, “Amandla”, “Doo-Bop”, “Music from Siesta”, “Dingo”, “Live at Montreux”, “Live Around the World” e “Live at Nice Festival” (excertos de uma atuação de 1986 saídos a reboque da edição deluxe de “Tutu”, de 2011). Ou seja, comparada com a aparentada “1986-1991: The Warner Years” dá-se-lhe inclusivamente pela falta do volume “Rarities & Studio Guest Appearances”, por exemplo, que coligia colaborações de Miles com Toto, Shirley Horn, Chaka Khan ou Cameo. Fica, então, a memória do período mais problemático da sua carreira, em que a sua trompete faz de qualquer um destes álbuns um disco de jazz tanto quanto a salada mista transforma o McDonald’s num restaurante vegetariano.

Granados & Turina: Piano Quintets (Harmonia Mundi, 2015)


Após uma travessia do Atlântico prenhe em premonições, foi há 100 anos que Enrique Granados assistiu à estreia da versão operática de “Goyescas”, em Nova Iorque. Com Amparo, a sua mulher, a seu lado, viveu num corrupio, agitado por um vendaval de coquetéis e receções, incluindo uma ida à Casa Branca. “Vi por fim os meus sonhos realizados”, escreveu inocentemente numa carta endereçada a Ricardo Viñes. A 24 de março de 1916, na viagem de regresso a Barcelona, contar-se-iam os Granados entre as cerca de oitenta vítimas causadas pelo torpedeamento do paquete SS Sussex por um submarino de guerra alemão. Estamos, portanto, em ano de centenário. E é adequado que se assinale o seu início com uma obra como esta, menos irradiada pelo nacionalismo musical espanhol do que pelos modelos centro-europeus que tanto Granados como Joaquín Turina parecem ter vindo ao mundo disputar. De facto, neste “Quinteto para Piano”, de 1895, pressente-se mais a fragrância dos salões parisienses e dos vapores do Elba, por exemplo, do que qualquer tipo de impressão que se associe a uma índole hispânica – “Ambiciono tornar-me no meu país o que Saint-Saëns ou Brahms são nos deles”, referiu, e dá aqui voz às suas dores de crescimento. Mas a peça é um pequeno prodígio de inventivas combinações harmónicas e inspiradas colorações, na qual, por instantes, se adivinha já o casulo da nostalgia pelo sul. De 1907, também o “Quinteto” de Turina só por uma vez permite que um levantar de sobrolho ibérico perturbe um semblante galófilo e germanófilo, expressão de doutrinas face às quais logo passaria de apóstolo a apóstata.