30 de maio de 2009

Edu Lobo e Chico Buarque "O Grande Circo Místico"

Não terá sido a primeira nem a última vez que uma tenda de circo se armou em torno de um poema. Mas foi das poucas em que, a pretexto de olhar nos olhos o Criador, o Homem não se ajoelhou. É que – há na vida que aceitá-lo – nem sempre o degredo se pinta com a cor do pecado. Por isso, para que subam ao palco, que se expulsem do paraíso os actores – é o melhor destino dos que desejam em segredo. “O Grande Circo Místico”, pela mão de Naum Alves de Souza e do coreógrafo português Carlos Trincheiras, ergueu-se em 1982. A sua banda-sonora garantiu-lhe a eternidade. Esta terceira versão em CD difere da de 1993 (Velas) mas é idêntica à de 2002 (Dubas): cá estão as canções feitas de luz e sombra, as vagas valsas, maltrapilhas marchas, ornatos oratórios. E a bela leveza das bailarinas, o pranto dos palhaços, o indecoro das coristas. Com Milton, Gal, Gil ou Simone nas vozes dos anjos, e uma barca de insuperáveis instrumentistas (António Adolfo, Nelson Ângelo, Dorothy Ashby) empurrada pelo sopro de uma big band e embalada por uma ondulante orquestra de cordas. Na plateia sorriem Weill, Richard Strauss, Bernstein, Sondheim, Rota, Jobim e Miles. No momento em que explodiu o BRock, não houve melhor túmulo para a MPB. Obrigatório.

23 de maio de 2009

Levitts "We Are the Levitts"

Chamam-lhe o ‘ano que nunca acabou’ – talvez porque não se possa matar de vez a esperança. Pois com a chegada da Primavera, de Praga a Lisboa, renovou-se então a fé no Homem sem garantias sobre a justiça do gesto. E, da Cidade do México a My Lai, e de Martin Luther King Jr. a Robert Kennedy, só o sangue fez a crónica definitiva desse tempo. Por isso – como relembrou há pouco “Hear, O Israel” – muito dirá da força da utopia que artefactos de 68 regressem ainda capazes de animar espíritos a uma realidade em que não se impôs a ‘nova era’. Não terá sido outra a razão que levou Al, Stella Levitt e os seus sete filhos a cantar mensagens de paz para o futuro. E unindo – antes de Steve Kuhn e Karin Krog – o que raramente se juntou: jazz e sunshine pop. Situando-se – graças à presença de Pete Yellin, Ronnie Cuber e Chick Corea – entre as “directions in music” apontadas por Miles Davis em “Filles de Kilimanjaro” e Roger Nichols, Free Design ou Sérgio Mendes (há uma versão, em português, de Jobim). Uma pérola.

16 de maio de 2009

Mariana Aydar "Peixes Pássaros Pessoas"

Há quem lhe chame ainda “o país das cantoras”. E um tempo houve em que memória e desejo se confundiam como se toda a música chegada do Brasil apontasse para um regresso à natureza. Isso, e encontrar na “verdade da voz” (feminina) remédio para males de que não há cura. O postulado chamou-se Elis, Bethânia, Gal ou, até, Simone. Mas logo apareceu quem na crença visse a suspensão da realidade. Por isso, e porque uma agenda mais dependente do marketing do que do talento impôs um tumulto que nem sempre interessou ouvir, só no encontro com Adriana Calcanhotto, Marisa Monte ou Zélia Duncan viu a luz aquele que, neste contexto, faz da cultura popular uma profissão de fé. Mas entretanto voaram 20 anos. E um novo dia exige uma nova canção. Disso saberá Tom Zé, que em “Estudando a Bossa” evoca o passado para falar do futuro em duetos com Mariana Aydar, Tita Lima, Andréia Dias, Márcia Castro, Marina de la Riva ou Anelis Assumpção – essas sim, “novas vozes”. Aydar, precisamente, apresenta em Portugal (nos dias que correm, quase uma excepção) o sucessor de “Kavita 1” e distingue-se pela tomada de responsabilidade que a crise exige. Isto quer dizer que à toada rare groove da estreia (por cortesia do produtor, BiD) se sobrepôs a necessidade de aclarar águas e anunciar a razão única de se estar aqui e agora. Kassin e Duani combinam estilo e substância nos arranjos e fazem-no com uma noção de tempo histórico que cruza ecos de afoxê, forró e samba com os mesmos vestígios do rock que enreda Caetano Veloso ou Marcelo Camelo. E quando se define um espaço próprio – convidados como Zeca Pagodinho e Mayra Andrade só o confirmam – fica na mente gravada a ideia de que os ventos de mudança derivam hoje de discretos exercícios pessoais. Lição que Verônica Ferriani e Ana Costa precisarão de aprender, mais valia face ao que em 2008 fizeram Daniela Procópio, Beatriz Azevedo, Aline de Lima ou Cris Aflalo, e uma importante aproximação a Roberta Sá e Fabiana Cozza. E se a próxima curva na estrada confirmar Mallu Magalhães, Dani Gurgel, Fernanda Dias ou Tatiana Parra, tropeçará de vez na esperança o que parecia destinado a errar no escuro.

