Se é verdade que a vida são dois dias, narram-se agora os efeitos que no segundo tiveram as acções do primeiro. Isto é, a consequência na central MPB da suburbana versão-soul de União Black, Miguel de Deus, Copa 7, Toni Tornado ou Banda Black Rio. Mas se esses, reunidos por DJ Cliffy em 2002, tinham uma relação factual com esta história, o mesmo não se poderá dizer dos por ora reunidos. O que, por mais paradoxal que pareça, e independentemente de ter disso consciência ou não, só valoriza os instintos do inglês. Porque melhor reflecte o Brasil dos anos 70 e o ecletismo genético do movimento. E se tudo nasceu na rádio, bailes e colectâneas promovidas por Big Boy, Ademir Lemos e Mr. Funky Santos ou através da acção de Equipes de Som como Furacão 2000, Cashbox e a Soul Grand Prix de Dom Filó, não haverá mais definitiva prova quanto à absorção pela cultura popular brasileira da música negra norte-americana que a inclusão de Stylistics, Marvin Gaye, Stevie Wonder ou Jackson 5 na banda-sonora de telenovelas como “Ossos do Barão”, “O Bem-Amado” ou “Selva de Pedra”. Aqui, nota máxima para a enxuta ‘Coluna do Meio’ (Zeca do Trombone e Roberto Sax, 1976), a caprichosamente rossiniana (de Diana Ross) ‘Faz Tanto Tempo’ (Renata Lu, 1971), a síncope de Donato em ‘Bananeira’ (Emílio Santiago, 1975), o ebâneo suingue de ‘Supermarket’ (Pete Dunaway, 1974), o samba em fanicos de ‘Bobeira’ (Edson Frederico, 1975) e a ébria cuíca no proto-rap de ‘Poema Rítmico do Malandro’ (Zito Righi com Sonia Santos, 1969). Continua a faltar: Tim Maia. E, no mundo dos inéditos em CD, ficam os pedidos para o terceiro volume: António Adolfo, Eduardo Araújo e Silvinha, Celeste, Devaneios, Don Beto, Cláudia, Paulo Diniz, Erlon Chaves ou Waltel Branco.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
25 de julho de 2009
"Black Rio 2"
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18 de julho de 2009
"Sénégal 70: Musical Effervescence"
O subtítulo fala de efervescência. Mas podia bem ter recuperado o termo – négritude – que melhor distingue o essencial da acção cultural senegalesa na década de 70. Porque o ideal de Léopold Senghor – eleito Presidente em 1960 – alastrou-se por todas as artes até, na música, encontrar plena concretização. Isto é, à exploração pelas bandas de Dakar da fertilidade rítmica afro-cubana, da virtude plástica do jazz ou da força expressiva da chanson, acrescentaram-se elementos tradicionais prontos a explodir nas pistas de dança. O que, numa versão mais flexível das authenticité zairense ou guineense, conduziu a uma renovação estética sem constrangimentos geográficos num período de exaltação independentista. Trata-se, por isso, de seguir as assimilações das pioneiras Star Band de Dakar, Star Number One (partindo da rumba rumo ao folclore wolof) ou Orchestra Baobab (entre o cha cha cha e o funk derivado de James Brown, que tocou em Dakar em 1975), e, sobretudo, valorizar a libertária acção de Xalam, Diarama de Saint-Louis ou Watto Siita, o mandingo beat de Guelawar ou o electrizante mbalax da Étoile de Dakar. A selecção – que inclui uma mão cheia de inéditos em CD – é do produtor Ibrahima Sylla, agora empenhado em recuperar memórias que ele próprio ajudou a enterrar.
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11 de julho de 2009
Verão
Sir Richard Bishop "The Freak of Araby"
Lura "Eclipse"
Yemanjazz
"Mali 70: Electric Mali"
"Panama! 2 – 1967-77"
Richard Bishop faz surf no YouTube. Através de Oum Kalthoum descobre as canções de Mohammed Abdel Wahab ou, em filmes libaneses dos anos 70, encontra a guitarra de Omar Khorshid. Evoca um clássico Club Med dos anos 60 (“Solenzara”), acelera o tunisino “Sidi Mansour” e celebra Fairuz. Veloz como Dick Dale numa onda de caramelo. Acaba a encantar dunas.
Ao sexto álbum, Lura aproxima-se da fonte. E, em parte como consequência da sua acção, descobre-a transformada. Mas chega de sodade. Porque, numa sizígia estética, alinha com gosto canções de Orlando Pantera, B. Leza, Toy Vieira ou Mário Lúcio e, nas mornas, inclina-se formalmente para Teofilo Chantre. O resto é o som de certas esplanadas lisboetas.
Uma Big Band à deriva apela à Rainha do Mar. E, como resposta às preces, a mestiça barca chega à terra prometida. Na travessia socorre-se do Coltrane de “Africa/Brass”, do Hermeto de “Zabumbê-bum-á”, do Don Cherry de “Eternal Rhythm” ou do Fela Kuti de “No Agreement”, temperando exaltação epopeica com a elegância e coerência narrativa de Lins ou Gil.
Na segunda década de independência, subsidiada pelo regime de Moussa Traoré, a música do Mali está em chamas. E à ideia de se partir rumo à identidade perdida sobrepõe-se o desejo de modernização. Electrificam-se tribos, chega-se ao funk dogon, ao r&b mandingo, ao afrobeat cósmico e implodem os mais crus, incendiários e expansivos sons da África Ocidental.
