O título deriva efetivamente de “Bury My Heart at
Wounded Knee: An Indian History of the American West”, de Dee Brown, livro caro
à contracultura dos anos 70. Para quem se lembra,
a sua popularidade terá tido, até, influência na decisão do Movimento dos
Indígenas Norte-Americanos em ocupar a cidade de Wounded Knee, em 1973. Com
meia dúzia de anos, há um impressionante documentário de Stanley Nelson sobre o
assunto, cause célèbre devidamente
acompanhada no mundo da música: todos então gravados, pense-se em “Bury My Heart
at Wounded Knee”, dos alemães Gita, em “Song for Wounded Knee”, de Richard
Davis, e em “Witchi-Tai-To”, de Jan Garbarek. Claro que este último reclamava a
influência de Jim Pepper, nome incontornável sempre que o assunto é a abertura do
jazz à música dos povos nativos da América do Norte, história que vai do
‘Cherokee’, que Charlie Parker tanto tocava, até a “Indian Tapes”, de Andrea
Centazzo, de “Symbols of Hopi”, de Jill McManus, a “Chinampas”, de Cecil
Taylor, ou de “Sacred Common Ground”, de Don Pullen”, a “The Peach Orchard”, de
William Parker. À lista adiciona-se agora um ilustre descendente. “Bury My
Heart” traz à memória o genocídio ameríndio nos EUA, quando “pairava no ar um
sentimento de ruína e destruição”, como escreveu Tocqueville. A evocação de uma
gente de rosto contrito e gestos indecifráveis, de olhar fértil e aspeto de
quem está há décadas sem dormir. A bateria de Scott Clark fala em código, como num
pow-wow, mas permanece imune à
nostalgia. Talvez porque, assim, não encontre tantos entraves ao que pretende
recordar: um dos atos cruciais da infâmia.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
12 de março de 2016
Agenda: 14ª Festa do Jazz do São Luiz
Móvel, como o feriado da Páscoa, a Festa do Jazz do São Luiz
chega este ano mais cedo. E Carlos Martins, o seu diretor artístico, escorregando
em metáforas, não cabe em si de tanto que tem para dizer: “Estamos no fim de
uma curva que está a chegar a uma meta, a dos 15 anos!”, exclama. “Este ano e
pela primeira vez a Festa dura 5 dias e 5 noites”, “pela primeira vez a
abertura da Festa, a pré-Festa, é realizada exclusivamente com músicos de
outras partes da Europa, de Berlim”, “pela primeira vez teremos uma residência
internacional”, prossegue, contrariando uma tendência há muito entranhada em
apresentações deste tipo, a do infeliz que se cansa de pedir esmolas de luz por
terras de escuridão. Reclama inspiração “na vida e na mudança de vontades que
aconteceram recentemente em Portugal.” E também no seu último disco dedica um
tema “a quem liderou a mudança a 26/11/15”. É com essa música que sobe o pano
no Teatro São Luiz, na quinta, precisamente um dia depois do tal contingente
alemão ter inaugurado o certame com atuações na Escola de Música do
Conservatório Nacional. Já na sexta se destaca a presença do trio Kuára,
composto por instrumentistas que se aproximam do folclore com o zelo do
primeiro missionário a chegar a uma tribo remota. Sábado o vernáculo é mais familiar:
tocam grupos de Carlos Barreto, César Cardoso, Rodrigo Amado ou André Fernandes
e os coletivos LUME e TGB. Domingo é a vez de Slow is Possible, Cinema &
Dintorni (às voltas com Rota ou Morricone), do trio de João Paulo, da Big Band
do Município da Nazaré, e de conjuntos liderados por Susana Santos Silva e pelo
jovem acordeonista João Barradas, este com Greg Osby. Ao longo do fim de semana
tocam grupos de 16 escolas de música, muitos deles com vocalistas. Parece que
Portugal é o novo país das cantoras.Hélène Grimaud: Water (Deustche Grammophon, 2016)