9 de maio de 2009

Marisa Monte "Infinito ao meu Redor"

A agenda assinala duas décadas de carreira. Para trás estão oito CD (incluindo “Os Tribalistas”) e, agora, seis DVD. Não é muito, mas é demais. “Infinito ao Meu Redor”, subtraído aos 18 meses da digressão “Universo Particular”, não é um concerto – contém, isso sim, nove canções em meia hora de excertos, com um inédito (‘Não é Proibido’, original da pior extracção axé-mix já adoptado por Ivete Sangalo), e um documentário de filiação “60 Minutes”/“Toda a Verdade”. Narrado por Marisa, começa discutindo “meios de produção” e “ética de trabalho”, fala da imprensa enquanto “negócio de vender notícias”, mas não vai além do registo ‘“Carrie Bradshaw lê “O Capital”’, ainda que pelos vistos não tenha chegado à definição de “fetichismo da mercadoria”. Mas cedo, e previsivelmente, tudo reverte ao tom MTV-“Diary”, diluindo melancolia de tour bus e olheiras de jet lag pelas infinitas e indistintas plateias, cidades e suites de hotel do mundo inteiro. O trunfo é a mão perdedora: a cantora olha para lá do espelho e encontra o umbigo. 1º de Maio em Lisboa: nos Restauradores, um revolução-som-sistema toca a versão de Roberta Miranda de ‘Cabecinha no Ombro’. O Marxismo é um lugar estranho.
 

3 de maio de 2009

Susana Baca "Seis Poemas"


Em Maio de 1963, no Peru, 29 balas encontraram o corpo do poeta e revolucionário Javier Heraud. Chabuca Granda, primeira-dama da trova peruana, emudeceu e, consigo, calou-se a Primavera. Anuviada por uma mágoa que parecia indizível, nada gravou ou – supõe-se – compôs no lutuoso par de anos que se seguiu. Até que um dia voltou com dez novas canções assombradas pela morte, suspensas em misteriosas melodias e com cada nota bem colada à letra. Vinham manchadas de sangue, secretas como um tiro ouvido numa floresta anoitecida e, ouve-se em “Un Cuento Silencioso”, de um tempo em que se dizia que o mundo iria morrer de frio. No final da década, até ao cantar clássicos (de “La Flor de la Canela” a “Fina Estampa”) se adivinhava pesar. Susana Baca, sua herdeira e protegida, escolheu agora três canções desse ciclo e revoltou-lhes entranhas. Daí partiu para uma consonância temática que se alastra ao folclore e inclui Lorca, outro poeta assassinado. Pela mão de Sergio Valdeos, guitarrista e director musical, a luz é aqui mais luz e a sombra mais sombra. Porque, lê-se em “El Fusil del Poeta”, evoca o dia em que “era el sol más sol al río / más río el río, y más la guerra era / y más la muerte desde la ribera”.

1 de maio de 2009

Caetano Veloso "Zii e Zie"

O zimbro na capa diz muito. E a foto traz à memória a interrogação de Jobim em “Inútil Paisagem”: “de que serve esta onda que quebra?”. Fala-se portanto de vida e morte. Também por ali, à esquerda, paira a palavra transambas. Na nebulosa contracapa enunciam-se canções, postula-se a insigne bandaCê e, da bruma, surge: transrock. Caetano foi sempre palavroso mas raramente tão explícito. Em “Zii e Zie” quase não canta – zizia, como as cigarras, e está lutuoso. No melhor, sintoniza-se com o fuzz da guitarra de Pedro Sá, aqui protagonista de voz clara. No pior, torna espástico até ‘Incompatibilidade de Génios’, o desembaraçado samba de João Bosco e Aldir Blanc. 
Mas Caetano costuma zombar com a ideia do envelhecimento. Se “Cê” foi a retracção na ferida aberta, o sanhoso nervo lesado e uma zangada e reaccionária neurose, “Zii e Zie”, embora não pareça, de tão lasso aqui ou flébil acolá, é a metástase, o músculo recuperado – é o que corrige e esclarece as imensas falhas do outro. Talvez o seu maior mérito seja sugerir que toda a obra é corruptível. E é novamente um disco a transir Caetano: ‘Perdeu’ liga-se ao ‘Herói’ de “Cê”, a voz de ‘Por Quem?’ zanza ululante num incerto impulso sexual que lembra o ‘Etc’, de “Estrangeiro”, ‘A Cor Amarela’ evoca os anos com Carlinhos Brown (o verso “uma menina preta de biquíni amarelo na frente da onda” recorda a capa do álbum que gravaram em 87), a melopeia de ‘A Base de Guantánamo’ alinha-se com ‘Haiti’, de “Tropicália 2”, e a sumptuária exaltação de ‘Lapa’ aproxima-se da ‘Itapuã’ de “Circuladô”. Há ainda umas tristes súplicas, sociologia critiqueira, uns galanteios prometidos no blog “Obra em Progresso” e a resposta ao desafio de Lobão (“Amado Caetano, chega de verdade. Viva alguns enganos, viva o samba meio troncho”). Mas nada ilumina as trevas. O disco público revelou-se um acto de marginalização. Siga.

25 de abril de 2009

Maysa "Voltei"

Na alvorada de um novo mundo há geralmente outro que se arruína. A fechar 1959, Maysa, cansada de digressões, de dois álbuns por ano, amantes e tentativas de suicídio, entra em depressão com a morte de Dolores Duran e, com 90 quilos, é admitida nas urgências. Desintoxica-se, plastifica-se, regressa a estúdio e diz: “Voltei, com meus olhos, com meu verso, e a todos eu peço que me aceitem como sou”. A poeira assentou. Como João Gilberto, abre o LP com uma aveludada ‘Meditação’, deixa a dor de corno para Nora Ney e, batendo Sylvia Telles e Alaíde Costa, grava a mais doce versão de ‘Dindi’ de 1960. Com lúcidas orquestrações de Enrico Simonetti, propôs – a par da Elizete Cardoso de “A Meiga Elizete” – o mais belo disco feminino do ano. E num instante trocou as voltas ao destino. Em 1961 gravaria o infido “Barquinho” (com consequências devastadoras para o núcleo central da bossa nova) e até à morte, aos 41 anos – entre escândalos e temporadas em Lisboa –, cantou “Se o meu mundo caiu eu que aprenda a levantar”. Em 2009, com a exibição na Globo de “Maysa – Quando Fala o Coração” (mini-série de Jayme Monjardim, seu filho) e a reedição dos seus discos, provou-se que nunca aprendeu.