De istmo a canal, elevou-se o ordenamento do território a verdade social. E só quando as relações humanas ganharam fundo nesta roda-dos-ventos estética – cumbia colombiana, mento jamaicano, son cubano ou plena porto-riquenha temperados pelos vapores de Nova Orleães – se preparou terreno para a emancipação. Orgulho na pista de dança com ouvidos no El Bairro.
4 de julho de 2009
Super Rail Band "Belle Époque 3: Dioba"
Em “In Griot Time”, a crónica sobre os sete meses passados com Djelimady Tounkara no Mali, Banning Eyre atribui a Ali Farka Touré uma espantosa afirmação: “podemos ensinar-lhes [a John Lee Hooker e demais bluesmen] melodias africanas durante dez anos sem repetir uma única nota”. Ignorando a fátua soberba do guitarrista de Niafunké, a frase firma África – por tratar das origens do Mundo – enquanto inesgotável reservatório de invenção musical mas também como um diverso território infinitamente ignorado. E talvez seja importante dizê-lo. Porque hoje, a ávida redescoberta da sua mais singular música popular nem sempre traduz as circunstâncias da sua criação nem, muito menos, lhe permite reconhecer a categórica complexidade com que sempre se impôs. Por isso, em boa hora chega o terceiro volume da série dedicada àqueles que, em causa própria, promulgaram uma estética de lasso sincretismo apontado a uma cosmopolita pista de dança (o bar do hotel da estação ferroviária de Bamako), capaz de assimilar afrobeat, rumba, soul, jazz, tango, highlife ou bolero na tradição mandinga e nas narrativas dos griôs. 18 canções gravadas entre 1973 e 1983, e mais de 120 devorantes e indomáveis minutos de Tounkara, Salif Keita, Mory Kanté ou Tidiani Koné a comprovar a asserção de Touré.
27 de junho de 2009
"Legends of Benin"
É da desilusão com as origens que trata quem longe de casa procura um sentido para a vida. Disso e, neste particular, do abraçar do antigo impulso que identifica o regresso a África como uma cura espiritual. E num tempo em que a armadilha socrática dos motores de pesquisa apaga mais realidade do que a que revela, não terá melhor missão o activista que ruma ao Velho Continente como quem remenda um coração partido. Assim chegou a Vampi Soul à Nigéria, a Soundway ao Gana, a Oriki ao Mali, a Sublime Frequencies ao Sara Ocidental ou a Analog Africa ao Benim. Numa acção editorial capaz de restabelecer a figura do DJ ao serviço da clarividência estética. E é apropriado que se imponha agora esta antologia que – evocando a obra de Gnonnas Pedro, El Rego, Honoré Avolonto e Antoine Dougbé gravada entre 1969 e 1981 com bandas como Poly-Rythmo, Black Santiago, Commandos ou Panchos – parte da região que assombrou as encruzilhadas da mais significativa música popular do século XX. Porque do Benim, com os princípios do vodun, seguiram os sons que se espalhariam pelo Delta do Mississippi na errância de Robert Johnson e nos ecos do primeiro jazz, mais tarde relembrados nas receitas de Dr. John, Jimi Hendrix ou Miles Davis (“Bitches Brew”). Aqui, testemunha-se o impacto dessa descoberta – também graças à popularidade de James Brown – numa produção local que havia já assimilado o highlife, o juju, o afro beat e a rumba congolesa. Ou seja, o funk enquanto abanão estrutural naquilo que pela vizinhança faziam Orchestra Baobab, King Sunny Ade, Super Rail Band, Ambassadeurs do Motel, Fela Kuti ou Franco. E, na fantasia de uns Meters entregues ao jazz etíope, dos Santana perdidos em Memphis ou de Ray Barretto ao lado de Sam Cooke, a própria matéria que renova o sonho.
20 de junho de 2009
Sublime Frequencies (Omar Souleyman e Group Doueh na Gulbenkian)
Que Marshall McLuhan não cunhou a expressão “aldeia global” para que volvidos 50 anos se vendessem entradas na Dubailand será um facto. Mas talvez tivesse deixado a teoria amadurecer na gaveta se supusesse que a grande questão sobre tecnologia na mente das crianças da Era-Magalhães viria a ser: ‘antes da Internet, como se procurava no Google?’. Terá de se lhe perdoar a católica tendência de aspirar ao infinito e nele identificar a bondade. Porque com maiores ou menores revoluções no acesso ao conhecimento e à informação, o Mundo, naquilo que realmente conta, não mudou muito desde que há um século Mark Twain seguiu a linha do Equador tropeçando em aforismos como o de que a verdade – por não ter de se limitar ao possível – é mais estranha que a ficção.
A Sublime Frequencies lembra isto e muito mais. O impacto daquilo que faz tem hoje o efeito de se sugerir que o Mundo real só começa depois de terminada a última página de resultados num motor de pesquisa. Isso, porque contraria o discurso de homogeneização cultural e determinismo antropológico tantas vezes coincidente entre os mais activos agentes na ‘música do mundo’ e qualquer campanha publicitária que garanta férias de sonho. Mais concretamente, descarta um trunfo que de tão jogado esgotou já a capacidade de surpreender: o da autenticidade. E assim traz à memória a declaração de Edgar Morin sobre o Cinéma Vérité, de que, das duas uma, através dele se pretende revelar a verdade ou colocar a problemática da verdade. É uma estratégia que evita categorizações de mercado sem se socorrer da ingenuidade optimista dos manifestos.