No verão, esquecidos em casas de férias,
precisamente à beira-mar, é costume dar-se com livros amarelados que por mais
leves que sejam nunca parecem caber na bagagem de quem os lê. Um deles podia
ter esta sinopse gravada na contracapa: “A tórrida languidez de uma paisagem
costeira cuja sensualidade e paixão subjacentes às suas terras e suas gentes só
pelo calmante pulsar do mais vital dos seus elementos se mitigam.” Na
realidade, recorrendo à bijuteria novelesca, é assim que Hélène Grimaud
descreve as alterações de humor em “Almería”, de Albéniz. Ignara da ironia, dir-se-ia,
no entanto, estar nitidamente heraclítica nas suas reflexões, evocando a zona com
o clima mais seco da Europa no contexto de um recital consagrado à humidade. Solenemente
declamada pela pianista, a frase é uma das muitas de que se perfaz “Water
Reflections”, uma espécie de equivalente fonográfico aos extras de um DVD que
remata o alinhamento deste seu novo disco. Por exemplo, “Wasserklavier”, de
Berio, inspira-lhe uma desencantada “a doce melancolia da efemeridade da
condição humana”, enquanto “Les Jeux d’eaux à la Villa d’Este”, de Liszt, a leva a
meditar sobre o “cruzamento das dimensões decorativas e místicas da
água através do seu poder transformador e qualidade redentora”. Aqui está já
terminantemente beatífica. Aliás, em epígrafe a um texto distendido pelo
didatismo, em que nem falta uma aforística “a água é indispensável à vida”, surge
esta citação de São Francisco de Assis: “Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã
Água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.” De facto, antes o apócrifo
panta reî, de Heraclito.
Evidentemente fluída está também a técnica de Grimaud: escuta-se a sua interpretação de “Rain-Tree Sketch II”, de Takemitsu, e imagina-se que por cada pingo de chuva que faz alegórica e mansamente deslizar até ao chão lhe assome uma ideia ao espírito; em “Jeux d’eau”, de Ravel, move-se com uma agilidade anfíbia; na “Barcarola Nº 5 em Fá sustenido menor”, Op. 66, de Fauré, consegue um som de pedal perfeitamente espumoso, a mecânica do seu piano transformando-se em hidráulica. Em transe entre cada peça – de “Transition 1” a “Transition 7” – está um conjunto de brocados sonoros da autoria de Nitin Sawhney, filigranas de um minimalismo eletrónico borbulhante, sofisticado, mas frágil, a rede poética que ampara uma Grimaud em queda livre pelas profundezas metafóricas. A terminar, ouve-se o ar a ser aspirado pela sua boca ao preparar-se para tocar “La Cathédrale engloutie”, de Debussy, e o receio maior é que, uma vez mergulhada no abismo, não mais regresse à superfície.
Evidentemente fluída está também a técnica de Grimaud: escuta-se a sua interpretação de “Rain-Tree Sketch II”, de Takemitsu, e imagina-se que por cada pingo de chuva que faz alegórica e mansamente deslizar até ao chão lhe assome uma ideia ao espírito; em “Jeux d’eau”, de Ravel, move-se com uma agilidade anfíbia; na “Barcarola Nº 5 em Fá sustenido menor”, Op. 66, de Fauré, consegue um som de pedal perfeitamente espumoso, a mecânica do seu piano transformando-se em hidráulica. Em transe entre cada peça – de “Transition 1” a “Transition 7” – está um conjunto de brocados sonoros da autoria de Nitin Sawhney, filigranas de um minimalismo eletrónico borbulhante, sofisticado, mas frágil, a rede poética que ampara uma Grimaud em queda livre pelas profundezas metafóricas. A terminar, ouve-se o ar a ser aspirado pela sua boca ao preparar-se para tocar “La Cathédrale engloutie”, de Debussy, e o receio maior é que, uma vez mergulhada no abismo, não mais regresse à superfície.