18 de abril de 2009

"Tudo Ben (Jorge Ben Covered)"

Jorge Ben Jor, como há vinte anos se chama, nunca se deu bem com a crítica porque a crítica raramente premiou o sucesso. Além de que o crítico, como um explorador marítimo costeiro e temente a Deus, apanha banhos de sol mas não aprende línguas estranhas. Faltou reconhecer-lhe em ‘Uála Uála-lá’, de 63, um acto civilizacional semelhante àquele em 59 idealizado pelo ‘Hô-bá-lá-lá’ de João Gilberto. Se a canção de João ficou na sombra de ‘Chega de Saudade’, a de Ben deixou de existir mal se ouviu ‘Mas Que Nada’ – nos EUA não se percebia “samba de preto tu”.

O anedotário benjoriano tem costas largas (o processo contra Rod Stewart, a mudança de nome), ainda que assente nessa ideia de ressurreição à custa de um tema só. É uma meditação apropriadamente pascal, e Jorge, tão humano ao jamais exercer soberania, pacificou-a há muito. Nele, contrariando-se a noção de Einstein de Tempo, tudo acontece de uma só vez, como no “amanhã eterno” que Borges leu em Unamuno. E o que quantificou em oito LP de originais, de “O Bidú – Silêncio no Brooklin” em 67 a “África Brasil” em 76 – uma concentração de energia capaz de suster o mal do mundo nos anos de chumbo, de intuir pensamento colectivo sem politizar mais que a cor da pele, de se tornar no ritmo da vida e refundar a felicidade enquanto utopia universalista –, não tem paralelo tão rigoroso (além do óbvio – Beatles, Dylan, Marley, Stones, Stevie Wonder…) na música popular.

Esta antologia chega-nos pela mão dos DJ Sean Marquand e Greg Caz e, incluindo raridades (Marijô, Cyro Aguiar ou Salinas), é exemplar. As versões reunidas – de temas inéditos na voz do seu autor ou com estreia em “Força Bruta”, “Negro é Lindo” ou “Ben” – situam-se maioritariamente entre 69 e 72, quando a sua produção exactificava todas as outras: temos Elza Soares penteando o samba com um afro em ‘Pulo, Pulo’, Osmar Milito sincreticamente suspenso entre a síncope de João Donato e o espraiar de Marcos Valle em ‘Rita Jeep’, Wilson Simonal, seu intérprete perfeito, sintetizando toda a escola vocal masculina em ‘Zazueira’ e ‘País Tropical’ ou Os Brazões estilhaçando o tropicalismo até encontrar o funk mais enxuto em ‘Que Maravilha’ e ‘Carolina, Carol Bela’. A ausência dos peso-pesados explica-se pela criticada relutância da Universal em licenciar repertório – no mesmo período, e de memória, pertencem ao seu catálogo ‘Jorge de Capadócia’ por Caetano, ‘Tuareg’ por Gal, ‘Queremos Guerra’ por Gil, ‘A Minha Menina’ pelos Mutantes ou ‘Bicho do Mato’ por Elis. Não importa. O que está e o que falta é uno, servindo apenas para relembrar que o futuro da MPB não é mais que um tempo por onde passou já Jorge Ben Jor.

4 de abril de 2009

Alaíde Costa "Coração" e Rosinha de Valença "Cheiro de Mato

Alaíde Costa esteve na bossa desde o ano zero. E entre 59 e 65 patenteou um modelo interpretativo superado apenas por Sylvia Telles. Mas estava esquecida quando em 72 Milton Nascimento a convocou para “Clube da Esquina”. Reanimada, gravou uma obra-prima (com Oscar Castro-Neves) e em 76 lançou “Coração”, numa actualização de repertório e estilo capaz de acolher as expansivas tendências de João Donato (autor dos arranjos), Nelson Ângelo ou Toninho Horta. Confiante e moderna, estreou aqui uma mão cheia de originais que hoje se comprovam uma incumprida promessa de futuro. Nos últimos 30 anos editou apenas seis discos – e é este que contextualiza os outros. 
 Rosinha de Valença era guitarrista, apresentada como versão feminina de Baden Powell. Em 65 partiu para os EUA com Sérgio Mendes e gravou com Bud Shank e Donato. Mas com “Cheiro de Mato”, também em 76, mudou tudo e decidiu dar voz a um imaginário rural de meninice, virando-se para memórias de terra gretada pela seca, de noites de lua cheia, do madrugador chilrear no arvoredo, dos badalos da boiada, dos cascos e pedras, cantando num tom de uma impoluta candura capaz de, no dueto com Miúcha, passar das palavras às lágrimas. Acompanhada por Sivuca, Célia Vaz ou Francis Hime, reconduziu a MPB a uma pureza virginal e um ano depois até Elis dizia ser caipira. Ainda tocou com Bethânia, mas, sem mais oportunidades, foi partindo até abandonar o país. Voltou em 92 e, na sequência de um AVC que a deixou 12 anos em coma, aí faleceu em 2004. Nesse ingrato ano de 76, como nos LPs de Edu Lobo, Milton, Tom Zé, Jorge Ben ou Chico Buarque, a maior ilusão foi a de quem dentro de si procurou a via da esperança.