Desde 2003 que – estabelecida então por Alan Bishop com o seu irmão Richard Bishop e o videasta Hisham Mayet– desafia convenções. Mantendo-nos na metáfora do Cinema, poderíamos, para a qualificar, evocar as ‘etnoficções’ de Jean Rouch, mas, na prática, a editora encontrou um meio em tudo mais alegórico para a compreensão das suas construções: a rádio. No seu catálogo, encontramos em “Radio Java”, “Radio Morocco”, “Radio Palestine”, “Radio India” ou “Radio Thailand” uma série com a ambição de, numa concentração quase hiper-realista, representar um certo tempo e um certo espaço. São gravações in situ de transmissões em onda curta – algumas com mais de 20 anos e sofrendo todo o tipo de manipulações, cortes e colagens – pelas quais se adivinha um clamor de vozes, música, anúncios e estática na cacofonia própria do que vive em simultâneo. É uma apropriação de memórias tanto quanto a sua invenção e a sua partilha. E, no limite, uma alteração de paradigma na mediação etnomusicológica, capaz de mostrar culturas locais fervilhantes, em que acordes de uma canção dos Rolling Stones incluídos no repertório de uma banda de garagem tailandesa não causam mais espanto que uma batida de bossa nova evadindo-se do éter palestino. Daí que sugestões de imperialismo cultural na sua acção se remetam para a condição de preconceito de quem tem as lentes postas do avesso.
A sua perspectiva, como era a das bem-intencionadas Folkways, Nonesuch Explorer Series ou Chant du Monde, combina a diletante inclinação para o exótico do viajante com a propensão para o trabalho exaustivo do arquivista. E é inédito o propósito de preservar a diversidade num conjunto de manifestações artísticas muitas vezes contraditórias entre si e, regra geral, resultantes de embates estéticos com o Ocidente. Porque, sem condescendência moral, não hierarquiza a produção com que se cruza. Valida compilações como “Ethnic Minority Music of Northeast Cambodia” e antologias de características imprevisíveis como “Princess Nicotine: Folk and Pop Music of Myanmar (Burma)”. Pelo caminho, revela o que mais ninguém tem registado de forma abrangente e sistemática: a pop urbana do Iraque, da Birmânia, da Indonésia ou da Tailândia. A consequência da sua audição é devastadora e obriga a uma instantânea relativização da imagem tradicional de cada país. E não será por acaso que se sucederam volumes consagrados à Coreia do Norte, Iraque ou Síria no preciso momento em que o valor do ‘mal’ impregnava discursos políticos. Contrariar a engenharia social levada a cabo por governos e grupos de pressão evidencia ainda uma herética dimensão eminentemente biográfica: Alan e Richard são de origem libanesa e, durante mais de duas décadas, formaram, com o já falecido Charles Gocher, os Sun City Girls, banda capaz de reunir resíduos musicais de todo o Mundo numa actuação, num disco, num tema. Para alguns, a Sublime Frequencies servirá para revelar a fundação de um grupo que parecia saber tudo aquilo que aos seus fãs era interdito.
Seria uma questão de tempo até que a contemporaneidade se impusesse na agenda da editora. Fiel aos seus princípios, chega graças à descoberta de nomes tão fascinantes e enigmáticos quanto os que nesta sua digressão traz a Lisboa. O Group Doueh, proveniente do Sahara ocidental, evoca o funk e o rock psicadélico mas com instrumentos cheios de areia e história, crus, secos e fossilizados, sacudidos pelas vozes e pela guitarra num arremesso sensual que sintetiza devoção e irredutível independência desde a costa da Mauritânia até aos ecos de Hendrix pelas margens do Mississippi. Omar Souleyman é sírio e propõe algo de radicalmente diferente: entre percussionistas proto-Miami bass e um teclista a lembrar um Tomita-sob-ácidos, canta e fala em vertigem sobre um fundo sonoro pimbadélia-em-esteróides que faria os sonhos arábicos de Kanye West. A música do Mundo não fica mais estranha e real do que isto.
13 de junho de 2009
Martinho da Vila "O Pequeno Burguês!!"
Abre com um elegante inédito (‘Filosofia de Vida’) e diz logo ao que vem: “Meu destino eu moldei / Qualquer um pode moldar / Deixo o mundo me rumar / Para onde quero ir / Dor passada não me dói / E nem curto nostalgia / Eu só quero o que preciso / Pra viver meu dia a dia”. E se há tendência que sempre o definiu foi precisamente a que equilibrava razão e fé, e que Martinho cantou como “tenho fé na razão”. Esse diálogo entre determinismo e liberdade é, aliás, constante ao longo dos seus 40 anos de carreira. Por sinal, não se imagina nenhum outro sambista capaz de renunciar à nostalgia na noite em que comemora 70 anos de vida. O que é consequência de outro factor determinante na sua trajectória: o culto da fraternidade. Daí que, no samba, seja o maior dos estóicos. Nessa perspectiva, é natural que este concerto em 2008 gravado no Teatro Fecap, de São Paulo, inclua clássicos de 1969, 70 e 71 – como ‘Casa de Bamba’, ‘Pra Que Dinheiro’, ‘O Pequeno Burguês’, ‘Tom Maior’ ou ‘Menina Moça’ – em que celebrava sobretudo a comunidade, a família e a natureza. E é paradigmático que seja nos temas em que está só, cantando a capella, que, pelo coro do público, transpareça a verdade da voz da sua gente.
