Falava serena
e pausadamente, sem oscilações na voz mas com uma cadência algo oracular, como
aquelas pessoas que cochicham segredos aos animais para os acalmar ou como um
bom professor habituado à indiferença dos alunos. Não obstante a tendência
esotérica e a capacidade para se deixar invadir por um vernáculo a que nem
sempre se chegava, cada raciocínio seu era elegante, de elementos interligados,
e quando se ria ficava espantado e feliz como uma criança gulosa que descobrisse
um doce na boca. Conversámos pelo telefone por ocasião do Jazz em Agosto de
2015, festival em que viria a apresentar “Great Lakes Suite”, um notável disco
a que dá agora espectacular seguimento. Perguntei-lhe se era normal comentarem
consigo que fala de modo parecido àquele com que toca trompete e ele disse que
sim: “Tem tudo a ver com o contexto rítmico criado. Basta pensar nos discursos
do Dr. King! Aquele fraseado que ele tinha não impedia que se reconhecesse a sinceridade
em tudo o que dizia – muito pelo contrário. Empregar certas palavras num
discurso acarreta uma responsabilidade equivalente à de se recorrer a
determinadas notas numa peça de música e, pelo recurso ao silêncio, o inverso não
é mentira nenhuma. Mas são só veículos para melhor expressarmos o que queremos
realmente dizer.” E Wadada Leo Smith tem tornado abundantemente claro o que tem
a dizer.
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