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5 de março de 2016
David S. Ware/Apogee “Birth of a Being (Expanded)” (Aum Fidelity, 2015)
Em 2000,
numa entrevista para a publicação “50 Miles of Elbow Room”, o
multi-instrumentista Cooper-Moore passeava pela emoção contida da
reminiscência: “Fui em busca de um nome para a banda no dicionário Webster’s.
Não fui além do A: Apogeu.” E, sim, presume-se que se tenha deixado seduzir pelo
que em astronomia indica o ponto na órbita terrestre em que um astro se
encontra mais afastado da Terra. Afinal, estávamos no início dos anos 70, pouco
depois de muita gente ter dado conta da importância da verticalidade na
evolução humana, ainda que não lhe sobrassem motivos para andar pela rua de
cabeça erguida. Aliás, sempre se disse que o free jazz era, também, uma forma de alguém representar em palco a
remoção das toneladas de raiva, receio e rancor que lhe pesavam no peito, de
arrojar o ranço de tantos soluços, um gesto que transformava o ato de respirar
num feito ideológico. E porque não? David S. Ware – que, no contexto da ação
deste trio com Cooper-Moore e Marc Edwards, nesse abril de 1977 pela primeira
vez foi a estúdio com intenção de revelar ao mundo que algo de novo começava a
aparecer no horizonte – sempre aliou um tom áspero e asfixiante a uma prática devocional
devastadora. Ninguém imagina como eram, então, os seus dias, tal como poucos
sabem verdadeiramente o que viveu desde que passou a depender da diálise
peritoneal até à sua morte, com areia negra a encher-lhe as veias, em 2012. Mas
do seu íntimo nunca se apagou a esperança. Esta reedição dilatada – com
lançamento parcial na Hat Hut, em 1979 – é a assunção de uma responsabilidade
histórica, quase incongruente com a experiência desse que nem com trinta anos
feitos, e muito antes de lá chegar, estava já no apogeu.
Agenda: Portalegre JazzFest 2016
Em dois fins de semana, evadindo um
rapto quotidiano, volta o jazz a Portalegre para nova edição do JazzFest –
façam figas, a 13ª. E inicia-se, sexta, dia 11, com a voz da norueguesa Mari
Kvien Brunvoll, que canta como uma estrige e saca do embornal kissanges e kazoos, saltérios e teclados, pedais de efeitos e instrumentos de
percussão. Acompanha-a Stein Urheim. Juntos (na foto), têm um disco com um título tirado a
Bertrand Russell, sugerindo que a arte está de permeio entre as ciências exatas
e as ocultas. No sábado, chega o sazonado quarteto de Carlos Martins, outro que
crê que nenhuma música – nem ninguém – existe verdadeiramente a sós no mundo.
Num novo CD, o seu veludíneo tom erra por uma vaga ideia de sul, mais afetiva
que efetiva, e do jazz extrai a prática e a poética. A cada um destes concertos
segue-se uma atuação de Miguel Mira, Pedro Sousa e Afonso Simões, algo que se
comporta, num instante, como se a um pássaro alvoroçado se arrancasse a retriz
e, noutro, aparenta esvoaçar por rotas há muito definidas. Há um aroma panteísta
neste texto que se poderia aplicar a “Earth Blossom”, um histórico registo de John
Betsch, editado pela Strata-East. Pois é de Betsch, em trio, com Eric Revis e
Kris Davis, que se espera o mais belo momento do certame, sexta, dia 18. Já na
noite seguinte, avezado ao rock mas abordoado por muito mais, Chrome Hill
dispensa tais considerações. Em complemento a cada serão está o septimino Slow
is Possible, cuja denominação é contrariada por temas de andamentos
sezonáticos, tão estáticos quão logo movidos por uma vivacidade que mostravam não
poder possuir.