5 de junho de 2009
Carlos Martínez “Atahualpa Yupanqui – Obra Completa Para Guitarra (Composiciones Propias)”
Portugal percebeu-o bem. E não foi apenas para apadrinhar Abril que, um dia, don Ata ‘saudou’ Zeca Afonso evocando mais o sopro do vento do que a vontade dos homens. É que não será a distância a separar quem, em países cortados ao meio, soube ao verdugo responder com uma poética de flores de estio. E se, por vezes, a política mais não faz do que mistificar valores inscritos na terra, o que dizer de quem – na sua Argentina – soube reclamar um lugar no coração geográfico de um país de forma a melhor entender o que lhe ia na alma? E, para mais, criando um estilo que – como por cá o de Paredes – só não fez escola porque se revelou inimitável. Daí a impossível tarefa do guitarrista Carlos Martínez e o paradoxo em que assenta o seu absoluto triunfo. Pois constata que, mais do que a compreensão do tempo cronológico, em Yupanqui é necessário reconhecer aquilo que a filosofia apelida por ‘tempo oportuno’. Isso, e a aceitação de uma cumplicidade geográfica que – por entre sarças e canaviais, nas serranias e nos planaltos – se revela sempre que numa decantação folclórica o sangue se mistura com as cordas e a madeira. Do andino sonho de tocar a lua à descida da cruz de quem canta errando pela pampa, esta é a música enquanto metáfora de silêncios.
30 de maio de 2009
Edu Lobo e Chico Buarque "O Grande Circo Místico"
Não terá sido a primeira nem a última vez que uma tenda de circo se armou em torno de um poema. Mas foi das poucas em que, a pretexto de olhar nos olhos o Criador, o Homem não se ajoelhou. É que – há na vida que aceitá-lo – nem sempre o degredo se pinta com a cor do pecado. Por isso, para que subam ao palco, que se expulsem do paraíso os actores – é o melhor destino dos que desejam em segredo. “O Grande Circo Místico”, pela mão de Naum Alves de Souza e do coreógrafo português Carlos Trincheiras, ergueu-se em 1982. A sua banda-sonora garantiu-lhe a eternidade. Esta terceira versão em CD difere da de 1993 (Velas) mas é idêntica à de 2002 (Dubas): cá estão as canções feitas de luz e sombra, as vagas valsas, maltrapilhas marchas, ornatos oratórios. E a bela leveza das bailarinas, o pranto dos palhaços, o indecoro das coristas. Com Milton, Gal, Gil ou Simone nas vozes dos anjos, e uma barca de insuperáveis instrumentistas (António Adolfo, Nelson Ângelo, Dorothy Ashby) empurrada pelo sopro de uma big band e embalada por uma ondulante orquestra de cordas. Na plateia sorriem Weill, Richard Strauss, Bernstein, Sondheim, Rota, Jobim e Miles. No momento em que explodiu o BRock, não houve melhor túmulo para a MPB. Obrigatório.
23 de maio de 2009
Levitts "We Are the Levitts"
Chamam-lhe o ‘ano que nunca acabou’ – talvez porque não se possa matar de vez a esperança. Pois com a chegada da Primavera, de Praga a Lisboa, renovou-se então a fé no Homem sem garantias sobre a justiça do gesto. E, da Cidade do México a My Lai, e de Martin Luther King Jr. a Robert Kennedy, só o sangue fez a crónica definitiva desse tempo. Por isso – como relembrou há pouco “Hear, O Israel” – muito dirá da força da utopia que artefactos de 68 regressem ainda capazes de animar espíritos a uma realidade em que não se impôs a ‘nova era’. Não terá sido outra a razão que levou Al, Stella Levitt e os seus sete filhos a cantar mensagens de paz para o futuro. E unindo – antes de Steve Kuhn e Karin Krog – o que raramente se juntou: jazz e sunshine pop. Situando-se – graças à presença de Pete Yellin, Ronnie Cuber e Chick Corea – entre as “directions in music” apontadas por Miles Davis em “Filles de Kilimanjaro” e Roger Nichols, Free Design ou Sérgio Mendes (há uma versão, em português, de Jobim). Uma pérola.
16 de maio de 2009
Mariana Aydar "Peixes Pássaros Pessoas"
Há quem lhe chame ainda “o país das cantoras”. E um tempo houve em que memória e desejo se confundiam como se toda a música chegada do Brasil apontasse para um regresso à natureza. Isso, e encontrar na “verdade da voz” (feminina) remédio para males de que não há cura. O postulado chamou-se Elis, Bethânia, Gal ou, até, Simone. Mas logo apareceu quem na crença visse a suspensão da realidade. Por isso, e porque uma agenda mais dependente do marketing do que do talento impôs um tumulto que nem sempre interessou ouvir, só no encontro com Adriana Calcanhotto, Marisa Monte ou Zélia Duncan viu a luz aquele que, neste contexto, faz da cultura popular uma profissão de fé. Mas entretanto voaram 20 anos. E um novo dia exige uma nova canção. Disso saberá Tom Zé, que em “Estudando a Bossa” evoca o passado para falar do futuro em duetos com Mariana Aydar, Tita Lima, Andréia Dias, Márcia Castro, Marina de la Riva ou Anelis Assumpção – essas sim, “novas vozes”. Aydar, precisamente, apresenta em Portugal (nos dias que correm, quase uma excepção) o sucessor de “Kavita 1” e distingue-se pela tomada de responsabilidade que a crise exige. Isto quer dizer que à toada rare groove da estreia (por cortesia do produtor, BiD) se sobrepôs a necessidade de aclarar águas e anunciar a razão única de se estar aqui e agora. Kassin e Duani combinam estilo e substância nos arranjos e fazem-no com uma noção de tempo histórico que cruza ecos de afoxê, forró e samba com os mesmos vestígios do rock que enreda Caetano Veloso ou Marcelo Camelo. E quando se define um espaço próprio – convidados como Zeca Pagodinho e Mayra Andrade só o confirmam – fica na mente gravada a ideia de que os ventos de mudança derivam hoje de discretos exercícios pessoais. Lição que Verônica Ferriani e Ana Costa precisarão de aprender, mais valia face ao que em 2008 fizeram Daniela Procópio, Beatriz Azevedo, Aline de Lima ou Cris Aflalo, e uma importante aproximação a Roberta Sá e Fabiana Cozza. E se a próxima curva na estrada confirmar Mallu Magalhães, Dani Gurgel, Fernanda Dias ou Tatiana Parra, tropeçará de vez na esperança o que parecia destinado a errar no escuro.