28 de março de 2009

Franco & Le TPOK Jazz "Francophonic"

Este primeiro volume da retrospectiva de Franco na Sterns parte da sua entrada em estúdio em 1953, com 15 anos, vindo do gueto, e avança até 1980. Começando na sombra do que faziam Dr. Nico, Tabu Rochereau ou Manu Dibango na African Jazz de ‘Grand Kalle’, passando pela recondução da rumba congolesa à sua raiz africana e terminando nas libertárias sessões no restaurante-discoteca-estúdio Un Deux Trois, em que mais de 20 músicos se organizaram na Tout Pouissant OK Jazz, o que se ouve um impacto avassalador na música africana (francófona, lusófona e anglófona) dessas três décadas. Ninguém personificou melhor que François Luambo Makiadi o que significou a libertação do jugo colonial, mantendo-se ainda assim permeável ao mundo e sugerindo uma inexorável visão de autor. Tudo com uma ambígua relação com o regime e uma consciência desenvolvida entre os impulsos mais materialistas e a mais básica procura de afecto. Um processo histórico em pleno andamento finalmente organizado de forma inteligente. Venha o segundo volume.

21 de março de 2009

Entrevista a Renaud Barret (coprodutor de "Très Très Fort", de Staff Benda Bilili)


Definem a Belle Kinoise como uma produtora. Mas o Renaud [na foto, o segundo a contar da direita] e o Florent [o primeiro a contar da esquerda] parecem estar a tornar-se realizadores de documentários. Há algum plano?
Não, nada disso. Aliás, nem nos consideramos propriamente documentaristas. É curioso, porque nos festivais de cinema entramos em competições oficiais num género que nem conhecemos. Produzimos dois álbuns, mas também não somos produtores. A nossa inspiração vem directamente das pessoas com que nos cruzamos. E, na realidade, tudo isto está a acontecer por uma série de acasos e por sermos muito teimosos.

Mas como é que foram parar a Kinshasa?
Em 2003, quando trabalhava como fotógrafo, fui enviado por uma revista para a fronteira entre a República Democrática do Congo e o Rwanda na ideia de fazer uma reportagem sobre as crianças-soldado. Por sorte fiquei uma semana em Kinshasa e conheci uma série de músicos de rua absolutamente espantosos. Comecei a acompanhá-los e a conhecer as suas famílias e os guetos onde viviam. Foi arrasador. A música estava por todo o lado: reggae, hip hop, funk, blues, rumba, tudo misturado com canções e estilos tradicionais e tocado em instrumentos construídos a partir disto e daquilo. Foi então que liguei ao Florent dizendo-lhe que era preciso fazer qualquer coisa. Desde então, nestes últimos cinco anos, temos vagueado pela cidade um pouco como estes músicos. E a boa notícia é que acho que ainda não vimos nada.

Qual foi o vosso primeiro projecto?
Começámos a filmar “Jupiter’s Dance” em 2004. O filme é uma espécie de viagem pelos guetos de Kinshasa através do olhar de Jupiter Bokondji, um artista extraordinário que criou um género próprio, o ‘bofenia rock’. Na mesma altura decidimos gravar-lhe um disco: “Man Don’t Cry”. Fizemos tudo do nosso bolso sem nenhum tipo de apoios e ainda começámos a ser fortemente criticados. Mas em 2007 conseguimos editar comercialmente um DVD e um CD com estes conteúdos. Aos poucos, o trabalho foi sendo descoberto e ganhou exposição em alguns Festivais de Cinema.

E isso permitiu-vos avançar para o segundo filme?
Sim. Ainda em 2006, durante a campanha eleitoral, começámos “Victoire Terminus”. É sobre um grupo de mulheres que sobrevivem graças ao boxe. Os torneios são feitos no mesmo estádio em que lutou Muhammad Ali. Levámos o filme ao Festival de Berlim. E em 2008, durante o Festival do British Film Institute, em Londres, recebemos o prémio Grierson.

E o Staff Benda Bilili?
As primeiras gravações que temos são de 2005. Estamos a acompanhá-los há quatro anos, por entre muitos altos e baixos. A nossa intenção é gravar a última sequência do filme num grande Festival Europeu de Música do Mundo este Verão. Precisamos de um final feliz. Entretanto fomos co-produtores deste CD para a Crammed.

Quão difícil – em termos humanos e logísticos – tem sido o processo? Começando do princípio, como é que descobriram o Staff Benda Bilili?
Foi completamente por acaso, ainda durante as filmagens de “Jupiter’s Dance”. Já nos tinham falado de uma banda de paralíticos e deficientes motores completamente loucos, que tocavam uma espécie de blues diferente e que normalmente dormiam pelas ruas. Até que numa noite, no bairro La Gombe, lá estavam eles a pedir à porta de um restaurante caro, poiso habitual dos expatriados brancos de Kinshasa. Na altura não ligámos muito mas depois do jantar continuávamos a ouvir a música pelo ar. Fomos à sua procura. E ficámos apaixonados pelo que encontrámos.

Mas o processo tem sido muito difícil. Na altura, ninguém (Vincent Kenis incluído) queria sequer ouvir a música de um grupo de paraplégicos e meninos de rua. Nós fomos filmando o seu dia-a-dia sem saber bem o que fazer com aquilo. Era duro. A sobrevivência dos membros do grupo, os miúdos a dormir no chão, as histórias das prostitutas de um dólar, os soldados completamente drogados, ladrões por todo o lado. E a banda nem nos queria aceitar. Eles são duros – têm de ser – e orgulhosos. Ninguém consegue imaginar aquilo por que passaram, o que tiveram de fazer para garantir alimento para os seus filhos. Tivemos mesmo de mergulhar no mundo deles de forma a conseguir contar uma história verdadeira. Mas é impossível permanecer imune à brutalidade e sofrimento a que já assistimos.