“Great Chopin Pianists: The Winners of The International Chopin Competition, 1927-2010” (2015, Deutsche Grammophon)
Pianista e pedagogo num mundo
privado de poesia, o polaco Jerzy Zurawlew padecia: “O culto de Chopin tinha-se
esfumado. Aliás, dava frequentemente com a opinião de que ele era demasiado
romântico, que sentimentalizava a alma e anestesiava a mente. O que, por si só,
e segundo vozes críticas, seria mais do que razão para lhe excluir a obra dos
conservatórios. Achava este equívoco doloroso.” Decidiu-se por contra-atacar. E
inspirou-se ao observar façanhas desportivas entre os mais jovens. “Organizar
uma prova!”, faiscou-se-lhe na mente. Nascia o Concurso Internacional de Piano
Frédéric Chopin, em Varsóvia, com edição inaugural em 1927 e concebido para se
disputar a cada cinco anos. E tem-se provado que o espírito competitivo é
contagioso. Só na edição de 2015 se avaliaram 450 candidatos, tendo o galardão
principal ido para o sul-coreano Seong-Jin Cho. Por questões de prazos, presume-se,
entre os laureados do certame é o único ausente desta antologia. Mas incluem-se
os outros, os que ao longo dos anos deixaram à sua passagem a geografia
sentimental da capital polaca alterada como que por um terremoto, aqueles que
nunca se deixaram intimidar pela falta de intimidade da situação, os que
descobriram que tocar Chopin obriga a minar reservas estratégicas de emoção
dentro de si. Atente-se aos exemplos pré-históricos de Lev Oborin (Primeiro Prémio
em 1927), Alexandre Uninsky (1932) ou Yakov Zak (1937): um toca o Largo da “Sonata para Piano Nº 3 em Si
menor”, Op. 58, como se uma sedação lhe fosse engolindo os nervos e os
músculos, outro aproxima-se do “Estudo em Dó sustenido menor”, Op. 25, Nº 7, como
se apenas nesse momento despertasse a sua consciência de pianista e o terceiro namora
algumas das mazurcas com a possessividade de um adolescente inseguro. São
gravações históricas da Melodiya e da Polskie Nagrania que a DG resgatou. Tal
como o são as de Halina Czerny-Stefanska e Bella Davidovich (vencedoras, ex aequo, em 1949), com a azerbaijana a prolongar
o Allegro maestoso do “Concerto para
Piano Nº 1 em Mi menor”, Op 11, tal como, depois de se pôr, o sol deixa atrás
de si a luz dos seus raios, e a polaca a veicular a faustosa e anacrónica prosápia
do “Concerto para Piano Nº 2 em Fá menor”, Op. 21. Após um apontamento de Adam
Harasiewicz (1955) entra-se na era moderna, com Maurizio Pollini (1960): os
seus “12 Estudos”, Op. 25, permitem imaginar o rosto iluminado daquele que conhece
os mistérios da vida; na “Sonata para Piano Nº 2 em Si bemol menor”, Op. 35, mitiga,
até, a sensação de desconsolo que habitualmente a cerca. Depois, claro, há uma Martha
Argerich (1965) que deteta os pressentimentos dos “24 Prelúdios”, Op. 28,
abraçando a euforia mal contida com que tenta compensar uma carência ou
soltar-se de uma repressão. Há ainda por aqui Garrick Ohlsson (1970), mas é com
Krystian Zimerman (1975) e Dang Thai Son (1980) que se acede a um limbo
inatingível, a um som profundo que corre espavorido para longe de quem o tenta
escutar. Com Stanislav Bunin (1985), Kevin Kenner (1990), Philippe Giusiano
(1995) e Alexei Sultanov (1995) coroa-se o Chopin da incontinência melódica e
tudo parece cíclico (os três últimos receberam o Segundo Prémio em edições sem
vencedor, o que compromete tecnicamente o subtítulo da compilação). Yundi Li
(2000) e Rafal Blechacz (2005) mantiveram-se presos à Terra. Mas Yulianna
Avdeeva (2010) apaga a sombra que arranhava a luz da eternidade num recital que
torna a urdir a grande ilusão de Chopin. Inédito, vale pela caixa inteira.
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