9 de maio de 2009
Marisa Monte "Infinito ao meu Redor"
A agenda assinala duas décadas de carreira. Para trás estão oito CD (incluindo “Os Tribalistas”) e, agora, seis DVD. Não é muito, mas é demais. “Infinito ao Meu Redor”, subtraído aos 18 meses da digressão “Universo Particular”, não é um concerto – contém, isso sim, nove canções em meia hora de excertos, com um inédito (‘Não é Proibido’, original da pior extracção axé-mix já adoptado por Ivete Sangalo), e um documentário de filiação “60 Minutes”/“Toda a Verdade”. Narrado por Marisa, começa discutindo “meios de produção” e “ética de trabalho”, fala da imprensa enquanto “negócio de vender notícias”, mas não vai além do registo ‘“Carrie Bradshaw lê “O Capital”’, ainda que pelos vistos não tenha chegado à definição de “fetichismo da mercadoria”. Mas cedo, e previsivelmente, tudo reverte ao tom MTV-“Diary”, diluindo melancolia de tour bus e olheiras de jet lag pelas infinitas e indistintas plateias, cidades e suites de hotel do mundo inteiro. O trunfo é a mão perdedora: a cantora olha para lá do espelho e encontra o umbigo. 1º de Maio em Lisboa: nos Restauradores, um revolução-som-sistema toca a versão de Roberta Miranda de ‘Cabecinha no Ombro’. O Marxismo é um lugar estranho.
3 de maio de 2009
Susana Baca "Seis Poemas"
Em Maio de 1963, no Peru, 29 balas encontraram o corpo do poeta e revolucionário Javier Heraud. Chabuca Granda, primeira-dama da trova peruana, emudeceu e, consigo, calou-se a Primavera. Anuviada por uma mágoa que parecia indizível, nada gravou ou – supõe-se – compôs no lutuoso par de anos que se seguiu. Até que um dia voltou com dez novas canções assombradas pela morte, suspensas em misteriosas melodias e com cada nota bem colada à letra. Vinham manchadas de sangue, secretas como um tiro ouvido numa floresta anoitecida e, ouve-se em “Un Cuento Silencioso”, de um tempo em que se dizia que o mundo iria morrer de frio. No final da década, até ao cantar clássicos (de “La Flor de la Canela” a “Fina Estampa”) se adivinhava pesar. Susana Baca, sua herdeira e protegida, escolheu agora três canções desse ciclo e revoltou-lhes entranhas. Daí partiu para uma consonância temática que se alastra ao folclore e inclui Lorca, outro poeta assassinado. Pela mão de Sergio Valdeos, guitarrista e director musical, a luz é aqui mais luz e a sombra mais sombra. Porque, lê-se em “El Fusil del Poeta”, evoca o dia em que “era el sol más sol al río / más río el río, y más la guerra era / y más la muerte desde la ribera”.
1 de maio de 2009
Caetano Veloso "Zii e Zie"
O zimbro na capa diz muito. E a foto traz à memória a interrogação de Jobim em “Inútil Paisagem”: “de que serve esta onda que quebra?”. Fala-se portanto de vida e morte. Também por ali, à esquerda, paira a palavra transambas. Na nebulosa contracapa enunciam-se canções, postula-se a insigne bandaCê e, da bruma, surge: transrock. Caetano foi sempre palavroso mas raramente tão explícito. Em “Zii e Zie” quase não canta – zizia, como as cigarras, e está lutuoso. No melhor, sintoniza-se com o fuzz da guitarra de Pedro Sá, aqui protagonista de voz clara. No pior, torna espástico até ‘Incompatibilidade de Génios’, o desembaraçado samba de João Bosco e Aldir Blanc.
Mas Caetano costuma zombar com a ideia do envelhecimento. Se “Cê” foi a retracção na ferida aberta, o sanhoso nervo lesado e uma zangada e reaccionária neurose, “Zii e Zie”, embora não pareça, de tão lasso aqui ou flébil acolá, é a metástase, o músculo recuperado – é o que corrige e esclarece as imensas falhas do outro. Talvez o seu maior mérito seja sugerir que toda a obra é corruptível. E é novamente um disco a transir Caetano: ‘Perdeu’ liga-se ao ‘Herói’ de “Cê”, a voz de ‘Por Quem?’ zanza ululante num incerto impulso sexual que lembra o ‘Etc’, de “Estrangeiro”, ‘A Cor Amarela’ evoca os anos com Carlinhos Brown (o verso “uma menina preta de biquíni amarelo na frente da onda” recorda a capa do álbum que gravaram em 87), a melopeia de ‘A Base de Guantánamo’ alinha-se com ‘Haiti’, de “Tropicália 2”, e a sumptuária exaltação de ‘Lapa’ aproxima-se da ‘Itapuã’ de “Circuladô”. Há ainda umas tristes súplicas, sociologia critiqueira, uns galanteios prometidos no blog “Obra em Progresso” e a resposta ao desafio de Lobão (“Amado Caetano, chega de verdade. Viva alguns enganos, viva o samba meio troncho”). Mas nada ilumina as trevas. O disco público revelou-se um acto de marginalização. Siga.