Mas acabaram por se conseguir infiltrar?
Sim. E percebemos que aquilo que o Staff Benda Bilili mais queria era gravar um disco. Entre 2004 e 2005 contratámos técnicos de som europeus, pagámos-lhes os bilhetes de avião para Kinshasa, arranjámos sítio onde ficarem e começámos as gravações. Correu tudo mal. Os instrumentos dos músicos foram roubados, alguns deles estavam sempre bêbados demais para conseguir cantar e tocar, o centro de acolhimento nocturno em que as suas famílias dormiam ardeu, enfim: foi um pesadelo e um desastre financeiro. No Verão mostrámos imagens da banda e o pouco que se aproveitou dessas sessões ao Vincent Kenis, que tinha estado em Kinshasa a gravar o Konono Nº1. Ficou de boca aberta. Gravou logo uns temas mas tivemos de esperar até ao Verão seguinte para acabar o álbum.

A banda está finalmente optimista? Sentem que as suas vidas vão mudar?
Uma das coisas que sempre me impressionou no Staff foi a convicção que sempre demonstraram em que um dia se iriam tornar conhecidos e viajar pelo mundo. Agora só falam em juntar dinheiro suficiente para construírem casas para os seus filhos e conseguirem matriculá-los em escolas. É o seu maior desejo. Fora isso, sentem o mesmo que as outras pessoas em Kinshasa: que nada realmente mudou desde as eleições de 2006 e que em termos económicos a situação só se está a agravar. Mas Kinshasa ainda provoca esta sensação ambígua de desespero e encanto. Beleza no caos ou caos na beleza, não sei.

Para terminar: a maior esperança nas ruas é?
Políticos honestos e qualificados.

Que cinco coisas o fizeram mais feliz desde que aí chegou?
Ter cinco sentidos.

Que cinco coisas o fizeram desejar estar noutro lugar?
Nunca desejei estar noutro lugar.

Staff Benda Bilili "Très Très Fort"

 
No seu livro sobre Mobuto, “In the Footsteps of Mr Kurtz”, Michela Wrong descreve o paradoxo entre a pobreza nas ruas de Kinshasa e o luxo nas discotecas de Paris, com Papa Wemba, Koffi Olomide ou Kanda Bongo Man embrulhados em Gaultier. Mentes preocupadas exigiam rapidez na pista de dança e pelos anos 80 e 90 a música no Congo resumiu-se a um plano de fuga. Tudo foi piorando com Wenge Musica, Awilo Longomba ou Werra Son. Agora, inesperadamente, refunda-se a energia criativa mais poderosa do continente enquanto manifesto civilizacional. E será necessário relembrar Franco e a OK Jazz cantando a infância da independência congolesa, há 50 anos, para se encontrar outro momento capaz de traduzir da mesma maneira o que aí significará almejar a liberdade. É um regresso à rumba – esse eco de outro eco – e à memória de African Jazz, Nico Kasanda ou Tabu Ley Rochereau. E a rigor: com ritmos e palavras retirados a James Brown e o essencial da mensagem de Bob Marley. Guitarras, baixo acústico, percussionistas e um solista sem precedentes, gravados à noite, sob as árvores, por um Vincent Kenis que por mais mundos que inventasse nos Aksak Maboul nunca haveria de ter chegado a este. Continuem a tocar ao fim da tarde e pode ser que voltem os animais ao Zoo e as cores às acácias.

Staff Benda Bilili

O Reality Show anunciaria qualquer coisa como: ‘Directamente das ruas de Kinshasa para o Mundo’. E, num momento em que a questão da sobrevivência regressa à agenda económica global, certamente não lhe faltaria audiência. Porque de outra coisa não trata este grupo de paraplégicos e meninos de rua quando espalha a notícia de que é preciso ver para lá das aparências (‘benda bilili’, no dialecto lingala, quererá dizer ‘revelar o que está oculto’). Que a mensagem chegue de uma nação – a República Democrática do Congo – em que tradicionalmente se recorre à guerra e ao terror para se escapar à brutalidade e violência dos tempos de paz só a tornará mais importante. Mas se o Staff Benda Bilili surge à partida como um inevitável clamor, não demora muito a revelar-se por aquilo que também é: a máquina funk dos sonhos de James Brown. O processo implica orgulho, esperança, celebração da vida e, essencialmente, a soberba de quem sabe ser senhor de si próprio. Não será dizer pouco daqueles que quase todos os dias saltam de camas de caixas de cartão para bicicletas feitas à medida e partem em busca de alimento pedalando com as mãos. Que a necessidade de se chegar ao dia seguinte se torne em si um acto histórico não será novidade em África, mas nem sempre o impulso se confunde com uma tendência espiritual e muito menos – ao derivar agora dos que se intitulam ‘jornalistas das ruas’ – resulta de uma imposição de consciência. A lição é que a auto-comiseração é uma forma de suicídio.

Staff Benda Bilili é um grupo de constituição variável mas que neste momento reúne uma dezena de pessoas. Os seus membros fundadores, Ricky Likabu e Coco Ngambali, conhecem-se há 30 anos e, tal como o núcleo central da banda, são paraplégicos – handicapés, vítimas de poliomielite. Dormem nos terrenos em redor do Jardim Zoológico de Kinshasa e partilham o espaço com shégués. Na cidade, handicapés e shégués são há muito aliados. Em troca de protecção, conselho e alimento, as crianças ajudam os paralíticos a deslocar-se por entre o trânsito e, fundamentalmente, a carregar as motocicletas com bens. É essa, aliás, a sua fonte de rendimento histórica. Isentos de impostos na década de 70, os handicapés tornaram-se responsáveis pelo transporte de mercadorias entre Brazzaville (capital da República do Congo, na outra margem do rio Zaire) e Kinshasa. Todas as manhãs, na praia de Ngobila e por entre os armazéns da zona portuária, abastecem-se de arroz, leite, farinha, açúcar, cigarros, bebidas alcoólicas ou margarina enquanto aguardam o primeiro ferry. O que falta numa cidade trazem da outra. Roger Landu, de 17 anos, é um shégué. Foi adoptado por Ricky em criança e é responsável pela característica estética mais distinta da banda. O instrumento que inventou – o santongé, pouco mais que um fio eléctrico atado entre um cabo de madeira e uma lata vazia – provoca um tumulto de glissandos, fazendo deslizar todas as notas possíveis entre as melodias e harmonias produzidas pelas vozes e guitarras. Parece ter sido por si criado o princípio de atingir o máximo de resultados com o mínimo de recursos.