25 de abril de 2009
Maysa "Voltei"
Na alvorada de um novo mundo há geralmente outro que se arruína. A fechar 1959, Maysa, cansada de digressões, de dois álbuns por ano, amantes e tentativas de suicídio, entra em depressão com a morte de Dolores Duran e, com 90 quilos, é admitida nas urgências. Desintoxica-se, plastifica-se, regressa a estúdio e diz: “Voltei, com meus olhos, com meu verso, e a todos eu peço que me aceitem como sou”. A poeira assentou. Como João Gilberto, abre o LP com uma aveludada ‘Meditação’, deixa a dor de corno para Nora Ney e, batendo Sylvia Telles e Alaíde Costa, grava a mais doce versão de ‘Dindi’ de 1960. Com lúcidas orquestrações de Enrico Simonetti, propôs – a par da Elizete Cardoso de “A Meiga Elizete” – o mais belo disco feminino do ano. E num instante trocou as voltas ao destino. Em 1961 gravaria o infido “Barquinho” (com consequências devastadoras para o núcleo central da bossa nova) e até à morte, aos 41 anos – entre escândalos e temporadas em Lisboa –, cantou “Se o meu mundo caiu eu que aprenda a levantar”. Em 2009, com a exibição na Globo de “Maysa – Quando Fala o Coração” (mini-série de Jayme Monjardim, seu filho) e a reedição dos seus discos, provou-se que nunca aprendeu.
18 de abril de 2009
"Tudo Ben (Jorge Ben Covered)"
Jorge Ben Jor, como há vinte anos se chama, nunca se deu bem com a crítica porque a crítica raramente premiou o sucesso. Além de que o crítico, como um explorador marítimo costeiro e temente a Deus, apanha banhos de sol mas não aprende línguas estranhas. Faltou reconhecer-lhe em ‘Uála Uála-lá’, de 63, um acto civilizacional semelhante àquele em 59 idealizado pelo ‘Hô-bá-lá-lá’ de João Gilberto. Se a canção de João ficou na sombra de ‘Chega de Saudade’, a de Ben deixou de existir mal se ouviu ‘Mas Que Nada’ – nos EUA não se percebia “samba de preto tu”.
O anedotário benjoriano tem costas largas (o processo contra Rod Stewart, a mudança de nome), ainda que assente nessa ideia de ressurreição à custa de um tema só. É uma meditação apropriadamente pascal, e Jorge, tão humano ao jamais exercer soberania, pacificou-a há muito. Nele, contrariando-se a noção de Einstein de Tempo, tudo acontece de uma só vez, como no “amanhã eterno” que Borges leu em Unamuno. E o que quantificou em oito LP de originais, de “O Bidú – Silêncio no Brooklin” em 67 a “África Brasil” em 76 – uma concentração de energia capaz de suster o mal do mundo nos anos de chumbo, de intuir pensamento colectivo sem politizar mais que a cor da pele, de se tornar no ritmo da vida e refundar a felicidade enquanto utopia universalista –, não tem paralelo tão rigoroso (além do óbvio – Beatles, Dylan, Marley, Stones, Stevie Wonder…) na música popular.
Esta antologia chega-nos pela mão dos DJ Sean Marquand e Greg Caz e, incluindo raridades (Marijô, Cyro Aguiar ou Salinas), é exemplar. As versões reunidas – de temas inéditos na voz do seu autor ou com estreia em “Força Bruta”, “Negro é Lindo” ou “Ben” – situam-se maioritariamente entre 69 e 72, quando a sua produção exactificava todas as outras: temos Elza Soares penteando o samba com um afro em ‘Pulo, Pulo’, Osmar Milito sincreticamente suspenso entre a síncope de João Donato e o espraiar de Marcos Valle em ‘Rita Jeep’, Wilson Simonal, seu intérprete perfeito, sintetizando toda a escola vocal masculina em ‘Zazueira’ e ‘País Tropical’ ou Os Brazões estilhaçando o tropicalismo até encontrar o funk mais enxuto em ‘Que Maravilha’ e ‘Carolina, Carol Bela’. A ausência dos peso-pesados explica-se pela criticada relutância da Universal em licenciar repertório – no mesmo período, e de memória, pertencem ao seu catálogo ‘Jorge de Capadócia’ por Caetano, ‘Tuareg’ por Gal, ‘Queremos Guerra’ por Gil, ‘A Minha Menina’ pelos Mutantes ou ‘Bicho do Mato’ por Elis. Não importa. O que está e o que falta é uno, servindo apenas para relembrar que o futuro da MPB não é mais que um tempo por onde passou já Jorge Ben Jor.
4 de abril de 2009
Alaíde Costa "Coração" e Rosinha de Valença "Cheiro de Mato
Alaíde Costa esteve na bossa desde o ano zero. E entre 59 e 65 patenteou um modelo interpretativo superado apenas por Sylvia Telles. Mas estava esquecida quando em 72 Milton Nascimento a convocou para “Clube da Esquina”. Reanimada, gravou uma obra-prima (com Oscar Castro-Neves) e em 76 lançou “Coração”, numa actualização de repertório e estilo capaz de acolher as expansivas tendências de João Donato (autor dos arranjos), Nelson Ângelo ou Toninho Horta. Confiante e moderna, estreou aqui uma mão cheia de originais que hoje se comprovam uma incumprida promessa de futuro. Nos últimos 30 anos editou apenas seis discos – e é este que contextualiza os outros.
Rosinha de Valença era guitarrista, apresentada como versão feminina de Baden Powell. Em 65 partiu para os EUA com Sérgio Mendes e gravou com Bud Shank e Donato. Mas com “Cheiro de Mato”, também em 76, mudou tudo e decidiu dar voz a um imaginário rural de meninice, virando-se para memórias de terra gretada pela seca, de noites de lua cheia, do madrugador chilrear no arvoredo, dos badalos da boiada, dos cascos e pedras, cantando num tom de uma impoluta candura capaz de, no dueto com Miúcha, passar das palavras às lágrimas. Acompanhada por Sivuca, Célia Vaz ou Francis Hime, reconduziu a MPB a uma pureza virginal e um ano depois até Elis dizia ser caipira. Ainda tocou com Bethânia, mas, sem mais oportunidades, foi partindo até abandonar o país. Voltou em 92 e, na sequência de um AVC que a deixou 12 anos em coma, aí faleceu em 2004. Nesse ingrato ano de 76, como nos LPs de Edu Lobo, Milton, Tom Zé, Jorge Ben ou Chico Buarque, a maior ilusão foi a de quem dentro de si procurou a via da esperança.
28 de março de 2009
Franco & Le TPOK Jazz "Francophonic"
Este primeiro volume da retrospectiva de Franco na Sterns parte da sua entrada em estúdio em 1953, com 15 anos, vindo do gueto, e avança até 1980. Começando na sombra do que faziam Dr. Nico, Tabu Rochereau ou Manu Dibango na African Jazz de ‘Grand Kalle’, passando pela recondução da rumba congolesa à sua raiz africana e terminando nas libertárias sessões no restaurante-discoteca-estúdio Un Deux Trois, em que mais de 20 músicos se organizaram na Tout Pouissant OK Jazz, o que se ouve um impacto avassalador na música africana (francófona, lusófona e anglófona) dessas três décadas. Ninguém personificou melhor que François Luambo Makiadi o que significou a libertação do jugo colonial, mantendo-se ainda assim permeável ao mundo e sugerindo uma inexorável visão de autor. Tudo com uma ambígua relação com o regime e uma consciência desenvolvida entre os impulsos mais materialistas e a mais básica procura de afecto. Um processo histórico em pleno andamento finalmente organizado de forma inteligente. Venha o segundo volume.
21 de março de 2009
Entrevista a Renaud Barret (coprodutor de "Très Très Fort", de Staff Benda Bilili)
Definem a Belle Kinoise como uma
produtora. Mas o Renaud [na foto, o segundo a contar da direita] e o Florent [o primeiro a contar da esquerda] parecem estar a tornar-se realizadores de
documentários. Há algum plano?
Não,
nada disso. Aliás, nem nos consideramos propriamente documentaristas. É
curioso, porque nos festivais de cinema entramos em competições oficiais num
género que nem conhecemos. Produzimos dois álbuns, mas também não somos
produtores. A nossa inspiração vem directamente das pessoas com que nos
cruzamos. E, na realidade, tudo isto está a acontecer por uma série de acasos e
por sermos muito teimosos.
Mas como é que foram parar a Kinshasa?
Em
2003, quando trabalhava como fotógrafo, fui enviado por uma revista para a
fronteira entre a República Democrática do Congo e o Rwanda na ideia de fazer
uma reportagem sobre as crianças-soldado. Por sorte fiquei uma semana em
Kinshasa e conheci uma série de músicos de rua absolutamente espantosos.
Comecei a acompanhá-los e a conhecer as suas famílias e os guetos onde viviam.
Foi arrasador. A música estava por todo o lado: reggae, hip hop, funk, blues, rumba,
tudo misturado com canções e estilos tradicionais e tocado em instrumentos
construídos a partir disto e daquilo. Foi então que liguei ao Florent
dizendo-lhe que era preciso fazer qualquer coisa. Desde então, nestes últimos
cinco anos, temos vagueado pela cidade um pouco como estes músicos. E a boa
notícia é que acho que ainda não vimos nada.
Qual foi o vosso primeiro projecto?
Começámos
a filmar “Jupiter’s Dance” em 2004. O filme é uma espécie de viagem pelos
guetos de Kinshasa através do olhar de Jupiter Bokondji, um artista
extraordinário que criou um género próprio, o ‘bofenia rock’. Na mesma altura
decidimos gravar-lhe um disco: “Man Don’t Cry”. Fizemos tudo do nosso bolso sem
nenhum tipo de apoios e ainda começámos a ser fortemente criticados. Mas em
2007 conseguimos editar comercialmente um DVD e um CD com estes conteúdos. Aos
poucos, o trabalho foi sendo descoberto e ganhou exposição em alguns Festivais
de Cinema.
E isso permitiu-vos avançar para o segundo
filme?
Sim.
Ainda em 2006, durante a campanha eleitoral, começámos “Victoire Terminus”. É
sobre um grupo de mulheres que sobrevivem graças ao boxe. Os torneios são
feitos no mesmo estádio em que lutou Muhammad
Ali. Levámos o filme ao Festival de Berlim. E em 2008, durante o Festival do
British Film Institute, em Londres, recebemos o prémio Grierson.