Há pelo menos 50.000 shégués em Kinshasa. A palavra tem origem discutível mas virá da entrada na capital, em 1997, de milhares de crianças-soldado nas fileiras do exército rebelde de Laurent-Désiré Kabila, e da associação do nome de Kabila ao de Che Guevara (o revolucionário cubano tinha estado no Congo em 1965). São órfãos, vítimas de maus tratos, crianças em fuga ou desertores de milícias, e apenas mais um dos grupos em risco num país em que a esperança de vida ronda os 50 anos e no qual morreram mais de cinco milhões de pessoas nos conflitos da última década. Recorrem a todo o tipo de expedientes e personificam hoje o eufemístico ‘Article 15’ instituído em plena cleptocracia da era Mobutu: a doutrina do desenrascanço enquanto modo de vida. É a única visão da lei congolesa aceite nas ruas de uma das cidades com mais crime do mundo. Renaud Barret e Florent de la Tullaye sabem-no bem – a sua Produtora, Belle Kinoise, opera em Kinshasa desde 2003. Durante a campanha eleitoral de 2006 filmaram “Victoire Terminus”, o dia-a-dia num torneio feminino de boxe organizado por mulheres de bairros pobres que fugiram assim à prostituição. Depois, na rodagem do documentário “La Danse Jupiter”, seguiram Jupiter, o líder dos Okwess International, pela periferia. O cantor revelava que a única constante positiva na vida dos congoleses foi a música – como exemplo lá estava Staff Benda Bilili. Renaud e Florent já escreveram no seu MySpace que o encontro se deu de forma fortuita, mas desde então têm-nos filmado sempre que possível e colocado os resultados no YouTube. Foi assim que os descobriu Vincent Kenis – o produtor da editora Crammed que havia gravado Konono Nº1 e Kasaï Allstars. Agora, com a saída de “Très Très Fort” – que inclui alguns desses vídeos – e planos para uma digressão europeia, prepara-se um filme sobre a banda.


Não será difícil olhar para Staff Benda Bilili enquanto metáfora para séculos de História. O seu imenso potencial depende apenas da forma em como for explorado. E se as vidas dos seus músicos efectivamente se transformarem, não será a primeira vez em Kinshasa que vence quem mais tempo passou encostado às cordas – Muhammad Ali assim o comprovou em 1974, no Rumble in the Jungle. Mas nesta terra de onde saíram escravos para o Novo Mundo, borracha para a indústria automóvel norte-americana, urânio para as bombas de Hiroshima e Nagasaki, de onde vêm ainda diamantes, cobre, ouro, cobalto ou coltan – o mineral sem o qual não se fabricam computadores portáteis e telemóveis –, onde se perderam Joseph Conrad ou V. S. Naipaul, em que se matou, pilhou e violou como em nenhum outro lugar, e que ganhou crónica ocidental desde que Diogo Cão lá deixou um Padrão, a esperança tem tendência a morrer sempre que cai a noite.

14 de março de 2009

Roberto Carlos e Caetano Veloso "E a Música de Tom Jobim"

Desfazendo um par de equívocos mediáticos, primeiro, este não é um DVD de duetos (Roberto e Caetano cantam juntos quatro temas) e, segundo, os espectáculos que lhe estiveram na base, no modelo revista-light dos ‘RC Especial’ (com arranjos cénicos melhor apreciados de olhos entreabertos), foram para além da celebração da bossa nova. Porque se a bossa é João Gilberto então Tom terá de ser outra coisa qualquer. E muitas destas canções, algumas no calendário (‘Tereza da Praia’, ‘Caminho de Pedra’ ou ‘Por Causa de Você’), transcenderam o género. Mas a inspiração de um talento maior que qualquer estilo não garante um diálogo aberto com a eternidade e no cotejo pouco mais se ganha que o reconhecimento de distintos paradigmas de interpretação. Caetano, demasiado gramatical, insiste em tensos tombos de escala – e se o fatalismo de ‘Inútil Paisagem’ e ‘Por Toda a Minha Vida’ justificam rigidez no canto, tornou austeras as doces melodias de ‘Ela é Carioca’ ou ‘Meditação’. O Rei, em ‘Samba do Avião’ ou ‘Eu Sei Que Vou Te Amar’, está como o mergulhador que só em saltos anulados consegue entrar na água sem splash. Os dois, condutores de Domingo pela estrada do sol, olham saudosos para o mar, encontrando placidez onde já só está a falta de vida.