E
o Staff Benda Bilili?
As primeiras gravações que temos são de 2005.
Estamos a acompanhá-los há quatro anos, por entre muitos altos e baixos. A
nossa intenção é gravar a última sequência do filme num grande Festival Europeu
de Música do Mundo este Verão. Precisamos de um final feliz. Entretanto fomos
co-produtores deste CD para a Crammed.
Quão difícil – em termos humanos e logísticos – tem sido o processo? Começando do princípio, como é que descobriram o Staff Benda Bilili?
Foi
completamente por acaso, ainda durante as filmagens de “Jupiter’s Dance”. Já
nos tinham falado de uma banda de paralíticos e deficientes motores
completamente loucos, que tocavam uma espécie de blues diferente e que
normalmente dormiam pelas ruas. Até que numa noite, no bairro La Gombe, lá
estavam eles a pedir à porta de um restaurante caro, poiso habitual dos
expatriados brancos de Kinshasa. Na altura não ligámos muito mas depois do
jantar continuávamos a ouvir a música pelo ar. Fomos à sua procura. E ficámos
apaixonados pelo que encontrámos.
Mas
o processo tem sido muito difícil. Na altura, ninguém (Vincent Kenis incluído) queria
sequer ouvir a música de um grupo de paraplégicos e meninos de rua. Nós fomos
filmando o seu dia-a-dia sem saber bem o que fazer com aquilo. Era duro. A
sobrevivência dos membros do grupo, os miúdos a dormir no chão, as histórias
das prostitutas de um dólar, os soldados completamente drogados, ladrões por
todo o lado. E a banda nem nos queria aceitar. Eles são duros – têm de ser – e
orgulhosos. Ninguém consegue imaginar aquilo por que passaram, o que tiveram de
fazer para garantir alimento para os seus filhos. Tivemos mesmo de mergulhar no
mundo deles de forma a conseguir contar uma história verdadeira. Mas é
impossível permanecer imune à brutalidade e sofrimento a que já assistimos.
Mas acabaram por se conseguir infiltrar?
Sim.
E percebemos que aquilo que o Staff Benda Bilili mais queria era gravar um
disco. Entre 2004 e 2005 contratámos técnicos de som europeus, pagámos-lhes os
bilhetes de avião para Kinshasa, arranjámos sítio onde ficarem e começámos as
gravações. Correu tudo mal. Os instrumentos dos músicos foram roubados, alguns deles
estavam sempre bêbados demais para conseguir cantar e tocar, o centro de
acolhimento nocturno em que as suas famílias dormiam ardeu, enfim: foi um
pesadelo e um desastre financeiro. No Verão mostrámos imagens da banda e o
pouco que se aproveitou dessas sessões ao Vincent Kenis, que tinha estado em
Kinshasa a gravar o Konono Nº1. Ficou de boca aberta. Gravou logo uns temas mas
tivemos de esperar até ao Verão seguinte para acabar o álbum.
A banda está finalmente optimista? Sentem
que as suas vidas vão mudar?
Uma
das coisas que sempre me impressionou no Staff foi a convicção que sempre
demonstraram em que um dia se iriam tornar conhecidos e viajar pelo mundo.
Agora só falam em juntar dinheiro suficiente para construírem casas para os
seus filhos e conseguirem matriculá-los em escolas. É o seu maior desejo. Fora
isso, sentem o mesmo que as outras pessoas em Kinshasa: que nada realmente
mudou desde as eleições de 2006 e que em termos económicos a situação só se
está a agravar. Mas Kinshasa ainda provoca esta sensação ambígua de desespero e
encanto. Beleza no caos ou caos na beleza, não sei.
Para terminar: a maior esperança nas
ruas é?
Políticos
honestos e qualificados.
Que cinco coisas o fizeram mais feliz
desde que aí chegou?
Ter
cinco sentidos.
Que cinco coisas o fizeram desejar estar
noutro lugar?
Nunca
desejei estar noutro lugar.
Staff Benda Bilili "Très Très Fort"
No seu livro sobre Mobuto, “In the Footsteps of Mr Kurtz”, Michela Wrong descreve o paradoxo entre a pobreza nas ruas de Kinshasa e o luxo nas discotecas de Paris, com Papa Wemba, Koffi Olomide ou Kanda Bongo Man embrulhados em Gaultier. Mentes preocupadas exigiam rapidez na pista de dança e pelos anos 80 e 90 a música no Congo resumiu-se a um plano de fuga. Tudo foi piorando com Wenge Musica, Awilo Longomba ou Werra Son. Agora, inesperadamente, refunda-se a energia criativa mais poderosa do continente enquanto manifesto civilizacional. E será necessário relembrar Franco e a OK Jazz cantando a infância da independência congolesa, há 50 anos, para se encontrar outro momento capaz de traduzir da mesma maneira o que aí significará almejar a liberdade. É um regresso à rumba – esse eco de outro eco – e à memória de African Jazz, Nico Kasanda ou Tabu Ley Rochereau. E a rigor: com ritmos e palavras retirados a James Brown e o essencial da mensagem de Bob Marley. Guitarras, baixo acústico, percussionistas e um solista sem precedentes, gravados à noite, sob as árvores, por um Vincent Kenis que por mais mundos que inventasse nos Aksak Maboul nunca haveria de ter chegado a este. Continuem a tocar ao fim da tarde e pode ser que voltem os animais ao Zoo e as cores às acácias.
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