7 de março de 2009

Chico Buarque "Essencial"

Os sinais da crise não são de agora. E já não há ‘tubarões’ na indústria fonográfica. Ainda assim, nada aguça tanto velhos instintos quanto a visão de um cadáver em queda rumo às profundezas. A presente edição resume-se numa frase: “O diferencial para as demais coletâneas em CD é que esta caixa dá cabo de suas mais variadas fases”. Sim em sentido figurado, mas não. Não sem ‘A Banda’, ‘Olê, Olá’, ‘Com Açúcar, com Afecto’, ‘Retrato em Branco e Preto’, ‘Carolina’, ‘Construção’, ‘Bárbara’, ‘Cálice’, ‘Pedaço de Mim’, ‘Pivete’, ‘Tanto Mar’ ou ‘Morena de Angola’. E ainda menos quando ‘Samba e Amor’, ‘Cotidiano’ ou ‘Samba do Grande Amor’ são regravações ou ‘ao vivo’. E o impulso de concentração temática em cada CD mais não faz do que repetir o ensaiado pela Polygram, em 1994 – nos 50 anos de Chico –, com os volumes “O Amante”, “O Cronista”, “O Malandro”, “O Trovador” e “O Político” (convirá esclarecer que mesmo essa intenção unificadora da obra só poderá ser valorizada num mundo pré-iTunes – hoje, e desde há tempo suficiente, ao organizar o repertório como bem entende, qualquer fã de Chico com discos e acesso a um computador dispensará transversais leituras em segunda mão). Por isso também não se tornará “essencial” o que ignore “O Grande Circo Místico” ou o que inclua ‘Fado Tropical’ numa versão sem guitarra portuguesa. Isto de um autor com dezenas de antologias nas lojas, além das caixas “Construção” (22 CDs) e “Francisco” (12 CDs e 2 DVDs). Aqui, nem o documentário “Chico ou o País da Delicadeza Perdida” é inédito. Claro que a música agora desperdiçada permanece de cinco estrelas, com sambas de joelho esfolado, valsas de nariz fungado, bossas de barquinho a deslizar, choros murchos de sombra de árvore ou boleros de perfumadas meninas tristes. Lula da Silva pode ter ignorado a sugestão de Chico em criar o preventivo Ministério do “vai dar merda”, mas que as editoras não o tenham ouvido é outra história.

28 de fevereiro de 2009

Oumou Sangare "Seya"


Virá com o território de qualquer “diva global”. E na semana em que a cantora cumpriu o seu 41º aniversário não arriscará muito quem sugerir ter chegado a hora do franchise. Será por isso um sinal dos tempos que “Seya” reincida na “abertura estética” de “Worotan” (1996) e que tenha ponto de partida formal no menos inspirador do passado recente – a aproximação a Sade em ‘Magnoumako’ ou a Angelique Kidjo em ‘Yala’, dois dos inéditos em 2003 incluídos na retrospectiva “Oumou”. O que, em termos criativos, só fará aumentar a nostalgia pelo mundo novo anunciado em “Moussolou” (1989) e “Ko Sira” (1993). E se os recursos estilísticos deste álbum (elenco: Cheick Tidiane Seck, Djelimady Tounkara, Fred Wesley, Pee Wee Ellis, Tony Allen, Will Calhoun ou Tony Remy) correspondem à Bamako em que Sangare gere associações de solidariedade, um hotel, uma quinta e a marca Oum Sang (os todo-o-terreno importados da China), é também verdade que o seu conteúdo político, numa voz que de forma ímpar cantou a condição feminina no Mali, surge hoje com a mesma lógica de uma linha de montagem. Em ‘Fragmento do diário de Oumou Sangaré’ Miguel-Manso antecipou esta futriqueira pop wassoulou – a poesia continua a fazer a melhor crítica musical. O resto é com a Oprah.

21 de fevereiro de 2009

"Bollywood Steel Guitar"

Entre técnicas centenárias e histórias de emigração e pirataria portuguesas, a steel guitar conquistou o cinema de Bombaim quando hollywood inventou o country. A possível consequência? Twists estivais em rodopio acordeonista, mariachi psicadélico, violinos ciganos temperados por vibrafones do jazz-fim-de-noite, valsas embrulhadas em western swing, sitar filtrada por funcional cartoon music, tablas batucadas em boogaloo boca-de-sino, cascatas de cordas a tombar no tango, histriónicos harmónios com fundo electro-funk ZX Spectrum, Morricone espectral, distorção em transicord e fuzz aos tropeções. Isto é, plena equivalência para narrativas com encadeamentos, alternâncias e encaixes, analepses e prolepses em achaque, triângulos amorosos, vil misticismo, irmãos separados à nascença, insinuação de incesto ou meretrizes em martírio. Aqui incluem-se versões instrumentais de temas das décadas de 60 e 70 (estreados em épicos como “Sholay”, “Amar Akbar Anthony” ou “Muqaddar Ka Sikandar”) e imortalizados nas vozes de Rafi ou Mangeshkar. Mas são os guitarristas – Van Shipley, S. Hazara Singh ou Sunil Ganguly – que estão como Ali Babá na gruta. A editora ignora os compositores: R.D. Burman, Shankar-Jaikishan ou Laxmikant-Pyarelal. Está perdoada.
Versão de Van Shipley de 'Jan Pahechan Ho':

Versão original (do filme "Gumnaam") cantada por Mohammed Rafi:

7 de fevereiro de 2009

Bengt Berger & Kjell Westling "Live in Stockholm 77"

O título valoriza o momento. Mas a história deverá ocupar-se da qualidade e menos da cronologia. E numa arte de poemas há quem aspire ao longo mergulho na prosa, revelando o tempo certo daquilo que a contingência abreviou. A estes suecos, discípulos de Don Cherry que em “Organic Music Society” ou “Eternal Now” fizeram corar décadas de teoria antropológica, não haverá antologia que valha. Até porque toda a sua obra, por definição, é una. E a combinação do jazz espiritual com a tradição escandinava nos Arbete Och Fritid, o ar do deserto nos Spjärnsvallet ou a percussiva exploração da noite tropical em síncrona filiação na música clássica indiana dos Archimedes Badkar têm aqui renovada pertinência. A crua síntese desta realidade filha dos anos 70 – gravada para a ECM em 1981 por uma Bitter Funeral Beer Band tutelada por Berger e Cherry mas permeável ao pulsar de uma aldeia africana – escancarou portas em vez de as fechar. Por tudo isto, é apenas natural que hoje, em countryandeastern.se, Berger revele as peças que faltam: concertos da Beer Band de meados de 80s, música fúnebre do Gana, o mestre do sarod K. Sridhar e, claro, estes diálogos de sax e bateria que reduzem o mundo a um belo instante.

31 de janeiro de 2009

Entrevista a Mallu Magalhães

Estamos no elevador que nos conduzirá ao décimo andar do Edifício Marconi – Mallu Magalhães viajou a Portugal a convite da TMN – e a câmara que a cantora traz a tiracolo capta a atenção de Luiz Carvalho, fotógrafo do EXPRESSO: é uma soviética Zenit, com filtro imundo e mais do dobro da idade de Mallu. “Não limpa”, exclama, “coloco mel ou azeite na lente, salpico de pimenta e produzo uns efeitos lindos”. É próprio da adolescência viver-se com um pé no passado e outro no futuro, e é assim a seu lado: tudo parece familiar e desconhecido. E o episódio sugere que o desejo de transformar o mundo é maior que o de simplesmente o possuir. Também a sua música ignora o agora para se agarrar ao sempre.
Mallu tem 16 anos. Não se recorda da primeira canção, mas terá coincidido com o começo das aulas de violão, aos 11. “Eram umas coisas que fazia e depois mostrava aos meus pais. A minha mãe só chorava”. Com o passar dos anos vieram os discos: “Primeiro Elvis, depois Cash e a seguir Dylan”, esclarece como quem anuncia um programa. Pelo décimo quinto aniversário pediu dinheiro em vez de prendas – queria gravar. E a fechar 2007 colocou o resultado no MySpace. Multiplicaram-se contactos até se atingir o milhão de visitas (entretanto ultrapassaram-se os três). Geraram-se também paradoxais descobertas: MTV e Rolling Stone brasileiras, Serginho Groisman ou Jô Soares foram-na apresentando “em primeira mão” como “fenómeno” e “revelação” no momento em que se pressentia já uma popularidade à escala nacional. “Foi tudo acontecendo aos poucos”, recorda, “mas quando começou a ganhar proporções mais sérias vi que me poderia sustentar física e intelectualmente, e adquirir liberdade e autonomia de pensamento. É um ciclo”. Não deixará de ser um sinal dos tempos que os seus temas tenham sido distribuídos em telemóveis antes ainda de se fixarem em disco. “Eu acho importante que o maior número de pessoas os ouça, mas isso é complementar”, esclarece. Aliás, protege-se da ligação corporativa e logo a abrir o álbum, em ‘You Know You’ve Got’, lemos no imperativo: “Don’t wear fancy brands”. Só ela, urbaníssima paulista, saberá o absurdo de nesta viagem se ver definida pelo patrocinador como a intérprete que “por graça, os cariocas apelidam de ‘Garota de Ipanema’”.
A sua contínua exposição mediática ao longo de 2008 dependeu de equívocos, a começar pela questão da idade. “Foi útil para o negócio explodir, mas é burrice. Vivemos obcecados com essa ideia de passagem para o mundo adulto. Mas na arte é completamente idiota nomear alguém de criança, adulto ou adolescente – cada um tem seu tempo. Até o negócio da educação é absurdo! Em vez de aprendermos com o professor José Pacheco, adoptando uma pedagogia adaptada à diversidade dos alunos como na Escola da Ponte, seguimos um currículo horrível! Como eu, mais gente vai surgir assim cedo como reacção a isso”. A referência à escola da Vila das Aves reflecte um desejo de liberdade com plena equivalência na forma como escreve, quase sempre em inglês: “Essa escolha não foi uma contingência mas uma libertação. Com a música surgem milhares de fonemas, e a minha intuição fez-me gerir esse espaço em inglês. No segundo disco, que já está pronto, partilho totalmente os idiomas”. Na sua estreia há apenas dois poemas em português. Um deles, ‘O Preço da Flor’, revisita o ideário tropicalista com palavras como “lote”, “defeito” e “fabricação” em cerco apertado aos primeiros LPs de Tom Zé, Caetano ou Gal, mas mais colado ainda aos Mutantes. E não adiantará procurar outro estilo que não o country para definir muitos dos arranjos e atmosferas pelas quais vai gatinhando. Nessa perspectiva, no rock brasileiro, não ignorará a figura de Raul Seixas, que em ‘Cowboy Fora da Lei’ terminava no verso “Ficar na história é pra vocês”. “Adoro essa frase”, responde, “eu vou existindo. O que as pessoas fazem com isso é com elas”. ‘Tchubaruba’ soa ao que os Belle and Sebastian, que adora, andam há dez anos a tentar fazer. Muitas das canções contêm células conscientemente colocadas para desenvolver diálogos com Beatles (em ‘Her Day Will Come’), Johnny Cash (em ‘Don’t You Look Back’) ou, fundamentalmente, Bob Dylan (na frase “That's my blood on the tracks” de ‘Dry Freezing Tongue’ ou nas nasaladas sílabas a achatar vogais de ‘Town of Rock’n’Roll’). Os elementos biográficos desenvolvem uma complexa temática amorosa na qual salvaguarda a sua independência: “Sou completamente adepta da minha própria dignidade. Honrar a minha humanidade é seguir um caminho próprio”. Mas é no território partilhado por menina e mulher – e em ‘Sualk’ ou ‘Noil’ aproxima-se de Cat Power – que reside a holística dimensão que, noutros tempos, fez subir aos palcos também com 16 anos Dolores Duran, Elizete Cardoso, Elis Regina ou Rita Lee. 

Entretanto gravou um dueto com Marcelo Camelo e há dois meses que namoram. Em sectores da sociedade brasileira a notícia virou virose, mas parece ter como única resposta possível a inquietação: “Quem diz quando é que a gente vai adquirir a sabedoria? Quando é que a gente vai poder viver?”.